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Aos 60 anos, o portuense assume a direção artística daquele que é o projeto ao qual dedicou grande parte da sua vida

Rui Oliveira/Observador

Aos 60 anos, o portuense assume a direção artística daquele que é o projeto ao qual dedicou grande parte da sua vida

Rui Oliveira/Observador

António Jorge Pacheco, diretor artístico da Casa da Música: “Temos de ter a consciência tranquila em relação ao que foi feito” /premium

António Jorge Pacheco está na Casa da Música desde o primeiro dia. Em entrevista, fala dos 15 anos, do apoio estatal, dos efeitos da Covid-19 na reabertura, dia 1, e da polémica com os trabalhadores.

Estudou engenharia civil, mas a paixão pela música falou mais alto. Crítico, melómano e programador, António Jorge Pacheco passou pelo Europarque, em Santa Maria da Feira, e pela Casa das Artes de Famalicão, até abraçar o projeto da Casa da Música à boleia da Porto 2001 – Capital Europeia da Cultura, fruto de um convite do seu amigo de longa data, o pianista Pedro Burmester. Juntos traçaram aquilo que viria a ser a sala de espetáculos, antes mesmo do polémico edifício ser construído na Boavista.

Em 2009, ocupa o cargo de diretor artístico não para deixar uma marca pessoal, mas para dar continuidade ao projeto original que viu nascer, “mantendo toda a sua identidade”. Em entrevista, rejeita rótulos redutores, explica estratégias de programação e de captação de públicos, enaltece o reconhecimento internacional e lamenta os cortes no orçamento disponibilizado pelo Estado desde 2011.

Numa altura em que se comemoram os 15 anos desde a abertura da Casa da Música, e outras datas redondas dos agrupamentos residentes, o ano não poderia ser pior. Além de se viver uma crise pandémica mundial, vários trabalhadores foram dispensados e denunciaram publicamente a falta de condições laborais. Um assunto polémico, longe de estar resolvido, ainda sem esclarecimentos por parte da administração. No entanto, o diretor artístico defende, ainda que em poucas palavras, que há uma “consciência tranquila relativamente ao que foi feito”.

Os desafios são mais do que muitos e as consequências são ainda difíceis de calcular num futuro demasiado incerto. Certa parece ser a sua devoção ao projeto e o entusiasmo em continuar um trabalho “que não está terminado” e “é eterno”. “As dificuldades estão aí, não será altura de abandonar o barco, nem que tivesse o melhor convite do mundo.”

A Casa da Música reabre esta segunda-feira, dia 1 de junho, com menos público, menos músicos em palco e entradas gratuitas, pelo menos durante este mês. O arranque acontece com um concerto da Orquestra Barroca, pelas 19h30, na Sala Suggia.

Reagendar concertos, definir critérios, gerir o capital humano e um orçamento que se prevê mais reduzido são os principais desafios do diretor artístico

Rui Oliveira/Observador

Estudou engenharia, como veio parar ao mundo das artes?
Sim, estudei engenharia civil, mas a música sempre foi uma paixão. Estudei música quando era muito jovem e também por alguma influência familiar. O meu avô paterno era um melómano, sempre que ia lá a casa havia música clássica a tocar, e a minha mãe cantava num coro de ópera aqui no Porto e eu acompanhava os ensaios. Desde muito novo que me habituei a ver a parte de trás dos espetáculos, sempre me fascinou o mundo da música e da ópera em particular. Depois comecei a estudar por mim, a ler a história da música e a ouvir muita coisa, sempre tive esse gosto. O facto de ter ido para engenheira civil ajudou-me na posição que tenho hoje, que é muito de gestão. Um diretor artístico, ao contrário do que as pessoas pensam, não é apenas um programador que escolhe as obras e os artistas, é muito mais do que isso.

