A curva epidémica de Portugal já permite perceber algumas discrepâncias quando comparada com a de outros países que têm evoluções mais preocupantes — como França, Itália, Espanha e Estados Unidos. Os dados estão contabilizados a partir do momento em que cada um destes países ultrapassou a barreira de 100 casos.

Todos estes países estão ainda em crescimento exponencial. Dos cinco comparados, Itália é o que enfrenta o problema há mais tempo — ultrapassou há 41 dias a fasquia do centésimo caso. Portugal passou essa barreira há 22 dias.

“Portugal, em comparação com os outros países, está entre aqueles com maior achatamento da curva de distribuição de novos casos. Contudo, é também o país com menor número de dias de evolução da epidemia”, adverte Inês Fronteira, epidemiologista da Universidade Nova de Lisboa, numa análise para o Observador.

Se tivermos em conta a população destes cinco países, os dados mostram outras diferenças. Portugal tem mais casos por milhão de habitantes do que os Estados Unidos. O que é expectável, tendo em conta que aquele país tem mais de 300 milhões de habitantes — a população de Portugal multiplicada por 30.

[Use as setas no topo do gráfico para perceber a diferença entre números totais e casos por milhão de habitantes:]

Outra diferença substancial se analisarmos os dados tendo em conta o volume de população: os EUA ultrapassaram os 100 casos na mesma data que Espanha, a 2 de Março, mas têm muito menos casos por cada milhão de habitantes do que os nossos vizinhos. Mas, mais uma vez, importa sublinhar: os norte-americanos são perto de sete vezes mais do que os espanhóis.

Quase um mês depois de ter sido detetado o primeiro caso de Covid-19, Portugal é o 16º país com mais infetados a nível mundial e o décimo na Europa. E o 15º no número de vítimas mortais, segundo dados de 3 de abril do site Worldometer. A análise da evolução nas últimas semanas começou por mostrar um aumento percentual diário de novos casos abaixo dos crescimentos mais acentuados esperados inicialmente pelas autoridades, mas ainda assim entre as maiores subidas percentuais a nível europeu. Na segunda-feira, os novos casos travaram, com um crescimento de apenas 7,5%, para voltarem a disparar para 16% na terça-feira. Quarta-feira, os novos casos subiram 11%. Nos dias seguintes, o aumento de casos estabilizou em cerca de 10%.

Quando o Observador começou a compilar estes dados, Portugal estava em 21º lugar a nível mundial e existiam 15 países europeus com o maior número de casos. Mas depois das subidas percentuais diárias — primeiro na casa dos 30% e agora mais estabilizado nos 20% —, somos o nono país europeu com mais casos de infeção, tendo ultrapassado a Suécia, a Noruega, a Dinamarca, a Grécia e a República Checa. Todos estes países registaram o primeiro caso antes de Portugal, com uma diferença de dois dias a uma semana, mas o crescimento da epidemia tem sido mais lento, mesmo nos casos da Suécia, República Checa e Grécia, que têm um nível de população comparável com o de Portugal, na casa dos 10 milhões de habitantes.

Os países da Escandinávia têm aliás revelado uma expansão da pandemia muito mais limitada do que o Sul da Europa — mesmo a Suécia, onde as medidas de contenção estão entre as mais leves. Também a Grécia, cuja população tem uma estrutura etária mais próxima de Portugal, apresenta uma trajetória muito limitada no número de infetados. É claro que a abrangência de realização de testes é um fator fundamental para perceber o racional destes números, porque os casos podem existir, mas não estarem identificados. A isto soma-se a rapidez com que se adotaram medidas de contenção e a sua eficácia.

Por outro lado, a proximidade geográfica e as relações transfronteiriças mais intensas (pessoas que vivem num país, por exemplo, e que trabalham noutro) mostram ser também fatores que contam para o ritmo de crescimento da pandemia. Suíça e Áustria, que fazem fronteira com a zona mais atingida de Itália — o Norte — estão entre os países da Europa com mais casos. Portugal tem fronteira com um dos países mais atingidos, mas as ligações familiares e profissionais não são tão intensas.

As autoridades portuguesas, bem como o barómetro da Escola de Saúde Pública, têm estado mais focadas nas comparações com os países onde o surto está mais avançado, em particular Espanha e Itália.

O economista da saúde Pedro Pita Barros desvaloriza o significado das comparações diárias com outros países europeus, assinalando que há muitos fatores que condicionam a evolução das curvas de casos de Covid-19 em cada país.

Pita Barros sublinha que “as medidas de contenção não têm efeito imediato” e que “é preciso esperar de uma semana até dez dias para começar a ver efeitos dessa contenção”. Em Portugal, o estado de emergência entrou em vigor a 21 de Março.

Esse período temporal resulta da experiência de outros países, em especial da Itália. E também depende muito da adesão da população, sublinha, lembrando os relatos que chegam da Itália de que as primeiras medidas não foram tomadas a sério. O economista da saúde assinala que em Portugal isso não estará a acontecer. A sensação é que antes de adotado o estado de emergência já havia alguma auto-contenção da população.

O economista acha “corajoso” nesta altura prever um dia para o pico, como terão feito membros do Governo, referindo-se à semana de 7 a 17 de abril. No sábado passado, a ministra da Saúde, Marta Temido, apontava como provável pico o dia 14 de Abril. Mas entretanto a diretora-geral de Saúde, Graça Freitas, avisou que o pico deverá, afinal, ser apenas em maio e que terá uma configuração de “planalto” ou curva achatada — o que significa que chega mais tarde, mas será mais prolongado até começar a descer, de forma a permitir ao Serviço Nacional de Saúde lidar com os casos mais graves.