Quando atingimos o pico? Como vai fluir a nossa curva? Como nos comparamos com os casos piores? E com os melhores? Há várias leituras que ajudam a perceber como Portugal está a enfrentar a pandemia do novo coronavírus e a fazer previsões para os próximos meses.

De acordo com o Governo, Portugal é atualmente um dos países que mais testa, se tivermos em conta o número de testes por milhão de habitantes. Mas há uma particular dificuldade em comparar a capacidade de testagem de forma equilibrada, porque há diferenças substanciais entre os dados disponibilizados por cada país — alguns, como Portugal, disponibilizam o total de “amostras” analisadas. Outros, como Suécia, Coreia do Sul e Grécia, apresentam o número de pessoas testadas.

Na conferência de imprensa de 8 de maio, o secretário de Estado da Saúde, António Lacerda Sales, afirmou que “ainda não é possível saber o número de pessoas rastreadas”, sublinhando que “muitas pessoas fizeram mais do que um teste”. Acrescentou que esse valor só será conhecido “num momento posterior” e que “vai exigir o cruzamento de várias fontes de informação”.

Os dados variam também, de país para país, na frequência com que são atualizados e na forma como são centralizados a partir dos laboratórios nacionais.

Entre os países incluídos neste gráfico estão exemplos com políticas distintas na forma de lidar com a epidemia. A Suécia, por exemplo, manteve escolas a funcionar, fronteiras abertas e esplanadas cheias. Tem uma população semelhante à portuguesa, um número aproximado de casos, mas mais de 4 mil mortos — e mais de 400 mortos por milhão de habitantes. Também o Reino Unido começou por seguir uma política menos restritiva, mas depois mudou de estratégia.

De acordo com os dados disponíveis Itália e Espanha estão entre os países europeus que mais testes fazem. Nos dados absolutos, a barra dos Estados Unidos dispara — o que é natural, tendo em conta o volume de população —, mas baixa para o meio desta contagem se tivermos em conta a proporção por milhão de habitantes.

Já a Grécia, tem uma população semelhante à portuguesa mas apresenta números bem inferiores de progressão da epidemia: tem menos de 3 mil casos confirmados e ainda não ultrapassou a fasquia de 200 mortos. O número de testes é aparentemente muito inferior a todos os países comparados no gráfico acima, mas é importante sublinhar que Atenas apresenta dados de pessoas testadas — e não de amostras, como Portugal.

Acrescentámos ainda a Coreia do Sul a esta comparação, porque o país asiático é apontado como exemplo no combate à pandemia — também pela política de testes extremamente bem oleada que desde cedo implementou.

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Portugal é 28º no mundo e o 10º na Europa

Mais de dois meses depois de ter sido detetado o primeiro caso de Covid-19, Portugal é o 28º país com mais infetados a nível mundial e o 10º na Europa, excluindo a Rússia na contagem. Portugal tem mantido a sua posição relativa no ranking europeu, mas está a cair na lista de países com mais infetados e mortos, tendo sido utrapassado por países da América Latina, como o Peru, Equador e México e mais recentemente a Suécia, cuja abordagem à pandemia não é consensual.

Os Estados Unidos continuam à frente destacados no mapa do Covid, seguidos do Brasil que ultrapassou já a Rússia. O Reino Unido é o país europeu com mais infetados e mortos, tendo ultrapassado a Espanha e a Itália nestes dois indicadores. Entre os países onde o contágio está a crescer mais contam-se a Turquia, a Índia, o Peru, o México, a Arábia Saudita, o Paquistão, o Chile, o Canadá, o Qatar, a Bielorússia e o Bangladesh. Há agora 13 países com mais infetados do que a China que é a origem do surto.

No início do surto, Portugal começou por mostrar um aumento percentual diário de novos casos abaixo dos crescimentos mais acentuados esperados inicialmente pelas autoridades, mas ainda assim entre as maiores subidas percentuais a nível europeu. Mas na segunda semana de abril, o surgimento de novos casos diários travou, primeiro para a casa dos 10%, ou menos, e depois aumento de infetados ficou abaixo dos 5% e agora que o país tem mais de 20 mil infetados, tem sido inferior a 1%. Estes resultados acontecem ao mesmo tempo que Portugal é um dos países que mais testes faz por milhão de habitante.

