António, o santo casamenteiro que chegou a general

12 Junho 20161.260

Casamenteiro e amigo dos namorados, Santo António é um dos santos favoritos dos portugueses. Mas o que poucos sabem é que à função de padroeiro juntou uma outra - a de general do Exército Português.

Apesar de muito acarinhado pelos lisboetas que, todos os anos, celebram uma festa em seu nome, Santo António é também um dos santos favoritos dos portugueses e um dos mais populares da Igreja Católica. Desde 1934 que é padroeiro de Portugal, juntamente com a Imaculada Conceição, de acordo com o designado pelo Papa Pio XI. Mas os títulos atribuídos ao santo lisboeta não se ficam por aqui.

Padroeiro da cidade de Lisboa, título que partilha (e disputa) com São Vicente, Santo António tem ainda sob a sua alçada os barqueiros, os marinheiros, os náufragos, os viajantes, os velhos, os pobres e oprimidos, as solteiras, as grávidas, as estéreis e os namorados. Venerado em Portugal, mas também no estrangeiro, a popularidade do santo é tal que todos o querem para si. Santo António de Pádua em Itália e Santo António de Lisboa em Portugal, foi preciso que o Papa Leão XIII lhe chamasse “o santo de todo o mundo” para resolver a questão. Afinal, é preciso não esquecer que António não é de ninguém — é de todos.

Às funções de santo e padroeiro, Santo António conseguiu ainda acumular uma carreira militar de sucesso, pela qual recebeu inúmeras distinções e medalhas. Tornou-se soldado durante a Guerra da Restauração, foi subindo de posto e lutou junto ao Regimento de Infantaria n.º 19 durante as invasões francesas. No Brasil, ajudou a afastar os holandeses da costa e em Espanha a conquistar territórios no norte de África. Na paz ou na guerra, Santo António sempre foi uma fonte de consolo e de força para aqueles que o procuravam.

Um santo muito lisboeta

Santo António — ou melhor, Fernando de Bulhões — nasceu em Lisboa por volta de 1191, no local onde foi depois construída a Igreja de Santo António, junto à Sé, no seio de uma família da pequena nobreza. Foi ao pé de casa que iniciou os estudos, com os cónegos da Sé de Lisboa, ingressando depois aos 18 anos como noviço na Ordem dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, no Mosteiro de São Vicente de Fora.

Aos 20 anos, transitou para o Mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra, onde se dedicou ao estudo da Filosofia, Teologia e Direito Canónico, até que, em 1220, decidiu abraçar o espírito da evangelização. Inspirado pelo martírio de cinco franciscanos decapitados em Marrocos, cujos restos mortais foram transladados nesse ano para Coimbra, decidiu abandonar a regra de Santo Agostinho e ingressar na Ordem de São Francisco, mudando-se então para o Convento de Santo Atão dos Olivais onde adotou o nome de António em homenagem ao eremita.

O nome latino de Atão é Antonius e, por esse motivo, em algumas traduções o eremita surge como António.

Partiu no mesmo ano para Marrocos, para pregar as escrituras. Mais tarde, mudou-se para Itália, para onde foi desviado por uma tempestade durante a viagem de regresso a Portugal. Em terras italianas, distinguiu-se como exímio orador e pregador, ganhando ama de santo e de sábio. Conhecido pela eloquência e caridade para com os pobres, começou a reunir à sua volta multidões, que se sentavam ao pé do santo para o ouvir falar.

Foi em Itália, em Arcela, junto de Pádua, que morreu a 13 de junho de 1231. O seu corpo foi sepultado na Igreja de Santa Maria Mater Domini, em Pádua, que depressa se tornou centro de peregrinação. Os primeiros milagres não tardaram a aparecer e, por esse motivo, António foi canonizado em tempo recorde, menos de um ano depois da sua morte.

