Nicholas Lens (n.1957) é um compositor belga relativamente obscuro, cujos discos editados na década de 1990 na Sony Classical passaram despercebidos, mas que chamou a atenção em 2012, com a estreia de Slow man, uma ópera com libreto do sul-africano J.M. Coetzee (Nobel da Literatura de 2003), adaptado a partir do seu romance homónimo. A ópera seguinte de Lens, Shell shock, estreada em 2014, também obteve mais atenção mediática do que é usual na música contemporânea, por contar com um libreto de Nick Cave, no que foi a primeira incursão do músico australiano neste domínio.

Os libretistas nunca são creditados nas capas dos discos (já terão sorte se forem mencionados, em letras pequenas, na contracapa ou na folha de rosto do livrete), mas a edição de 2016 de Shell shock colocava Cave em pé de igualdade com Lens e em L.I.T.A.N.I.E.S. a Deutsche Grammophon vai mais longe, ao inverter a ordem dos autores e colocar “Nick Cave” acima de “Nicholas Lens”. Esta quebra das convenções nada tem de arbitrário: apesar da visibilidade acrescida de Slow man e Shell shock, o mundo da ópera contemporânea está restrito a uma minúscula elite e Lens continua a ser, aos olhos do mundo, um quase desconhecido, enquanto Cave tem uma vasta e fiel legião de fãs, pelo que L.I.T.A.N.I.E.S. será referida pela maior parte das pessoas como “a ópera de Nick Cave com um fulano cujo nome não retive”.

A capa de “L.I.T.A.N.I.E.S”, de Nick Cave e Nicholas Lens (Deutsche Grammophon)

Na verdade, é discutível que L.I.T.A.N.I.E.S. seja sequer uma “ópera”, pois não nem personagens, nem acção cénica, nem enredo, embora possa estabelecer-se um ténue arco conceptual entre a primeira peça (“Litany of divine absence”) e a última (“Litany of divine presence”). L.I.T.A.N.I.E.S. consiste em 12 peças de 4 a 6 minutos de duração, sempre com a palavra “litania” no título e de atmosfera muito similar entre si, pelo que se adequaria melhor a designação “ciclo de canções” ou “cantata” – mas nunca será a catalogação formal de uma obra a determinar o seu mérito, pelo que o assunto não merece mais linhas.

Slow man e Shell shock são óperas não só do ponto de vista formal, como da linguagem musical e apresentam a variedade de ambientes, texturas e dinâmicas usualmente associadas à ópera. L.I.T.A.N.I.E.S. é completamente diversa e adopta a estrutura e o tipo de melodias vocais da canção pop e, na parte instrumental, o minimalismo solene típico de Arvo Pärt e de outros compositores oriundos dos territórios da ex-URSS. O próprio Lens o explicita no livrete:

“Nada de complexidade nem no ritmo nem nas harmonias, nenhuma relação com as minhas estruturas operáticas habituais. Em vez disso, a simplicidade de singelas melodias para entoar de boca fechada, tentando transformar uma vaga tristeza interior num resplendor cálido”.

As litanias são cantadas/declamadas pela pintora Clara-Lane Lens (filha do compositor), que, nalgumas faixas, tem a parceria do próprio Lens (“disfarçado” sob o seu nome civil, Nicholas L. Noorenbergh) e de dois cantores “profissionais”, a soprano Claron McFadden e o tenor Denzil Delaere (que, todavia, não fazem uso da sua “voz operática”). São acompanhados por uma pequena formação de câmara, com flauta, clarinete, saxofone, fagote, violino, viola, violoncelo, teclados e percussão, que são usados com frugalidade. Os cantores e os músicos não resultaram de uma escolha deliberada, foram simplesmente os que Lens tinha à mão durante o período de confinamento e as gravações foram improvisadas na casa do compositor, dadas as restrições impostas pela pandemia.

[N.º 1: “Litany of divine absence”]

As quatro primeiras “litanias” primam pela rarefacção e monotonia e as letras de Cave não revelam maior elaboração: se descontarmos as repetições, resumem-se a meia dúzia de linhas, de toada abstracta e vagamente inquietante. A partir da Litania n.º 5 (“Litany of the yearning”), os textos de Cave e a música de Lens ganham elaboração e variedade, e a Litania n.º 10 (“Litany of godly love”) até não faria má figura no songbook de Nick Cave (é possível que Lens se tenha deixado influenciar). Mas, ainda assim, as ideias que sustentam algumas canções são demasiado diluídas, pelo que estas deixam a impressão de serem mais longas do que realmente são e as duas últimas faixas (“Litany of the unnamed” e “Litany of divine presence”) retomam o árido registo das quatro primeiras.

Quando, ao descrever o processo de composição da obra, Lens recorda, no livrete do CD, que “as notas vieram de rompante, quase depressa demais para que as escrevesse”, fica a magicar-se no que terá impedido essa copiosa torrente de notas de materializar-se no “produto final”. Se algumas destas canções até funcionam razoavelmente bem quando ouvidas isoladamente, quando se ouve a obra de seguida – como é suposto fazer-se com uma ópera – a avareza de notas e a repetição de fórmulas é evidente.

[N.º 2: “Litany of the first encounter”: Resgatada ao cesto de papéis de Arvo Pärt?]

A inflexão no registo composicional de Lens terá resultado de L.I.T.A.N.I.E.S. ter nascido em Abril passado, quando Lens e Cave, estavam ambos fechados em casa, como centenas de milhões de pessoas pelo mundo fora, e a ficar mortalmente aborrecidos e deprimidos – aparentemente, não conseguiram ter ideia melhor do que espalhar o aborrecimento e depressão por mais pessoas com esta “ópera” liofilizada. Se tudo correr bem, lá para o final de 2020 as campanhas de vacinação permitirão que a vida social e as agendas de concertos comecem a regressar ao normal, mas é previsível que continuem a emergir mais exemplares da “arte do confinamento”, tingidas de enfado, auto-indulgência e auto-comiseração e executadas e gravadas em condições sub-óptimas (haverá sempre quem lhes elogie a “honestidade” ou a “autenticidade” e valorize o seu papel como “testemunho de um período terrível das nossas vidas”).

[N.º 10: “Litany of godly love”]

Segundo Lens, L.I.T.A.N.I.E.S. foi também inspirada pelo silêncio que, durante as semanas de confinamento, desceu sobre a sua cidade, Bruxelas, e que lhe fez lembrar o silêncio que experimentara quando da visita aos templos Rinzai (um ramo do budismo Zen) de Yamanouchi, perto da cidade de Kamakura, no Japão. O budismo Zen tem certamente as suas virtudes e é um esteio da vida espiritual de muitos orientais, mas parece ter o condão de esvaziar a vitalidade dos criadores ocidentais, que, sob o seu feitiço, tendem a produzir música letárgica, rarefeita e pretensiosa. Lens vê em L.I.T.A.N.I.E.S. “uma forma lírica de minimalismo que pode levar a um estado de transe” – é verdade, é o “estado de transe” conhecido como “sono profundo”.

[N.º 12: “Litany of divine presence”]

Quanto a Nick Cave, espera-se que não tenha perdido muito tempo com esta “ópera” (olhando para o “libreto”, dir-se-ia que foi rabiscado numa tarde) e que em breve volte a brindar-nos com mais um magnífico disco, como tem feito nos últimos 40 anos, seja com os Birthday Party, os Grinderman ou os Bad Seeds.