“O mundo como o conhecemos, a aviação como a conhecemos, não voltará”. A procura não vai existir ao nível de 2019, afirmou o presidente executivo da TAP no Parlamento. Ramiro Sequeira sublinha que por isso “a responsabilidade” demonstrada no recente processo negocial com os sindicatos, “tem de perdurar, tem de ir além de 2025. Se não, em 2025 estaremos com o mesmo problema”, reconheceu o gestor. O presidente executivo foi ouvido na sua primeira audição parlamentar desde que assumiu o cargo interinamente em setembro a pedido do PSD e do Iniciativa Liberal.

Ramiro Sequeira indicou que até hoje mais de 300 candidaturas às modalidades voluntárias de redução de custos laborais, sem especificar a quais. Entre medidas disponibilizadas para a adesão voluntária e negociação estão reformas antecipadas, pré-reformas e licenças sem vencimento. O prazo de adesão só termina a 14 de março, mas o gestor considera que a resposta em sido positiva. Na sequência dos acordos de emergência assinados com os sindicatos, estima-se que necessidade de redução do número de trabalhadores seja de 800.

TAP quer fechar negociação das saídas voluntárias e redução de horários até 31 de março

Ramiro Sequeira defendeu que o plano de reestruturação da TAP é “viável, realista e sustentável” até porque se optou por fazer um plano que não fosse otimista, face aos dados da evolução da procura”. Ainda que muitos não estivessem à espera da terceira vaga da pandemia, gestor sublinhou que a “realidade provou que estávamos a trabalhar com dados que se aproximam mais da realidade”.

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Para o gestor esta é a oportunidade para transformar a empresa e garantir a sua sustentabilidade. E isso passa pela “renegociação dos acordos de empresa — para além dos acordos de emergência — para reestruturar a massa salarial e a produtividade, mas também por uma política rigorosa com os fornecedores, de desperdício zero”. Os novos acordos de empresa devem começar a ser negociados ainda este ano. Questionado sobre a aplicação do regime sucedâneo, Ramiro Sequeira afastou a ideia de que seja uma ameaça aos sindicatos, é uma “alavanca”.

Confrontado por vários deputados, o presidente executivo justificou a pouca margem temporal para negociação com os sindicatos com a pressão de entregar o plano de reestruturação em dezembro que só começou a ser feito em setembro. “Podemos ter as duas perspetivas: o que se perde e o que se ganha e para mim mantemos 7.000 postos de trabalho e essa é a missão que assumi: Desenhar um plano para salvar a TAP um ano, quatro anos” e para além disso. Neste quadro não afastou o interesse de um grande grupo de aviação pela empresa que só acontecerá se a TAP tiver as contas equilibradas.

Logo na intervenção inicial, o gestor indicou que a TAP suspendeu 93% da operação em fevereiro, face à capacidade que tinha no mesmo mês de 2020, antes da pandemia, um cenário que deverá prolongar-se para março.  Esta situação é o resultado da imposição de quarentenas à chegada em alguns dos principais destinos da empresa, associada à retoma de medidas mais duras de confinamento e da suspensão de ligação aéreas com o Brasil, Reino Unido e Angola que ocorreu já em janeiro.

Ainda assim, Ramiro Sequeira considera que o plano é viável do ponto de vista dos custos e da receita. “Não alavancámos em grandes retomas. Alavancamos nos esforços e renegociações com todos os fornecedores e de redução de custos da massa salarial.” O plano entregue na Comissão Europeia prevê que o break-even seja alcançado em 2023 e que seja gerada caixa para pagar dívida em 2025.

Sem passageiros, TAP aposta na carga e leva material para produzir vacinas chinesas no Brasil

A TAP, sublinhou, não ficou à espera do apoio do Estado, tendo tomado logo medidas para reduzir custos, entre os quais a diminuição de rotas e ofertas e a renegociação com os fornecedores e com a Airbus, para adiar entrega de aviões, para além da venda de aeronaves. Do lado da receita, realçou a aposta na carga, com a reconversão de aviões, que permitiu 11 milhões de euros de receitas adicionais no ano passado.

Custos operacionais caem 1.300 milhões na renegociação da frota

“O esforço, necessário para garantir a sobrevivência e sustentabilidade da TAP, é repartido por todos: trabalhadores, fornecedores e demais parceiros, afirmou ainda Ramiro Sequeira, que está a ser ouvido na comissão parlamentar de Economia e Obras, deu números para ilustrar esta afirmação. Se do lado dos custos com pessoal estão previstos cortes de 1,4 mil milhões de euros, do lado de custos operacionais as poupanças são da ordem dos 1,3 mil milhões de euros, com otimização dos custos operacionais em ajustes financeiros com frota, bem como de 200 a 225 milhões de euros por ano em negociação com outros fornecedores”.

Ramiro Sequeira destacou ainda o acordo obtido nas negociações com todas as forças sindicais. Lembra que a TAP identificou um excesso de 3.000 trabalhadores (considerando a expetativa de operação para 2021 abaixo dos 30%) que baixou para 2.000 com o objetivo de ter uma dimensão que permita preparar a retoma, número que baixou para 800 na sequência dos acordos de emergência assinados no início de fevereiro.

Para além dos trabalhadores e dos custos operacionais, a TAP também está preparada para ser questionada pela Comissão Europeia sobre os slots (reservas para voos em cada aeroporto). “Vamos tentar proteger o máximo do que é importante para a TAP manter o hub”, afirmou. Ramiro Sequeira garantiu ainda que as questões de segurança têm sido salvaguardadas, quando questionado sobe a preocupação manifestada por um responsável da empresa nesse sentido. Admitiu ainda que o uso dos aviões da Portugália, modelo Embraer, para fazer voos por para África já obrigou a usar outro avião para levar a carga, mas insiste que esta aeronave é a mais adequada para o arranque da retoma.

O gestor garantiu ainda que a TAP “não vai ser pequenina”. Terá 88 aviões de passageiros e mais três para carga. São 91 aviões, mais do que tinha em 2015. Ramiro Sequeira afirmou ainda que se a retoma surgir mais cedo, a empresa tem disponíveis recursos humanos para responder nos trabalhadores que vão estar em horário reduzido por força dos acordos de emergência.