A cerimónia de canonização aconteceu a 30 de maio de 1232, e foi levada a cabo pelo Papa Gregório IX. Em 1946, Santo António foi proclamado Doutor da Igreja, com o título de Doutor Evangélico, pelo Papa Pio XII. Apesar de o título só ter vindo 700 depois da sua morte, “Santo António sempre foi tratado como Doutor da Igreja“, explicou ao Observador Pedro Teotónio Pereira, diretor do Museu de Lisboa — Santo António.

Santo António, padroeiro de todos

Apesar ser conhecido como padroeiro da cidade de Lisboa (juntamente com São Vicente), a lista de títulos atribuídos a Santo António é muito maior.

Padroeiro dos barqueiros, dos náufragos e dos marinheiros, partilha o título de padroeiro de Portugal com a Imaculada Conceição. É também padroeiro dos viajantes, dos velhos, dos pobres e oprimidos, das solteiras, das grávidas e das estéreis, dos namorados e do casamento.

É o protetor dos lares, da família, da pureza e é ainda advogado das almas do purgatório. É invocado sempre que um objeto é perdido ou para ajudar a encontrar pessoas desaparecidas ou emprego. Doutor da Igreja desde 1946, é um dos santos mais populares da Igreja Católica. A ele pedem ainda auxilio os que sofrem de problemas financeiros.

Na data da sua morte, 13 de junho, celebra-se todos os anos o dia de Santo António, feriado municipal em Lisboa e ponto alto das festas da cidade.

O soldado António

A carreira militar de Santo António começou cerca de 400 anos depois da sua morte, em meados do século XVII. De acordo com Isabel Dâmaso dos Santos, especialista em Santo António e autora do texto sobre a faceta militar do santo que se encontra no guia oficial do museu lisboeta, foi a partir dessa altura que “deu início à tradição” de lhe atribuir “um papel de relevo no campo militar”. Ao longo dos séculos seguintes, este foi sendo distinguindo com várias promoções que lhe permitiram ascender a diferentes postos dentro da hierarquia militar, que nem sempre respeitavam a ordem instituída.

A primeira referência à entrada do santo para o Exército Português data de 1623, numa altura em que Portugal estava nas mãos da dinastia filipina, de Espanha. Apesar disso, Isabel Dâmaso dos Santos defende que só se pode considerar 1665 como a data do início da carreira militar de Santo António, uma vez que foi nesse ano que o rei D. Afonso VI ordenou que o santo “fosse alistado no exército, como seu patrono” e que “assentasse praça como soldado” e lhe fosse pago o respetivo soldo”.

Santo António começou por assentar praça no Terço da Câmara de Lisboa, pouco tempo antes de 17 de junho de 1665, data em que foi travada a Batalha de Montes Claros, entre portugueses e espanhóis. Foi, aliás, durante os confrontos entre Portugal e Espanha, durante e depois da Restauração da Independência, que o santo começou a destacar-se enquanto protetor das forças portuguesas. Entre os soldados, começou a surgir a crença de que a presença da sua imagem em batalha redobrava a sua força e confiança. “Era uma época muito insegura e de grandes perigos, e Santo António era uma fonte de consolo”, salientou Pedro Teotónio Pereira.

A primeira promoção do soldado António aconteceu depois da Guerra da Restauração. Como reconhecimento pelas vitórias alcançadas frente aos espanhóis, D. Pedro II ordenou que o santo fosse integrado no Regimento de Infantaria n.º 2 de Lagos. À entrada para o regimento, em finais de janeiro de 1668, seguiu-se em 1733 a promoção a capitão. O santo começou então a receber um soldo de dez mil réis, conforme uma carta régia emitida por D. João V. Mais tarde, o capitão António foi aumentado, passando a recebeu 15 mil réis mensais.

