O Governo nomeou, no final de junho, o sociólogo Boaventura Sousa Santos para o Conselho Nacional para a Ética das Ciências da Vida (CNECV). Dois meses antes, em abril, a Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), tutelada pelo ministério de Manuel Heitor, já tinha indicado o filho, João Ramalho Sousa Santos para o mesmo órgão. Ambos aceitaram e tomaram posse há dois dias. Há entre membros e ex-membros, ouvidos pelo Observador, quem considere que há um “conflito de interesses” ou “no mínimo uma dúvida ética” — desde logo porque, se um se candidatasse a presidente, o filho podia votar no pai, ou vice-versa, tirando vantagem disso. Boaventura Sousa Santos diz ao Observador que não sabia que o filho João ia ser convidado, que não vê qualquer incompatibilidade e que não está disponível para presidir ao órgão.

A Fundação para a Ciência e a Tecnologia esclarece ao Observador que “em abril de 2021, a FCT remeteu para o secretariado do CNECV a proposta do nome do investigador João Ramalho Santos para integrar este órgão”. Nesse momento, esclarece a FCT nas mesmas respostas, “a FCT não tinha conhecimento dos nomes indicados ou a indicar pelas restantes instituições que intervêm neste processo de nomeações”. Sobre se a situação pode configurar uma incompatibilidade, a FCT ” entende que não lhe compete pronunciar-se quanto à matéria”.

João Ramalho dos Santos até percebe que “outros levantem” a questão da incompatibilidade — “consigo adivinhar quem”, diz —, mas diz que é um “absurdo”. E acrescenta: “Não foi o meu pai que me nomeou, não pedi para ser nomeado, não fiz lóbi e eu e o meu pai temos posições completamente diferentes”.

Sobre o facto de poder vir a ter de votar no próprio pai, João Ramalho dos Santos diz que Boaventura Sousa Santos “não é candidato”, mas admite: “Se fosse o melhor candidato, votava nele; se não fosse, não votava”. “Qual é o mal disso, agora os filhos do professor Marcelo Rebelo de Sousa, por exemplo, não podem votar nele para Presidente da República?” Ao Observador, o investigador garante que agirá com “completa independência” e suspeita que, se ele e o pai “tivessem outras posições políticas”, já não questionariam a relação familiar.

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