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O abraço com explicação devida e especial preocupação aos suplentes Fábio Vieira, Romário Baró, Francisco Conceição e sobretudo Evanilson mostrou bem como o FC Porto joga em todas as frentes na presente temporada e deixou o sinal de como a prioridade em termos coletivos aponta para a permanência da equipa B mas tal só acabou por acontecer porque entretanto, em pouco mais de dez minutos, o conjunto principal tinha decidido o encontro em Vila do Conde frente ao Rio Ave com três golos de rajada que garantiram o segundo lugar na Liga e consequente apuramento direto para a fase de grupos da Champions. Ou seja, e em termos práticos, mais de 38 milhões de euros selados logo à cabeça que permitem encarar a nova época de outra forma a nível orçamental.

Foi por isso que, esta terça-feira, no âmbito do novo quadro financeiro da SAD dos azuis e brancos que prevê no exercício de 2020/21 os encaixes pelas vendas de Danilo (porque o PSG ficou num dos dois primeiros lugares da Ligue 1) e de Vítor Ferreira (porque o Wolverhampton garantiu a permanência na Premier League), que podem rondar os 36 milhões, os administradores da sociedade liderada por Pinto da Costa pintaram um cenário já bem diferente para o futuro, fora dos controlos especiais da UEFA no fair play financeiro e reforçado também por um empréstimo obrigacionista que passou dos 35 para os 70 milhões devido à grande adesão pela taxa de juro feita a 4,75%. No entanto, não era bem aquele o tema que todos queriam saber. E o assunto foi “desviado”.

“A próxima época já está a ser pensada, naturalmente. Tira-nos a pressão, para além dos dois jogadores já falados [Danilo e Vitinha], de estar com a necessidade de ceder qualquer outro jogador que não queiramos ceder. Sobre a renovação do Sérgio Conceição, já foi dito que falaríamos disso no final do Campeonato. Ainda não acabou, embora já esteja definida a classificação, o último jogo é encarado com a mesma seriedade que todos os outros. Depois disso vamos falar”, explicou Pinto da Costa, a propósito da renovação de Sérgio Conceição e num jogo onde era aguardada até com mais expectativa a conferência no final da partida, que iria quebrar o longo silêncio do treinador desde que foi castigado com 21 dias de suspensão (vendo depois a sanção ser “congelada”).

Antes desse momento, o jogo. Um jogo sempre com um cariz especial frente ao Belenenses SAD pela homenagem a Pavão (assim como os dragões recordam Pepe quando se deslocam a Lisboa), um jogo onde os azuis e brancos tentavam encerrar da melhor forma uma temporada com apenas um título e relativo a 2019/20 (a Supertaça), um jogo onde o FC Porto, no plano coletivo e individual, tinha ainda algumas marcas para tentar assegurar.

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No plano global, os dragões teriam possibilidade nesta jornada de segurarem o melhor ataque da Liga (que pelo quinto ano seguido teve mais de 70 golos) e de passarem a ter a maior diferença entre golos marcados e sofridos depois dos resultados da última ronda. Depois, Sérgio Conceição podia chegar aos 80 pontos na classificação, o que o tornaria no primeiro treinador de sempre a fazer 80 ou mais pontos em quatro edições consecutivas da Primeira Liga, sendo que para isso teria de atingir aquela que seria a 150.ª vitória no Campeonato entre os vários clubes por onde passou. Por fim, e como recordava esta quarta-feira o jornal o Jogo, ainda havia os dois golos de distância de Sérgio Oliveira para igualar os 22 de Zahovic e António Oliveira como médios mais concretizadores numa temporada; os dois golos de Taremi para igualar a época com mais golos no Persepolis; e o jogo em branco de Marchesín para poder igualar o melhor registo de jogos sem sofrer numa temporada (22).