Livro de vencimento II-2-6

Livro de Registos do Regimento de Infantaria n.º 2 de Lagos, onde está registado o pagamento mensal do soldo a Santo António

Em 1777, o major Hércules António Carlos Luís Joseph Maria de Albuquerque e Araújo de Magalhães Homem, do Regimento de Lagos, homem com um nome que fazia jus ao cargo que ocupava, entregou a D. Maria I uma petição em que pedia que Santo António fosse promovido ao posto de major tendo em conta o seu desempenho militar exemplar.

“Durante todo o tempo, em que tem sido capitão, vai quase para cem anos, constantemente cumpriu seu dever com o maior prazer à frente de sua companhia, em todas as ocasiões, em paz e em guerra, e tal que tem sido visto por seus soldados vezes sem número, como eles todos estão prontos para testemunhar: e em tudo o mais tem-se comportado sempre como fidalgo e oficial”, escreveu Magalhães Homem à rainha, citado pelo general Kaúlza de Arriaga num artigo publicado na revista A Esfera, 1944, explicando ser “por todos estes motivos” que o considerava “muito digno e merecedor do posto de major” ou de “quaisquer outras honras, graças ou favores que aprouver a S.M. conferir-lhe”.

Na petição enviar a D. Maria, o major do Regimento de Lagos fez ainda questão de certificar que não existia “alguma nota relativa a Santo António, de mau comportamento ou irregularidade praticada por ele: nem de ter sido em tempo algum açoitado, preso, ou de qualquer modo punido durante o tempo que serviu como soldado raso no regimento”.

"Certifico que não existe alguma nota relativa a Santo António, de mau comportamento ou irregularidade praticada por ele: nem de ter sido em tempo algum açoitado, preso, ou de qualquer modo punido."
Major Magalhães Homem, do Regimento de Infantaria de Lagos, em carta a D. Maria I

Apesar dos apelos de Magalhães Homem, a promoção a major nunca chegou a acontecer. Em vez disso, o santo foi promovido três anos depois ao posto de oficial-general.

Santo António contra Napoleão Bonaparte

No século XIX, o culto a Santo António Militar foi trazido de Lagos para Cascais, onde foi incorporado no Regimento de Infantaria n.º 19. Este passou a fazer-se acompanhar da imagem do santo, que era sempre transportada no dorso de um cavalo, incluindo em batalha.

Numa altura de crises, marcada pelas invasões francesas (1808-1814), a imagem de Santo António Militar tornou-se mais uma vez numa fonte de esperança e de consolo para as tropas portuguesas. A figura costumava acompanhar o Regimento de Infantaria n.º 19 nas lutas contra os franceses, tendo chegado a participar na importante Batalha do Buçaco (1810), onde as forças napoleónicas foram derrotadas pelo exército anglo-português, comandado pelo Duque de Wellington.

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Gravura de Thomas S. St. Clair da Batalha do Buçaco, a 27 de setembro de 1810

A influência da imagem de Santo António no moral das tropas portuguesas era tal que chegou mesmo a ser roubada pelos franceses, que acreditaram assim poderem derrotar o exército português. Porém, ao descobrirem que a estátua tinha desaparecido, os portugueses atacaram com toda a força as tropas francesas. Tudo para recuperar o santo mais do que querido.

Curiosamente, durante as guerras napoleónicas, Santo António chegou a estar alistado em dois exércitos diferentes — o português e o inglês, que lutavam lado a lado contra as forças de Napoleão.

A imagem encontra-se hoje no Museu Militar do Buçaco, e ostenta ao peito a Cruz da Guerra Peninsular, pelas lutas travadas contra as forças napoleónicas. Como forma de agradecimento pela vitória sob o exército francês, D. João VI atribuiu ainda ao santo a patente de tenente-coronel de infantaria, em 1814, já após a guerra. No mesmo ano, este recebeu ainda a Grã-Cruz da Ordem Militar de Cristo.

Com a extinção das ordens religiosas em 1834, a estátua de Santo António Militar só voltou a sair à rua em 1895. É dessa altura que data um incidente que marcou a história da imagem. “Fez-se uma procissão do Chiado até à Sé, mas a imagem foi atacada pela maçonaria na Baixa e a população teve de fugir”, contou Pedro Teotónio Pereira.

