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Do massacre de Batepá até ao futuro: até onde quer chegar o Teatro Griot? /premium

"O Riso dos Necrófagos" parte da Guerra da Trindade, em São Tomé, para inventar um novo lugar, morto-vivo, azul e sem asfixia. De terça a sexta na Culturgest — e ainda uma conferência dia 27.

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São os cadáveres da Guerra da Trindade, que se queriam escondidos, que agora ressurgem pela mão do Teatro Griot

Sofia Berberan

São os cadáveres da Guerra da Trindade, que se queriam escondidos, que agora ressurgem pela mão do Teatro Griot

Sofia Berberan

Ao fundo do palco, uma casa de pés de madeira altos, aparentemente frágil, onde cabem tecidos, portas, instrumentos musicais. Cá em baixo, nas duas laterais, os intérpretes perfilam-se, antes de iniciarem um desfile estranho, um movimento que depressa denuncia que estas figuras não são bem humanas, movem-se de outra maneira, mais próxima dos abutres. O som é encantatório, que sugere vida sem velocidade, uma quase-dança que só aqui existe.

Estamos, afinal de contas, num novo território criado pelo Teatro Griot, estamos n’O Riso dos Necrófagos, título do novo espectáculo da companhia (que está em cena na Culturgest de terça a sexta, às 20h), que gerou um programa que ultrapassa o palco e que se compõe por uma conversa online entre Zia Soares e Raquel Lima, investigadora de estudos pós-coloniais chamada Que Ritual Entre a Vida e a Morte? E ainda Utopia Machim — Resistência no Lugar dos Tempos, a decorrer dia 27 de Abril, às 18h30, na Culturgest, com moderação e intervenção de Beatriz Gomes Dias (professora e deputada no Assembleia da República eleita pelo Bloco de Esquerda, bem como candidata do mesmo partido à Câmara Municipal de Lisboa para as próximas eleições autárquicas), Inocência da Mata (professora e investigadora são-tomense do Centro de Estudos Comparatistas da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa), Miguel de Barros (sociólogo guineense e membro do Conselho para o Desenvolvimento da Investigação em Ciências Sociais em África) e António Pinto Ribeiro (investigador e programador cultural, que tem seguido o trabalho do Griot desde o início).

A mais recente criação do Griot — com direcção de Zia Soares — serve-se, como ponto de partida, da Guerra da Trindade (também conhecida por Massacre de Batepá), um conflito que decorreu em 1953 em São Tomé e Príncipe e que culminou com o assassinato de um número ainda hoje incerto de cidadãos locais — aponta-se por volta de 500 pessoas — ainda antes do deflagrar concreto da Guerra Colonial. Os corpos foram jogados ao mar ou depositados em valas comuns, tudo porque alguns forros (grupo etnocultural dominante nas ilhas de São Tomé e Príncipe) se recusaram a trabalhar nas roças de cacau e de café. Atualmente, a 3 de fevereiro, é feriado nacional em São Tomé e Príncipe, dia de celebração ritualística, uma espécie de trajeto onde os vivos homenageiam os mortos.

São esses cadáveres, que se queriam escondidos, que agora ressurgem pela mão do Griot. Bom, talvez não esses, mas outros, que lá foram buscar inspirações. Zia Soares e Xullaji (músico também conhecido como Chullage, um dos pioneiros do rap nacional, que há muito é membro da companhia) foram, em momentos diferentes, à procura de material a São Tomé, ainda assim, a ideia primordial vem da memória de infância de Zia: “Acho que comecei a pensar no espectáculo aí há uns três anos, mas isto vem de uma memória quando eu era muito miúda. Tinha dez anos e tinha dois colegas gémeos que eram de origem são-tomense e há um dia que estávamos na aula e estávamos todos a falar das nossas origens e eu achava que a história dos meus pais era muito mirabolante e contei a história. No intervalo, o rapaz veio ter comigo e disse-me ‘ah, mas o meu pai também esteve na guerra, no Massacre de Batepá, e depois andámos fugidos e o meu pai esteve preso’ e falou assim como uma criança de dez anos pode falar. E aquilo ficou. Quando integrei o Teatro Griot, esta história voltou e comecei a investigar e a falar com alguns amigos são-tomenses que vivem em Portugal, o Ângelo Torres, a professora Inocência Mata, a Solange Salvaterra Pinto, e eles contaram-me um bocadinho mais e isso foi abrindo cada vez mais essa possibilidade de agarrar a coisa”, conta Zia Soares.

