A Arábia Saudita venceu a Argentina. O título poderia ser só este, na verdade. Uma seleção que só ultrapassou a fase de grupos de um Campeonato do Mundo numa única ocasião venceu outra que já o conquistou duas vezes e disputou mais duas finais. Uma equipa cujo selecionador assumiu ser improvável seguir em frente venceu outra que é uma das favoritas à conquista do troféu. A Arábia Saudita venceu mesmo a Argentina.

Ora, tendo em conta o pouco expectável resultado — que deve ter deixado felizes e mais ricos os aventureiros que colocaram um voto de confiança nos sauditas nas casas de apostas –, depressa surgem as interpretações mais simples: foi sorte, foi demérito da Argentina, foi a Arábia Saudita como podia ter sido qualquer outro. Os números, ou até as estatísticas, mostram que não foi bem assim.

Logo à partida, a equipa de Hervé Renard demonstrou uma eficácia acima da média ao marcar dois golos nos dois remates enquadrados que fez. Algo que não é propriamente uma surpresa: a Arábia Saudita teve a maior taxa de conversão de oportunidades na qualificação asiática para o Campeonato do Mundo e Salah Al-Shehri e Salem Al-Dawsari, os marcadores dos golos desta terça-feira, foram também quem mais contribuiu com golos e assistências ao longo da fase de apuramento para o Qatar.

Depois, a elevada primeira linha de construção. Ao contrário daquilo que seria de esperar, os sauditas não colocaram o “autocarro à frente da baliza” e estenderam a equipa ao longo do relvado, apresentando uma pressão alta que não deu muito espaço à Argentina. A abordagem poderia ter-se tornado suicida, já que o conjunto de Lionel Scaloni se mostrou pronto para explorar a profundidade com velocidade nos corredores desde o primeiro instante. A armadilha da Arábia Saudita? O fora de jogo.

A equipa de Renard mostrou-se exímia a aplicar a ratoeira da posição irregular e foi precisamente assim que fez com que três golos marcados pelos argentinos acabassem anulados pelo VAR por fora de jogo. A estratégia saudita foi brilhante ao ponto de, na história dos Campeonatos do Mundo, nunca ter existido um jogo onde a Argentina foi apanhada tantas vezes em fora de jogo — foram 10.

Pelo meio, Lionel Messi. Se é certo que a derrota da seleção argentina não pode ser explicada pela exibição cinzenta do jogador do PSG — até porque esta equipa é muito menos dependente do capitão do que as de anos anteriores –, também é verdade que Messi só tocou na bola 65 vezes, o sexto melhor registo. O avançado de 35 anos não pareceu estar no melhor momento de forma, um dia depois de ter surgido com o tornozelo muito inchado e numa semana em que falhou um treino com um problema muscular, mas foi apenas a cara de uma prestação coletiva pouco conseguida.

O primeiro dia do resto da vida de Messi foi tudo menos um treino contra os coletes verdes (a crónica do Argentina-Arábia Saudita)

Por fim, os adeptos. A Arábia Saudita não estava a jogar em casa mas parecia, já que este é o primeiro Mundial no mundo árabe e os adeptos sauditas não perderam a oportunidade de apoiar a seleção nas bancadas. Contra uma mancha argentina que é naturalmente conhecida pela paixão e pela emoção com que vive o futebol, a claque da Arábia Saudita mostrou que a força demonstrada pelos jogadores dentro do campo começa e tem origem num país que, esse sim, tem cultura futebolística.

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