A manhã desta sexta-feira junto à Praia da Lagoa, na Póvoa de Varzim, começou com uma notícia que deixou moradores e visitantes apreensivos: uma jovem militar de 20 anos desapareceu durante a madrugada na praia, depois de, alegadamente, ter sido arrastada pelas ondas. As buscas começaram cedo — o helicóptero da Força Aérea Portuguesa sobrevoou a zona durante todo o dia, uma embarcação de salvamento permaneceu no mar e, em terra, vários elementos da Polícia Marítima, dos bombeiros e da Proteção Civil, apoiados por um conjunto de drones (incluindo um drone disponibilizado por um popular), procuravam por qualquer sinal desta militar.

Durante a tarde, por volta das 15h30, o desfecho que muitos temiam aconteceu. O corpo da jovem foi encontrado na Praia da Redonda, a alguns metros da zona onde tinha desaparecido e um local onde as buscas já estavam concentradas desde a manhã, uma vez que a experiência anterior das autoridades, face à agitação do mar e à direção do vento, indicava que a jovem poderia aparecer naquele perímetro.

No local, onde várias pessoas assistiam à operação de resgate, foi necessário que um recuperador da Força Aérea descesse do helicóptero de buscas para retirar o corpo da água. A forte agitação marítima não permitiu que o resgate pudesse ser feito diretamente por mar e a preocupação passou também por evitar que “algum popular tentasse tirar o corpo de dentro da água”, como explicou o capitão do Porto e Comandante da Polícia Marítima da Póvoa de Varzim, Ferreira Teles. “Face às condições do mar, era muito perigoso qualquer pessoa entrar na água“, acrescentou.

O helicóptero da Força Aérea já tinha efetuado duas ações de busca durante a manhã e foi durante a ação que estava a fazer durante a tarde que o corpo foi avistado. “O corpo foi retirado da água por um recuperador da Força Aérea”, recolhido pelos bombeiros e colocado numa ambulância. Depois de o Delegado de Saúde confirmar o óbito, será transportado para o Instituto de Medicina Legal no Porto.

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“A tragédia poderia ter sido pior”, admitiu o comandante durante esta manhã, quando questionado por um jornalista, “mas sobretudo poderia ter sido evitada”, concretizou, lembrando os alertas de agitação marítima divulgados nos últimos dias para a região, tanto pela Autoridade Marítima Nacional como pelo Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA).

O mesmo apelo foi feito ao final desta tarde: “A Autoridade Marítima Nacional, os órgãos de Proteção Civil, as capitanias e o próprio IPMA emitiram alertas de severidade da agitação marítima. Cabe-nos a nós todos, enquanto cidadãos, fazer uma análise de risco e pensarmos, numa cultura de segurança, se vale a pena arriscar para fazer um passeio na orla marítima quando o mar está alterado, sabendo nós que a Costa Atlântica Ocidental com o mar alterado tem muita energia e pode arrastar-nos para dentro de água e, no limite, podemos perder a vida”, reforçou aos jornalistas.

Em comunicado, o Exército lamentou a morte da militar, a Primeiro-cabo Ani Muscuta Fonseca Dabó. Ani Dabó tinha ingressado no Exército em janeiro de 2019 e encontrava-se a frequentar o curso de condutor militar de categoria B na Escola de Serviços, na Póvoa de Varzim. O Correio da Manhã adiantou que a jovem era natural da Amadora.

“Neste momento de luto, dor e sofrimento para a família, amigos e para o Exército Português, o General Chefe do Estado-Maior do Exército transmitiu à família todo o apoio e solidariedade”, refere a mesma nota, salientando que “o apoio psicológico aos familiares continua a ser assegurado através do Centro de Psicologia Aplicada do Exército Português”.