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Também na língua, o Griot tem vindo a reformular as suas conceções. Em algumas das suas mais recentes criações -- "Luminoso Afogado" e "Que Ainda Alguém Nos Invente" -- adicionaram ao português o crioulo de Cabo Verde e o kimbundu

Sofia Berberan

A investigação começou em Portugal, onde a criadora encontrou registos históricos escritos por pessoas brancas e considerou que o caminho não era esse. Uma vez lá, contactou com Carlos Espírito Santo, professor são-tomense que dedicou grande parte da sua obra à história de São Tomé e à Guerra da Trindade. “Mas mais do que isso, a minha investigação baseou-se na experiência do lugar, chegar, conhecer pessoas, conhecer sítios, e ir falando. Às vezes nem precisava de perguntar, estar lá e recolher gestuário, recolher olhares, recolher sons, imagens, cores. Na sua maioria, a investigação passou por uma recolha de materiais sobretudo abstractos”, confessa Zia. Xullaji foi à ilha noutra altura, mas o método foi idêntico: “Ir a São Tomé ouvir São Tomé, relacionar os sons com as pessoas, de onde é que vêm. Moro numa zona com muitos são-tomenses, mas é diferente estar lá e perceber as fonéticas, a sonoridade da língua”, esclarece o responsável pela brilhante música original do espectáculo.

A meteorologia tão distinta a que ambos foram sujeitos durante a ida a São Tomé — para Zia nunca choveu, para Xullaji só choveu — não se dissocia d’O Riso dos Necrófagos. Só mar à volta, floresta para o interior, a dimensão insular absorve a cena, como reitera Vera Cruz, intérprete:

“Se pensarmos nessa insularidade, esse ritmo do mar, esse ritmo do vento, esse ritmo das árvores, acho que foi sempre uma grande preocupação da Zia pensar no gestuário, no movimento, fomos todos provocados fisicamente, mentalmente, até chegarmos a um léxico comum, essa identidade que o grupo tem, porque no fundo somos todos africanos, o que é que cada um tem de memórias vividas, não vividas, mastigada, não mastigadas. Quando se entra nessa ondulação, na música, no movimento, na expressão verbal, tudo acaba por acontecer de uma forma mais leve e com esse riso por trás, não é um choro, não estamos aqui a chorar, ai coitadinhos… É este fervilhar.”

Através de instrumentos vários, sobretudo de percussão, os necrófagos, em cena, que talvez saibam nadar uma vez que o azul aqui presente nos pode bem atirar para o fundo do mar, vagueiam entre momentos mais ou menos potentes, celebrações em conjunto, agitar demónios como quem agita os forros e folhos das suas vestes. A ideia de ritual de imediato emerge, mas o que não deve ser confundido é que este é, como dizíamos ao início, um lugar novo, uma ilha criada por esta equipa, e não mera imitação ou reprodução de rituais de São Tomé: “Isto não são rituais são-tomenses, são rituais d’O Riso dos Necrófagos. Pensamos neles como rituais, mas como é que vamos criar os nossos? Não fomos buscar isto a lado nenhum, fomos buscar isto a nós, à nossa memória, ao nosso confronto e à nossa harmonia enquanto grupo. Parte de várias observações, claro, aquele movimento com os pés esticados parte da minha obsessão com os abutres, com os necrógrafos. Pedi à Lucília Raimundo, que faz o movimento, que observasse e percebesse qual o movimento deles, como é que atacam a carniça, como é que se deslocam, como é que acasalam. Mas depois há uma subversão disto e uma construção de um novo”, garante Zia Soares.

"Ir a São Tomé ouvir São Tomé, relacionar os sons com as pessoas, de onde é que vêm. Moro numa zona com muitos são-tomenses, mas é diferente estar lá e perceber as fonéticas, a sonoridade da língua", esclarece Chullage

Sofia Berberan

Ideia que é corroborada por Xullaji: “Há um espaço de ressignificar tudo, que é muito livre, ressignificas o teu corpo, o som, a língua, porque é lógico que teremos sempre uma relação colonial com a língua portuguesa, mas quando ressignificas todo tu nasces noutro lugar. O que é interessante é que sabemos o que estamos a dizer, quando deitamos abaixo a concepção eurocêntrica onde cada fonema tem um significado, nós tivemos de ressignificar, o início foi difícil porque tivemos de ir ao zero, cair no abismo.”

