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“Foi em 1995 a história que não vos posso contar.” A história que a atriz e realizadora Ana Rocha de Sousa não contou no Teatro Tivoli, com a voz muitas vezes embargada pela emoção, passou-se quando tinha 17 anos. Uma violação, recordada num discurso emotivo, na quinta-feira à noite, durante a entrega dos prémios Activa Mulheres Inspiradoras 2020. A realizadora de “Listen”, filme distinguido no Festival de Cinema de Veneza, foi laureada na categoria de Artes. A história que não contou, disse, é também de “superação”.

“Um dia, também eu baixei a guarda e não devia. Culpei-me. Até porque era tão ingénua, própria da tenra idade, que, mesmo avisada com estranheza do perigo, achei ser impossível”, começou por dizer a atriz. “O perigo não está apenas nos lugares óbvios. Protejam-se. Seja perante a casualidade do homem anónimo escondido nas dunas. Seja perante o cantor famoso que acham conhecer e parece tão seguro porque vos encantou com palavras líricas e bonitas”, continuou Ana Rocha de Sousa que falava no palco do Teatro Tivoli, em Lisboa.

“Arrependo-me de muito pouco na vida, mas lamento ter guardado a história que tenho cravada por contar. A ti, menina, mulher, adolescente, eu digo: não tens culpa. Lembra-te e repete: não tens culpa. A ti, tenho imenso para dizer que pode ajudar.”

Numa altura em que várias mulheres portuguesas têm vindo a público contar as suas histórias de assédio sexual, como Catarina Furtado ou Sofia Arruda, também Ana Rocha de Sousa falou do abuso que sofreu, não deixando de lembrar que muitas vezes a opinião pública clama pela revelação de nomes, algo que para os tribunais de nada vale tanto tempo depois do ato.

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“Aos inconsequentes que reviram os olhos a estas meninas-mulheres que falam, estas que se chegam à frente, parem imediatamente de se enfadar. Isto não é para brincadeiras. Não são jogos de brincar. Parem já de exigir detalhes a quem, por lei, não os pode revelar. Mais ainda: parem de viver como se alguém no seu perfeito juízo queira ser notícia com isto ou ter o rosto colado a estas dores, a estas tristezas”, continuou a atriz. “Saibam que a culpa, a vergonha, nos é imensamente dura e que a última coisa de que precisamos é cobrança, acusação, mais dor ou qualquer réstia de julgamento.”

Recordar esses momentos, acrescentou, é reviver a violência.

“Hoje só vos falo disto porque é minha obrigação salientar, primeiro, que a minha geração não é livre de expor factos sem isso duplamente nos voltar a violentar e de pouco servir para avançar. Segundo: as consequências de revelar agora o que para a justiça, supostamente, já passou à história são nefastas para todos e em vão. Terceiro: quero muito, e é por isso que hoje volto ao passado para vos falar, que vocês, com histórias recentes, sejam elas de assédio, abuso ou de violação, saibam que têm o nosso apoio, a nossa ajuda e têm em nós com quem falar”.

No final do discurso, que durou cerca de 10 minutos, Ana Rocha de Sousa dirigiu-se diretamente ao seu agressor e a outros que cometem crimes contra a integridade sexual: “A ti, assediador, violador. Sejas tu um outro, um patrão, um homem da duna ou um cantor famoso. Fui ensinada a desejar o bem. O bem te desejo. Não pretendo nunca destruir a vida de ninguém. Jamais.”

A atriz disse ainda querer acreditar que o seu agressor se tornou numa pessoa diferente e que o seu caso foi único. “Quero acreditar que passados mais de 25 anos és outra pessoa. Esperemos que sejas diferente e muito melhor. Quero acreditar que deixaste de fazer uso da tua fama para assediar e aliciar teenagers para o teu universo sexual, violento, louco e promíscuo. Quero acreditar que fui a única a ser forçada a crescer bruscamente sozinha na vergonha da minha culpa. Que assim tenha sido. Oxalá que assim seja.”

A finalizar, Ana Rocha de Sousa afirmou ainda não ser capaz de desejar mal ao homem que a violou quando era ainda adolescente, dizendo que “que só uma alma muito dorida, perdida e atormentada faz o que tu sabes que me fizeste”.

“Ouve bem: nunca mais voltes a fazer. Nunca mais voltes a fazer.” O discurso da atriz terminou com uma frase que Ana Rocha de Sousa frisou não ser sua, primeiro dita em inglês, depois em português. “Nós somos magoados por pessoas, mas também são as pessoas que nos salvam.”

A sua intervenção terminou com uma ovação de pé da plateia.