Militares entraram no mar para “molhar os pés”. Desaparecimento da jovem foi comunicado pelas 4h48

Oito jovens militares, incluindo Ani Dabó, em formação na Escola Prática dos Serviços do Exército Português, foram arrastados esta sexta-feira de madrugada pelas ondas na praia da Lagoa na Póvoa de Varzim. Anteriormente, o capitão do Porto e Comandante da Polícia Marítima da Póvoa de Varzim tinha dito que o grupo envolvido no acidente era constituído por quatro jovens. Sabe-se agora que eram quatro raparigas e quatro rapazes, todos na casa dos 20 anos.

O grupo estava num bar da praia da Lagoa, em lazer, quando por volta das 4h30 terá decidido aproximar-se do mar, alegadamente para “molhar os pés”, explicou Ferreira Teles aos jornalistas. Contactado pelo Observador, um responsável do Bar da Praia, que de domingo a quinta-feira está aberto justamente até às 4h30 (ao fim de semana o encerramento é às 6h), não quis prestar declarações.

De acordo com o relato dos acontecimentos feito pelo comandante Ferreira Teles, Ani e outra jovem terão sido arrastadas para dentro de água e os restantes seis terão entrado no mar para as tentar resgatar. Terão conseguido retirar uma delas, mas Ani desapareceu por entre as ondas. O alerta foi dado à 4h48.

Chegados ao local constatou-se que eram sete jovens que estariam fora de água, dos quais quatro estavam dentro de uma ambulância do INEM e três já tinham sido levados para o Hospital da Póvoa de Varzim. Posteriormente viemos a saber que um dos jovens teve alta, dois terão sido transferidos para o Hospital das Forças Armadas, no Porto, e os outros, mais tarde, foram para a unidade”, informou o comandante ao final da tarde.

Recorde-se que o mar estava revolto e vigorava no local, até às 19h desta sexta-feira, um alerta amarelo para agitação marítima, com o IPMA a prever ondas entre os 4 e os 5 metros.

O Correio da Manhã refere que os jovens militares terão terminado esta quinta-feira o curso de condutores, especialidade que os habilita a conduzir veículos do Exército, pelo que decidiram comemorar no bar da Praia da Lagoa. Ferreira Teles adiantou que se encontravam de licença.

Em comunicado, o Exército avançou que foi “imediatamente” aberto um processo de averiguações sobre o acidente. No mesmo texto, o Exército lamenta ainda o sucedido garantindo desconhecer, para já, os contornos do que aconteceu.

Vítimas hospitalizadas com lesões musculares e sinais de hipotermia

Quando a Polícia Marítima chegou ao local, quatro militares estavam no interior de duas ambulâncias e as três jovens tinham sido levados para o Centro Hospitalar da Póvoa de Varzim. Os quatro rapazes, depois de serem assistidos pelo INEM, foram também encaminhados para o hospital da Póvoa de Varzim, onde lhes foi disponibilizado apoio psicológico.

No momento de admissão, as sete vítimas apresentavam “lesões musculares, hipotermia e uma situação traumática violenta em termos emocionais”, mas nenhum deles corria risco de vida, disse fonte hospitalar.

Três dos militares foram entretanto transferidos para o Hospital Militar do Porto, informou fonte do hospital local, acrescentando que as vítimas não apresentam problemas de saúde de maior, sendo a transferência para a unidade de saúde militar efetuada para “continuação de vigilância”. Um outro militar continua em observação no hospital da Póvoa de Varzim, sendo que os restantes três tiveram alta e foram encaminhados para a Escola Prática de Serviços.

Toda a costa marítima de Portugal continental está sob aviso amarelo do IPMA devido à forte agitação marítima.

Presidente da República lamenta morte de militar

Marcelo Rebelo de Sousa lamentou a morte da jovem militar, apresentando “os seus sentidos pêsames” aos seus familiares e ao Exército.

“O Presidente da República lamenta o falecimento acidental de uma jovem militar no mar da Póvoa de Varzim”, lê-se numa nota publicada no site da Presidência. “O Comandante Supremo das Forças Armadas, que já falou ao telefone com uma tia da malograda jovem, apresenta os seus sentidos pêsames aos seus familiares, amigos e camaradas, bem como ao Exército.”

Notícia atualizada às 22h42 com a reação do Presidente da República