O que engloba?
Tenho que gerir uma equipa de 150 pessoas, faço o orçamento anual da programação e ter alguma facilidade em lidar com números ajuda. A engenharia nunca foi algo que me interessasse muito como profissão, por isso fiz outras coisas. Escrevi dois livros, fui crítico de ópera e teatro, dei aulas de italiano e de matemática, fiz traduções. Em 1995 abriu um lugar de programador para o Europarque, em Santa Maria da Feira, concorri, fui a uma entrevista e contrataram-me logo. Depois em 1999 fui convidado a integrar a programação musical da Porto 2001 — Capital Europeia da Cultura e mantive-me no Europarque dois anos como consultor. Fui também consultor da Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão e houve uma altura em que acumulei as três funções. Não tinha horas, não tinha férias, trabalhava até às 3h da manhã, foi muito intenso.

Que projeto era este da Casa da Música?
O projeto foi inicialmente pensado pelo Pedro Burmester, de quem eu já era amigo há muitos anos. Na altura, ele convidou-me para integrar uma equipa de quatro pessoas que tinha como missão pensar o que iria ser a Casa da Música. Preparámos uma espécie de cadernos de encargos das necessidades, que tipo de salas precisávamos, qual o projeto artístico que queríamos desenvolver, tudo para depois os arquitetos, escolhidos através de um concurso internacional, soubessem aquilo que o cliente queria e precisava. Foi com base nesse documento que elaboramos que depois se construiu o edifício.

Isso não é, de facto, muito comum.
Sim, é raro acontecer. Normalmente um investimento público destes é feito por uma decisão política, aqui não foi o caso, o que acabou por ser um bom exemplo. Primeiro constrói-se e depois pensasse no que se vai lá fazer. Aqui não, estava muito claro o que iríamos fazer e o que era necessário.

O que era necessário fazer?
Desde logo dar um lar à Orquestra do Porto, que era do Estado. Até outubro de 2000 a orquestra tinha 50 e poucos músicos e tivemos que persuadir o Governo para termos uma sala de concertos. Era necessária uma orquestra de dimensão sinfónica, pois havia muito reportório que ficava automaticamente excluído. Felizmente o Governo atendeu a esse pedido, a orquestra foi ampliada para 94 músicos, foi salto enorme e uma decisão política importante. A 1 outubro de 2000 deu o seu primeiro concerto numa dimensão sinfónica e era preciso uma casa e espaços de ensaio dignos. No entanto, sempre pensamos que a Casa da Música não era só a orquestra, era muito mais do que isso. O nosso trabalho foi no sentido de tentar identificar lacunas e fazer um diagnóstico daquilo que era a vida musical na cidade e no país.

Que lacunas conseguiram identificar nessa altura?
A primeira era ter uma orquestra que pudesse ter uma temporada verdadeiramente sinfónica ao nível do que se faz nas melhores salas europeias, esse foi o primeiro passo. Identificamos que fazia falta um agrupamento dedicado à interpretação da música mais contemporânea e aí nasceu o Remix Essemble, com cerca de 15 músicos para o qual existe um reportório muito especifico. No fundo, é uma redução de uma orquestra sinfónica aos solistas, eles representam todos os instrumentos. Abrimos audições internacionais no início de 2000, pretendíamos criar um grupo de nível internacional e conseguimos. Outra lacuna que identificámos foi a falta de um equipamento especializado na interpretação de música barroca, que tem especificidades técnicas. Em 2006, demos outro passo e criámos uma orquestra barroca com 17 músicos.

Finalmente fazia falta no Porto um coro profissional. Havia grupos amadores na cidade, ou seja, pessoas que não sabem ler música, mas que gostam de cantar, o que é ótimo, mas precisávamos de um grupo profissional com formação musical, que pudesse acompanhar a orquestra sinfónica e a orquestra barroca. Só em 2009 é que criamos este coro, tem um núcleo com 18 cantores e é o grupo que tem um espectro histórico mais largo, porque podem cantar música da idade média, passando pela barroca até à contemporânea. Em 2017 criámos também um coro infantil, que tem também uma função social, uma vez que atuamos em zonas socialmente deprimidas. Temos, assim, quatro agrupamentos residentes na Casa da Música com os quais podemos praticamente toda a história da música ocidental, desde a idade média até à contemporânea.

