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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

A tensão com a troika, a mágoa na campanha contra Medina e a solidão durante a JMJ. O novo livro de Moedas

No livro "Liderar com as Pessoas", Moedas recorda as negociações difíceis com a troika, a vida na Comissão Europeia, a corrida eleitoral em Lisboa e os desafios que enfrentou nestes dois anos e meio.

São mais de 200 páginas de revelações, prestação de contas e de reflexões sobre o seu percurso, o seu futuro político e os novos desafios para a cidade de Lisboa. No seu novo livro, Liderar com as pessoas (editora Leya), Carlos Moedas fala sobre as suas origens familiares, o seu percurso político, a entrada na vida política, os tempos da troika e as tensões vividas durante esse período, a transição para a Comissão Europeia e os almoços prolongados com Jean-Claude Juncker, as eleições autárquicas que lhe deram uma surpreendente vitória contra Fernando Medina e os dois anos e meio à frente dos destinos da capital.

No arranque do livro, a que o Observador teve acesso e que será apresentado a 18 de abril, Moedas explica precisamente como, não tendo qualquer experiência no aparelho social-democrata, acabou por se aproximar de Pedro Passos Coelho, de quem viria a ser secretário de Estado Ajunto, primeiro para dirigir Gabinete de Estudos Económicos do PSD e, depois, para fazer parte da equipa liderada por Eduardo Catroga que negociou a viabilização do Orçamento do estado para 2011 com Teixeira dos Santos, então ministro das Finanças.

“Perto das eleições legislativas de 2009 recebi inesperadamente uma chamada do Vasco Campilho, um blogger muito conhecido na altura, porque Passos Coelho queria encontrar-se comigo. Nesse ano iria disputar a liderança do PSD com Ferreira Leite. Tivemos, então, uma conversa muito interessante, na qual me desafiou para trabalhar com ele. Sabia que eu estava a trabalhar com Manuela Ferreira Leite e que a apoiava, mas gostava de contar comigo caso vencesse as eleições internas do PSD no futuro próximo. Manuela Ferreira Leite perdeu as legislativas e Passos ganhou as eleições internas que se sucedem em 2010. E ele, de facto, telefonou-me. Pedro Passos Coelho sempre foi uma pessoa de confiança: não promete o que não quer cumprir. E logo no dia seguinte às eleições, convidou-me para dirigir o Gabinete de Estudos Económicos do PSD”, recorda Moedas.

O novo livro de Carlos Moedas será lançado a 18 de abril

No entanto, o governo de José Sócrates viria a cair meses depois e o país foi a votos. Passos Coelho desafiou Carlos Moedas a ser cabeça de lista por Beja e os sociais-democratas conseguiram eleger um deputado, algo que não acontecia desde 1995. Moedas seria então convidado para integrar o Executivo social-democrata e para fazer parte da equipa que negociava com os elementos da troika. Também esse período é refletido no livro, com o agora presidente da Câmara a não esconder algumas tensões que existiam dentro do Executivo.

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“Hoje, olhando para trás, é fácil constatar que houve um erro de comunicação estratégica do Governo. Deveríamos ter relembrado com maior frequência o papel do Governo de José Sócrates e a desastrosa política orçamental do PS, porque foi isso que nos trouxe a bancarrota e a troika. Mas a verdade é que tivemos de fazer muitas coisas que não queríamos. O Governo deveria ter assumido publicamente que, em muitas medidas, estava obrigado a cumprir. Não foi o que aconteceu, o Governo não quis assumir esse discurso (…) Recordo-me de um dia em que fui entrevistado na SIC e me referi ao Memorando como «o Memorando da Troika». Logo no dia seguinte recebi uma chamada de Vítor Gaspar. Disse-me que gostou da entrevista, mas que eu tinha cometido um erro grave, pois deveria ter dito «o Memorando do Governo» e não «o Memorando da Troika». Ou seja, assumir que tudo era nosso, toda a responsabilidade, as medidas, os sacrifícios, as metas, etc. Nunca concordei com essa visão.”

Moedas sairia depois do governo para ser comissário europeu, num processo que esteve longe de ser linear — Juncker queria contar com Maria Luís Albuquerque, Pedro Passos Coelho não o permitiu e fez força para que Carlos Moedas fosse o escolhido. No livro, o autarca fala sobre esse período, contando alguns detalhes da sua relação com figuras de relevo internacional, como Angela Merkel, Emanuel Macron (que assina o prefácio da obra), Bill Gates e, claro, Juncker, com quem almoçava todas as quartas-feiras e que nutria uma grande admiração por Marcelo Rebelo de Sousa.

Ainda assim, ainda a propósito deste período, Moedas não resiste em dar uma alfinetada a António Costa. “Ser comissário europeu é conseguir entendermo-nos com os países, com todos os países e, já agora, com o nosso próprio país. Neste âmbito sempre tive uma boa relação institucional com o primeiro-ministro António Costa. Apesar das nossas diferenças ideológicas trabalhámos politicamente bem, até porque era necessário evitar que Portugal tivesse multas pelos défices excessivos. Era do interesse do país que trabalhássemos juntos em dossiers internacionais. Para mim, acima dos interesses partidários, está e estará sempre o país. Curiosamente, não senti como Presidente da Câmara de Lisboa a mesma disponibilidade institucional do primeiro-ministro António Costa que senti como Comissário”, nota.

