Começa a ser um hábito: já é a terceira vez que André Ventura se demite e convoca eleições no Chega, apenas para se recandidatar, embora neste caso tenha sido forçado a isso pelo Tribunal Constitucional. Esta eleição terá, no entanto, uma novidade: é que desta vez Ventura terá concorrência, neste caso de um antigo candidato autárquico do seu próprio partido.

Carlos Natal foi notícia, em junho, por causa de um desentendimento com as estruturas locais e nacionais do partido que levou a que fosse afastado da candidatura que protagonizava à câmara municipal de Portimão. Agora está de volta para tentar a sua sorte em novas eleições, desta vez para disputar a liderança do partido com Ventura.

Candidato do Chega à câmara de Portimão foi afastado. Carlos Natal desconhece razões e lamenta “silêncio” da direção

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No seu “manifesto”, Carlos Natal apresenta-se como empresário e militante fundador do partido. E apresenta também as suas razões para se candidatar, que são sobretudo críticas à atual direção e que resume assim: “Trapalhadas, indefinições, falta de liderança, o deixar andar, não intervir e permitir que as situações fujam ao controlo, são o dia a dia do partido”.

A estes problemas que expõem a “falta de organização, muitíssimo pior do que de outros partidos” do Chega, acrescenta outro: os “tiques autoritários” no seio do partido. E aponta motivos: “O crescimento exponencial, descontrolado, nalguns casos, e pouco rigoroso, foi protesto para medidas de bloqueio e de disciplina que nada têm de democrático, sendo muitas deles autocráticas e com bastantes tiques de autoritarismo, desenhadas pelo novos integrantes do partido, muitos deles oriundos directamente de outras forças políticas, altamente contagiados com vícios políticos e partidários (…)”, critica.

Por entre elogios aos “bravos fundadores do Chega”, que lutaram, diz, por “um partido de gente simples, desprovida o mais possível de experiência política”, Carlos Natal lamenta que o número de militantes fundadores tenha vindo a diminuir, uma vez que estarão “descontentes com o rumo que o partido começava a ter e principalmente pelo facto de não haver canais para se poder falar, expressar sentimentos, vontades e apontar caminhos dentro do partido”.

“Não quero criar divisões no partido, mal seria se por termos convicções e desígnios diferentes fosse motivo de divisões num partido político, pretendo abrir um espaço de diálogo, de pensamento e debate sobre o futuro do partido”, remata. Por isso mesmo, pretende candidatar-se à liderança, uma vez que a oportunidade ficou aberta por ordem do Tribunal Constitucional (“por perseguição dizem muitos, por alguma incompetência organizativa dizem outros, como eu”), e tornar o partido uma “verdadeira alternativa de Governo” para um país que considera “desgovernado desde o 25 de Abril de 1974”.

“Não podemos perder mais tempo com imbróglios jurídicos.” André Ventura demite-se para provocar eleições no Chega

Desta vez, o Chega não vai a votos por vontade de Ventura, como tem acontecido — uma vez justificou-se com as críticas de que tinha sido alvo por causa da votação parlamentar sobre o estado de emergência, outra por ter ficado atrás de Ana Gomes nas eleições presidenciais). Mas porque o TC decidiu que o partido estará ilegal há mais de um ano, depois de ter detetado irregularidades na convocatória para o Congresso de Évora, em setembro de 2020.

Como resultado disso, todos os atos do partido poderão estar ilegais, assim como a atual direção, eleita já num congresso posterior, em maio deste ano. O Chega voltará, assim, a realizar mais um congresso, em dezembro.