"A maior parte da história da Casa da Música foi vivida com muito menos do que foi prometido e lavrado. Eu como diretor artístico tive muito pouco tempo para conduzir o automóvel com o depósito cheio, capaz de programar como uma sala destas tem de ser programada, a dois ou três anos de antecipação."

Ainda existe o rótulo de esta ser a casa da música clássica e mais erudita?
Isso não corresponde à realidade, basta folhear a nossas agendas mensais e verificará que não é assim. Continua a existir uma grande diversidade de géneros, temos, por exemplo, um ciclo de jazz anual, que é outra inovação. Havia a norte festivais de jazz, mas eram eventos de curta duração, não havia uma oferta regular. Às terças feiras, na sala 2, temos o ciclo de novos valores com jazz, fado e guitarra portuguesa, tudo isso está na nossa grelha.

Mesmo assim, há géneros pouco visíveis.
A partir de 2012, ano em que tivermos o corte de 30% da parte do Estado, com menos 3 milhões no orçamento, tivemos que nos reinventar e a opção não foi dar menos importância à música não erudita, mas proteger os agrupamentos residentes.

Como assim?
Quisemos manter e proteger o tipo de grupos musicais para os quais o mercado só por si não tem resposta. Cada vez mais há promotores privados a trazer à Casa da Música artistas de outros géneros, do pop rock à world music. Se reduzirmos a nossa atividade nessa área, esse tipo de música não deixa de existir, há um mercado próprio para ela. Por outro lado, se interrompermos a atividade da orquestra sinfónica seria um desastre, jamais se poderia retomar, não haveria ninguém para tomar essa posição. Apostamos sobretudo naquilo que o mercado não está em condições de promover porque, de facto, não é rentável. Manter uma orquestra sinfónica é muito caro, ou se tem ou não se tem, e nós queremos tê-la, faz parte dos estatutos da própria fundação. Criámos também espaço no nosso café onde duas vezes por semanas, ao longo de todo o ano, damos palco e visibilidade a novos projetos, músicos que se juntam e estão a começar, que não têm um álbum, um agente ou um mercado. A partir de 2012 tivemos que mudar o paradigma da forma como programávamos a música não clássica. Fizemos acordos com promotores de artistas de outros géneros que são compatíveis com o perfil e com a filosofia da nossa programação, por serem estimulantes e interessantes, e criámos condições muito especiais para a utilização ou aluguer da sala.

A par do corte do orçamento disponibilizado pelo Estado a partir de 2011, o que abrigou a grandes sacrifícios, este é "o pior momento" que o profissional viveu na Casa

Rui Oliveira/Observador

Antes disso, em 2009, torna-se diretor artístico. Foi a ordem natural das coisas?
Sempre fui uma espécie de diretor artístico adjunto do Pedro Burmester, que se viu obrigado a sair em 2003 no meio de uma situação de grande polémica [com o então autarca do Porto, Rui Rio]. A Casa abriu com um outro diretor artístico, um senhor inglês que se foi buscar ao mercado, mas que acabou por não durar muito tempo. É difícil chegar a uma sala em Londres ou em Paris e programar sem conhecer o contexto social, vir de fora com conceitos abstratos e tentar reproduzir o que se faz noutras salas. Não seria fácil reproduzir numa instituição lisboeta o nosso género e a nossa filosofia de programação. A programação tem de ter uma ligação à energia, às dinâmicas da cidade e da região, cada projeto é único e não necessariamente reproduzível noutro sítio. Sempre tive sempre em grande sintonia com o Pedro, mas não somos iguais. Nunca estive empenhado em deixar uma marca pessoal, não é isso que me interessa. Procurei dar continuidade ao projeto pensado de origem.

