Empresários, jornalistas, advogados, engenheiros… Eis a nova comunidade chinesa

27 Janeiro 2017311

São os jovens que estudaram em colégios de elite, são os novos imigrantes com trabalho qualificado, são os que já não voltam porque em Portugal se sentem livres. Esta é a nova comunidade chinesa.

Se à opção de ver o mundo de cima, a Google adicionasse a de o cobrir com um filtro térmico, a China, por estes dias, seria um arco-íris ondulante. O ano novo chinês é a maior movimentação sazonal do mundo — esgotam comboios, esgotam os comboios extra que se põem a circular, entopem os terminais de autocarros, espera-se às vezes 24h00 por um bilhete. Os riscos brancos dos aviões tornam o céu uma espécie de folha de Excel. Até os restaurantes fecham. Até em Pequim fecham.

A agência de notícias chinesa Xinhua estima que os chineses deverão efetuar cerca de três mil milhões de viagens durante as celebrações de ano novo. Dessas, 2.5 mil milhões serão feitas de carro ou de autocarro, 356 milhões de comboio, 58 milhões de avião e 43.5 milhões por mar. O ano novo chinês é muitas vezes o único período de férias para muitos trabalhadores migrantes, que aproveitam esta oportunidade para regressar às suas origens, muitas vezes rurais.

Comemorações em Pequim

Mas a julgar pela festa no Martim Moniz, a zona do centro de Lisboa onde se concentra a atividade das comunidades imigrantes, os chineses residentes em Portugal, que segundo os últimos números do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras são 21.329, ficaram por cá a festejar.

Em Lisboa a festa durou dois dias, o fim de semana de 21 e 22 de janeiro, mas o Ano Novo Chinês começa este sábado, dia 28 de janeiro. É o ano do Galo de Fogo. Diz a astrologia chinesa que os Galos são muito ativos, amistosos e comunicativos. São faladores, honestos e leais. São animais sociais também e estão no seu elemento quando lhes é dado um palco para se exibirem. Preocupam-se muito com a aparência e por isso são mais saudáveis, fazem exercício, apesar de serem mais sensíveis a certas doenças que outros signos e dados a humores flutuantes.

Mas este é também um ano menos auspicioso do que os outros para quem nasceu nos anos do Galo (1993, 1981, 1969, 1957, 1945, 1933, 1921…). Este ano, os Galos deverão concentrar os seus esforços na concretização de planos antigos, em vez de se aventurarem por estradas que não conhecem. Os riscos especulativos deverão ser evitados e as desilusões e os conflitos estarão na ordem do dia.

“Este céu de Lisboa que não escurece”

É este o signo de Elisa Chuang, que vai fazer 48 anos em breve. Uma parte da descrição da personalidade bate certo: Elisa é bem-disposta, conversadora, sorridente, mas também, e aqui já falha a carta astral, humilde e desartificiosa. A empresária chegou a Portugal quase há 35 anos e os pais há 48. A democracia estava a cinco anos de distância e na China viviam-se os dias sombrios da Revolução Cultural de Mao. O pai de Elisa não era intelectual, nem muito velho, tinha 30 anos quando saiu da China. Era cozinheiro — e requisitado. Veio para Lisboa já com um contrato para trabalhar no Dragão de Ouro, um luxuoso — e pioneiro — restaurante chinês perto da Avenida de Roma.

"As pessoas nem sempre precisam de palavras. Precisam de compreensão, de solidariedade. Temos que arranjar outras formas de nos fazermos entender, e a comunicação é, por isso, mais rica"
Elisa Chuang, empresária

“A cozinha chinesa, na altura, era uma coisa muito exótica, com muita qualidade e mais cara. Hoje é como ir ao café, mas quando eu vim para cá trabalhar apareciam-nos pessoas à porta a perguntar se podiam entrar de sapatilhas”, lembra Elisa, que, quando chegou, adolescente, começou logo a trabalhar com os pais. Até porque as escolas não estavam adaptadas à imigração e Elisa optou por concluir o secundário por correspondência, a partir da Ilha Formosa. Ilha Formosa que é Taiwan e é “Taiwan assim só; não é Taiwan vírgula China”, sublinha Elisa. Enquanto estudava em mandarim aprendia português e quando foi para a Universidade foi para estudar Língua Portuguesa.

