Criar um espaço de liberdade e propósito, que seja cosmopolita e global e ao qual todos possam aceder para testar, incubar e acelerar projetos é o grande objetivo do Nova SBE Haddad Entrepreneurship Institute, o instituto de empreendedorismo da Nova School of Business & Economics (Nova SBE), que beneficiou recentemente de uma importante doação da Fundação Haddad, com vista a estimular a área de empreendedorismo.

Aquela que é considerada a maior doação na área alguma vez realizada em Portugal, e uma das mais representativas da Europa, vai agora imprimir um novo ritmo ao antigo hub de empreendedorismo já existente na Nova SBE, situado no seu Campus em Carcavelos, e que desde que foi criado, em 2018, já contribuiu para a incubação de 35 startups. A intenção passa não só por dotar os alunos de uma mentalidade empreendedora e prepará-los para os desafios do futuro, mas também por abrir a plataforma a todo o ecossistema relacionado com o empreendedorismo a nível global. Isso mesmo foi o que nos explicaram em entrevista Daniel Traça, diretor da Nova SBE, Cláudio Haddad, presidente da Fundação Haddad e fundador da Insper (escola de economia, engenharia, direito e economia sem fins lucrativos no Brasil), e ainda Euclides Major, diretor executivo do Nova SBE Haddad Entrepreneurship Institute. O objetivo, assumem, é que nos próximos anos todos os alunos da Nova SBE se diferenciem através do mindset empreendedor, cultivado ao longo dos anos de formação académica. Na prática, pretendem ter impacto em mais de 10 mil alunos e em mais de 1500 startups nacionais e internacionais.

Porque é o empreendedorismo importante para a Nova SBE?

Daniel Traça (DT) – O ponto fundamental relaciona-se com aquilo que consideramos que são as competências do futuro. Por um lado, são competências mais digitais e técnicas, mas são sobretudo competências relacionadas com soft skills, isto é, a capacidade de persuadir, de trabalhar em equipa, a capacidade de tomar e executar decisões num ambiente de incerteza e com pouca informação. Estas competências vão ser cada vez mais fundamentais, porque são aquelas em que as máquinas dificilmente substituirão os seres humanos. Uma parte desenvolve-se na sala de aula, mas a maior parte desenvolve-se sobretudo a fazer, a liderar projetos, a trabalhar em equipa, a convencer outras pessoas. Para nós, o empreendedorismo é a escola para estas competências. E não serve só para aqueles que são empreendedores e amanhã vão ter a sua própria empresa; serve também para aqueles que vão trabalhar para uma consultora, para uma grande empresa, para uma empresa industrial e que sabem que nessas empresas vão esperar deles essa mesma capacidade de executar, de ter ideias, de ser criativos, de trabalhar em equipa e de arriscar. Este, sendo um projeto de empreendedorismo e de inovação, é sobretudo um projeto de educação.

Daniel Traça, diretor da Nova SBE | Fotografia: Eduardo Ribeiro

Como surge a parceria entre a Nova SBE e a Fundação Haddad?

DT – Esta ideia do empreendedorismo como escola das competências do futuro fazia parte daquilo que era o nosso plano estratégico, mas a Fundação Haddad, na pessoa do Cláudio Haddad, com a experiência que tem na área do ensino superior e com o conhecimento que tem destas competências do futuro, viu que este projeto poderia ser interessante para a visão que eles próprios têm daquilo que poderá ser o ensino superior no futuro.

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Cláudio Haddad (CH) – A Fundação Haddad é uma instituição filantrópica familiar montada em Londres cujo foco principal, mas não exclusivo, é a educação em geral. Pelo facto de agora sermos também residentes em Portugal, já há algum tempo que vim tendo contacto com a Nova SBE e sempre fiquei bem impressionado com o trabalho que está aqui a ser realizado e com a qualidade da escola, sendo que nós achamos importante apoiar certos projetos relativos à educação. Também consideramos o empreendedorismo uma coisa muito importante, também porque visa formar pessoas que são capazes de mobilizar recursos para atingir um objetivo reconhecido e valorizado. Achamos isso muito importante para a educação em geral e para o país. Empreender não significa somente montar uma startup; é empreender em todas as áreas onde a pessoa atue, inclusive em áreas que não tenham necessariamente fins lucrativos.

O que pode o empreendedorismo fazer por um país?

