Mohammad Shahid Miah, do Bangladesh, chegara ao Catar em 2017. Tinha pedido um empréstimo de 3.500 libras (cerca de 4.050 euros) para conseguir um emprego no projeto que o país planeia mostrar ao mundo em 2022, ano em que acolherá o Campeonato Mundial de Futebol. Em setembro do ano passado, morreu eletrocutado enquanto trabalhava. Passados praticamente seis meses, a família ainda não recebeu qualquer indemnização — e terá ainda de pagar parte do empréstimo que Miah contraiu para trabalhar no Catar.

Esta história não é a única. Segundo uma investigação do The Guardian, mais de 6.750 trabalhadores migrantes da Índia, do Nepal, do Bangladesh e do Sri Lanka morreram ao construir estádios, hotéis e até uma nova cidade, que irá receber a final do evento desportivo. Feitas as contas doutro modo, 12 migrantes morreram em cada semana desde janeiro de 2011, um mês após o Catar ser informado pela FIFA de que iria ser o palco do Mundial.

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De acordo com dados fornecidos pelas embaixadas em Doha, morreram 2.711 indianos, 1.641 nepaleses, 1.018 bengaleses, 824 paquistaneses e 557 cingaleses no Catar. Todos eram trabalhadores migrantes. Nick McGeehan, diretor da organização FairSquare, justifica os números: “Uma significativa proporção dos trabalhadores migrantes que morreram desde 2011 estavam no país porque o Catar recebeu o testemunho para acolher o Mundial”.

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O número de mortes deverá ser, no entanto, maior. Sabe-se que há trabalhadores do Quénia e das Filipinas que estão a trabalhar na construção de estádios, por exemplo. E estes dados também não incluem os acidentes que ocorreram nos últimos meses de 2020.

Dados oficiais divulgados pelas autoridades catarianas contrariaram os das embaixadas. Segundo o comité oficial da organização do evento, houve apenas 37 mortes relacionadas com a construção de infraestruturas para o Mundial.  Aliás, argumentam que dos 6.750 mortes de migrantes desde o início das obras no Catar,  69% foram de causa natural,  e entre indianos — como Madhy Bollapally  que deixou a família para trabalhar no Catar em 2013 e cuja certido de óbito aponta nesse sentido —, a percentagem sobe para 80%.

Mas, de acordo com a investigação do The Guardian, o motivo da morte é muitas vezes registado sem haver uma autópsia antes. “Há uma falta de claridade e transparência nas mortes que ocorrem no Catar”, denunciou May Romanos da Amnistia Internacional, que acrescentou: “O Catar tem de reforçar os padrões de saúde e de segurança ocupacional”.

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O país não tem seguido as recomendações de uma comissão de trabalhadores que aconselhava a realização de autópsias em casos de mortes repentinas. Hiba Zayadin, da organização não governamental (ONG) Human Rights Watch, afirma ter pedido ao Catar “que emendasse a lei sobre autópsias para exigir investigações forenses em todas as mortes repentinas ou inexplicáveis”. O que não aconteceu.

Por seu turno, o comité oficial da competição refere que “lamenta profundamente as tragédias” e garante que está “investigar cada incidente” que ocorreu. Ainda assim, garante: “Mantemos a transparência em volta deste assunto e contestamos as afirmações imprecisas sobre o número de trabalhadores que morreram nos nossos projetos”. Também a FIFA diz que “os acidentes na construção das infraestruturas do Mundial tem sido baixo comparado com outras grandes projetos”.

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O Mundial no Catar esteve envolto em polémica desde o anúncio de que o país iria acolher a competição em 2010. As autoridades catarianas são suspeitas de subornar a FIFA  — e até Nicolas Sarkozy, ex-Presidente francês, foi investigado por ter sido alegadamente subornado para apoiar a escolha do Catar para o Mundial de 2022.

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