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O advogado de defesa de Ricardo Salgado não poupou críticas à recusa do coletivo de juízes que está a julgar o ex-banqueiro em suspender o processo devido ao diagnóstico de Alzheimer. À entrada para mais uma sessão do julgamento, Francisco Proença de Carvalho disse que “não foi o Dr. Ricardo Salgado que decidiu ter esta doença” e pediu aos Tribunais que “não julguem como se estivessem numa rede social”.

Esta semana, o coletivo de juízes responsável pelo julgamento do ex-presidente do Grupo Espírito Santos (GES), pelo alegado desvio de 10 milhões de euros, recusou o requerimento da defesa que pedia a suspensão devido ao diagnóstico da doença de Alzheimer ao ex-banqueiro.

Os juízes concluíram que o julgamento não deveria ser suspenso porque, consideram, a declaração da doença não impedia Salgado de prestar declarações. “Não é indubitável que as capacidades de defesa do arguido estejam limitadas de tal forma que o impeçam de se defender de forma plena” em tribunal, refere o despacho. A “limitação” atribuída a Ricardo Salgado “não é de todo impeditiva do exercício do direito de apresentar pessoalmente em julgamento a versão dos factos passados”, lê-se ainda.

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Esta sexta-feira, à entrada para uma nova sessão de julgamento, o advogado de Salgado criticou duramente a decisão, em declarações transmitidas pela SIC Notícias.“Não é o arguido que decide ter Alzheimer. Não foi o Dr. Ricardo Salgado que decidiu ter esta doença” nem “autolimitar o seu direito de defesa, a sua possibilidade de prestar declarações, é a doença de Alzheimer”.

O advogado disse esperar dos Tribunais “que sejam Tribunais e que não julguem como se estivessem numa rede social, como se estivessem numa caixa de comentários de um tablóide”. “Peço respeito por isso. O Dr. Ricardo Salgado, ao longo dos últimos sete anos, batalhou e tem batalhado pela sua defesa. Infelizmente neste momento aconteceu o que aconteceu, está demonstrado, é inequívoco”, acrescentou, garantindo que a defesa vai “batalhar” pela “demonstração da verdade” e pela “preservação da dignidade humana”.

À saída da sessão, Francisco Proença de Carvalho insistiu que o Alzheimer não se trata de um “desgate normal da idade”, mas de uma doença que deixa a pessoa “destituída da sua personalidade”. Por isso, voltou a pedir “respeito”. “Acho que isso merece respeito de toda a gente, não estou a falar para o Tribunal. Vejo muitas coisas escritas e ditas que são chocantes e tudo tem um limite”, frisou.

O julgamento prosseguiu esta sexta-feira, no Juízo Central Criminal de Lisboa, depois ter estado suspenso mais de um mês. Ricardo Salgado, de 77 anos, responde por três crimes de abuso de confiança, mas ainda não foi ouvido em Tribunal. A próxima sessão do julgamento acontece a 28 de novembro, para ser ouvida a última testemunha arrolada pela defesa.

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Salgado disse ao padre Avelino Alves ter “solução” para os lesados do BES, mas “não lhe deram oportunidade”

O padre Avelino Pereira Alves, uma das testemunhas da defesa, descreveu Ricardo Salgado como um “homem íntegro”, segundo o Correio da Manhã. O pároco, de 69 anos, adiantou, em tribunal, que conhece o ex-banqueiro há mais de 20 anos e que se encontravam na missa “quase todos os domingos”.

“Falávamos da igreja e da família. Homem íntegro. Homem com regras, de um porte firme. Convivi com ele nos momentos difíceis. Nunca fugi, um amigo não foge quando mais se precisa. Ele quis contar-me o que aconteceu e eu não quis saber. A amizade está acima de tudo”, afirmou, citado pelo Correio da Manhã.

Já em declarações transmitidas pela RTP3, à saída do tribunal, Avelino Pereira Alves referiu que a situação em que ficaram os lesados do BES é “o sofrimento que ele acarreta”. “Disse que tinha solução, que não lhe deram oportunidade, é isso no processo que mais o faz sofrer“.

Quanto ao diagnóstico da doença de Alzheimer, afirma que reconheceu algumas dificuldades no diálogo com o ex-banqueiro, mas diz que achava que em causa estaria um problema de surdez. “A certa altura fazia perguntas e ele ficava a olhar para mim. Agora dizem que era Alzheimer, eu até pensava que era surdez. A esposa é que depois dizia: ‘Não ouviste o que o padre disse?”

O objetivo da presença do padre Avelino Pereira Alves é testemunhar sobre o caráter de Ricardo Salgado. O sacerdote afirmou que, sendo amigo de Salgado, não poderia fugir “nas adversidades”. “Pôr as mãos no fogo não ponho por ninguém. Tenho dúvidas? Acredito em Deus e até sobre Deus tenho dúvidas, quanto mais homens”.

Segunda a Lusa, enquanto o pároco era ouvido, no exterior do tribunal decorria uma manifestação de lesados do BES. O som de buzinas e protestos ouvia-se também na sala de audiência.

Artigo atualizado pelas 12h30 com as declarações de Francisco Proença de Carvalho à saída do Tribunal