CH – A coisa mais óbvia passa pela criação de empresas novas, as startups. Muitas não vão para a frente, mas algumas vão, e quando vão, em geral, dão excelentes resultados, adicionam valor, valorizam-se muito e causam um benefício a todos em volta. Mas, mais do que isso, em todas as áreas de atividade — seja em grandes empresas, consultoras, empresas industriais, agricultura ou governo —, essa formação, essas competências e habilidades de saber ou querer empreender e inovar são fundamentais e fazem bastante diferença.

Cláudio Haddad, presidente da Fundação Haddad | Fotografia: Eduardo Ribeiro

DT – A palavra-chave aqui é mindset, é a forma como organizamos a nossa cabeça. Lidar com um problema com mindset de empreendedor significa perceber que qualquer problema é sobretudo uma oportunidade para uma solução, e assim se passa de uma visão negativa para uma visão positiva. As empresas que hoje têm sucesso veem sempre em cada colaborador um empreendedor em potência. Portanto, temos de ser capazes de trazer talento com esse entrepreneurial mindset. E este instituto será certamente o mais focado no desenvolvimento dessa mentalidade. O que vamos fazer aqui é uma transformação da escola para ser capaz de desenvolver as competências de que vamos precisar nos próximos cinco a dez anos, portanto é algo muito mais estrutural do que simplesmente um pequeno instituto. Daqui a alguns anos, todos os alunos da Nova SBE vão ser diferentes e ter este entrepreneurial mindset, porque estamos a lançar aqui a semente que vai gerar essa grande árvore, essa transformação.

Já se nasce empreendedor ou essa é uma característica que vai sendo trabalhada, nomeadamente em escolas como a Nova SBE?

DT – Uns nascem com mais disponibilidade que outros, mas em todos é possível trabalhar. Por isso é que é importante a diferença que pretendemos fazer. Isto não é só um instituto para criar líderes empreendedores; é um instituto para transformar as mentes dos alunos de uma forma muito transversal e para transformar as universidades todas com o exemplo que procuramos gerar aqui. Temos uma escola moderna em que o aluno está a desenvolver as suas competências, o seu sentido de propósito, o seu próprio entrepreneurial mindset e sai transformado na forma como reage perante os desafios. O Mestrado em Empreendedorismo de Impacto e Inovação que arranca a partir de setembro é mais uma resposta da Nova SBE no sentido de ajudar os nossos alunos a desenvolver as suas skills profissionais e pessoais fomentando o seu potencial deixando assim a sua marca no mundo.

Que características deve ter um empreendedor?

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  • Criatividade
  • Gosto pela inovação
  • Capacidade de persuasão e comunicação
  • Saber trabalhar em equipa
  • Assertividade
  • Capacidade de decidir e executar em ambiente de incerteza
  • Rapidez na resposta/reação
  • Adaptabilidade e perseverança
  • Capacidade de olhar para um problema como uma oportunidade
  • Ser capaz de arriscar

CH – De facto, a genética pode ser importante. O problema é que, muitas vezes, as pessoas podem ter uma propensão maior para serem empreendedoras, mas não se apercebem disso, e o facto de terem uma formação mais específica faz com que desabrochem e cresçam mais do que cresceriam se não tivessem tido. Então, acho muito importante que todos tenham algum contacto com essas matérias e competências, para que aqueles que tiverem maior talento possam subir muito mais, e os outros também possam fazer o papel de empreendedores mesmo em coisas mais modestas, mas que também adicionam bastante valor.

Euclides Major (EM) – Cada pessoa nasce com um conjunto de características únicas, mas de facto aquilo que procuramos é que, no âmbito do instituto, toda a comunidade tenha a possibilidade de desenvolver competências de empreendedorismo. Cada vez mais, percebemos que tudo muda a uma velocidade maior, os desafios são cada vez mais complexos e esta capacidade de adaptação, de olhar para problemas e trazer soluções inovadoras, sustentáveis e criativas é cada vez mais uma competência fundamental. A verdadeira missão do instituto é incutir no DNA da geração futura este espírito empreendedor e criativo, que, acreditamos, poderá trazer vários dividendos para a sociedade como um todo.

As organizações estarão preparadas para acolher essa geração futura?

DT – Nós estamos aqui a trabalhar as competências das pessoas, mas isto tem outro desafio, que é a própria organização. Porque depois vamos ter as próprias organizações a terem de se transformar para serem capazes de tirar partido destes perfis hipercriativos, hiperempreendedores e hipertransformadores que se vão produzir. As empresas que souberem tirar partido disto vão ser as que vão ter sucesso, e as empresas que continuarem a funcionar da forma antiga, que estão à espera que os seus colaboradores estejam sempre ali a cumprir regras e não estejam disponíveis para inovar, vão ficar para trás. Portanto, isto é uma transformação da nossa sociedade, que passa pela transformação do talento, mas uma transformação simultânea e complementar da forma como as organizações e as suas lideranças gerem as pessoas com quem trabalham.

