Conan não passou, viva Conan: a primeira semifinal da Eurovisão, canção a canção /premium

15 Maio 2019240

Os “Telemóveis” escangalharam-se, mas Conan Osiris saiu incólume. Num desfile de banalidades, permaneceu especial. A primeira semifinal da edição 64 da Eurovisão, momento a momento, a partir do sofá.

Dois anos depois do gosto e da surpresa de acompanhar o trajeto de Salvador Sobral até àquela épica vitória de Éderzito da canção, voltamos a acompanhar o Festival da Eurovisão para o tentar dissecar, tema a tema.

17 concorrentes, dez apurados para a final, talvez umas três a quatro pessoas que sabiam efetivamente cantar. Em volta, tanta fórmula que a coisa talvez se pudesse passar a fazer num laboratório, perante um júri de químicos.

Alguma inteligentzia nacional, em linha com outra internacional, recomendou que o representante português boicotasse o certame, por este se realizar em Israel. E pensando como é giro que nunca lhes tivesse ocorrido aconselhar o mesmo quando a seleção de futebol sub-20 embarcou para o tão celebrado Mundial de Riade, cidade tão famosa pelo espírito libertário e igualitário, ou a seleção AA ainda agora para o Mundial da Rússia, esse farol da liberdade política e de imprensa, ou mesmo quando nos apresentámos nos Jogos Olímpicos de Pequim, terra de tanta e tão boa liberdade de expressão, pluralismo partidário, respeito pelo ambiente e pelos direitos dos trabalhadores, verificamos que o visado não cedeu. Conan Osiris apresentou-se ao serviço, mas confirmou o que as apostas diziam: que não passaria à final, depois da votação dividida entre um júri composto por cinco jurados de cada país a concurso e o público.

Bar Rafaeli e amigos apresentaram por lá; José Carlos Malato e Nuno Galopim comentaram para cá. Quinta há outra meia-final e sábado a final. Mas, nessa altura, já nós estaremos com a cabeça entre o fim do campeonato e o da “Guerra dos Tronos”, já que trocaram Conan por coisas bem mais bárbaras.

Chipre

Tamta, “Replay”

Tamta nasceu na Geórgia, vive na Grécia e canta em Inglês: que representação mais genuína de Chipre? Pelo cabelo e pela voz, terá saído demasiado depressa do duche e apanhado frio. Veste o que parece ser um fato de Madonna vazio que se enfiou acidentalmente num lustre. A canção é nova como a enésima variação de coca-cola de marca branca.

Montenegro

D mol, “Heaven”

Um grupo de três rapazes e três raparigas, com idade para estarem a disputar o “Sequim d’Ouro” local, com o Topo Gigio montenegrino. Os rapazes parecem ainda estar a mudar de voz e dançam como figurantes do “Walking Dead”. A coreografia consiste, ao que parece, em deixar-se encurralar ao centro pelas câmaras, como quem foi cercado pela polícia. Lá para o fim, o rapaz mais solista consegue acertar nos falsetes e a canção afirma-se naquela categoria muito especial, o “festivaleiro”. Se por acaso não passarem, podem sempre voltar a usar os fatinhos na primeira comunhão.

Finlândia

Darude com Sebastian Rejman, “Look Away”

A Finlândia vem representada por algo também muito típico: uma canção em Inglês inspirada num viagem a Nova Deli, cantada por um rapaz com ar de quem foi abastecer a mota em Aveiras. Mais um tema em Inglês, mais uma banalidade tão indiferente à passagem do tempo como a passagem do tempo a ela. Ainda não é desta que aparece alguém que consegue cantar, mas também não sejam miudinhos.

Polónia

Tulia, “Pali sie”

Primeiro tema cantado na língua original, primeiro tema que vale realmente a pena. Quatro raparigas vestidas ao que imaginamos seja o equivalente polaco de uma minhota. O título quer dizer qualquer coisa como “Está a Queimar” e, com efeito, é o primeiro momento capaz de inspirar algum calor. A verdade é que elas até podem estar a dizer que nos vão matar a todos, extraindo-nos órgão a órgão pela boca, e depois pôr tudo ao lume. A alegria do tema, o sorrizinho das quatro, a boa fusão pop e étnica, a felicidade de ver qualquer coisa de travo mais ou menos autêntico, aplaca-nos momentaneamente a dor.

Eslovénia

Zara Kralj & Gasper Santl, “Sebi”

Zara Kralj é, para quem se recorda de como um antigo guarda-redes do Porto explicou, certa vez, que deveria ser pronunciado o “lj”, um nome que imaginamos facilmente em diálogos, como: “Aonde é que tu vais? À Zara, Kralj!”, “Donde é essa camisola? Da Zara, Kralj!” ou “Isto não é Prada; isto é Zara, Kralj!”. Zara e Gasper são um casalinho simpático que parece ter pouco a ver com este chinfrim. Vestiram a primeira t-shirt que apanharam e estão ali, a tocarem um para o outro, uma canção de resto traduzível por “Para mim Mesmo”. É um duo indie pop que passa facilmente como os XX eslovenos. Ela canta a olhar para ele e ele toca guitarra, toca teclas e toca nela.