Que filosofia de programação é essa?
A ambição de interpretar a música ao mais alto nível artístico e técnico, o que não é incompatível com outro tipo de atividades mais amadoras, em que não é o resultado que interessa, mas sim o processo. São duas vertentes da nossa ação que se complementam. Por outro lado, ter uma diversidade de géneros musicais com limites que são muito subjetivos.

Limites que impedem o comercial e a música de massas?
Pois, aí começa o problema do que é ou não comercial. A linha, por vezes, é muito fina.

Mas há critérios?
Com a evolução do mercado a seleção tornou-se mais fácil. Há um certo tipo de artistas que já estão numa escala em que tocam em espaços para 50 mil pessoas, por isso nem é rentável virem a uma sala com 1200 lugares. Têm o seu próprio circuito e não devemos estar a competir e a concorrer com esse universo. A nossa intervenção é num tipo de música que está a despontar, projetos novos que nenhum promotor ainda quer pegar, porque, efetivamente, há riscos. Faz sentido o financiamento público para podermos correr riscos, tanto nas encomendas que fazemos a compositores nacionais e internacionais como ao dar a oportunidade a pessoas que ainda não estão com uma carreira firmada. Não estamos a falar de música de massas, o nosso papel é estar sempre a estimular a criação artística, está no nosso ADN. No meu ponto de vista, através da fundação da Casa,  o subsidio do Estado está a subsidiar o público, ou seja, se eu fosse a aplicar o preço do bilhete unitário, dividindo pelo número de lugares, o custo real de cada concerto da orquestra sinfónica daria 70 ou 80 euros por bilhete. Pergunto se as pessoas que vivem no Porto, tirando uma ínfima minoria, teriam acesso à Casa da Música? Não teriam. O subsídio é canalizado para proporcionar às pessoas que não têm esse poder de compra e que têm todo o direito em usufruir de um concerto de uma orquestra ou de uma grande pianista internacional. Usamos esse dinheiro para beneficiar o público e democratizar o acesso à música. No fundo, estamos a devolver às pessoas aquilo que elas já pagaram nos seus impostos.

"Quem tem que falar desse lado institucional é a administração, seria uma falta de cortesia, e até de lealdade, da minha parte falar sobre o assunto. Não é como cidadão que estou a falar consigo, se fosse seria uma caso diferente, seria livre de dar a minha opinião, mas como diretor artístico da Casa tenho obrigação de não fazer nenhum comentário."

De que forma é que a criação de uma fundação em 2006 foi vantajosa para o projeto?
Quando abrimos, em 2005, o único financiador era o Estado e atribuía cerca de 10 milhões para contratarmos uma equipa e termos uma programação. Além disso, o Estado ainda tinha uma orquestra sinfónica, pela qual era responsável, cujo custo anual rondava os 4 milhões, ou seja, no total tinha um encargo de 14 milhões de euros, o que é pesado. Quando se criou a fundação, o Estado comprometeu-se a financiar a Casa da Música em 10 milhões, sendo que os fundadores privados e os patrocinadores cobriam o resto do investimento que era necessário.

A autarquia do Porto também já integrava essas contribuições?
Sim, foi membro do conselho de fundadores desde o início. Aliás, nos estatutos está também a Área Metropolitana do Porto, mas isso nunca foi conseguido.

Era benéfico que isso acontecesse?
Acho que sim, a Casa da Música é uma âncora da região. Não se pode ter num país pequeno, e que não é rico, um equipamento cultural desta dimensão no Porto, em Braga, em Guimarães e em Bragança. É bom que haja nessas cidades teatros municipais e polos culturais, mas à escala de cada cidade. Faz sentido que a Casa da Música abranja pelo menos a Área Metropolitana do Porto. Somos uma instituição nacional porque vamos com os nossos agrupamentos a todo o país, desde Faro, Castelo Branco, Lisboa, Coimbra, Viana do Castelo. É essa a nossa natureza, a nossa vontade e a nossa missão.