CH – E isso não é nada trivial. Já tive contacto com várias grandes empresas, e se a empresa vai bem, é muito difícil essa empresa engajar-se em coisas novas e inovadoras, e contratar as pessoas corretas para isso, porque não é todo o mundo que tem mindset para inovar. Daí que algumas empresas, conscientes disso, fazem esse caminho através de outras empresas subsidiárias, através de empresas separadas, porque é muito difícil conciliar essa visão numa coisa que já está a andar bem há já algum tempo.

Como é que o Nova SBE Haddad Entrepreneurship Institute se vai operacionalizar?

EM – Vamos ter aqui um espaço físico, um instituto com 300 metros quadrados, que será um espaço muito aberto. Aberto, em primeiro lugar, a alunos e antigos alunos, mas também a todos os stakeholders do ecossistema do empreendedorismo. Teremos a porta aberta para receber, incubar e acelerar startups, mas também a investigadores e investidores.

E como faz quem quer, por exemplo, acelerar uma ideia?

EM – Já temos em funcionamento o programa de incubação virtual, através do qual estão incubadas 35 startups, número que queremos fazer crescer significativamente. A partir de setembro, teremos o formato de incubação física. Estas 35 startups estão distribuídas sobretudo pelos nossos vários focos nas áreas de Fintech & Data, Tourism & Wellbeing e ainda SmartCities & Blueconomy. Queremos atrair mais startups e scaleups, e fomentar muito interações entre founders, investidores e alunos. Temos ainda vários programas pensados e a decorrerem, nomeadamente programas de aceleração, tais como o Makers in the making [Criadores em Criação], Meet The Founder [Conheça o Fundador], Estágios de verão: Startup Summer Experience Fintech. Participamos e desenvolvemos também vários programas em co-organização, tais como os conhecidos European Innovation Academy e Startup Mastery.

Euclides Major, diretor executivo do Nova SBE Haddad Entrepreneurship Institute | Fotografia: Eduardo Ribeiro

Estamos neste momento a realizar o Check-in, um programa de aceleração na área do Turismo, em que contámos com 20 startups de oito países que trabalharam com 17 PME [Pequenas e Médias Empresas] da área de Turismo e Hospitality em Portugal, e, juntas, resultaram em 62 projetos-piloto. Já no próximo mês iremos lançar um outro programa na área de Blue-economy. Portanto, temos um vasto portefólio de programas de aceleração, de incubação, bootcamps para os nossos alunos, presenças de startups nas feiras de carreiras e workshops, entre outros.

De que forma é que a parceria com a Fundação Haddad vai potenciar toda esta dinâmica que já têm em funcionamento?

EM – Esta doação realizada pela Fundação Haddad é a maior jamais feita em Portugal para um centro de empreendedorismo, e uma das mais relevantes a nível europeu nesta área. Vai permitir acelerar esta nossa missão de incutir no DNA dos nossos alunos este espírito empreendedor, e acredito que nos vai colocar o desafio de desenvolvermos aqui um dos melhores institutos de empreendedorismo da Europa. Isto traduz-se em conseguir ter impacto em mais de 10 mil alunos, em mais de 1500 startups nacionais e internacionais, e desenvolver mais de uma centena de programas nesta área de empreendedorismo e de desenvolvimento de competências relacionadas.

Como é que um antigo aluno, por exemplo, pode aceder a esta plataforma?

EM – Para dar um exemplo muito concreto, no outro dia tivemos um antigo aluno que estava empregado numa consultora, já com mais de dez anos de experiência, e que percebeu que, através da Nova SBE, consegue ter um sítio onde é possível explorar e testar ideias, onde é possível ter esta conexão com grandes empresas que fazem parte do ecossistema da Nova SBE, ter inputs de atuais alunos e de professores. Temos aqui uma plataforma que é completamente aberta e onde é possível fazer, desenvolver e ter ajuda de pessoas com bastante experiência, ou seja, uma rica rede de mentores e de pessoas que têm uma experiência muitíssimo interessante, e inclusive conectar com atuais e antigos alunos. Vale a pena referir que já existem mais de 100 startups ou grandes casos de sucesso formados por antigos alunos desta escola.

E a cátedra em empreendedorismo, como vai funcionar?

