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Num museu em Istambul, na Turquia, estiveram em exposição trabalhos de Leonardo Da Vinci conjugados com IA

dia images via Getty Images

Num museu em Istambul, na Turquia, estiveram em exposição trabalhos de Leonardo Da Vinci conjugados com IA

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A inteligência artificial está a matar a arte? Artistas dividem-se entre a certeza e o medo de uma "evolução imparável"

A comunidade artística divide-se. Há artistas que consideram que o mundo está "mergulhado" no digital, enquanto outros receiam ficar sem trabalho devido às obras geradas por inteligência artificial.

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Uma obra de arte concebida com ‘ajuda’ da inteligência artificial (IA) venceu um prémio e deixou os artistas com muito por dizer. A vitória foi justa? A ascensão desta tecnologia poderá tirar trabalho aos humanos? Estas foram algumas das questões que ganharam volume nas últimas semanas.

Tudo começou no dia dois de setembro. Quando viu que a sua obra “Théâtre D’opéra Spatial” tinha vencido um prémio no concurso anual de arte da feira estatal do Colorado, na categoria onde era possível apresentar arte digital e fotografias manipuladas, Jason M.Allen não quis acreditar.

Concebida através do Midjourney — programa de inteligência artificial onde é possível gerar uma imagem através de texto — a obra tornou-se numa das primeiras concebidas com recurso à IA a receber um prémio. Porém, o designer de jogos, de 39 anos, não poderia imaginar a polémica que se iria desenrolar em torno da sua vitória.

À fita azul e aos 300 dólares que Jason M.Allen levou para casa juntaram-se muitos comentários e uma reação feroz por parte dos artistas que, segundo o The New York Times, estão nervosos com o futuro: alguém quererá pagar por arte quando consegue gerá-la online? 

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Obra inteligência artificial

A obra "Théâtre D'opéra Spatial" foi concebida através do programa de inteligência artificial Midjourney

Jason Allen

Os programas de inteligência artificial disponíveis online geram novas imagens com base em milhões de obras existentes e concebidas por artistas humanos. Por isso, as opiniões dividem-se ainda mais: há quem defenda este género de arte, que ganhou especial popularidade ao longo do último ano, mas também há quem já o tenha proibido nas suas plataformas.

“A arte está morta. Acabou. A IA venceu”

Vinte e um “artistas emergentes” amadores submeteram fotografias digitalmente manipuladas no concurso anual de arte da feira estatal do Colorado. O retrato de três figuras, vestidas com mantos esvoaçantes, que olham para uma espécie de “além brilhante” arrecadou o prémio. Ainda assim, o vencedor recusou-se, até agora, a partilhar qual foi o texto que inseriu no Midjourney para gerar a “Théâtre D’opéra Spatial”.

Com o intensificar do debate e das críticas à vitória, Jason M.Allen decidiu esclarecer que quando entrou no concurso deixou claro que a sua obra tinha sido criada com recurso ao Midjourney e que, por isso, não enganou ninguém e não infringiu “nenhuma regra”.

Uma obra gerada por inteligência artificial ganhou um prémio de arte. Comunidade artística não concorda: “Estamos a ver a morte do ofício”

Uma porta-voz do Departamento de Agricultura do Colorado, a entidade responsável pela feira, corroborou a veracidade das declarações feitas pelo vencedor garantindo que as regras permitem “práticas artísticas que usem tecnologia como parte do processo criativo ou de apresentação”. Porém, Olga Robak também admitiu, em declarações ao The New York Times, que os jurados não tinham conhecimento de que o Midjourney era um programa de inteligência artificial — mas que quando souberam desse facto indicaram à organização que continuariam a dar o prémio a Jason M.Allen.

Para o designer de jogos, a utilização da IA “não vai parar no futuro” e “a arte está morta”. Porém, apesar de autoproclamar a vitória da inteligência artificial, Jason M.Allen declarou que os artistas que temem ficar sem trabalho devido à ascensão da tecnologia merecem a sua simpatia.

