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Dois telefonemas, três versões do acordo de cessar-fogo. Como Washington, Kiev e Moscovo se contrariam sobre o estado das negociações

Depois dos telefonemas de Trump com Zelensky e Putin, as declarações revelaram-se contrárias. Erro de comunicação ou estratégia norte-americana? Os especialistas não se comprometem.

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Quando o Presidente Donald Trump desligou o telefone depois de uma chamada de uma hora e meia com o seu homólogo russo, na passada terça-feira, recorreu, como habitualmente, às redes sociais para fazer a sua avaliação da conversa. “Concordámos com um cessar-fogo imediato para a energia e infraestruturas“, escreveu na Truth Social. Horas depois, a mesma informação era avançada de forma oficial pela porta-voz da Casa Branca, Karoline Leavitt: “Os líderes concordaram que o movimento da paz vai começar com um cessar-fogo de energia e infraestruturas”.

As palavras foram interpretadas de forma unânime como uma suspensão dos ataques de ambas as partes ao setor energético e outras infraestruturas civis. Contudo, a informação foi contrariada no dia seguinte pelo porta-voz do Kremlin, que esclareceu que se tratava de uma trégua apenas no setor energético. Questionado pelos jornalistas por que motivo Washington tinha relatado um acordo mais alargado, Dmitry Peskov desviou-se na resposta: “Eu sou o porta-voz do Presidente russo”, limitou-se a dizer.

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A confusão adensou-se ainda na quarta-feira, depois de um segundo telefonema de Donald Trump, desta vez com o Presidente ucraniano. No comunicado deixado no Telegram, Volodymyr Zelensky mencionou novamente “uma paragem dos ataques contra energia e outras infraestruturas civis” como um dos pontos do cessar-fogo acordado. “Estamos a falar de um cessar-fogo em instalações de energia — para não atacar as infraestruturas energéticas — e também estamos a falar de um a instalações de infraestruturas civis“, elaborou depois de forma mais explícita numa chamada online com jornalistas.

"Este é o pomo da discórdia, porque falar de capacidades enérgicas é uma questão. Mas se estão a falar de tudo, isso quer dizer que toda a guerra aérea tem de ser parada. E Putin não concorda com isso."
Arkady Moshes, diretor do programa da Rússia, Vizinhança Leste da UE e Eurásia no Finnish Institute of International Affairs

As diferenças entre os comunicados publicados “não são surpreendentes” para Marie Dumoulin. A diretora do programa Wider Europe do European Council on Foreign Relations nota que é comum as duas partes envolvidas na discussão publicarem o seu próprio comunicado, em que “incluem o que veem como as conclusões mais importantes da reunião”.

Contudo, uma única palavra — “infraestruturas” — pode fazer uma grande diferença no contexto em que está a ser utilizada. “Este é o pomo da discórdia, porque falar de capacidades energéticas é uma questão. Mas se estão a falar de tudo, isso quer dizer que toda a guerra aérea tem de ser parada. E Putin não concorda com isso”, declara Arkady Moshes, diretor do programa da Rússia, Vizinhança Leste da UE e Eurásia no Finnish Institute of International Affairs ao Observador.

Um erro de comunicação ou uma estratégia de Donald Trump?

As condições para o cessar-fogo podem ter sido o tema que atraiu mais atenções, mas não foram o único ponto da conversa entre Trump e Vladimir Putin que gerou discórdia. No comunicado do Kremlin sobre a chamada — “três vezes mais comprido” que o da Casa Branca, como nota o investigador Moshes –, é possível ver referências à ajuda militar à Ucrânia.

“Foi apontado que a completa paragem na entrega de ajuda militar e informações estrangeiras a Kiev deve ser uma condição chave para prevenir a escalada do conflito”, pode ler-se. De notar que os Estados Unidos suspenderam temporariamente os apoios na sequência da discussão entre Zelensky e Trump na Sala Oval, mas estes foram rapidamente retomados.