“Depois de uns seis meses já falava alguma coisa, mas a língua é a maior dificuldade de adaptação, é muito diferente”, diz Elisa que abana a cabeça muito rápido como a querer sacudir uma imagem má. Os pais, quando chegaram, tinham ainda menos apoio, não existia propriamente uma comunidade chinesa. Quando ela chegou, treze anos mais tarde, não era ainda comum verem-se chineses na rua — “Passava na rua e chamavam-me ‘chinezinha limpó-pó’ “, conta Elisa.

Em trinta anos a comunidade mudou muito. Em primeiro lugar, cresceu. E desabrochou também. Os pais ainda fazem parte de uma geração “um pouco mais fechada”.

— Quando chegaram, como é que os seus pais falavam com as pessoas?

— Não falavam. Nem agora falam — ri-se Elisa.

— Não?

— Não é preciso.

— Não?

— Não.

Faz uma pausa, inclina a cabeça, entrelaça os dedos em cima da mesa e diz: “As pessoas nem sempre precisam de palavras. Precisam de compreensão, de solidariedade. Temos que arranjar outras formas de nos fazermos entender, e a comunicação é, por isso, mais rica”.

Quando os seus pais vieram para Portugal, Elisa ficou em casa de familiares, em Taiwan, mas rapidamente se apercebeu que não estava bem longe e veio também, aos 14 anos, para um país do qual nada sabia. Quatro anos depois, desejosa de voltar, foi passar umas férias ao local onde tinha crescido. Nem ela sabia o que Lisboa já era dentro ela. “Só quando o avião começou a descer sobre Lisboa é que me apercebi que estava a voltar a casa. Este céu que não escurece”, diz Elisa.

Enquanto fala tenta contactar com o filho, para que ele se junte à conversa. Escreve-lhe mensagens, no whatsapp, em português.

Para um chinês, Portugal é o mais longe que se pode estar de casa. O globo é redondo. Grandes metrópoles como São Francisco e Seattle ficam mais perto. Como é que vieram cá ter? “Em 15 dias tínhamos um visto. Portugal era muito célere a legalizar imigrantes”, diz Elisa. “Agora está bem mais difícil.”

Se agora há cerca de 50 cidadãos de Taiwan a residir em Portugal, segundo as contas de Elisa, há 30 anos podiam muito bem ser só dois. Talvez apenas os dois que se vieram conhecer, e casar, em Lisboa. Um dia Elisa abriu a porta do restaurante para deixar o rapaz da mercadoria descarregar e “era ele”.

O casal teve vários negócios, do imobiliário à restauração, e, recentemente, abriu a segunda agência de viagens em Lisboa, a Campeão d’ Ouro, destinada principalmente, mas não só, à comunidade chinesa.

“Não falo bem nem português, nem chinês, nem inglês”

E é uma comunidade que está a mudar. Den, filho de Elisa, é um exemplo disso. Nasceu em Portugal há 25 anos, estudou no colégio britânico de St. Julian’s, em Carcavelos, tirou a licenciatura em Engenharia Civil em Manchester — “que vai dar jeito quando construir a minha casa em Lisboa” — e hoje trabalha também, mas só por enquanto, no ramo imobiliário.

“Não falo bem nem português, nem chinês, nem inglês”, diz assim que se senta para a entrevista. Não é bem verdade. Den fala perfeitamente português, pelo meio da conversa diz umas palavras técnicas de inglês e esteve, ao todo, cerca de quatro anos em Taiwan para melhorar o mandarim. “Quando era miúdo a minha mãe falava para mim em chinês e eu respondia em português, dizia-lhe ‘ó mãe o chinês não serve para nada, ninguém fala chinês’. Agora já não penso assim.”

Den, em 2002, no centro budista, em Taiwan, para onde foi melhorar o seu mandarim" @D.R.