Acabou. A inteligência artificial venceu. Os humanos perderam”, afirmou o premiado, que considerou que a raiva dos artistas não deve ser direcionada a quem utiliza a inteligência artificial, mas sim às empresas que os substituem pela tecnologia. “Não deve ser uma acusação à tecnologia em si” porque “a ética não está na tecnologia. Está nas pessoas”, acrescentou.

A utilização do Midjourney deu que falar e gerou críticas. O artista John Lewis adotou uma abordagem diferente à vitória de Jason M.Allen e decidiu colocar o programa de inteligência artificial à prova. O objetivo era perceber quanto tempo demoraria para conseguir criar uma peça semelhante à premiada. “Cerca de 10 segundos” chegaram para alcançar uma imagem similar à “Théâtre D’opéra Spatial” através de conceitos como “portal dourado épico, planetas e estrelas visíveis além do enorme portal dourado” ou ainda “trajes espaciais vitorianos”.

“O Midjourney é muito divertido, e como um gerador rápido de ideias é ótimo, certamente tão útil quanto uma pesquisa de imagens no Google, mas afirmar que o seu utilizador é um artista ou que há alguma habilidade real envolvida em usá-lo é um pouco enganador”, defendeu John Lewis, em declarações ao Creative Bloq, mostrando não ficar impressionado com a utilização da inteligência artificial na arte.

Os artistas estão preocupados com a ascensão da inteligência artificial?

Quando um programa consegue criar, em poucos minutos, uma obra de arte digital esteticamente agradável com base num texto, reacende-se a preocupação que alguns artistas têm de que a tecnologia seja capaz de lhes tirar trabalho. A arte gerada com recurso à inteligência artificial tem evoluído ao longo dos últimos anos e a vitória de Jason M.Allen comprovou isso mesmo, mas os receios dos artistas não surgiram somente agora.

A meio de agosto, RJ Palmer publicou um desabafo no Twitter onde dizia estar “extremamente preocupado” e considerava que a inteligência artificial era “ativamente anti-artista”. “Esta coisa quer os nossos trabalhos“, vincou o artista conceptual. Na sequência de tweets existiu ainda espaço para a acusação de que numa imagem gerada por IA (à esquerda) a tecnologia tentou reproduzir a assinatura do artista que pintou uma representação do “Chapeleiro Louco”, personagem de “Alice no País das Maravilhas” (à direita). Isso pode acontecer porque os programas de inteligência artificial são construídos com base na produção de artistas humanos — e incorporam no seu sistema milhões de imagens por eles concebidas.

Por sua vez, Eva Eskelinen também se mostrou preocupada com a ascensão da inteligência artificial considerando que “muito de desenvolvimento” por detrás das ferramentas que utilizam essa tecnologia é “baseado na noção de que fazer arte é um trabalho pesado e entediante, o que simplesmente não é verdade. Na crítica que fez à IA, a designer e animadora sublinhou também que “substituir completamente o processo de criação” faz com que o objetivo de muitos artistas, de terem uma “experiência divertida, emocional e humana”, se perca.

Fazer arte é complicado porque não se trata apenas da produção, também estamos interessados na criação”, justificou a artista em declarações ao site de mercado de arte Artnet News.

As opiniões vincadas de Eva Eskelinen e RJ Palmer não são seguidas por todos os artistas e há quem tenha uma posição mais moderada, apesar de admitir nunca ter tido curiosidade em utilizar a inteligência artificial. Pedro Calapez acredita “no uso das máquinas e dos computadores como ferramentas, como extensões do homem”, mas diz duvidar da forma como a IA consegue ou não integrar memórias “pessoalíssimas” que marcam as “diferenças essenciais” entre a mesma pintura pintada por duas pessoas distintas.

O artista português afirma que é o “controlo consciente e inconsciente que é fundamental na obra de arte” e não se mostra preparado para perder o poder de decisão — nomeadamente se utiliza uma cor vermelha ou uma azul ou se escolhe uma forma geométrica ao invés de uma disforme. Quando está a pintar, Pedro Calapez senta-se e sente aquilo que está a ver, o que considera que não acontece no caso da inteligência artificial onde “não são os olhos do artista que estão a ver a imagem que estão a fazer e que estão a tomar as decisões”.

