A Câmara Municipal de Oeiras (CMO) recolocou durante a noite desta quinta-feira o cartaz sobre os abusos sexuais de menores na Igreja Católica — que a própria autarquia mandou retirar na quarta-feira.

Durante a tarde de quinta-feira, a autarquia já se tinha disponibilizado para receber a organização que colocou na rua o cartaz que denunciava os abusos sexuais de menores na Igreja Católica Portuguesa.

O vice-presidente da Câmara Municipal de Oeiras, Francisco Gonçalves disse à CNN: “Hoje estamos disponíveis, eu e o senhor presidente [Isaltino Morais], para receber os membros da associação e encontrar um local no concelho, mesmo nas estrutura publicitárias do município, para colocar esta mensagem.”

Ao início da noite, e em resposta ao anúncio da autarquia, o movimento “This is Our Memorial”, que ergueu este e os outros dois cartazes, emitiu um comunicado onde dizia aguarda a recolocação do cartaz. “Depois do infeliz episódio”, escrevem os responsáveis, “congratulamo-nos com o facto da Câmara Municipal de Oeiras ter aberto diálogo e demonstrado junto dos orgão de comunicação social vontade de repor o referido cartaz, parte desta campanha fundada por mais de 300 pessoas e apoiada por muitas mais.”

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“Esperamos que, uma vez recolocado o cartaz, o foco mediático volte a ser a solidariedade com as vítimas dos abusos pela Igreja Católica e a falta de uma resposta adequada face aos acontecimentos descritos no relatório da Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais na Igreja Católica Apostólica Romana Portuguesa”, refere o comunicado.

A mensagem, que alerta para os abusos sexuais de menores por parte de membros do clero, “é demasiado importante”, considerou o autarca. “O tema é de interesse público.” Nos cartazes em causa lê-se: “Mais de 4.800 crianças abusadas pela Igreja católica em Portugal”, em inglês, e ainda 4.800 pontos que representam cada uma das vítimas (o número mínimo apontado pelo relatório da Comissão Independente divulgado em fevereiro).

Confrontado com o facto de a autarquia presidida por Isaltino Morais ter mandado retirar o cartaz de Algés na quarta-feira, tendo colhido acusações de “censura” ao tema, Francisco Gonçalves garantiu que “o município não podia estar mais a favor” da visibilidade do assunto. “Nós repudiamos o abuso sexual”, sublinhou, mencionando a exposição “Amor Veneris – Viagem ao Prazer Sexual Feminino”, que esteve patente no Palácio dos Anjos, em Algés, durante vários meses e que abordava, entre outras temáticas, o abuso sexual.

Oeiras manda retirar cartaz por vítimas abusos na Igreja e fala em “publicidade ilegal”. Movimento cívico pondera “via judicial”

Em resposta às declarações do porta-voz da Câmara de Oeiras, o movimento cívico responsável pelo cartaz considerou “oportuno dialogar”.

“Tivemos conhecimento, através dos OCS, da vontade da CMO em repor a lona “This Is Our Memorial”, cedendo para o efeito uma posição de suporte físico da própria CMO”, dizem num comunicado enviado ao Observador. “Sem prejuízo a qualquer outra opinião, ação ou posição pública que possamos ter sobre o ato de remoção em si, julgámos oportuno dialogar com a CMO, representada para o efeito pelo seu Vice-Presidente, Francisco Rocha Gonçalves. Informaremos de desenvolvimentos advindos deste dialogo em momento oportuno.”

Na mesma nota, o grupo, que nasceu no Twitter com vista a uma recolha de fundos que permitiu a colocação de três cartazes em Lisboa, Loures e Oeiras, diz que o “foco” se mantém: “dar voz às vítimas e quebrar o silencio das instituições”. “O importante é passar a mensagem, repondo o cartaz com a maior celeridade possível”, remataram.

JMJ demarca-se de qualquer “ação” junto de Oeiras para remover cartaz

“Não tivemos nenhuma ação junto da Câmara Municipal de Oeiras”, garantiu em conferência de imprensa esta quinta-feira a organização da Jornada Mundial da Juventude (JMJ) sobre a remoção do cartaz. “A polícia ontem no briefing também ainda não tinha conhecimento dessa situação, exatamente do que se tinha passado e se de facto o cartaz foi removido ou não. Não é da nossa responsabilidade e confiamos naturalmente em todas as entidades competentes”, disse Rosa Pedroso Lima, citada pela TSF.

Artigo atualizado às 23h35, com o comunicado do movimento “This is Our Memorial”, e às 00h12, com a informação de que o cartaz já foi recolocado pela câmara.