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Se esta contabilidade fosse feita há dois anos, nos debates da campanha eleitoral de 2019, há uma conta que seria, no mínimo, improvável: ver Rui Rio, no frente a frente com António Costa, a mencionar mais vezes a geringonça do que o próprio arquiteto dessa solução.

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Fazendo as contas às palavras em que um e outro mais insistiram durante o debate — o Observador definiu algumas palavras-chave à partida e foi acrescentando outras à lista, à medida que se tornavam relevantes — na primeira parte do confronto, relativa às hipóteses de governabilidade do país após as eleições de 30 de janeiro, Rio agarrou por três vezes na palavra geringonça para frisar o falhanço da solução… ou para lembrar que se Pedro Nuno Santos suceder a António Costa, ela ainda pode voltar. Foi a mesma fórmula que usou quando mencionou uma das palavras mais referidas do debate, o Orçamento: não exatamente para falar do que planeia entregar se for primeiro-ministro, mas para falar sobretudo do OE2022, que falhou no Parlamento.

Se Rio falou em Orçamento oito vezes, Costa fê-lo seis — sempre para apontar ao futuro e garantir que tem soluções, até mesmo na mão, e prontas a entregar ao país, ou não tivesse acabado o debate a acenar com o dossiê plastificado em que guarda o Orçamento, de olhos nas câmaras televisivas. Rio acabaria por ironizar: “A seguir à descoberta do caminho para a Índia deve ser a coisa mais importante do país.”

E, se o líder do PSD insistiu no Orçamento que falhou e na ideia de que Costa não tem caminho para fazer — até porque não tem parceiros com que o aprovar –, o próprio primeiro-ministro pegou na ideia de “crise” (por cinco vezes). A ideia era clara: fazer passar a imagem de uma crise que não foi criada pelo PS e que quer resolver, a juntar à pandemia (mencionada quatro vezes por Costa e três por Rio).

Em termos temáticos, os números também são reveladores: de salários, o tema que tem dominado a pré-campanha e que há de transitar para o período oficial de campanha, o primeiro-ministro falou 16 vezes e o líder do PSD 12 — mas Costa usou o termo muitas dessas vezes para acusar Rio de não querer aumentar o salário mínimo (o PSD quererá fazê-lo, mas o aumento dependerá do estado da economia e da produtividade, explicou o social-democrata). De Saúde ou SNS, foram 10 contra 12 referências, com Rio a aproveitar os fracassos desta governação, incluindo o número elevado de portugueses sem médico de família e as listas de espera, e Costa a aproveitar uma proposta de revisão constitucional do PSD (que retiraria o termo “SNS preferencialmente gratuito” para referir que ninguém pode deixar de ser tratado) para acusar Rio de querer pôr a classe média a pagar o serviço da Saúde.

Ainda em termos setoriais, o tema não foi trazido para cima da mesa pelos moderadores, mas Costa falou oito vezes de Segurança Social para disparar contra Rio (que falou duas) e acusar o PSD de querer um sistema misto e não público. Rio acabaria a garantir que, para ambos estes temas, a ideia que defende são sistemas públicos, pelo menos preferencialmente. Também nos impostos divergiram: naturalmente, Costa falou mais do IRS (seis vezes) para fazer promessas de redução a famílias, classe média e jovens; e Rio falou mais do IRC (sete vezes) para dizer que primeiro é preciso aliviar as empresas e apostar na produtividade.

Referências várias ainda para a TAP (oito de Costa, quatro de Rio) num tema em que o líder do PSD atacou forte e acusou a empresa de ser “a companhia de bandeira espanhola ou de outro país qualquer”, considerando a cobertura territorial e o serviço da TAP “revoltantes”. No fim de mais de uma hora de debate, só sobrou uma única referência ao Plano de Recuperação e Resiliência — um contraste evidente com a campanha autárquica, em que Costa usou de forma constante as referências aos milhões do plano europeu.