O Porto mudou muito nos 15 últimos anos. Isso também influenciou a oferta da Casa da Música?
Sim, estamos atentos a esses fatores mais sociológicos. Por exemplo, passou a existirem muitos mais turistas.

Disse numa entrevista que não trabalha para os turistas. Mantém essa ideia?
Não é que não me interessem os turistas, não me interessa é fazer programação para inglês ver como acontece em algumas cidades. Se for a Veneza, por exemplo, não há dia nenhum em que não seja tocado em algum espaço as “Quatro Estações” de Vivaldi. Aquilo é para turista, nem sequer tem grande nível musical. Queremos que os turistas venham reconhecendo que temos a nossa identidade e que seja isso que os atraia. Não vamos fazer concertos de qualidade duvidosa para agradar a turistas. A nossa missão é trabalhar para a nossa comunidade, é ela quem paga os impostos e quem permite que existamos.

Mas há um reconhecimento internacional da Casa da Música, ou não?
Claro que há um reconhecimento da originalidade e identidade da Casa, não quer dizer que isso seja reconhecido de forma massificada, até porque não fazemos campanhas agressivas, não temos meios. A palavra passa e quando as pessoas vêm ao Porto, vêm cá. É impossível não virem. Antes da pandemia, mesmo fora da época alta, cerca de 18% da sala eram turistas, é um número impressionante e muito significativo. Fruto desse reconhecimento internacional é que em 2011 fui convidado a aderir à ECHO (European Concert Hall Organization), que é a principal associação das salas mais prestigiadas na Europa. Somos uns 20, é um grupo bastante reduzido, tendo em conta que há centenas de salas. Não terá sido por acaso que há três anos, quando houve eleições para a comissão executiva, fui eleito por unanimidade. Há um reconhecimento internacional e não é pelos meus belos olhos azuis, que por acaso são castanhos, que a Casa da Música está presente nessas redes de topo.

A Casa da Música foi projetada pelo arquitecto holandês Rem Koolhaas e ficou concluída quatro anos após o previsto

JOSÉ COELHO/LUSA

É fácil gerir o orçamento que tem disponível?
É um desafio, há muitas mais coisas que gostaríamos de fazer, mas temos que ser realistas. Trabalho com orçamento que tenho e tento fazer o melhor possível, mantendo a nossa identidade. Em alturas mais difíceis e com orçamentos mais pequenos, seria tentado desvirtuar o projeto e começar a ir por uma via mais populista, no sentido de repetir reportório de sucesso garantido, mas estaríamos sempre a trabalhar para os mesmos. Não queremos isso, nunca quisemos, Uma das vantagens de sermos umas instituição jovem é que criamos no Porto novos hábitos, educamos o público a estar aberto e a ouvir outro tipo de musicas, que provavelmente nunca ouviria se não fossemos nós a proporcionar essa primeira vez.

Considera um orçamento suficiente?
Nos primeiros anos, com os 10 milhões do Estado e o equilíbrio de receitas próprias e a contribuição de mecenas e patrocinadores, tínhamos um orçamento anual de cerca de 16 milhões. À nossa escala, dá para manter o projeto tal como ele foi pensado, ter um nível de qualidade, garantir o emprego das pessoas, a sustentabilidade e perpetuidade do projeto.

Na prática, isso nem sempre aconteceu.
O problema é que nestes 15 anos tivemos os 10 milhões do Estado durante poucos anos. Em 2011 houve um corte de 15% e de 2012 a 2016 um corte de 30%. A maior parte da história da Casa da Música da Música foi vivida com muito menos do que foi prometido e lavrado. Eu como diretor artístico tive muito pouco tempo para conduzir o automóvel com o depósito cheio, capaz de programar como uma sala destas tem de ser programada, a dois ou três anos de antecipação. Felizmente, desde 2017 que há uma reversão desse corte gradual, de 600 mil euros por ano. É um grande esforço por parte do Governo, que tem cumprido.