"Recordo-me de um dia em que fui entrevistado na SIC e me referi ao Memorando como «o Memorando da Troika». Logo no dia seguinte recebi uma chamada de Vítor Gaspar. Disse-me que gostou da entrevista, mas que eu tinha cometido um erro grave, pois deveria ter dito «o Memorando do Governo» e não «o Memorando da Troika». Ou seja, assumir que tudo era nosso, toda a responsabilidade, as medidas, os sacrifícios, as metas, etc. Nunca concordei com essa visão."

A corrida contra Medina. “Venci sem a bolha”

Terminado o ciclo europeu, e já como administrador executivo da Fundação Gulbenkian, Moedas foi desafiado pela direção de Rui Rio para ser candidato do PSD à Câmara Municipal de Lisboa. Os bastidores dessa decisão, a campanha feita sem dinheiro e sem recursos, os ataques que diz ter sofrido por parte da bolha político-mediática e a descrença generalizada na sua capacidade de vencer aquelas eleições também são passados em revista ao longo das primeiras páginas do livro.

“No último dia de campanha eleitoral, Fernando Medina tinha conseguido todas as câmaras de televisão, que transmitiram a ação de campanha do PS em direto. Mas, quando eu chego para fazer a arruada, duas horas depois, só havia uma câmara e um jornalista da SIC, que me fez uma breve entrevista de dois minutos, e logo partiu. Descemos o Chiado sem qualquer visibilidade mediática. Aquilo doeu-me. Quando oiço ou leio algumas análises sobre as razões da nossa vitória, as quais alvitram que foi o incumbente a perder ou a abstenção a vencer, sei bem que não têm razão”, começa por refletir.

“A verdade é que venci com as pessoas, apesar de tudo e de todos os vaticínios mediático-partidários. Não havia dinheiro, não havia presença dos média, não tinha comissão de honra como tal (tinha 40 nomes, enquanto Fernando Medina tinha o establishment todo). Ou seja, venci sem a bolha. Mas havia algo que tinha passado para as pessoas: o genuíno compromisso de que estava a fazer uma campanha com o objetivo de as servir e de contribuir para melhorar as suas vidas. E isso, que é muito, é algo politicamente decisivo e que tem faltado nos últimos embates eleitorais entre nós.”

“À medida que a noite foi avançando, os cenários negativos para Fernando Medina começaram a surgir, e o nervosismo aumentou do lado de lá. Do meu lado, comecei a receber mais indicadores, mais gente a querer juntar-se a mim, e os jornalistas que tinham sido destacados para a sede de Fernando Medina começaram a contactar a minha equipa com maior insistência. (…) E, já bastante tarde, pela 1h30 da manhã, chegou finalmente a chamada de Fernando Medina a conceder a derrota e a dar-me os parabéns. Eu acabava de ganhar umas eleições que todos pensavam perdidas. Nunca tinha vivido um momento assim na minha vida. Para mim, foi um momento único. Ganhava a segunda eleição da minha vida. Ganhava, também desta vez, contra todas as probabilidades.”

"A verdade é que venci com as pessoas, apesar de tudo e de todos os vaticínios mediático-partidários. Não havia dinheiro, não havia presença dos média, não tinha comissão de honra como tal (tinha 40 nomes, enquanto Fernando Medina tinha o establishment todo). Ou seja, venci sem a bolha."

A polémica na JMJ. “Foi um momento de grande solidão”

Moedas reflete depois sobre a sua experiência como presidente da Câmara Municipal de Lisboa, da visão que tem para a cidade, das dificuldades que encontrou no terreno e nos embates que vai tendo contra a oposição. Mas há um evento que merece particular destaque: a organização da Jornada Mundial da Juventude e a visita do Papa Francisco a Lisboa.

Sem nunca recuperar as críticas que chegou a fazer ao Governo socialista, Moedas não esconde que ficou “perplexo e muito preocupado” quando se inteirou do dossiê da Jornada Mundial Juventude. Inicialmente, a autarquia estava obrigada a suportar todo o investimento previsto e só as negociações com o Executivo permitiram repartir esforços. Mas foi a construção do polémico altar-palco que mais dores de cabeça lhe trouxeram.

“De um momento para o outro, e durante mais de uma semana, fui alvo de ataques por gastar demasiado do recinto do Parque Tejo. Foi um ataque orquestrado por alguns, que desejavam que tudo corresse mal para obterem ganhos políticos. Esta é mais pura das verdades. (…) Foi o momento mais difícil da minha carreira política. (…) Sabia que era urgente travar a polémica. Redesenhámos, então, com o acordo da igreja, um palco que seria mais pequeno (…) Foi um momento de grande solidão, como são muitos momentos de liderança. Eu sabia que era o tudo ou nada e que não podia vacilar ou travar uma obra daquela envergadura. Se parássemos naquele momento, não teríamos palco em agosto”, conta.

Moedas conta depois como foram aqueles dias de preparação e de organização do maior evento que a cidade de Lisboa já recebeu. Em retrospetiva, o autarca faz um balanço muito positivo da JMJ. “Foi um acontecimento absolutamente extraordinário para Lisboa. (…) A JMJ foi também um momento e afirmação da capacidade do país e da sua capital (…) Desde o início que soube que seria assim. Sabia que todo o esforço necessário para o que havia a fazer — praticamente desde o zero — seria compensado aos mais variados níveis: espiritual, económico e de projeção da cidade. Deixando um enorme legado à capital. (…) Mas confesso que o resultado excedeu muito as minhas melhores expectativas”, termina.

 
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