A autonomização do processo criativo é, precisamente, um dos argumentos dos artistas que não são grandes fãs da inteligência artificial. “Neste momento, eu estou a ver a inteligência artificial como um outro cérebro, um cérebro especial de uma outra pessoa, que seria uma pessoa com um corpo especial e esse cérebro especial. [Mas] e o que é que a faz decidir pintar? Para que é que serve então a sua pintura? Será que o cérebro artificial pensa nessa questão?” são algumas das perguntas colocadas pelo artista, que acredita que existe uma “interação muito pessoal” e “especial e muito inexplicável” quando está a pintar um determinado quadro em detrimento de ser um robô a fazê-lo.

"Neste momento, eu estou a ver a inteligência artificial como um outro cérebro, um cérebro especial de uma outra pessoa, que seria uma pessoa com um corpo especial e esse cérebro especial."
Pedro Calapez

Questionado pelo Observador sobre se o assusta que os programas de inteligência artificial possam vir a tirar-lhe trabalho ou clientes, Pedro Calapez declara ser “indiferente” a esta situação. “Aquilo que eu faço, faço porque sinto uma necessidade imperiosa para fazer e aquilo que eu estou a pintar num quadro é, primeiramente, para mim — não é para os outros”, afirma o artista português que salienta “não é um assunto” se vende mais ou menos quadros. “Eu vendo o que vender”, indicou.

Que universo é que a inteligência artificial me poderia trazer? Neste momento, isso não é assunto porque eu ainda tenho tanta coisa que me deslumbra quando estou a pintar ou a fazer um desenho, que não sinto necessidade de juntar mais uma peça a este sistema”, acrescentou Pedro Calapez, afirmando que se “tivesse mais 100 anos de vida” seria capaz de pensar o que é que a IA vai acrescentar ou de que forma vai interpretar o seu cérebro para a construção de imagens.

Pedro Calapez, "Ensaios Fictícios" — acrílico sobre tela

Pedro Calapez, “Ensaios Fictícios” — acrílico sobre tela

As plataformas que já proíbem arte gerada por IA

Não são unânimes as opiniões quando à utilização da inteligência artificial para gerar arte, mas algumas plataformas já mostraram não ter dúvidas sobre que lado escolher. No mundo da fotografia, o PurplePortwebsite que se designa como a rede de crescimento mais rápida para modelos e fotógrafos freelancers — anunciou a proibição geral de “imagens 100% geradas por máquinas”, com o objetivo de se manter focado em humanos e na arte que por eles é produzida.

Carregar imagens geradas utilizando serviços como Midjourney, DALL-E, o Stable Diffusion, entre outros, onde digitas uma frase ou a descrição da imagem desejada e um algoritmo (geralmente chamado de IA) cria uma imagem por ti” não é permitido “até novo aviso”, avisou Russ Freeman, fotógrafo e proprietário do PurplePort, citado pelo Digital Camera World.

Comunidades de arte online como a Inkblot Art ou a Newgrounds’ Art Portal também anunciaram que peças concebidas com a ‘ajuda’ da inteligência artificial deixaram de ser aceites nos seus sites. Ainda assim, plataformas mais populares, nesse ramo, como a DeviantArt, que se define como a maior comunidade e galeria de arte online, optaram por, para já, não seguir o exemplo e não proibiram as obras feitas com IA.

Mais recentemente, a 21 de setembro, foi a vez da Getty Images deixar de permitir o upload e a venda de imagens geradas através da utilização de programas de inteligência artificial por estar preocupada com possíveis futuras reivindicações de direitos de autor. “Estamos a ser proativos em prol dos nossos clientes”, assegurou Craig Peters. Porém, o CEO da plataforma recusou-se a explicar ao The Verge se já recebeu contestações legais sobre a venda de conteúdo gerado por IA.

Craig Peters afirmou ainda que esse conteúdo era “extremamente limitado na plataforma” e que a empresa pretende, com esta decisão, “evitar riscos” num mundo que está “inundado de imagens”. Não há certezas de como a proibição funcionará na prática, uma vez que atualmente ainda é fácil encontrar imagens feitas com inteligência artificial na Getty Images, como o Observador pôde comprovar.

