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50 tons de azul, as bodas de prata de Carlos Gil e uma chuva de estrelas a encerrar o segundo dia de ModaLisboa

As mudanças de Buchinho, o apocalipse de Entrudo, a Cuba de Kolovrat, o protesto de Baltazar, a viagem aos 2000 de Andrez e uma mão cheia de estrelas em Carlos Gil. Eis os destaques do dia.

Ricardo Andrez foi tirar inspiração à diet culture dos anos 2000. Na estética, não faltou o icónco acid wash
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Ricardo Andrez foi tirar inspiração à diet culture dos anos 2000. Na estética, não faltou o icónco acid wash

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Ricardo Andrez foi tirar inspiração à diet culture dos anos 2000. Na estética, não faltou o icónco acid wash

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Constança Entrudo trocou-nos as voltas com um inverno de derreter, Luís Buchinho surpreendeu com mudanças a diferentes níveis, Nuno Baltazar celebrou em jeito de protesto, Ricardo Andrez apresentou uma coleção digna de: “That’s Hot” e Carlos Gil celebrou 25 anos de marca com uma atuação de Mimicat e algumas surpresas no Pátio da Galé — Paulo Pires e Ricardo Pereira incluídos. Este sábado, 7 de outubro, o segundo dia de ModaLisboa aqueceu a passerelle do Pátio da Galé, em Lisboa, com as tendências para a próxima primavera-verão 2024.

Continue a ler para conhecer alguns destaques deste sábado na ModaLisboa À La Carte.

“This house is on fire”: o apocalipse de Constança Entrudo

O que são vários pontinhos coloridos numa rua pacata no bairro de Campolide? A gente que se acumulava à porta do atelier da designer Constança Entrudo foi tanta que obrigou à entrada por grupos no espaço de trabalho para onde a designer se mudou no início do ano.

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Nas paredes do atelier de Entrudo convivem pedaços de tecido com imagens de inspiração e testes, como "desenhos a esferográfica representam os vários estados de tédio, frustração e exaustão da vida de escritório"

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

A rua inclinada sob um sol arrasador era o prenúncio do que estava para vir: “Burnout”, uma coleção que convida a entrar num cenário apocalíptico onde o inverno é apenas uma memória distante e a abraçar o caos de uma onda de calor no escritório. Num mundo em que o aquecimento global é uma realidade, e com o termómetro a marcar 29º em outubro, o apocalipse não parece tão distante assim. É a própria criadora a dizer-nos: “não sei se é especulação ou uma”, mas “gosto sempre de uma certa ficção e ironia”. Para bem da imprensa e convidados, não faltavam ventoinhas na apresentação em modo visita de estudo que permitiu conhecer o processo criativo da coleção primavera-verão 2024.

No interior do atelier, modelos assumiram o papel de funcionários vestidos com peças tradicionalmente associadas ao ambiente de escritório — com um twist à la Constança Entrudo. Os fatos tradicionais e as camisas às riscas em popelina foram rasgados e cortados e os fragmentos tecidos em novas camisolas, completamente desconstruídas. Muita ironia havia nos laços de Natal, por vezes sobrepostos com conchas e outros motivos de praia, ou nas esculturas intrincadas que retratam esferográficas entrelaçadas com fios. Presentes sobre as mesas estavam canetas Bic, esse clássico de estacionário que inspirou desenhos a tinta azul, impressos em diversos materiais, incluindo ganga, crepe e outros tecidos característicos da marca. “Os desenhos a esferográfica representam os vários estados de tédio, frustração e exaustão da vida de escritório, realçando os efeitos desumanizadores da cultura empresarial”, avança o texto que acompanha a coleção.

O atelier da designer Costança Entrudo foi o palco para a apresentação da coleção de primavera-verão 2024

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

É um olhar crítico sobre a vida no escritório e a sua dinâmica de poder, mas também um comentário irónico sobre a cultura de consumo de uma designer nacional que tem trilhado um caminho ascendente sem perder o foco em quem veste. Observando as peças que se repetem de coleções antecessoras — como as calças rasgadas — identificam-se subtis, mas importantes diferenças, não só de modelagem, mas também de áreas outrora expostas e agora mais modestas — como as referidas calças, que perderam a provocadora abertura abaixo do rabo. “Sinto uma necessidade de voltar, olhar para elas e repensá-las, e também ouvir as críticas do consumidor”, anui Entrudo. Ter a Ásia como “um dos principais mercados” não será um pormenor.

Há ventos de mudança na marca Luís Buchinho

O sol brilha lá fora, mas, com as luzes apagadas na sala de desfile, apura-se a escuta. As ondas do mar são o embalo para o que não tarda a chegar à passerelle: peças em cores aguadas e com silhuetas tranquilas que envolvem o corpo em materiais naturais como o algodão, o linho ou a seda. “Queria roupa que transmitisse calma e tranquilidade”, explica o designer Luís Buchinho sobre uma coleção em que aboliu os sintéticos, os estampados e tudo o que fosse “mais invasivo e que gritasse mais alto”. O que ecoa do momento que o conhecido criador de moda português está a viver é uma “mudança de paradigma”: da vida e da marca.

