Será que os recentes problemas nas cadeias de fornecimento podem obrigar ao regresso da produção industrial para junto dos consumidores europeus, em vez da atual prática de deslocalização das fábricas? A resposta é afirmativa, segundo a eurodeputada Maria da Graça Carvalho.

A Europa precisa de “alguma autonomia estratégica em bens essenciais”, logo, “em algumas áreas é importantíssimo que haja capacidade europeia de produzir”, afirmou aquela responsável, dando como exemplo os microprocessadores e os supercomputadores. “A construção das tecnologias mais avançada está fora da Europa e não podemos ser líderes se não tivermos capacidade também de o fazer. Se queremos ser líderes no digital, não basta saber utilizar. Temos de ter a capacidade de construir, se for necessário, o que não acontece neste momento. Não quer dizer que, se for mais eficiente do ponto de vista económico comprar fora da Europa, não o façamos”, acrescentou.

A opinião da eurodeputada, eleita pelo PSD, foi partilhada no nono episódio de O Regresso da Indústria, na Rádio Observador. O programa foi para o ar a 17 de novembro num formato ligeiramente diferente do habitual — com apenas um convidado, em vez de dois. O tema era a produção industrial e a recuperação europeia pós-pandemia.

O jornalista Paulo Ferreira, que conduz O Regresso da Indústria, relembrou no início da conversa que se fala hoje da necessidade de uma indústria verde, sustentável, inovadora e competitiva. E deixou no ar algumas perguntas. Estarão as políticas públicas europeias bem desenhadas para alcançar estes objetivos? Será que há excesso de dirigismo da Comissão Europeia no que respeita à aplicação do dinheiro da “bazuca”, também conhecida em Portugal como Plano de Recuperação e Resiliência (PRR)?

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Maria da Graça Carvalho defendeu que “parte do plano de recuperação económica dos vários estados-membros tem de ser muito virado para dotar novamente a Europa” de capacidade de produção com autonomia. “Esta capacidade passa pelas infraestruturas, pelas competências — temos falta de especialistas em muitas áreas — e por um apostar na ciência e inovação, desde a investigação fundamental à mais aplicada e à produção da tecnologia”, sublinhou.

“Investir na indústria e na cultura europeia de fazer coisas aqui”

No Velho Continente existe “grande qualidade” na investigação científica, mas falta “maior escala”, “mais investimento”, “mais pessoas”, apontou. Só assim será possível fazer face ao poder industrial dos EUA e da China, tarefa que “não é fácil”.

No tocante ao possível “dirigismo” da Comissão Europeia no PRR, a convidada disse que “os estados-membros têm bastante liberdade dentro das grandes linhas” de atuação definidas por Bruxelas. “Estou mais preocupada em que os planos de recuperação económica sejam utilizados para substituir despesa do Orçamento do Estado dos vários países, em não no investimento em áreas de futuro, ou que seja investido em projetos pouco produtivos”, contrapôs.

Admitiu, porém, que há a tentação por parte dos governos europeus e da própria Comissão Europeia de selecionar, para apoios, empresas que já se destacam como líderes e já têm condições para competir a nível global.  “Sou frontalmente contra. Deve-se dar igualdade de oportunidades. Esse tipo de política prejudica muito países como Portugal, vai beneficiar países que já têm grande poder industrial, como a Alemanha e a França.”

Além de deputada ao Parlamento Europeu, Maria da Graça Carvalho já foi ministra da Ciência e do Ensino Superior e hoje assume é também uma das presidentes do Intergrupo Investimentos Sustentáveis de Longo Prazo e Competitividade da Indústria Europeia, do Parlamento Europeu. “É necessário investir na indústria e na cultura europeia de fazer coisas aqui, sem nos fecharmos ao mundo”, resumiu Maria da Graça Carvalho.

O Regresso da Indústria é uma série de programas que resulta de uma parceria entre a Rádio Observador e a COTEC Portugal – Associação Empresarial para a Inovação. Cada episódio é transmitido de 15 em 15 dias às quartas-feiras na Rádio Observador (nas frequências 93.7 e 98.7 em Lisboa, 98.4 no Porto e 88.1 em Aveiro) e pode depois ser escutado como podcast. Também às quartas-feiras é publicado quinzenalmente um artigo no Observador com o essencial do programa da semana anterior.