Curva epidémica a achatar?

A curva epidémica de Portugal permite perceber claras discrepâncias quando comparada com a de outros países que têm evoluções mais preocupantes — como França, Itália, Espanha e, sobretudo, Estados Unidos. Os dados estão contabilizados a partir do momento em que cada um destes países ultrapassou a barreira de 100 casos.

Dos cinco comparados, Itália é o que enfrenta o problema há mais tempo — ultrapassou há mais de 90 dias a fasquia do centésimo caso (19 dias antes de Portugal).

Se tivermos em conta a população destes cinco países, os dados mostram outras diferenças. Portugal teve durante algumas semanas um número de casos per capita superior ao dos Estados Unidos, mas o país de Donald Trump já nos ultrapassou neste indicador.

[Use as setas no topo do gráfico para perceber a diferença entre números totais e casos por milhão de habitantes:]

Outra diferença substancial se analisarmos os dados tendo em conta o volume de população: os EUA ultrapassaram os 100 casos na mesma data que Espanha, a 2 de Março, mas têm menos casos e muito menos mortos por cada milhão de habitantes do que os nossos vizinhos.

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“Medidas não têm efeito imediato”

Quando o Observador começou a compilar estes dados, Portugal estava em 21º lugar a nível mundial e existiam 15 países europeus com o maior número de casos. Mas depois das subidas percentuais diárias — primeiro na casa dos 30% e agora mais estabilizado nos 20% —, somos o 10º país europeu com mais casos de infeção, tendo ultrapassado a Suécia, a Noruega, a Dinamarca, a Grécia e a República Checa.

Todos estes países registaram o primeiro caso antes de Portugal, com uma diferença de dois dias a uma semana, mas o crescimento da epidemia tem sido mais lento, mesmo nos casos da Suécia, República Checa e Grécia, que têm um nível de população comparável com o de Portugal, na casa dos 10 milhões de habitantes.

Os países da Escandinávia têm aliás revelado uma expansão da pandemia muito mais limitada do que o Sul da Europa — mesmo a Suécia, onde as medidas de contenção estão entre as mais leves. Também a Grécia, cuja população tem uma estrutura etária mais próxima de Portugal, apresenta uma trajetória muito limitada no número de infetados. É claro que a abrangência de realização de testes é um fator fundamental para perceber o racional destes números, porque os casos podem existir, mas não estarem identificados. E os dados disponíveis para a Escandinávia e Grécia mostram que estes países estão a fazer menos testes que Portugal. A isto soma-se a rapidez com que se adotaram medidas de contenção e a sua eficácia.

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Por outro lado, a proximidade geográfica e as relações transfronteiriças mais intensas (pessoas que vivem num país, por exemplo, e que trabalham noutro) mostram ser também fatores que contam para o ritmo de crescimento da pandemia. Suíça e Áustria, que fazem fronteira com a zona mais atingida de Itália — o Norte — estão entre os países da Europa com mais casos. Portugal tem fronteira com um dos países mais atingidos, mas as ligações familiares e profissionais não são tão intensas.

As autoridades portuguesas, bem como o barómetro da Escola de Saúde Pública, têm estado mais focadas nas comparações com os países onde o surto está mais avançado, em particular Espanha e Itália.

O economista da saúde Pedro Pita Barros desvaloriza o significado das comparações diárias com outros países europeus, assinalando que há muitos fatores que condicionam a evolução das curvas de casos de Covid-19 em cada país. Pita Barros sublinha que “as medidas de contenção não têm efeito imediato”.

O economista acha “corajoso” tentar prever prever um dia para o pico, como chegaram a fazer membros do Governo. A diretora-geral de Saúde, Graça Freitas, dizia em finais de março que o pico deveria acontecer em maio e que teria uma configuração de “planalto” ou curva achatada — o que significa que chega mais tarde, mas será mais prolongado até começar a descer, de forma a permitir ao Serviço Nacional de Saúde lidar com os casos mais graves.

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