Foi mais um jogo, foi mais uma goleada: depois do 5-1 ao Farense e do 3-0 ao Rio Ave, 4-0 ao Belenenses SAD que nunca tinha sofrido até aqui quatro golos. A equipa, que teve apenas Sérgio Oliveira no lugar do castigado Uribe em relação à equipa que jogou em Vila do Conde, deu um primeiro sinal para levar o último encontro da Liga a sério e houve depois um grande Taremi, um Grujic que acaba a época ao melhor nível desde que chegou ao Dragão por empréstimo do Liverpool e um João Mário cada vez mais a conquistar o seu espaço como lateral. Ainda tem carências defensivas, até em termos físicos precisa crescer, mas o (antigo) ala voltou a mostrar que é uma adaptação feliz e com potencial para ser trabalhada a breve e médio prazo. Agora, fica a dúvida: quem vai tomar conta desse trajeto? Ainda será Sérgio Conceição ou chegou ao fim um ciclo? Esse é o novo “jogo”.

O encontro começou de forma equilibrada e com o Belenenses SAD a dar uma boa réplica com capacidade de ir saindo em transições, tendo ficado a reclamar logo nos minutos iniciais um possível penálti de Diogo Leite por corte com a mão na área que João Bento, auxiliado pelo VAR, mandou seguir. Assim, e dentro dessa toada mais repartida, acabaria por ser um erro (crasso) individual a fazer toda a diferença: Marchesín lançou rápido na direita em João Mário, o agora lateral arriscou o passes longo para Otávio, Silvestre Varela fez bem o movimento a acompanhar mas não conseguiu cortar a bola e o brasileiro só teve depois de tocar para o lado em Taremi e fazer a festa com iraniano pelo golo inaugural (14′). Mais uma vez, a resposta dos lisboetas foi muito positiva, estendendo o seu jogo ao último terço contrário e arriscando a meia distância nos períodos em que encontravam maiores dificuldades em entrar na área, como aconteceu num remate de longe de Cassierra (22′).

Se o lado esquerdo do Belenenses SAD era aquele que maior facilidade tinha de criar desequilíbrios na frente com Rúben Lima a combinar com Miguel Cardoso, era também por aí que João Mário ia conseguindo fazer a diferença nas subidas a dar profundidade à equipa pelo corredor, nascendo dessa forma o segundo golo portista com o agora lateral a ganhar bem a linha, a cruzar atrasado e Grujic a rematar forte de primeir para o 2-0 (28′). Não sendo um encontro sem dinâmica ou intensidade, pelo contrário, o contexto favoreceu a que existisse uma menor preocupação com os movimentos defensivos, o que foi elevando o número de oportunidades até ao intervalo: Silvestre Varela acertou na trave após cruzamento de Rúben Lima (30′), Kritciuk evitou com uma grande intervenção um livre direto de Sérgio Oliveira num lance que tinha sido mal interrompido pelo árbitro João Bento e que podia ter dado novo golo a Taremi (34′), Marchesín evitou com uma “mancha” bem feita o tiro de Miguel Cardoso na área após passar por Pepe (37′). Os golos, esses, voltariam apenas no segundo tempo.

O segundo tempo começou com Chima Akas no lugar de Tomás Ribeiro para tentar dar outra estabilidade a um setor defensivo que deu quase sempre uma boa resposta ao longo do Campeonato mas que tinha sofrido algumas falhas próprias traduzidas no resultado. Nem por isso melhorou. E o FC Porto voltou a aproveitou da melhor forma: já depois de um remate rasteiro de Grujic para defesa segura de Kritciuk (49′), Taremi conseguiu fazer um roubo de bola em zona proibida para os lisboetas quando Cafu Phete tentava sair em posse, assistiu Toni Martínez e o avançado espanhol deixou marca pelo terceiro encontro consecutivo marcando de pé esquerdo (50′). Se o resultado já parecia controlado, a partir daí ficou mais do que certo. E o jogo “ressentiu-se” disso.

Com as alterações nos dois conjuntos, com a saída de Grujic por lesão que tirou força e critério ao meio-campo dos azuis e brancos, com a poupança de um Taremi (que não gostou mesmo nada de ser substituído…) que sem dar tanto nas vistas acabou o Campeonato como terceiro melhor marcador e jogador com mais assistências, o encontro caiu de qualidade, deixou de ter oportunidades, tornou-se em algumas fases monótono e teve ainda alguns toques mais duros que motivaram queixas físicas, caminhando de forma descontraída para o final com o central Diogo Leite a aproveitar um livre lateral de Fábio Vieira para aumentar de cabeça para 4-0 (81′).