Ainda na terça-feira, em declarações à Fox News, Donald Trump negou que o tema tenha sequer sido posto em cima da mesa durante o telefonema. “Não falámos sobre ajuda de todo. Falámos de muitas coisas, mas ajuda nunca foi discutida”, argumentou o Presidente. No dia seguinte, Dmitry Peskov insistiu na versão russa dos acontecimentos: “O tópico da continuidade dos fornecimentos militares a Kiev é muito importante e foi, de facto, abordada ontem”, afirmou, acrescentando que se trata de uma prioridade para Moscovo.

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A versão de Donald Trump e do Kremlin divergem em pelo menos dois pontos

SPUTNIK/AFP via Getty Images

Os especialistas ouvidos pelo Observador sublinham que é impossível saber o que foi verdadeiramente discutido ao longo desta hora e meia e, por isso, não rejeitam a possibilidade de se ter tratado de um mero erro de comunicação. Mas Marie Dumoulin declara que as declarações russas são coerentes com as exigências que têm apresentado ao longo dos últimos três anos de guerra, relativas ao fim do apoio militar ocidental à Ucrânia, entendido como um “ameaça” para o Kremlin.

“Também percebo que Trump, tendo em conta as discussões com a Ucrânia e outros aliados dos Estados Unidos, especialmente os europeus, não possa admitir se este ponto foi mesmo discutido”, argumenta a especialista, dando a entender que considera a versão russa dos acontecimentos plausível.

Arkady Moshes, especialista no caso russo, também não se mostra surpreendido com as versões contraditórias e argumenta que esta é mais uma característica das tradicionais “táticas de negociações russas“, que remontam à era soviética e permitem a Putin “ganhar tempo” para continuar a ofensiva na Ucrânia — neste momento, com um foco particular em recuperar toda a região de Kursk. “Continua a dizer-se que não [às exigências] até a outra parte começar a suavizar a sua posição. Os americanos tinham de estar à espera disso”, considera.

A chamada em que Putin pouco cedeu a Trump e comprou tempo para continuar a guerra na Ucrânia

As centrais nucleares e os agradecimentos de Zelensky a Trump

Passaram 18 dias entre as duas conversas mais recentes entre Volodymyr Zelensky e Donald Trump. Na primeira, no dia 28 de fevereiro, o Presidente ucraniano acabou expulso da Casa Branca. Esta quarta-feira, a conversa telefónica durou uma hora e o Presidente norte-americano classificou-a como “muito boa”.

“Grande parte da discussão baseou-se no telefonema feito ontem com o Presidente Putin, a fim de alinhar tanto a Rússia como a Ucrânia em termos dos seus pedidos e necessidades. Estamos no bom caminho“, acrescentou, palavras que o The Guardian descreve como “visivelmente menos hiperbólicas” que outras declarações do Presidente.

Tal como aconteceu com o Kremlin e a Casa Branca, os comunicados de Kiev e Washington divergem e permitem perceber onde estão as prioridades das duas partes nesta relação. O comunicado do Departamento de Estado norte-americano, assinado por Marco Rubio, destaca que foi discutida a possibilidade de os Estados Unidos “gerirem as centrais nucleares” ucranianas. Zelensky não mencionou essa discussão no seu comunicado.

epa10592879 A handout photo made available by Ukraine's Presidential Press Service shows Ukrainian President Volodymyr Zelensky talking on the phone to the Chinese president (not pictured), Kyiv, Ukraine, 26 April 2023. Volodymyr Zelenskyy had a phone call with the President of the People's Republic of China Xi Jinping about bilateral relations, the presidential office said. Special attention was paid to the ways of possible cooperation to establish peace for Ukraine.  EPA/PRESIDENTIAL PRESS SERVICE HANDOUT  HANDOUT EDITORIAL USE ONLY/NO SALES

Zelensky num chamada durante o ano passado. O Presidente costuma partilhar declarações sobre todas as conversas nas redes sociais

PRESIDENTIAL PRESS SERVICE HANDOUT/EPA

Mas no briefing online dessa noite, confirmou essa informação, ainda que tenho feito uma correção: “Falámos sobre apenas uma central energética, que está sob ocupação russa”, afirmou, numa referência à central nuclear de Zaporíjia, no sul do país.