República Checa

Lake Malawi, “Friend of a friend”

Se Zara e Gasper são os XX, os Lake Malawi são os Bros, não necessariamente atualizados. É um trio com uma cançãozinha poppy onde está tudo bem e nada há de novo. Juraríamos que a compra foi comprada na Cenoura e há ali um breve momento em que pensamos que podíamos estar no “Clube Amigos Disney” (nem falta a palavra “amigos” a aparecer em múltiplas línguas no cenário).

Hungria

Joci Pápai, “Az én apám”

Joci já esteve em Kiev em 2017, no mesmo ano que Salvador Sobral. Canta em húngaro um tema cujo título se traduz por “Meu Pai”. Parece ser o esforço honesto por fazer qualquer coisa mais ou menos íntegra, mas sem golpe de asa. Joci tem ar de segurança de discoteca bom, daqueles que se compadece e lá nos deixa entrar por dez euros, com direito a uma bebida branca.

Bielorrússia

Zena, “Like it”

Mais um exemplar da grande Bimby do mundo: põe-se tudo numa grande trituradora – pop, eletrónica, uma guitarra espanhola, umas percussões – e sai mais um daqueles iogurtes tutti-frutti que não sabe, verdadeiramente, a nada. A roupa da jovem, no seu ar de filha de uma personagem do “Sexo e a Cidade” acabada de sair do ginásio, diz: “karma” por todo o lado, exemplo acabado da apropriação cultural barata e acéfala de tudo isto. Precisamos de ir constantemente às nossas notas durante as atuações para ver de que país se trata – e isso diz basicamente tudo. De resto, Zena dança; cantar é que atrapalha um pouco. José Carlos Malato e Nuno Galopim comentam, a propósito, que há canções para todos os gostos e isso é que é o bom da Eurovisão. Mas não. Isso é que era bom. É quase, quase, mas mesmo quase tudo igual.

Sérvia

Nevena Bozovic, “Kruna”

“Kruna” quer dizer “Coroa” e Nevena tem uma breve passagem pelo inglês antes de regressar a um tema fundamentalmente cantado em sérvio. A digressão demonstra à evidência como isto das eurovisões corre melhor sempre que se canta na própria língua, ainda que 90% destas pessoas, ao que parece, esteja convencida que não. Nevena apresenta-se elegante, de preto, e farta juba loura. Canta um baladão poderoso e tem boa voz, pormenor do qual não se tem propriamente abusado esta noite. É uma Adelaide Ferreira em louro e o tema um “Penso em Ti (Eu Sei)”. O que, segundo nós, já não é nada mau.

Bélgica

Eliot, “Wake up”

Mais um candidato ao “Sequim d’Ouro” que, porventura, entrou na porta errada. Eliot tem 18 anos e foi descoberto num talent show. Vem vestido com o kispo que o pai costuma levar para a neve e simpatizamos com isso, mas faltam-lhe os esquis – e, pior do que isso, também a voz. O tema, porém, é uma eletronicazinha pop bem decente, composta pelo mesmo autor de “City Lights”, o representante que a Bélgica levou há dois anos. “I came to fight over you”, diz no refrão. Quanto mais se ouve, mais soa do melhorzinho que por aqui passou.

Geórgia

Oto Nemsadze, “Keep on going”

A Géorgia fica para lá da Ásia Menor, mas é Europa. Oto tem ar de gaulês louco, mas é georgiano. É georgiano, mas ganhou o “Ídolos” da Ucrânia. Porque é que, neste caso, fechamos os olhos a tudo isso? Porque a canção é daquelas que dá vontade de invadir um país, o pátio do vizinho, qualquer coisa. Um épico da Geórgia, com o vozeirão que faltava ao pequeno (Billy?) Eliot.

Austrália

Kate Miller-Heidke, “Zero Gravity”

Ah. Como é bom estar em Israel a ouvir uma australiana… Haverá lá coisa mais europeia! Kate, porém, vem com os ases todos: cançãozinha a misturar o pop e o canto lírico, com uma encenação épica que, entre os efeitos especiais da realidade aumentada e o facto de ela e as moças do back vocals se apresentarem penduradas num espeto super-desenvolvido conduz a um razoável efeito televisivo de ausência de gravidade. Um killer, óbvio candidato à final.

Islândia

Hatari, “Hatrið mun sigra”

A Islândia é aquele país onde há um senhor que não canta e a quem, provavelmente, cabe decidir quem vai e não vai ao festival. Este ano, optou pelos funcionários dum clube sado-maso de Reikjavik, porventura para os compensar do desgosto de terem perdido os papéis para os bonecos de “Nightmare Before Christmas”. O título traduz-se por “O Ódio Vencerá”, coisa que parece muito mázona, mas que a canção complementa com um “se”: “se não nos soubermos amar”. Oh. Obrigado, Hatari, pelo naco de sabedoria. O ódio pode prevalecer também, acrescentamos nós, se deixarem a rapariga cantar demasiado. Mas reconhecemos que este pessoal se aplicou: é preciso brevet para andar com aqueles sapatos-plataforma.