Em 2020, ao contrário de todas as expectativas, volta a ter o depósito vazio.
O Orçamento do Estado voltou a decidir pela regressão do corte, mas esta crise vai ter um impacto enorme. Ainda não sabemos calcular qual, porque não sabemos quanto tempo isto ira durar. Não temos uma noção das consequências reais, temos cenários construídos, mas a redução drástica de todo o tipo de receitas comercias, bilheteiras, alugares de espaços, restauração. Enfim, tudo o que era gerado pela atividade artística da Casa da Música que dava receitas e está a zero desde meados de março.

"Apostamos sobretudo naquilo que o mercado não está em condições de promover porque, de facto, não é rentável. Manter uma orquestra sinfónica é muito caro, ou se tem ou não se tem, e nós queremos tê-la, faz parte dos estatutos da própria fundação."

Foram obrigados a cancelar a programação até ao fim do ano?
Temos a programação feita, anunciada e contratada até ao fim do ano, aliás, já estamos a trabalhar em 2021. O problema é que não sei o que vai acontecer em setembro, ninguém sabe. Em princípio, a programação de julho iremos manter, não mudando as regras, neste tipo de formato, com menos músicos e menos público. Como houve uma série de artistas que tiveram os seus concertos cancelados desde março, estamos a tentar reagendar o máximo de espetáculos para que não haja perda. O que fizemos foi tentar manter ao máximo os compromissos que tínhamos, nomeadamente com os maestros que iam tocar em junho. Em alguns casos foi difícil porque mediante as políticas do país respetivo, havia casos que se colocava a hipótese de terem de ficar em quarentena, o que seria muito complicado. O maestro titular da sinfónica, o Baldur Brönnimann, vive em Madrid e neste momento não há voos para Espanha, então, tivemos que arranjar uma alternativa por terra. Ele não conduz, por isso vai ter que fazer um percurso louco de comboio até Santiago de Compostela, há um músico que vem de lá e consegue dar-lhe boleia, como têm contrato podem passar a fronteira. Vamos ter que inventar. Tentamos manter os compromissos que tínhamos com esses maestros, reformulando a programação toda, mas não é possível fazer o que tínhamos pensado com o palco cheio. Temos restrições que nos obrigam a fazer outro tipo de reportório com formações mais pequenas, com o máximo de 32 músicos.

Vai ser o número máximo de pessoas no palco?
Sim, vai ser um grande desafio para as orquestras e para o próprio maestro. Tínhamos definido dois metros de distância, mas o Ministério da Cultura comunicou medidas ligeiramente menos restritivas e diz 1,50 metros para os músicos de cordas e 2 metros para os músicos de sopros. Podemos reduzir a distância, mas fá-lo-emos sempre em diálogo com os músicos, para que se sintam seguros.

O que mudará mais na vossa rotina?
Vamos ter regras na circulação muito bem definidas para evitar o cruzamento de músicos que vão para o palco, de técnicos, do público e do pessoal administrativo. Vamos criar zonas completamente separadas. As pessoas serão higienizadas à entrada no serviço, assim como o público desinfetará as mãos à entrada e o uso de máscara será obrigatório.

Os músicos terão que tocar de máscara?
Durante os ensaios é recomendado que sim, mas durante o espetáculo não são obrigados. Admito que haja um ou outro que não se sinta seguro e queira usar, apesar de não ser muito bonito devemos dar prioridade a coisas mais importantes. Queremos é que eles se sintam à vontade para regressarem à Casa.