Buchinho criou uma coleção pintada em cores aguadas e com silhuetas tranquilas que envolvem o corpo em materiais naturais como o algodão, o linho ou a seda

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

A coleção que apresentou este sábado no Pátio da Galé “foi toda muito adaptada a esse novo estado de espírito”. Ei-la: “roupa que transmitisse calma e tranquilidade, uma facilidade tremenda na vestibilidade e um lado humano super presente, um lado de querer acariciar o próximo”. Não é, por isso, de estranhar que o designer, com marca própria desde 1992, diga que esta é talvez a sua coleção “mais humana, mais pensada diretamente na pessoa que a vai vestir”. Encontrar esse lugar atemporal e despojado sem descurar a coerência do que é o ADN da etiqueta que assina também exigiu uma mudança de mentalidade.

Em Luís Buchinho, os capuzes foram um statement de frescura e fluidez

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

“Desenhava as silhuetas, achava que todos os requisitos para os quais elas tinham sido criadas estavam completos, mas faltavam-lhe coisas da minha assinatura. Faltava-lhe grafismo, assimetria, plissado, cortes laser, montes de coisas que estou habituado a pôr para me conseguir expressar plasticamente. Tive sempre essa questão muito consciente na cabeça”, admite. Levou tempo até que fosse capaz de recusar os antigos códigos a que tornava “por rotina”. “Quis quebrar com essas coisas que nos são naturais só porque estamos habituados a elas. Quis viver sem elas.” Não foi a única mudança na marca Luís Buchinho — o designer vai encerrar a única loja, que mantinha no Porto, no final do mês de outubro, antevendo um futuro que passará pelo mercado digital e pelas lojas multimarca.

Designer Luís Buchinho vai fechar a loja no Porto

Ricardo Andrez e as gangas, um tecido habitual nas coleções do criador

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Ricardo Andrez: “A Paris Hilton foi massacradíssima, coitada, ela estava em todas”

I Don’t Eat Breakfast (“não tomo o pequeno-almoço”, em tradução livre), foi o resultado de uma viagem às referências dos anos 2000, a diet culture, os paparazzi e o “bullying que as celebridades sofreram”, conta-nos Ricardo Andrez, antes de acrescentar que a tão apregoada expressão “ainda não existia na altura”. O criador de moda quis encapsular a cultura hollywoodesca da viragem do século e, para isso, nada melhor do que revisitar as celebridades que tinham lugar cativo nos tabloides. “A Paris Hilton foi massacradíssima, coitada, ela estava em todas”, refere. “A Kate Moss e a Britney também.”

As riscas são cortadas individualmente. Já as rendas são uma novidade das coleções de Ricardo Andrez

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

O que vimos na passerelle a partir de cerca das 17h20 foi uma “explosão de cor”, como o mesmo a descreveu. “Queria uma coisa mesmo over the top, com uma energia fortíssima.” As riscas rosa-choque e amarelas, por exemplo, foram confecionadas e costuradas uma a uma, como um patchwork. “Mesmo nos designs mais simples, houve muito trabalho manual.” Destacaram-se elementos como as gangas, o acid wash e as rendas, material com que nunca havia trabalhado. “É uma coisa mais feminina, mas que sobrepus com outros materiais para não ser tão sensual e ir um bocadinho ao encontro do meu ADN.”

Em algumas das peças lia-se “Diet Jeans” em etiquetas enormes, bordadas à mão pelo próprio. “Foi uma ideia minha, achei que era uma assinatura fixe para as pessoas se poderem rir, quase a gozar, como se fosse a marca das calças.”

"Diet Jeans" — foi Ricardo Andrez quem bordou à mão as etiquetas de assinatura

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

Nuno Baltazar: “A moda de autor em Portugal está a passar o pior momento que há na história”

Depois de mostrar uma coleção regada a brilho e lantejoulas, com direito a bola de espelhos e Diana Ross a embalar-nos o corpo, a frase de Nuno Baltazar cai como uma farpa. O disco de “Love Hangover” ouve-se no Pátio da Galé. É também pelo amor à moda nacional que o designer criou uma coleção celebratória. “O momento que atravessamos é tão crítico. A moda de autor em Portugal está a passar o pior momento que há na história. Esta coleção é uma coleção de reação, de celebração da existência, e da resiliência, e da vontade de fazer mais”, diz ao Observador minutos após apresentar a coleção “Ballroom”.

“Em vez de ser um protesto de cartazes na rua, [que são] super-válidos, quis que fosse um flash-mob de energia boa”, justifica-se. “Cada vez que um colega meu deixa de apresentar o seu trabalho, todos perdemos. Há um ano e meio, quase dois anos, tive de fechar a minha loja, há outras pessoas neste momento que estão a fechar lojas, há colegas meus que não estão aqui hoje, há colegas que não estão no calendário do Portugal Fashion, portanto, alguma coisa está a acontecer”. Por um minuto — ou dois — Nuno Baltazar quis fugir do “assunto miserabilista” e “dançar e celebrar a vida e a cor”. “If there’s a cure for this/ I don’t wantit, don’t want it”, entoava a cantora norte-americana.