Estónia

Victor Crone, “Storm”

Victor é um sueco que viveu nos Estados Unidos, tentou ir à Eurovisão em representação da Suécia e acabou a representar a Estónia, isto é, mais uma maravilha do esplendor cultural aqui envolvido. Canta em inglês e de blusão de cabedal com um violão de adereço, que logo abandona para traz das costas em nome do estilo, ainda que continuemos a ouvir os acordes da guitarra. Se o desafino fosse modalidade olímpica, Victor era forte candidato à medalha de ouro. Mas o cabelo está óptimo.

Portugal

Conan Osiris, “Telemóveis”

Finalmente, Conan. E que dizer, Conan? Que os acordes iniciais desta canção, entre o fado, a música cigana, a música árabe, a pop, continua a ser qualquer coisa. Um statement de estranheza e, aqui sim, identidade. E que Conan, no meio do arraial de cores e plumas típico do Festival da Eurovisão, continue a conseguir ser um pouco exuberante e estranho, é de se lhe tirar o chapéu. A plateia só parece entusiasmar-se com o sacudir de tronco nu que tão bem conhecemos já ao bailarino (rapaz capaz de dançar de ténis em pontas, detalhe que a realização não deixa escapar). É verdade que Conan parece ter-se enfiado num cortinado verde. porventura à saída da Altice Arena, não conseguiu libertar-se a tempo e decidiu aparecer assim mesmo, mas este tema e esta letra continuam a pairar muitos níveis acima daquilo que percecionamos em volta: “Eu sei que a saudade está morta / Quem mandou a flecha fui eu”.

Grécia

Katerine Duska, “Better Love”

Senhoras e senhores passageiros, apertem os cintos: dentro de momentos vamos aterrar de novo no banal. Katherine vem com tudo em brancos, passarinhos e gaiolas, de uma candura que contrasta tanto mais quanto viemos do negrume de Conan. É Florence & The Machine (“Shake it Out”?), num ambiente bucólico que não desagradaria a Júlio Dinis.

San Marino

Serhat, “Say Na Na Na”

É o último tema a concurso nesta semifinal. Serhat é um actor e apresentador turco, que já veio à Eurovisão em 2016, e apresenta-se hoje com o look de quem acaba de estacionar o iate e veio à marina à procura de gelo para o Martini. Tem uma voz de Leonard Cohen com uma alergia à melodia. Acompanham-no dois bailarinos vestidos de calções e meia branca, obviamente também perdidos do iate. Nuno Galopim diz que se diz “Na Na Na” 244 vezes ao longo da música – decidimos não verificar. Quando decidem usar palavras, repetem versos desta profundidade: “I will always love you / Life is beautiful and fine”. Se presta para alguma coisa? Nã.

As votações começam quando são 21h26 em Lisboa e vão até cerca das 21.48. Recapitula-se a matéria dada, os locutores vibram muito com as frases “Europe, star voting now” e “Europe, stop voting now”, Dana Internacional vem cantar uma versão de “Just the Way you Are”, um dos apresentadores experimenta a máscara de Conan e desfilam três bocadinhos de seis dos automaticamente apurados para a final: Miki, com “La Venda” (Espanha), Bilal Hassani, com “Roi” (França) e Kobi Marimi, a jogar em casa com “Home” (Israel) – nada para ver também aqui.

Às 22h10, já sabemos o nome de todos os finalistas: os esperados Austrália (a cantora lírica sem gravidade), República Checa (os Bros do “Clube Amigos Disney”), os XX da Eslovénia, a Florence & the Machine da Grécia e a Adelaide Ferreira da Sérvia. O resto é uma cuidadosa seleção do pior que se ouviu: Bielorrússia,, Chipre, Estónia, Islândia e San Marino. Conan Osiris não passou. As minhotas da Polónia também não. É capaz de ser melhor.

Todos queremos saber mais. E escolher bem.

A vida é feita de escolhas. E as escolhas devem ser informadas.

Há uns meses o Observador fez uma escolha: uma parte dos artigos que publicamos deixariam de ser de acesso totalmente livre. Esses artigos Premium, por regra aqueles onde fazemos um maior investimento editorial e que mais diferenciam o nosso projecto, constituem a base do nosso programa de assinaturas.

Este programa Premium não tolheu o nosso crescimento – arrancámos mesmo 2019 com os melhores resultados de sempre.

Este programa tornou-nos mesmo mais exigentes com o jornalismo que fazemos – um jornalismo que informa e explica, um jornalismo que investiga e incomoda, um jornalismo independente e sem medo. E diferente.

Este programa está a permitir que tenhamos uma nova fonte de receitas e não dependamos apenas da publicidade – porque não há futuro para a imprensa livre se isso não acontecer.

O Observador existe para servir os seus leitores e permitir que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia. Por isso o Observador também é dos seus leitores e necessita deles, tem de contar com eles. Como subscritores do programa de assinaturas Observador Premium.

Se gosta do Observador, esteja com o Observador. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)