O grupo de soldados está encurralado. Dois civis aproximam-se da mulher de uniforme e atiram-na ao ar. O seu corpo balança antes de começar a cair. O resto da multidão avança em direção ao grupo. Não há silêncio, há gritos e urros. Os soldados estão cercados e sem saída. O corpo da mulher cai nos braços dos mesmos homens que a atiraram ao ar. Agora beijam-na, abraçam-na. Os colegas de batalhão também estão a ser sufocados com beijos, abraços, agradecimentos. Há lágrimas de alegria. Tiram-se selfies, fazem-se vídeos. Os militares ucranianos chegaram a Kherson e a euforia fica documentada nas redes sociais. Slava Ukraini está em todas as bocas.

Um “dia histórico”, disse o Presidente ucraniano. A primeira dama Olena preferiu falar do poder da palavra “nossa, nosso”, quando se fala da terra e do povo ucranianos. Mais tarde, numa segunda mensagem, Zelensky sublinhou que “Kherson nunca desistiu da Ucrânia”.

Ao Observador, Iuliia Mendel, natural de Kherson e antiga assessora do Presidente ucraniano, conta que parte da cidade está em ruínas, não há eletricidade e há muitas minas na cidade. “Ainda não consegui falar com a minha família”, lamenta a ucraniana. 

“Estamos a regressar a Kherson”, disse Volodymyr Zelensky, no Telegram, quando as tropas se aproximavam da cidade. Por essa altura, segundo o Presidente ucraniano, 41 localidades tinham sido libertadas.

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Desta vez, na guerra da contra-informação, a Rússia não divulgou uma versão contraditória: no Kremlin assume-se que as tropas retiraram daquela região, uma das quatro que, a 30 de setembro, a Rússia anexou. A decisão de retirar, segundo a agência estatal russa TASS, é justificada pelo risco que os militares russos corriam de ficar encurralados em Kherson, em caso de inundação provocada pela barragem Kakhovskaya.

Apesar disso, o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, não entrou em mais detalhes, quando questionado pelos jornalistas sobre o porquê de as tropas russas estarem agora na margem esquerda do rio Dnipro. “Não tenho nada a acrescentar e nada a dizer sobre este assunto. Fale com o Ministério da Defesa.” A retirada, segundo Moscovo, foi proposta pelo general Sergey Surovikin, comandante da operação militar russa na Ucrânia, e a decisão tomada pelo ministro da Defesa, Sergey Shoigu.

Olena Zelenska: “Os nossos estão em casa”

“Nosso.” Assim começa a publicação de Olena Zelenska no Twitter. “Quanto poder há nesta palavra. Milhares de pessoas nas ruas de Kherson encontraram-se com os seus defensores com bandeiras azuis e amarelas – imagens que trazem lágrimas aos olhos de todos os ucranianos. Os nossos estão em casa. Kherson está livre. Em breve toda a Ucrânia estará livre.”

É também de emoção que fala a escritora ucraniana, natural de Kherson, ao partilhar um vídeo dos soldados a ser recebidos por populares. “Gostava que todos percebessem ucraniano para puderem apreciar essa ternura única, dificilmente traduzível para qualquer outra língua que eu conheça, quando as mulheres locais chamam os soldados ucranianos de “nossos meninos”, “khlopchyky”, e pedem permissão para abraçá-los.”

Já numa das publicações de Anton Gerashchenko, conselheiro do ministro ucraniano dos Negócios Estrangeiros, vê-se parte do momento em que a mulher, vestida de uniforme, é atirada ao ar por populares.

“Os nossos soldados contam que tiveram de abrandar o passo devido à quantidade de abraços e beijos que receberam”, escreve o ucraniano.

Há celebração nas ruas, mas soldados ainda têm muito território para limpar

Iuliia Mendel tem estado em contacto com algumas pessoas que vivem em Kherson, contou ao Observador, mas no dia em que os militares chegaram à região ainda não tinha conseguido falar com a sua família mais próxima.

“Há muitas celebrações em Kherson, mas não há luz, nem ligação à internet”, diz a antiga assessora de imprensa de Zelensky. Apesar disso, muitos ucranianos têm conseguido publicar os vídeos da chegada dos militares à região. “Neste momento há muitas minas, na cidade e nas localidades da região, e os soldados ucranianos ainda estão a tentar limpar o território.”

Iuliia Mendel recorda que quatro civis ficaram feridos quando o carro em que seguiam tocou uma mina explodiu. “Todos ficaram feridos, entre eles duas crianças, de 9 e 14 anos. Também foram encontrados os corpos de três civis e isto é apenas o início. É difícil dizer exatamente o que se está a passar em Kherson”, frisa a ucraniana. Além do perigo das minas que foram deixadas pelos russos, Iuliia Mendel frisa que boa parte da região ficou destruída.

“Eu vi a vila onde dei os meus primeiros passos, onde os meus avós viviam e não há nada lá, apenas ruínas, ruínas, escolas em ruínas, casas em ruínas. Vimos os veículos em que os soldados ucranianos entraram esta localidade na primavera, chama-se Oliksandrivka. Estava cheia de minas.”

Apesar disso, conta ao Observador, as pessoas estão muito felizes porque estavam à espera da libertação há muito tempo. No seu caso, e como publicou no Twitter, viu essa felicidade na cara da sua tia, que apareceu por acaso num dos muitos vídeos que correm as redes sociais.

“A primeira coisa que ouvi a minha tia dizer foi: nós sobrevivemos, nós sobrevivemos a esta ocupação”, conta, referindo-se ao vídeo em que a sua familiar surge a abraçar um soldado. O mais preocupante, acrescenta, é não terem água, luz ou aquecimento, o que torna as condições de habitação muito precárias. “Estão todos a tentar recuperar. É tudo muito emocional, muito stressante, é muito difícil sair e entrar porque as autoridades ucranianas não o permitem.” Na sua opinião, ainda é muito perigoso estar naquela região e continua à espera de poder falar com quem está em Kherson.

O perigo é exatamente um dos avisos de Zelensky que pediu à população que, apesar da euforia, não volte já para Kherson.