Apesar de estar bem em Portugal, Den sentiu necessidade, a certa altura, de ir conhecer as “raízes mais profundas” da sua história. Foi para um templo budista, dentro do qual funcionava “uma escola normal, com aulas normais mas em mandarim”, mas acolhia também um centro de apoio ao desenvolvimento dos jovens budistas.

Portugal esteve, contudo, sempre perto do coração, como é fácil de ver pelas fotografias de Den na altura, nas quais aparece quase sempre, ora com as quinas ora com o leão ao peito.

Den passou o Europeu “a sofrer do outro lado do mundo”. Há fotos disso. Den com as mãos em prece, Den enrolado em cachecóis vermelhos e verdes, Den abraçado a outros portugueses, Den a cantar o hino. A cantar o hino? “Bem, sou português”, relembra, a rir.

Na altura em que estudou no colégio de St. Julian’s, “chineses eram uns cinco”, diz Den. Não sofreu “assim muita” discriminação mas porque teve “amigos fantásticos”, chineses e portugueses, que o fizeram sentir-se parte de um país que afinal é o dele. Hoje em dia os seus amigos são maioritariamente portugueses, até porque já não se identifica muito com os chineses que são “um pouco mais fechados, menos afetuosos”.

"Quando era miúdo a minha mãe falava para mim em chinês e eu respondia em português, dizia-lhe 'ó mãe o chinês não serve para nada, ninguém fala chinês'. Agora já não penso assim"
Den Chuang, engenheiro civil e trabalhador no ramo imobiliário

“Uma das vezes que fui a Taiwan fui ter com uma amiga austríaca e ela levou uma colega chinesa. Quando cheguei ao café ia cumprimentá-la com dois beijinhos e ela empurrou-me. Para algumas pessoas esse trato é estranho e até para mim poderia funcionar dessa forma mas não, considero essa proximidade uma coisa boa, mas tem que ser sincera”, diz Den. Insiste muito na sinceridade afetiva, que contrapõe a alguma superficialidade que reconhece em algumas pessoas da comunidade chinesa. “Não é que isso seja premeditado, mas acaba por acontecer quando a relação que a maioria dos chineses mantém com os portugueses é casuística, é uma necessidade mas não é uma relação para sempre”.

Para Den é para sempre, é uma coisa que vem de dentro… do estômago. A comida chinesa, da qual toda a gente sente falta, Den dispensa bem. É vegetariano, prefere a cozinha portuguesa e dispara uma lista impressionante de restaurantes onde costuma ir quando os avós não lhe cozinham “as couves-flor e os espinafres”.

Quando os amigos se queixam de ele lhes limitar as opções de restaurante ele defendem-se da seguinte forma: “Há azeitonas e vinho? E claro que há, quase sempre. Adoro azeitonas e adoro vinho”, diz.

Numa coisa a família é bem chinesa: toda a gente se uniu, e se desdobrou em horas de trabalho, para lhe pagarem os estudos no St. Julian’s. Agora quer estudar Gestão Imobiliária na London School of Economics. Diz que devemos por tudo no que fazemos, e que apesar de conseguir fazer o seu trabalho sem ter esse conhecimento académico, sente falta dele. É uma universidade de elite ou, como diz Den, “é um investimento”. Este curso é um instrumento não é um sonho. O sonho de Den é promover “o conhecimento e a troca cultura entre Portugal e a China”, apesar de ainda não saber bem como.

Den com Sara Costa, diretora do Portal Martim Moniz, nas celebrações do Ano Novo Chinês

Den reconhece a sua condição privilegiada e conhece a realidade de outros chineses, da sua idade, que é bem diferente da sua. Alguns deles — mas mais elas — estão num prédio na Rua da Mouraria. Mas como privilégio e felicidade não têm de andar lado a lado, é com um sorriso enorme que encontramos Li — “só Li” — atrás de uma porta emperrada com um enorme autocolante preto cheio de bolhas que diz, em inglês “Dragonfly – Massage”.

