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A carga estava na China, foi trazida pela Finnair para Lisboa e transportada para São Paulo no Brasil pela TAP Cargo. No avião A330 reconvertido para transportar mercadorias apenas, seguiram os insumos (matéria-prima para a produção das vacinas) da Sinovac, empresa chinesa. O cliente é o Instituto Butantan, a instituição brasileira a quem foi confiada a produção da vacina Coronavac. As embalagens que aterraram em São Paulo esta quarta-feira dão para produzir 8,7 milhões doses, de acordo com informação avançada pela empresa ao Observador.

Este foi um dos cerca de 20 voos por semana só para transporte de carga que a TAP está a fazer para vários destinos no Brasil, apesar da proibição do transporte de passageiros em vigor desde a última semana de janeiro. É uma fração dos cerca de 14 voos diários para destinos brasileiros que a empresa assegurava até ao início da pandemia, mas tem sido a única atividade da aviação a resistir, pelo menos ao nível dos proveitos. Apesar de uma queda de 40% no total transportado, a receita caiu menos de 10%.

Desde que a pandemia travou a fundo as ligações aéreas que a transportadora portuguesa tem procurado reinventar-se como operador de carga, um negócio que até 2019 era residual na atividade da TAP, representando cerca de 5% da faturação de 2019. No entanto, a rentabilidade é muito alta porque se trata de um negócio de oportunidade.  E para explorar a oportunidade, a empresa tirou partido da chegada dos novos A330 Neo e a subutilização da frota de longo curso para reconverter três modelos antigos do A330 para carga, o que implicou retirar as cadeiras.

O peso é uma variável fundamental neste tipo de operação, porque quanto mais pesado, maior é o gasto de combustível. Sem cadeiras é possível potenciar o espaço e carregar mais peso, o que eleva a margem obtida, permitindo voos mais competitivos.

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Tal como a TAP é a principal operadora aérea de passageiros entre a Europa e o Brasil, também a TAP Cargo se está a posicionar nesse mercado como um operador privilegiado. A localização de Portugal — seja Lisboa, seja Porto — é um dos grandes trunfos já que está nas coordenadas certas para realizar as paragens técnicas necessárias para uma voo entre a China e o Brasil. O frete levado agora para São Paulo começou a ser preparado em outubro e a TAP apresentou propostas para realizar outros transportes da mesma natureza.

O Brasil representa atualmente mais de 50% dos voos de carga da transportadora portuguesa, que voa para São Paulo e Rio de Janeiro, mas também para outros destinos como Recife, Belo Horizonte e Brasília. Essa capilaridade da rede — 12 destinos — dentro de um país enorme com dificuldades de logística internas — tem-se revelado também uma vantagem para captar cargas do Estados Unidos que vêm até Lisboa (ou Porto) para depois seguir para o destino final no Brasil.

Para o Brasil segue material médico e farmacêutico, mas também roupa, calçado, componentes automóveis. Do lado de lá do Atlântico, a principal carga continua a ser a fruta fresca, com destaque para a famosa “manga avião” (assim chamada porque embarca mais madura e pronta a consumir devido a um tempo de transporte mais curto).

A TAP foi uma das primeiras empresas de bandeira a fazer voos para o transporte de equipamento médico, como ventiladores e dispositivos de proteção pessoal,com origem na China e ainda transportado em aviões com cadeiras. No ano passado foram realizados cerca de 300 voos só para carga — o que é uma novidade na atividade da transportadora que levava as mercadorias no porão dos aviões dos passageiros. Para além do Brasil e dos Estados Unidos, África é também um mercado com significado, em particular Angola.

O transporte de equipamentos médicos, e mais recentemente vacinas, tem tido mais visibilidade — esta semana a TAP trouxe uma carga de vacinas da Moderna desde Bruxelas e tem assegurado o transporte para as ilhas — há outros produtos e clientes com peso. Um deles é a Inditex, a gigante têxtil espanhola (dona da Zara) que usa o Porto para o transporte para a América do Sul e do Norte dos seus artigos de vestuário produzidos nas fábricas da Galiza.