Brilhos, muito cor-de-rosa e lavanda na coleção de Nuno Baltazar

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Na passerelle, um casting de mulheres marcaram o passo com lavanda, verde-água, areia, preto, rosa, magenta, chocolate e prata: uma paleta de contrastes para um contraste de emoções.

Lidija Kolovrat: “Fiquei muito emocionada com Cuba, porque é tão pobre. Parece que as pessoas vieram de um buraco negro”

Os padrões com fotografias destacaram-se imediatamente, fazendo borbulhar a inevitável questão: foi Lidija Kolovrat quem as tirou? Foi sim senhora, esclarece-nos, com nada mais nada menos que um smartphone da Apple. “Faço tudo com o iPhone”, conta ao Observador na sala de imprensa, minutos depois de o desfile terminar. As peças de roupa carimbadas com os registos que captou de uma viagem de três semanas a Cuba carregam, como toda a linha, uma mensagem de solidariedade para com a resiliência de um povo que vive em ditadura.

Os estampados coloridos foram criados a partir de fotografias tiradas em Cuba com um iPhone

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“Estive em Cuba de férias. Estava a pensar que ia descansar depois das obras e de abrir a loja.” Mas a realidade com que se deparou plantou a ideia de “dizer alguma coisa” sobre aquilo que encontrou. “A minha motivação na coleção é passar uma mensagem. O formato do desfile permite que nos expressemos.”

Esse apelo à emoção expressou-se nos chapéus de sol conceptuais — uma alusão ao calor —, nas seringas de plástico que iam nos bolsos dos manequins, nos pares de meias a fazerem as vezes dos tops, nas algemas nos braços. Os padrões pretos e brancos “tipo azulejos”, como descreve, inspiraram-se nisso mesmo. Eu fiquei emocionada. Vocês sentiram?”, perguntou aos jornalistas. Sobre o regresso ao evento depois de uma edição em que, devido a atrasos e obras, acabou por não apresentar, deixou uma resposta curta e breve: “estou muito feliz.”

As meias representam a pobreza de recursos do povo cubano

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Carlos Gil convidou Paulo Pires, Ricardo Pereira e Mimicat para celebrar as bodas de prata

“Esta foi a ultima festa que dei dos 25 anos de carreira”, anuncia, com um brilhozinho nos olhos, Carlos Gil ao Observador. A última porque, pois claro, o primeiro lançar dos foguetes já tinha acontecido na passada edição de março, na Lisboa Social Mitra, com um desfile de estrelas no feminino. Desta vez — e depois de uma dramática atuação de Mimicat, acompanhada por um saxofonista e uma DJ na mesa de som — a passerelle abriu para uma plateia entusiasmada com Ricardo Pereira. Os decibéis continuaram a subir ao ver passar Paulo Pires, o primeiro manequim do criador, há 32 anos.

“Faço 25 anos de carreira, mas fui professor e só abri o atelier mais tarde”, esclarece. Fechou com chave de ouro — quase de forma literal, diga-se, graças à escolha de um vestido dourado — com a ex-Miss Portugal Iolanda Lobo, primeira modelo da marca no feminino. “Começou a carreira de moda em Portugal naqueles tempos que eram tão difíceis”, desabafa. “A Iolanda brilha hoje não como manequim, mas como a senhora elegante que é.” Pedro Ramos, filho de Fernanda Serrano com Pedro Miguel Ramos, também desfilou, aplaudido entusiasticamente pela mãe, sentada na primeira fila, onde também estavam a mulher de Ricardo Pereira, Francisca Pereira, e a mulher de Paulo Pires, Astrid Werdnig.

Paulo Pires e Iolanda Lobo, duas das grandes estrelas a desfilar em Carlos Gil

TOMÁS SILVA/OBSERVADOR

“Foi uma casa cheia. Não faltou cá nada. Até o brinde no fim nós tivemos.” Inspirado no tema do burlesco, a coleção foi batizada Believe It (“acredita”, em português). “Isto só é possível porque eu acredito. Acredito que tudo é possível, desde que seja trabalhado com alma.” O burlesco, explica, surge aqui como uma ode à autonomia de imagem das mulheres, que se libertaram dos condicionamentos impostos pela sociedade para serem “extrovertidas, elegantes e sensuais.”

Sobreviver 25 anos na moda em Portugal foi desafiante? “Tenho ultrapassado imensos desafios na moda”, começa por responder. “Já passei uma crise económica, uma crise política, uma pandemia. Dificilmente podem derrubar-me. Ganhei background suficiente para dizer o que quero e como quero fazê-lo. Adoro a moda, amo vestir mulheres e é esta a vida que quero levar.” Mais nada.

Os blusões de ganga com corte de alfaiate foram um dos destaques da coleção "I Believe"

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