EM – O professor Rui Silva, que é o academic director do centro de empreendedorismo, terá como missão desenvolver toda a área de Research & Thought Leadership. Falamos na procura e pesquisa científica, desenvolvimento de artigos académicos, mas também de case studies. Neste sentido, apelamos também às startups, porque temos muito interesse em estudar e tirar daqui várias lições. Envolve ainda a aproximação entre várias áreas científicas fomentando a multidisciplinaridade e toda a área de desenvolvimento de conferências, com prémios de âmbito académico e não académico.

DT – A ideia de ter uma cátedra associada corresponde ao ensino, para trazer isto aos alunos, mas como tudo isto é novo, vai haver muito conhecimento que vai ser produzido e é importante ter alguém que nos ajude a pegar em todo este conhecimento, que o codifique e o passe para fora.

Ser empreendedor hoje é diferente do que era há dez anos? E como é que vai ser daqui a mais dez ou 15 anos?

CH – Não sei se é diferente. Os meios são diferentes, a tecnologia evoluiu muito, mas o espírito e o objetivo são praticamente os mesmos das pessoas que sempre empreenderam ao longo dos séculos, principalmente após a revolução industrial.

DT – Acho que há uma coisa nova que é a velocidade. Há uns tempos, eu primeiro pedia dinheiro emprestado aos pais para começar e depois era a empresa que se financiava a si própria para crescer. Mas hoje, eu tenho uma boa ideia, tenho todo o capital do mundo disponível para acelerar e começo logo com algo que é global. Portanto, hoje há que ser capaz de começar rapidamente, porque a competição é muito grande e se eu não avanço, alguém apanha a minha ideia. Temos de ter este dinamismo, que também é uma competência importante, esta capacidade de escalar, de ser rápido, de ser instantâneo. É isto que faz as empresas terem sucesso.

E os alunos, são hoje muito diferentes daquilo que eram há dez anos?

DT – Sim, acho que os alunos são diferentes. Estou aqui há dez anos e acho que os alunos mudaram. O que hoje se sente é a vontade da liberdade e do propósito, isto é, a minha carreira é definida por mim e passa por eu sentir-me livre, por eu ter um sentido de propósito que anima o que quero fazer. Isto tem de fazer sentido e não pode ser uma prisão. E eu sinto que isto depois cria muita confusão, do ponto de vista das empresas que lhes dão trabalho. Há aqui um desafio geracional grande. As organizações têm de mudar, os líderes têm de inspirar mais do que chefiar. E isso implica novas competências, já não só do lado do talento, mas do lado da própria liderança.

O Nova SBE Haddad Entrepreneurship Institute tem como objetivo ser um espaço de liberdade e propósito, cosmopolita e global, a que todos possam aceder para testar, incubar e acelerar projetos | Fotografia: Eduardo Ribeiro

CH – Eu fundei a universidade Insper, no Brasil, em 1999, e a primeira turma formou-se em 2002. Só houve um aluno da primeira turma de Administração e Economia que decidiu empreender. Agora, existe uma liga de empreendedores alunos do Insper e no outro dia falei com eles e mais de 30/35 alunos numa sala de aula estavam já empreendendo, já fazendo alguma coisa. O interesse pela liberdade, pelo fazer — ao contrário do sonho de consumo de há uns anos, que era trabalhar numa grande empresa — mudou inteiramente. Ainda vai ter gente que vai querer trabalhar numa grande empresa e pode empreender nessas grandes empresas, mas existe um interesse, uma vontade muito maior de fazer algo por conta própria e com mais liberdade.

DT – Eu cada vez oiço mais as organizações a falarem de propósito, a tentarem inspirar os colaboradores nesta lógica de “vocês estão aqui para algo maior do que vocês e nós queremos é que sejam empreendedores dentro da empresa”.

EM – Quando eu falo com os meus alunos, sinto muito esta necessidade de trabalhar para algo com propósito. Isto é transversal a todos os programas. E depois há esta conexão com o mundo global. Já não existem barreiras. De referir por um lado que a maioria dos nossos alunos de mestrado é estrangeira e por outro temos cada vez mais startups internacionais e focadas na expansão global. Portanto, esta necessidade de interligar a outros ecossistemas de empreendedorismo a nível global é fundamental.

DT – Ao termos 54% de alunos internacionais nos mestrados significa que vamos ter muitos alunos não portugueses a lançarem as suas empresas aqui e muitos vão fazê-lo, se calhar, para os mercados locais. E é este ambiente que se vai criar aqui: é liberdade, é propósito e é cosmopolita e global. São estas condições que eu sinto que esta geração procura, o que é diferente daquilo que era certamente há dez ou vinte anos.