Para António Jorge Pacheco, a Área Metropolitana do Porto devia integrar o conselho de fundadores da Casa da Música, criado em janeiro de 2006

Rui Oliveira/Observador

Nas últimas semanas são várias as denúncias e as críticas às condições laborais vividas na Casa da Música. Tem alguma posição sobre este assunto?
Como diretor artístico estou presente em todas as reuniões mensais do conselho de administração, temos uma gestão transparente, debatemos tudo, temos voz e somos ouvidos, o que não quer dizer que vingue sempre a nossa opinião, até porque é a administração quem tem que decidir em último lugar. Sei exatamente o que se passa e o que se passou, tenho uma opinião sobre isso, mas acho que não a devo dizer. Quem tem que falar desse lado institucional é a administração, seria uma falta de cortesia, e até de lealdade, da minha parte falar sobre o assunto. Não é como cidadão que estou a falar consigo, se fosse seria uma caso diferente, seria livre de dar a minha opinião, mas como diretor artístico da Casa tenho obrigação de não fazer nenhum comentário. Quando o conselho de administração entender que deve comentar fá-lo-á, mas não me compete a mim fazê-lo.

Não tem receio que este mau momento contamine ou fragilize o funcionamento da Casa ou até mesmo o olhar do público?
O tempo dirá. Não quero falar deste assunto, acho que temos de estar de consciência tranquila em relação aquilo que foi feito. É público que há uma inspeção da Autoridade para as Condições de Trabalho, fornecemos todos os documentos necessários.

A abertura desse inquérito surpreendeu-o?
Não, quando há este ‘sururu’ público, é normal e não há problema nenhum nisso.

Mas é um ‘sururu’ justificado? Não há uma precariedade excessiva numa casa financiada pelo Estado?
Não vou responder. Veremos depois.

Essa ausência de contraditório não condicionará a opinião pública?
Era melhor que não tivesse existido a Covid-19 e continuássemos a nossa vida normal, mas faz parte da vida das instituições. Quando o conselho de administração achar que é o tempo certo de se esclarecer tudo, assim e o fará. Não sou que decido isso.

Por si já estaria tudo esclarecido?
Tudo tem o seu tempo. Quem delineia essa estratégia não sou eu, quando chegar a altura certa, com certeza que irá ser prestada toda a informação necessária para que se esclareça o que realmente se passa.

"Sempre tive sempre em grande sintonia com o Pedro [Burmester], mas não somos iguais. Nunca estive empenhado em deixar uma marca pessoal, não é isso que me interessa. Procurei dar continuidade ao projeto pensado de origem."

O que foi mais difícil nestes dois meses de teletrabalho?
As pessoas não estiveram paradas, as equipas continuaram ativas por videoconferência todos os dias, aliás há pessoas que estão a trabalhar ate mais do que o habitual. O desafio foi adotar um tipo comunicação mais exigente, mais cansativo, com reuniões longas. Foi importante, sobretudo manter a moral de uma equipa que foi forçada a trabalhar em casa. O isolamento é duro, estamos todos habituados ao convívio diário e é isso que nos faz falta. Pessoalmente, o convívio com os músicos, os maestros e os artistas de fora é algo que faz parte da minha vida, que me enriquece imenso e sinto imenso falta dessa troca, de ir aos ensaios, de me cruzar com pessoas. Tudo isso faz parte do dia a dia e estamos privados disso. É duro.

Qual é o lado bom de se trabalhar há tantos anos no mesmo sítio?
O nosso objetivo é atingir a excelência dos nossos agrupamentos residentes e isso é um trabalho praticamente interminável. A excelência é como um horizonte, quanto mais andamos em direção a ele mais ele se vai afastando de nós. Há um caminho a percorrer em direção aquilo que queremos que seja o grande nível dos nossos grupos. É isso que me motiva, pensar num reportório de forma a proporcionar uma experiência cada vez mais rica. Promover uma relação próxima com os compositores vivos é um aspeto que nos orgulha. Não há praticamente um compositor europeu com uma maior projeção internacional que não tenha vindo aqui. Isso para nós é um orgulho enorme.

