Foi há sensivelmente um ano que o transmontano anunciou a descida à capital, estendendo a sua ligação ao grupo Torel Palace. Em Lisboa, no espaço onde outrora funcionara o Cave 23, Vítor Matos viria agora a imprimir a sua marca ao novo 2Monkeys, um restaurante gastronómico de fine dining, sim, mas fiel a um espírito descontraído. Na noite em que pela primeira vez a Michelin premiou os restaurantes portuguesas a solo, separados da fornada espanhola de estrelas, coube ao 2Monkeys arrecadar a primeira nova estrela da edição de 2024. Mas com o melhor quase sempre reservado para o fim, o chef haveria de chegar á segunda estrela pelo trabalho desenvolvido no seu Antiqvvm, no Porto.

Guia Michelin sem chuva de estrelas mas com chef Vitor Matos a brilhar: há quatro novas estrelas em Portugal e um novo restaurante com duas

“Esta estrela não é minha. Eu faço parte do projeto. Esta estrela é de toda a gente.”, disse ao Observador a partir do Algarve, no final da cerimónia. “É o culminar uma vida de cozinheiro. Não consigo responder de outra forma mas, no fundo, é muito emocional e é muito coração. Não é tanto aquela ideia de ‘isto vai ser melhor para mim e vou ganhar mais restaurantes, vou fazer mais coisas e vou ganhar mais dinheiro’. Não tem nada a ver com isso.Tem a ver com o que está na nossa cabeça e o que está no nosso coração.”, descreveu o chef ainda a quente, admitindo que esperava um desfecho mais auspicioso para os restaurantes nacionais, sobretudo quando há muito que a expectativa recai sobre um eventual 3 estrelas Michelin, uma promessa que voltou a não concretizar-se.

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“Hoje não estava à espera disto. Porque faltou aqui um 3 estrelas. Faltou mais que um 3 estrelas, faltaram dois ou três”, atira. “Quando olho para o que eles fazem [os chefs aspirantes às 3 estrelas], e em como o projeto é tão focado, e no dinheiro que se investe.. [No caso do Antiqvvm], estamos a falar do projeto mais pequeno de Portugal, com uma cozinha que não tem praticamente condições nenhumas, é um corredor, não posso dizer que teria duas estrelas quanto mais três”, acrescenta.

Mas Matos juntou-se de facto ao seleto grupo dos restaurantes que somam dois astros — são atualmente 8 os estabelecimentos nesta categoria depois de mais uma distribuição de estrelas Michelin. Todos os anteriores premiados viram renovada sua distinção. São eles Alma, Henrique Sá Pessoa, Lisboa; Belcanto, José Avillez, Lisboa; Casa de Chá da Boa Nova, Rui Palma, Leça da Palmeira; Il Gallo d’Oro, Benoît Sinthon, Funchal; Ocean, Hans Neuner, Porches; The Yeatman, Ricardo Costa, Vila Nova de Gaia; e Vila Joya, Dieter Koschina, Albufeira.

O chef Vítor Matos

Entre os fogões e a abertura de novos projetos culinários, o chef destaca-se ainda nas diversas colaborações sob a sua tutela gastronómica. É a norte também que mantém o cargo de chef consultor do Blind Restaurante, no Torel Palace Porto, que esta noite lhe haveria de dar novas razões para sorrir — a inaugurar as hostilidades do serão, a chef Rita Margo foi premiada com uma nova categoria, a de Jovem Chef.

De volta ao Antiqvvm, desde logo o destaque vai para a localização, com vistas Douro, a partir da varanda, e o cenário do mesmo palacete onde se encontra o Museu Romântico. Datado do do século XIX, a Quinta da Macieirinha passou a conhecer uma nova configuração depois do Solar do Vinho do Porto. Corria novembro de 2016 quando venceu a primeira estrela Michelin, pouco mais de um ano depois de ter aberto portas.

No prato, duas opções entre os menus de degustação: Orgânico (vegetariano) ou Ensaios Sensoriais. No primeiro, palco para a tarte de abóbora, os cuscos de Vinhais, o queijo da ilha S. Jorge, a burrata ou o SIlken & Smooth tofu monte Fuji, com chilli, citrinos, manga e caril. No segundo, via verde para o Foie gras de pato (Balsâmico di Modena / Avelãs / Beterraba), Lavagante azul (Moqueca / Tomilho Limão / Noz fermentada), Imperador dos Açores (Holandês / Limão / Lula gigante), Salmonete Algarvio (Carabineiro / Couve-flor / Citronela), Bacalhau Meia Cura (Línguas de bacalhau / Toucinho / Pil-Pil / Caviar), Pompo Imperial Anjou (Cantarelos / Aipo / Maçã / Nabo / Trufa), e Chocolate São Tomé a rematar (Fava tonka / Caramelo Salgado / Pêra / Cardamomo / Mascarpone).

Produtos da estação e o convite para uma volta ao mundo, são duas das máximas da casa liderada pelo chef natural de Vila Real, que se iniciou nas artes da confeção da mais alta gastronomia frequentando o curso de Cozinha e Pastelaria (1992-1995), em Neuchâtel. “Nas suas elegantes salas, que fundem pormenores clássicos e contemporâneos com inquestionável bom gosto, o chef Vítor Matos aposta por uma cozinha sazonal criativa, que enaltece a qualidade das matérias-primas”, destaca o Guia Michelin ao cair do pano sobre esta gala em Albufeira.

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Com um percurso dividido entre Suíça e Portugal, é a este último que regressa no final de 1995, depois de terminar o curso, e de ter recebido a primeira proposta para trabalhar no “Restaurant des Jeunes Rives”. A sua biografia recorda como se estreou como chefe de cozinha em 1998, na Estalagem Quinta do Paço, em Vila Real, seguindo-se passagens pelo Grande Hotel da Curia, Grande Hotel das Caldas da Felgueira, Vidago Palace Hotel Golf & Spa, Quinta do Pendão, Tiara Park Atlantic Hotel e Casa da Calçada Relais & Châteaux. Atualmente é ainda chefe de cozinha e consultor gastronómico do Vidago Palace, onde a cozinha portuguesa revisitada está na sua essência.

Antiqvvm, Museu da Cidade – Extensão do Romantismo, R. de Entre-Quintas 220, 4050-240 PortoPorto. Menu Completo 145€ (Orgânico) ou 200€ (Ensaios Sensoriais). Harmonização Vínica 110€