Também na língua, o Griot tem vindo a reformular as suas conceções. Em algumas das suas mais recentes criações — Luminoso Afogado e Que Ainda Alguém Nos Invente — adicionaram ao português o crioulo de Cabo Verde e o kimbundu. Agora vão mais para o forro, língua são-tomense. Mas, na verdade, nem o é. É outra coisa. Um dialeto que juntos fundaram, sobretudo através da recolha de áudios feita por Xullaji em São Tomé, ou seja, perante a dúvida do que cantava algum local captado pelo músico, reinventa-se o que ali está dito, fica ao jeito dos necrófagos. E isso é também a proposta de um outro tempo, porque para novo lugar, novo tempo, dilatado, que está na forma como se toca, na forma como se anda, na forma como se diz, na forma como se é:

“O que mais me fascinou neste processo é que cada coisa esticou… Palavras, corpo, cenário, tudo estica, tempo, isso é tempo. Não bastava irmos para o imediato, tivemos de esticar tudo, dissecar, ou seja, temos esta primeira linguagem e depois vamos mergulhar, vamos entender isto noutro tempo. Esse desafio foi para o som também, tudo está a passar para alguma coisa. De repente tens batida, de repente mudou, tens um corte, as ilhas têm isso, não te apercebes quando a transição se deu”, diz Xullaji.

Este é também um momento particular para a estrutura nascida em 2009. Superada a década de criação — sempre tão urgente e central no teatro português, com espectáculos tão memoráveis como As Confissões Verdadeira de um Terrorista Albino (encenação de Rogério Carvalho, estreia no Teatro do Bairro, 2014) — o Griot começa agora a pensar e a agir de outra maneira. “Neste espectáculo há um passar um outro limite. Se a companhia, quando se iniciou, tinha uma grande preocupação em trabalhar texto, em dissecar texto até à exaustão e trabalhar o corpo num sentido mais constrangido, agora estamos numa outra etapa, em que este ativismo visual é absolutamente fundamental e ao mesmo tempo estamos também a refletir o que é que o texto representa nas artes performativas, porque é que no teatro o texto tem de ter uma hegemonia perante as outras coisas, porque é que o texto é mais importante que o som e a cenografia”, explica Zia Soares.

"A nossa possibilidade aqui é ficcionar memória, é subverter a memória que nos querem impingir e é trabalhar essa memória como futuro, no porvir”, afirma Zia Soares

Sofia Berberan

E a tal recolocação do sítio do texto é muito evidente em O Riso dos Necrófagos. O texto aparece lá só mais para o fim do espectáculo, vislumbramo-lo lá para o fundo, com a mesma importância que um trecho de som, que um gesto tão simples como tirar um pano de um balde cheio de água e deixá-lo escorrer. Ou até como a estrutura metálica que é trazida para cena a meio do espectáculo, ocupado de várias formas por tais necrófagos náufragos. Pode ser uma casa? “É um esqueleto, é um barco, é uma casa que ruiu e onde ficou a ferrugem. As pessoas voltam ali porque é um barco e porque está no fundo do mar, aquelas pessoas já estão no fundo do mar, já transitam noutro espaço, são pessoas que se alimentam de morte para viver, como os necrófagos”, enquadra Zia.

Nessa estrutura metálica laranja, nesse abrigo de várias configurações, há um texto que traz, mesmo que não concretamente, as migrações tão trágicas do mediterrâneo para o centro das atenções. Mas não colocada como quem faz um “certo” na lista de assuntos que quer erguer em cena, nada disso, antes um exercício de como o Griot — ou talvez este espectáculo do Griot — resgata um passado não muito distante para projetar um outro futuro:

“Não procurámos uma narrativa taxativa ao estilo ‘vamos pensar nos migrantes’, não é isso, mas é como é que agarramos a um acontecimento que é de um passado recente e como é que o colocamos naquilo que estamos a viver hoje? Não estamos a falar do que aconteceu lá, estamos a falar do que aconteceu agora, do quanto somos asfixiados o tempo todo, do quanto somos Cláudia Simões, do quanto somos George Floyd, do quanto somos Bruno Candé, desde aquele tempo longínquo em que os invasores chegaram e interromperam a nossa narrativa e impuseram a deles, e como é que isso ainda continua a ser assim. Como é que trabalhamos isso, como é que nos colocamos perante isso, a tua memória é uma memória muito mais longa do que a minha, a minha memória começa na minha avó e é uma coisa ínfima, é um som, que ainda por cima eu já ficcionei. A nossa possibilidade aqui é ficcionar memória, é subverter a memória que nos querem impingir e é trabalhar essa memória como futuro, no porvir”, conclui Zia. Cá estaremos para o acompanhar.

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