Questionado sobre se a inteligência artificial era uma ameaça ao sustento de artistas que vendem o seu trabalho na Getty Images, o CEO respondeu que ferramentas que permitam conceber obras de arte são apenas o exemplo mais recente da tecnologia que consegue expandir a quantidade de imagens disponíveis no mundo.

A 'preocupação' com os direitos de autor

Mostrar Esconder

A utilização de inteligência artificial não é necessariamente ilegal. Porém, programas como o Midjourney geram obras de arte utilizando várias imagens que podem estar protegidas por direitos de autor.

É por isso que a Getty Images se mostrou cautelosa, uma vez que teme que tanto a plataforma como os seus clientes sofram repercussões legais por poderem estar a apropriar-se de arte ‘alheia’ e a lucrar com ela.

Em fevereiro, o US Copyright Office determinou que não é possível proteger como propriedade intelectual as obras de arte que tenham sido criadas com recurso a sistemas de inteligência artificial. Assim, a agência dos EUA considerou que a autoria humana é uma condição essencial para ser aceite o registo de um determinado trabalho.

Desta forma, a lei de direitos de autor norte-americana protege, de acordo com o The Verge, “os frutos de um trabalho intelectual” que sejam “fundados pelos poderes criativos de uma mente humana” — e o registo de trabalhos “produzidos por uma máquina ou meros processos mecânicos” não é autorizado.

A “defesa” de quem recorre à inteligência artificial

O debate sobre se a inteligência artificial poderia ou não ser utilizada na arte recebeu muita atenção ao longo das últimas semanas. Os artistas que a utilizam e especialistas da área aproveitaram as críticas para defenderem a utilização da tecnologia. Por exemplo, um artigo de opinião publicado no australiano The Sydney Morning Herald, e assinado por Mike Seymour, especialista em IA, argumentava que, ao contrário dos artistas humanos, a inteligência artificial não tem consciência e não consegue fazer julgamentos criativos. Desta forma, a tecnologia pode representar uma nova forma de explorar uma determinada ideia e não significa, necessariamente, o fim da criatividade.

Por outro lado, no entender de Daniel Rourke, a inteligência artificial é “apenas um conjunto de ferramentas compostas por algoritmos, dados e interfaces”. O professor de media digital na Goldsmiths University, em Londres, afirmou, em declarações ao Artnet, que os “artistas terão um papel importante na estetização da IA” para torná-la “compreensível para um público mais amplo”.

Em Portugal, Leonel Moura deixou, nos anos 1990, a fotografia para passar a dedicar-se à inteligência artificial e arte robótica. Apesar de não conhecer a polémica em volta de Jason M.Allen, o artista português conversou com o Observador para explicar que a IA pode ter várias variantes. A mais comum baseia-se num mecanismo em que são dadas “milhões de informações” à máquina, que depois tem “a capacidade de fazer combinações”.

A inteligência artificial que vemos a fazer pinturas, no fundo o que faz é dar milhões de pinturas que existem à máquina e depois ela cria uma pintura nova a partir dessas que nós lhe demos”, acrescentou.

É numa segunda corrente da inteligência artificial que Leonel Moura se insere: aquela em que o artista não dá nada à máquina. “Eu não dou nada aos meus robôs, eles é que têm de ir buscar informação — por isso é que são robôs, porque andam de um lado para o outro, vivem num ambiente real e têm sensores e vão recolher informação ao ambiente. Por exemplo, quando estão a fazer uma pintura estão sempre a recolher informação da própria pintura. Mas são eles que recolhem, eu não lhes dou nada”, detalhou.

Desta forma, o papel dos artistas deixa de ser criar obras de arte para passar a ser criar artistas ou, neste caso, máquinas  — e mais concretamente robôs: “O artista deixa de ser o criador de obras físicas, de obras virtuais, para passar a criar uma entidade que vai fazer as obras”, disse o artista português, que admitiu que não quer ter controlo sobre as suas obras.