Que nome ainda gostaria de ver na Casa da Música?
Os que mais queria ver infelizmente já faleceram, não posso tê-los. Onde marcamos mais a diferença em relação a outro tipo de salas é a atitude que temos para com os criadores, é uma marca da nossa identidade reconhecida internacionalmente. Não há nada melhor do que ter o próprio compositor a passar a mensagem daquilo que cria e de como quer que aquele instrumento soe naquele momento. É muito enriquecedor para os músicos, pois têm ali a fonte. Imagine termos aqui o Beethoven a assistir a um concerto e os músicos poderem falar com ele? Seria extraordinário. Há os Beethovens dos nossos dias, que estão vivos, e são esses que queremos cá. Também portugueses e jovens, aliás todos os anos há um jovem residente aqui na Casa que é português.

A aposta na música e no talento nacional irá continuar e solidificar-se?
Faz parte daquilo que é a nossa identidade, apoiar os jovens valores e dar-lhes palco. É evidente que não somos o Ministério da Cultura, não podemos resolver os problemas todos da vida musical portuguesa do passado, do presente do futuro. Temos que dar a nossa contribuição e bom era que houvessem mais instituições a fazê-lo. Aí teríamos uma rede em todo o país que daria a esses jovens artistas uma carreira decente para poderem viver e sobreviver da sua arte. Tocar um  instrumento a alto nível é como um atleta de alta competição, não é tirar o curso e acabou, é o estudo diário. Há músicos que não largam o instrumento e tocam horas para se manterem em pico de forma. É muito exigente ser músico profissional e às vezes a compensação não é proporcional, mas um músico também tem que perceber que escolheu aquela profissão porque é a sua paixão e se quisesse ganhar muito mais dinheiro iria para outra atividade, trabalhar para uma empresa ou ser gestor.

Mas em Portugal é especialmente difícil vingar na profissão.
Já foi mais, não quer dizer que seja fácil, mas há mais opções. É verdade que há muitos que estudam cá, mas depois vão lá para fora e ficam porque têm mérito. Talvez um dia possam voltar e devolver ao país aquilo que o país investiu neles e na sua formação básica.

A Sala Suggia, o espaço principal da Casa, é assim baptizada em homenagem à violoncelista portuense Guilhermina Suggia

Rui Oliveira/Observador

Vê-se na Casa da Música por mais 15 anos ou tem vontade de abraçar outros projetos?
Sinto que há um trabalho que ainda não está terminado e novos desafios que se colocam. Nunca procurei outros projetos, mas já fui sondado por outras instituições, portuguesas e estrangeiras. Não vou dizer quais, para não ser indelicado. Este é, de facto, o projeto ao qual dediquei grande parte da minha vida, sou apaixonado por ele e tenho uma equipa fantástica com quem adoro trabalhar. Sinto esse dever, sobretudo agora nesta crise. As dificuldades estão aí, não será a altura de abandonar o barco, nem que tivesse o melhor convite do mundo. Não sei quanto tempo vou continuar, pode ser mais um, dois anos ou mais, depende de vários fatores e não depende só de mim. Acho que ainda há um trabalho a fazer e ele é eterno, mas eu não vou ser eterno.

Este é o momento mais difícil que viveu aqui?
É, sem dúvida. Sobretudo pela questão artística de termos pensado uma temporada muito boa com projetos interessantes e novas obras. Sonhamos com esta programação e envolvemo-nos muito. Isso cria uma ligação afetiva e a grande recompensa é ver o resultado final, estar sentado na sala e ver aquilo idealizamos há dois ou três anos e concretizar.

Há, agora, uma frustração inerente a isso?
Há frustração, tristeza e um sentimento de impotência perante algo que não podemos controlar. Sim, a frustração é enorme.

Consegue perspetivar o futuro? É uma pessoa otimista?
Sim, penso que sou uma pessoa otimista, caso contrário não poderia estar neste cargo. Esperamos que isto dure o menos tempo possível e a razão não é só pela Casa da Música, mas sim pela saúde pública das pessoas e para que todos possamos voltar ao normal.

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