Foi também por volta dessa altura, de modo a assinalar a comemoração dos 700 anos do nascimento de Santo António, que surgiu a ideia de promover o santo a coronel. Porém, a promoção nunca chegou a andar para a frente e o santo permaneceu para sempre general.

Santo António Militar no Brasil e além fronteiras

A carreia militar de Santo António não se ficou por Portugal, estendendo-se às colónias ultramarinas, como Angola, onde a tradição do santo militar se manteve bem viva até meados do século XX, Moçambique ou Macau, e a outros países europeus, como Itália ou Alemanha.

Em Espanha, existe inclusive uma lenda que o liga à conquista da cidade de Oran, no norte de África, em 1731. Diz a história que, antes de partir para o norte de África, o oficial responsável pela campanha militar visitou uma capela dedicada a Santo António em Espanha para pedir auxílio. Em troca da ajuda do santo, o oficial espanhol colocou aos seus pés o seu chapéu de plumas e uma espada.

Ao chegar a Oran, o exército espanhol deparou-se com um cenário inesperado — ao contrário do que seria de esperar, a população não ofereceu resistência. Quando questionados sobre a situação, os locais contaram que, antes da chegada das forças espanholas, tinha passado por ali um frade com um chapéu de plumas e uma espada que lhes disse que, se tentassem lutar contra os espanhóis, que a cidade seria destruída.

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Fotolitografia do século XX, de autor desconhecido, que mostra Santo António com o chapéu de plumas e a espada do oficial espanhol espanhol

Já no Brasil, a entrada do santo para o exército deu-se antes que em Portugal, no final do século XVI. De acordo com Isabel Dâmaso dos Santos, o primeiro posto militar de Santo António no Brasil data de 1595, altura em que assentou praça como soldado na Baía, cidade onde chegou a ser homenageado por ter ajudado a população a vencer o cerco imposto pelos holandeses que, depois da morte de D. Sebastião, tentaram por diversas vezes invadir o Brasil. Posteriormente, foi promovido a capitão e, mais tarde a tenente-coronel.

Mas a carreira militar de Santo António não se ficou pela Baía. Passou pelo Rio de Janeiro, onde foi nomeado capitão de infantaria pelo Governador da cidade, que lhe pediu auxílio contra o exército francês, por Paraíba do Norte, pela Fortaleza da Barra e por Goiás. Em 1645, foi declarado padroeiro de Pernambuco, passando a figurar nas bandeiras dos regimentos que lutavam contra as forças holandesas. Na mesma cidade, chegou a atingir o posto de tenente. No Brasil, como em Portugal, Santo António ressurgiu como um símbolo de resistência contra as forças invasoras.

"O Coronel António de Pádua vai quási em três séculos de serviço. Nomeie-o general e ponha-o na reserva."
Artur Bernardes, numa carta ao Ministro da Guerra brasileiro

Em São Paulo, recebeu a maior patente da sua carreira no Brasil — a de coronel — e em meados do século XVIII foi homenageado como protetor e vereador da Câmara de Iguarassu. Em 1799, começou a receber o soldo de capitão, que lhe foi atribuído pelo município de Ouro Negro até 1904.

Em 1924, o santo ainda constava como elemento do Exército Brasileiro, facto que levou o então Presidente do Brasil, Artur Bernardes, a emitir um despacho ao Ministro da Guerra, Fernando Setembrino de Carvalho, em que pedia a reforma de Santo António. Segundo a investigadora Isabel Dâmaso dos Santos, Santo António figura desde então no Anuário Brasileiro, na lista dos oficiais da reserva do Exército da República do Brasil.

Imagens: Wikimedia Commons

Imagens de Santo António Militar: cedidas pelo Museu de Lisboa — Santo António

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