"Eu não faço nada. Os meus robôs é que trabalham."
Leonel Moura

Questionado pelo Observador sobre os argumentos usados pelos artistas que são contra a inteligência artificial, nomeadamente o medo que têm de perder trabalho, Leonel Moura afirma que existem “artistas alemães, espanhóis, portugueses e robóticos. O robótico é mais um. Não tirada nada a ninguém”. “Uma pintura dos meus robôs não tira nada a ninguém. Acrescenta qualquer coisa. É uma nova janela que se abre (…) e, portanto, eu acho que as pessoas não devem ter medo nem da inteligência artificial, nem da robótica criativa”, acrescentou, relembrando que quando a arte abstrata apareceu muitas pessoas achavam que eram só manchas de cor e rabiscos, mas que a mesma foi-se impondo, ao longo do tempo, como uma “nova maneira de ver das coisas”.

O artista português alerta também que “cada vez que aparece um momento inovador na arte há sempre resistências”, mas a “evolução é imparável” e “não há nada a fazer” porque os cidadãos já estão “totalmente mergulhados no digital e na inteligência artificial”.

No final da conversa, quando o Observador perguntou a Leonel Moura se poderia disponibilizar uma obra  para colocar no presente artigo, o artista não quis que existissem dúvidas e respondeu, prontamente, que a peça não era sua. “Eu não faço nada. Os meus robôs é que trabalham”. 

Leonel Moura, 270504, 2004, tinta permanente sobre papel, 195 x 180 cm, coleção Fundação Ullens. Obra realizada por um conjunto de robots da série Artsbot de 2003.

Leonel Moura, 270504, 2004, tinta permanente sobre papel, 195 x 180 cm, coleção Fundação Ullens. Obra realizada por um conjunto de robôs da série Artsbot de 2003

A “revolução” da inteligência artificial na arte

A premissa dos programas de inteligência artificial é simples: é preciso colocar palavras ou frases para receber uma imagem em alguns segundos ou minutos. O método não surgiu só em 2022, mas no último ano e meio, com o surgimento do DALL-E, a qualidade das obras de arte geradas por tecnologia ‘disparou’, de acordo com a Wired.

A tecnologia permite que amadores consigam criar trabalhos complexos com recurso a programas como o Midjourney ou Stable Diffusion. O início da “revolução” da arte foi em junho de 2020, quando a empresa OpenAI criou o GPT-3, um sistema que a partir de poucas palavras consegue escrever um texto completo — desde um relatório a uma história. Em janeiro de 2021, alguns dos programadores do GPT-3 começaram a focar-se em imagens e foi aí que desenvolveram o DALL-E, que recebe este nome em ‘homenagem’ ao artista Salvador Dali e ao robô da Pixar WALL-E.

O DALL-E permitia criar imagens a partir de entradas de texto e, em julho de 2022, recebeu uma versão melhorada: o DALL-E2, que consegue gerar obras altamente detalhadas e realistas a partir de palavras ou frases. O programa da OpenAI é usado por mais de três mil artistas em mais de 118 países e imagens com conteúdo “político”, “chocante”, “sexual” ou de “ódio” são proibidas.

A versão beta do DALL-E2 está disponível para todos, mas é necessário entrar numa lista de espera que está disponível online e através da qual é enviado um convite para que o utilizador comece a gerar as suas imagens. Para entrar na lista de espera são necessários vários dados pessoais como nome, email e profissão — perfis das redes sociais como Twitter, Instagram ou LinkedIn são opcionais. Não é possível estimar quanto tempo demoram os interessados em utilizar o programa a receber o convite, uma vez que existem relatos online (no Reddit, por exemplo) de que pode demorar mais de um mês e outros de que demorou apenas três dias a chegar.

O DALL-E2 foi usado por vários artistas e o feedback dos mesmos foi levado em consideração durante o desenvolvimento deste programa, revelou uma porta-voz da OpenAI, num comunicado citado pela Wired. Quanto à lei dos direitos de autor, que nos EUA não autoriza o registo de trabalhos concebidos por máquinas, Hannah Wong recordou que esta se adaptou às novas tecnologias no passado e que precisará de “fazer o mesmo com o conteúdo gerado por inteligência artificial”.