O comunicado do Departamento de Estado permite fazer uma outra análise: em sete parágrafos são relatados quatro agradecimentos diferentes deixados por Zelensky a Trump. As palavras revestem-se de importância já que, no dia 28 de fevereiro, o Presidente ucraniano foi acusado pelo vice-presidente JD Vance de ser “ingrato”.

Além das palavras, a relação dos Estados Unidos com a Rússia e com a Ucrânia revela-se, ainda assim, “assimétrica“, avalia a analista do European Council on Foreign Relations, que considera que Washington está a pressionar mais a Ucrânia do que a Rússia — o que pode ser visível no facto de esta ser já a segunda vez em que Trump telefona primeiro a Putin e só depois a Zelensky.

Ainda assim, Dumoulin reconhece que Donald Trump parece ter dado um passo atrás na sua aproximação à Rússia. Prova disso é o facto de não ter cedido declaradamente na exigência russa de suspender o apoio militar ou mesmo no simples facto de ter retomado as negociações diretas com o Presidente ucraniano depois do incidente na Sala Oval.

O que os Estados Unidos podem ganhar como intermediários entre Kiev e Moscovo

Em tempos de crise, os telefonemas diplomáticos aumentam. O exemplo mais famoso da História remonta à Guerra Fria e à linha direta de comunicações que os Estados Unidos e a União Soviética estabeleceram. O conceito é de tal forma famoso que foi imortalizado na cultura popular com o ícone do telefone vermelho — que, na verdade, nunca existiu. Hoje, a linha direta é um email encriptado e os telefonemas são ensaiados, ouvidos por uma equipa inteira e transcritos de forma automática. Mas isso não os torna menos relevantes.

"Em último caso, acho que há muita coisa a depender das intenções dos Estados Unidos."
Marie Dumoulin, diretora do programa Wider Europe do European Council on Foreign Relations

“Ninguém deve ficar em paz quando se fala sobre guerra”, afirma Arkady Moshes. O conceito pode ser aplicado à guerra na Ucrânia. Por um lado, o analista defende que as comunicações entre as várias partes deviam ser ainda mais e mais frequentes, não necessariamente apenas entre chefes de Estado. Desde que Donald Trump chegou ao poder, a inclusão da Rússia nas negociações tornou os diálogos muito mais frequentes. Depois de dois telefonemas entre Putin e Trump e um encontro das delegações em Riade, russos e norte-americanos voltam a encontrar-se na próxima segunda-feira na Arábia Saudita.

Em segundo lugar, destaca a óbvia ausência de contacto direto entre Moscovo e Kiev. “Alguém tem de mediar o conflito. E só os Estados Unidos é que o conseguem fazer”, argumenta, apontando a falta de legitimidade que a União Europeia tem tanto na Ucrânia como na Rússia. “Infelizmente, é o caso”, lamenta.

O facto de os Estados Unidos estarem disponíveis para negociar com a Rússia pode ter desencadeado as negociações, mas, a disponibilidade foi recíproca. No entanto, para Arkady Moshes este interesse de ambas as partes vai além de um desejo de “paz para a Ucrânia” e foca-se em assuntos mais abrangentes — o que ficou patente nos encontros e diálogos, em que se discutiram relações económicas, diplomáticas e até desportivas.

