Não é propriamente culpa de ninguém. Nem dele, nem nossa. São coisas da vida — neste caso, da vida do futebol. Mas a verdade é que é complicado, para um fã de futebol que não seja polaco nem adepto do Bayern Munique, estabelecer uma relação carinhosa, de estima e admiração, por Robert Lewandowski. Ninguém omite o talento, ninguém nega a capacidade goleadora, ninguém afasta o facto de ser dos jogadores mais importantes dos últimos anos do futebol europeu. Mais: ninguém recusa a evidência de ter sido o melhor jogador do último ano que passou.

Mas Lewandowski não tem o carisma de Cristiano Ronaldo. Não é um one club man, como Lionel Messi. Nem sequer tem o samba de Neymar, a juventude de Mbappé, a altivez de Van Dijk. Lewandowski é, simplesmente, Lewandowski. E isso não tem de ser mau nem bom. É simplesmente o que é. E tudo isso à parte, a verdade é que o avançado polaco ganhou absolutamente tudo o que tinha para ganhar na época passada, entre os troféus internos, a Liga dos Campeões e a Supertaça Europeia, marcou uns extraordinários 55 golos em 47 jogos e conquistou as distinções individuais que tinha à disposição.

O nome de Robert, o vulcão Eyjafjallajökull e a mulher karateca: os acasos de Lewandowski, o The Best que não foi obra do acaso

Talvez por tudo isto, pela ausência de ligação emocional a um jogador que é normalmente descrito como o mais frio e letal avançado a pisar atualmente os relvados europeus, é que um texto escrito na primeira pessoa por Lewandowski salta à vista. E esta segunda-feira, o site The Players’ Tribune colocou o polaco numa posição em que raramente é possível vê-lo: a detalhar tudo o que lhe passa pela cabeça. “Há uns dias, acordei, virei-me e vi algo estranho ao meu lado, na almofada. Sabem quando acordam de um sono mesmo bom e tudo parece um sonho? Bem, a minha primeira reação ao ver isto foi: ‘O quê? Como é que isto veio aqui parar?’. Tinha uma memória turva de estar na cerimónia e de receber um troféu. Mas parecia demasiado bizarro para ser verdade. Depois agarrei e pensei, uau… Não foi um sonho. Foi REAL. Eles nomearam-te o melhor jogador do mundo. E levaste o troféu contigo para a cama!”, começa por escrever o jogador do Bayern Munique, que explica mais à frente que essa relutância na hora de acreditar no que tinha acontecido está relacionada com o sítio de onde vem.

“Deixem-me explicar algo sobre os polacos e depois talvez entendam. Antes da cerimónia, eu sabia que tinha tido um grande ano como Bayern Munique. Sabia que podia ganhar. Talvez até merecesse. Mas na Polónia temos um complexo de inferioridade. Nunca tínhamos tido alguém a ser considerado o melhor jogador do mundo. Quando és miúdo, não tens super estrelas para seguir. Os olheiros dizem sempre coisas como: ‘Tem qualidade… Para um miúdo polaco’. Por isso, temos este sentimento de que nunca somos bons o suficiente. De que nenhum de nós vai chegar ao topo. Não é suposto que os miúdos da Polónia sejam os melhores do mundo”, conta Lewandowski, que nasceu em agosto de 1988 em Varsóvia, a capital polaca. O avançado aproveita esse “complexo de inferioridade” para recordar que viu toda a vida a passar-lhe à frente dos olhos quando recebeu o troféu, na cerimónia dos prémios The Best, em dezembro. Uma vida que, segundo diz, está dividida em três atos: a Comunhão, a Rejeição e a Aposta.

Além de figura de proa do Bayern Munique, o avançado é o capitão da seleção da Polónia

Das três, só a primeira não está diretamente relacionada com os meandros do futebol. A Rejeição conta a história de quando foi afastado da equipa B do Légia Varsóvia, depois de se ter lesionado, e de ter sido obrigado a recomeçar a partir do Znicz Pruszków, um clube inferior; a Aposta detalha a importância de Jürgen Klopp nos tempos do Borussia Dortmund e tudo o que aprendeu com os treinadores que se seguiram, já em Munique, como Guardiola, Ancelotti e agora Flick. Mas é o capítulo da Comunhão que explica, com pormenores, o porquê de Robert Lewandowski se ter tornado quem é.

“Quando era miúdo, fiz a Primeira Comunhão na igreja local. Para aqueles que não estão familiarizados com a Igreja Católica, este é um dia especial. Começa com a missa na igreja e depois celebramos com as nossas famílias. O problema é que, nesse dia, eu tinha um jogo muito longe a começar três horas depois da missa”, começa por contar o avançado polaco, que aproveita a história para introduzir o pai, Krzysztof, o grande responsável pela ligação que criou com o futebol. “Antes da celebração, o meu pai teve uma pequena conversa com o padre. Isto foi na minha terra natal, Leszno, uma pequena aldeia a 40 minutos de Varsóvia, por isso o meu pai conhecia toda a gente. Ele disse: ‘Ouça, senhor padre, se calhar podemos começar tudo meia-hora antes? E se calhar cortar os últimos dez minutos? É que o meu filho tem um jogo…'”, acrescenta Lewandowski.

O resultado? O padre, ciente da paixão de um jovem Robert pelo futebol, aceitou. A cerimónia começou meia-hora antes do inicialmente previsto e os últimos dez minutos foram apressados. “Assim que a Primeira Comunhão acabou, fiz o sinal da cruz e corri com o meu pai para o carro. E sim, claro que ganhámos o jogo”, termina o avançado de 32 anos, que perdeu o pai quando tinha 16 e que ainda o vê como a grande inspiração para tudo o que faz.