A versão beta do DALL-E2 está disponível para todos, mas primeiro é necessário entrar numa lista de espera

Desde o lançamento do DALL-E surgiram vários concorrentes, como o Midjourney, o Imagen ou o Stable Diffusion. No caso do primeiro, qualquer pessoa o consegue utilizar — sendo que quando tenta iniciar sessão é redirecionada para a plataforma Discord — para escrever uma frase para que o sistema consiga gerar uma imagem em pouco tempo. Foi com esta tecnologia que Jason M. Allen concebeu “Théâtre D’opéra Spatial”, mas o designer disse que demorou várias horas até chegar ao resultado final.

Por sua vez, o Imagen é o programa que converte texto em imagens da Google. Na perspetiva da empresa, a plataforma consegue produzir resultados muito melhores do que as plataformas concorrentes, “um grau de fotorrealismo sem precedentes e um nível profundo de compreensão da linguagem”. Ainda assim, o Imagen ainda não está disponível para um público vasto, tornando-se complicado verificar as afirmações da tecnológica.

A não disponibilidade do Imagen acontece porque a empresa acredita que o mesmo ainda não é adequado para o uso da população em geral. Segundo o Endgadget, a plataforma contém os “preconceitos e limitações sociais dos grandes modelos de linguagem” e pode representar “estereótipos e representações prejudiciais” da sociedade. A Google disse, assim, que descobertas preliminares indicaram que a IA codifica preconceitos sociais, incluindo, por exemplo, uma tendência de criar imagens de pessoas com tons de pele mais claros ou imagens pornográficas.

Imagen

O Imagen ainda não está disponível para um público amplo

Até agora, os programas de inteligência artificial para conceber arte foram controlados por empresas que o The Verge descreveu como sendo bem financiadas: é o caso da OpenAI e da Google. São tecnológicas, no entender do mesmo site, com muito a perder e, por isso, filtram o acesso a conteúdos e removem imagens que contenham violência, nudez ou rostos realistas.

Nas últimas semanas, o Stable Diffusion poderá ter quebrado esse paradigma. A principal diferença entre este e outros programas de inteligência artificial é o foco no código aberto, com o Stable Diffusion a colocar menos limites à arte que os utilizadores querem conceber. De acordo com a Wired, a versão oficial desta plataforma inclui proteções para evitar imagens com nudez ou sangue, mas como o código completo foi divulgado tornou-se possível que esses limites fossem removidos.

Ficou mais fácil utilizar o Stable Diffusion para gerar imagens violentas ou copiar arte protegida por direitos de autor ou até mesmo para criar imagens que aparentem mostrar um famoso a fazer algo comprometedor, algo que pode dar azo a fake news.

Ao longo do último ano e meio, os programas de inteligência artificial ficaram mais poderosos e as imagens com mais qualidade. Por isso, a Wired noticiou que esta tendência despertou preocupação em torno de potenciais utilizações indevidas da tecnologia, que pode ser aproveitada para, por exemplo, passar mensagens erradas.

Obras de inteligência artificial são expostas um pouco por todo o mundo

Quando Leonel Moura começou a trabalhar com inteligência artificial e robótica, nos anos 1990 e até praticamente há cinco anos, a “resistência do meio artístico era enorme”. Atualmente, as dificuldades em mostrar o seu trabalho já não se verificam e o artista português vai, em conjunto com outros, inaugurar em Riad, na Arábia Saudita, um novo museu totalmente dedicado à inteligência artificial e à arte de base digital.

“Não vai ter obras convencionais. Só vai ter obras de artistas que trabalham com a inteligência artificial e arte de base digital. Isto dá a ideia de como começa a haver um enorme interesse por este tipo de arte, ainda que continue a haver muita resistência, como é evidente”, explicou o artista português ao Observador.

Atualmente, já existem museus com exposições dedicadas à inteligência artificial e, num desses, em Istambul, na Turquia, estiveram em exibição trabalhos de Leonardo Da Vinci conjugados com IA. O português Leonel Moura também tem exposto as obras dos seus robôs um pouco por todo o mundo, o que pode mostrar que a população está cada vez mais disponível para ver obras de arte geradas por tecnologia ou até mesmo para a conceber com recursos aos programas online.

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