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Os livros da trilogia “Vernon Subutex” agitaram o panorama literário europeu, pelo ritmo e ambiente rock and roll da narrativa e pelas descrições cáusticas e cruas de uma série de personagens desalinhadas, pouco polidas e desenquadradas das normas e convenções sociais vigentes. Em 2019, a trilogia tornou-se também uma série de televisão em França. E agora a série chega a Portugal, ficando disponível a partir de dia 5 de março na plataforma de streaming de filmes e séries Filmin.

O trio de livros publicados por Virginie Despentes entre 2015 e 2016 — os primeiros dois dos quais, já publicados em Portugal pela Elsinore —, tornou a autora muito premiada, tendo-a feito chegar a uma shortlist de seis nomeados para o reputado prémio Man Booker Internacional. E contam a história de Vernon Subutex, um “anti-herói do submundo parisiense” desiludido com as alterações políticas e sociais em Paris e que acaba sem emprego depois da sua loja de discos falir, sem jeito para os trabalhos “contemporâneos”, sem tecto e sem subsídio de desemprego, passando a viver aos trambolhões e à cata da solidariedade dos amigos.

Nos livros, porém, o protagonismo de Vernon Subutex é discutível, talvez até ilusório. Como escrevia o Observador aquando da publicação do primeiro dos três romances de Despentes, a série literária é povoada de figuras que compõem uma espécie de sociedade francesa heterogénea — e sobretudo marginal — contemporânea , havendo desde músicos que já arrumaram as guitarras, antigas estrelas de filmes pornográficos, trans, desencantados com a idade e o envelhecimento, conspiradores mesquinhos que usam a internet, trolls do submundo online, filhos que se rebelam com os pais, neo-nazis, drogados, ricos e criminosos.

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A série, que tem nove episódios — cada um com 35 minutos —, não vai tanto pela personagem coral e grupal como protagonista, de acordo com a plataforma que a acolhe em Portugal, a Filmin. A adaptação, que apropria as narrativas dos primeiros dois volumes da trilogia ao formato televisivo, “centra-se na personagem principal” e aqui “seguimos os passos de Vernon, o seu trajeto, o seu ritmo, a sua música, as suas emoções, a sua queda”.

O protagonista da série é interpretado por Romain Duris, célebre ator francês de 46 anos com um longo currículo no cinema: foi nomeado por seis vezes para os prémios César, os Óscares de França, e fez filmes como A Residência Espanhola (2002), De Tanto Bater o Meu Coração Parou e As Bonecas Russas (2005), A Espuma dos Dias e Puzzle Chinês (2013), Uma Nova Amiga (2014) e Todo o Dinheiro do Mundo (2017).

A realização da série ficou a cargo de Cathy Verney, atriz e cineasta francesa que já trabalhara como realizadora nas séries de comédia Hard e Pais Desesperados. A adaptação dos primeiros dois livros da trilogia a um guião televisivo ficou à responsabilidade da própria realizadora e de Benjamin Dupas, escritor e produtor que foi um (dois) criadores da série francesa recente “Vampiros” (Netflix).

Citada em comunicado disponibilizado à imprensa, a realizadora diz: “Quando acabei de ler os livros, senti-me deveras comovida e emocionada. Ouvimos as palavras de uma geração como nunca antes tinham sido transmitidas”.

O comunicado vinca ainda que a música é a segunda protagonista da série, com canções de bandas como Sonic Youth, The Jesus and Mary Chain e os franceses Poni Hax a ecoarem aqui “como reflexão do papel do rock no mundo atual”.

Toda a trilogia literária está aliás polvilhada e infundida de rock and roll, seja pelos amigos do protagonista, seja pelo trabalho anterior que este teve (gerir uma loja de discos) e hobbies que tem (ouvir música), seja por servir de motor musical das vidas de uma série de personagens desalinhadas e marginais às convenções sociais maioritárias em França.

Esta é mais uma aposta da Filmin em séries europeias que escapem aos tentáculos da Netflix e HBO, duas plataformas com um maior número de assinantes. Uma das últimas grandes apostas foi a mini-série britânica The Virtues, que fez sucesso e teve aclamação crítica no Reino Unido antes de chegar a Portugal em exclusivo por via da Filmin. No catálogo da plataforma, que inclui mais de 1700 filmes e séries e que pode ser consultado na íntegra aqui, estão ainda mais de uma dezena de filmes clássicos franceses, rodados entre 1936 e 1960.

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