Porém, há outra tema que aproxima Moscovo e Washington e que remonta, precisamente, à Guerra Fria: o facto de serem ambos as maiores potências nucleares. Isto confere um certo “estatuto”, mas também uma relação mais “paritária”, que nenhum outro Estado que não os EUA poderia ter com a Rússia, sublinha o analista russo.

epa11930785 Ukrainian President Volodymyr Zelensky (L) talks with US President Donald Trump (R) in the Oval Office of the White House in Washington, DC, USA, 28 February 2025. Zelensky is in Washington to sign the framework of a deal, pushed by President Trump, to share Ukraines’s mineral wealth with the US.  EPA/JIM LO SCALZO / POOL

Enquanto intermediário, Trump tem um grande poder nas mãos

JIM LO SCALZO / POOL/EPA

Portanto, como único intermediário entre Moscovo e Kiev, todas as ações e palavras dos Estados Unidos pesam para pôr fim à guerra na Ucrânia. “Em último caso, acho que há muita coisa a depender das intenções dos Estados Unidos”, argumenta Marie Dumoulin. Donald Trump prefere um acordo mais proveitoso para a Ucrânia ou para Washington? “Isto é um jogo de soma zero, não é uma situação win-win à europeia”, responde Arkady Moshes, sem ser definitivo sobre quem vai sair a ganhar.

O quarto jogador: os telefonemas com Emmanuel Macron

Volodymyr Zelensky falava com os jornalistas através de uma chamada no Zoom na quarta-feira, quando o seu telefone começou a tocar. O Presidente ucraniano atendeu, prometeu ligar mais à tarde, desligou e regressou à videochamada. “Era o Presidente Macron, temos uma conversa uma vez por dia, em média. Ele está a ajudar muito. Eu ligo-lhe de volta”, esclareceu.

As conversas entre Emmanuel Macron e Zelensky já se sabiam frequentes, uma vez que o Presidente ucraniano partilha um resumo da maior parte delas nas suas redes sociais. Ainda assim demonstra o interesse dos Estados europeus em continuar a acompanhar de perto as negociações para a paz na Ucrânia, sublinha o The Guardian, que relatou o momento.

Esta quinta-feira, Zelensky voltou a marcar presença, de forma virtual, no Conselho Europeu em Bruxelas, onde os líderes dos 27 discutiram a guerra na Ucrânia. A relação entre Kiev e a Europa até pode ser igualitária, mas o jogo de tabuleiro tem mais peças e Moscovo já rejeitou que a União Europeia tenha uma intervenção no processo de paz na mesma medida que os Estados Unidos.

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Trump é intermediário de Zelensky e Putin e Macron facilita a relação entre Zelensky e Trump

POOL/AFP via Getty Images

Em vez disso, os líderes europeus focam-se nos sítios onde a sua influência ainda chega, nomeadamente a Washington. Exemplo disso foi a intervenção de — uma vez mais — Emmanuel Macron na relação Trump-Zelensky na última semana de fevereiro. Foi o Presidente francês quem telefonou ao seu homólogo norte-americano e o terá convencido a receber o líder ucraniano. Ainda que a reunião tenha acabado por correr mal, a intervenção mostra a capacidade de Paris em convencer a Casa Branca, ao mesmo tempo que aconselha Kiev. Mas o seu papel pode não passar disto.

“A Europa já…”, começa Arkady Moshes, antes de corrigir a frase. “Macron e Starmer já cumpriram o seu papel ao trazer os Estados Unidos de volta para a mesa, ao convencer uma pessoa como Trump”, argumenta o analista, referindo-se ao papel preponderante dos líderes francês e britânico na Defesa europeia, mas também na manutenção da relação transatlântica.

Reino Unido e França assumem as rédeas das negociações e tentam “complicar equação” de Trump para paz rápida na Ucrânia

Com uma visão diferente, Marie Dumoulin acredita que a Europa ainda possa ter um papel relevante na guerra na Ucrânia. Os Estados Unidos precisarão de discutir com a União Europeia a questão das sanções a Moscovo, enquanto a Ucrânia se deve continuar a apoiar na postura mais “agressiva” dos líderes europeus, quando comparada com a atual administração norte-americana, elabora.

Portanto, mesmo que a UE não tenha qualquer envolvimento direto na mediação do acordo entre Rússia e Ucrânia, a Europa pode beneficiar da histórica relação transatlântica para alavancar os interesses ucranianos junto da Casa Branca. Mesmo sem o seu próprio “telefone vermelho”.

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