Li tem 28 anos e está em Portugal há cinco. Não fala uma palavra de Português, “não há tempo para gerir um negócio e estudar”, diz ela a olhar para os sapatos. Não fala diretamente connosco mas com Carolina Martins, a nossa intérprete. Este prédio é todo chinês. No primeiro andar um cabeleireiro — há uma cartolina cor-de-rosa colada na porta que Carolina traduz mas não há vontade de falarem connosco —, no segundo a Dragonfly, e, no terceiro, um restaurante pequeno mas reconhecido entre a comunidade como uma das cozinhas de Lisboa mais fiéis à tradição chinesa. A dona do estabelecimento agradece o convite mas não quer falar, diz que está muito ocupada a colocar frango cru em pauzinhos de madeira para fazer espetadas. Está grávida pela segunda vez, cansada, e, dali a pouco, o filho chega da escola, há TPCs para fazer e banhos para dar.

Voltamos ao andar de baixo. Li tem o cabelo pintado de um loiro brilhante, nos olhos um risco preto e usa batom vermelho nos lábios. Desde os 19 anos que é massagista em Jiangsu, uma província no Norte de Xangai. Sabe como aliviar os nós de tensão nas costas, conhece os pontos de pressão dos pés, cada um deles representa um órgão do corpo humano, e os segredos da vasoterapia, um tratamento alternativo que “suga” a pele para dentro de um recipiente de vidro, e assim ajuda a aliviar dores musculares, a melhorar a circulação de sangue, e a libertar toxinas. É um dos tratamentos mais procurados pelos portugueses já que não se realiza nos centros de saúde, conta Li.

Chegou a Portugal porque se apaixonou por alguém que já cá vivia. “Conheci o meu marido quando ainda trabalhava na China, ele foi lá à nossa casa de massagens. Disse-me que estava a viver em Portugal e por dois anos namorámos à distância. Depois casámo-nos e ele trouxe os meus documentos para cá, para que eu pudesse vir viver com ele”. Mas Li não veio logo para Lisboa. Primeiro foi trabalhar para uma loja chinesa em Albufeira, no Algarve, onde a vida era cansativa e continuava a estar longe de quem tinha viajado 11 mil quilómetros para encontrar. “Lá no Algarve conheci uma pessoa que me falou de uma outra casa de massagens aqui em Lisboa e eu vim logo. Depois abri este estúdio, que é meu”, diz Li, que já não olha o chão quando fala.

Quando chegou a Lisboa não quis acreditar que estivesse numa capital europeia. “Para onde é que o meu marido me trouxe, isto é tudo muito velho, as casas estão a cair”, relembra. Continua a achar estranho ser tudo tão velho, porque as cidades na China “estão em grande renovação e não há quase casas antigas fora dos meios rurais”. Mas já se habituou e hoje gosta muito de cá estar — “há espaço e ar puro”.

O filho já nasceu cá, vai para o infantário este ano e, por agora, a família quer ficar. Li quer voltar a aprender português mas como tem imenso trabalho no estúdio “e não gosta mesmo nada de estudar”, esse é um plano a prazo. Lá por casa ouve-se português quando o casal tenta ensinar o pequeno para que ele não se sinta deslocado na pré-primária.

"Para onde é que o meu marido me trouxe? Isto é tudo muito velho, as casas estão a cair. Mas agora já gosto muito há espaço e ar puro"
Li, massagista chinesa em Lisboa

“Aqui as pessoas são honestas”, diz Li. A sua irmã, que está na sala ao lado a fazer uma massagem, já tinha emigrado para Espanha e a experiência não foi das melhores. Li não quer contar a história, vai perguntar à irmã se ela quer contar e do outro lado da cortina uma voz jovem diz que não, que não se quer lembrar. Os clientes habituais do estúdio conhecem a história, mas também não querem revelar detalhes. Dizem só que a jovem ficou sem passaporte, trabalhava horas extenuantes, e as condições de habitação também não eram as melhores. Há uma reportagem do El País que conta o que se passa dentro das casas de massagens estabelecidas por imigrantes chineses em Barcelona, onde a irmã de Li viveu.

“A minha filha quer ser artista”

Na Rua do Benformoso ninguém sabe muito bem quantos segundos andares daqueles prédios serão restaurantes chineses. Os guias da cidade, e as buscas na internet, chamam-lhe os “clandestinos” mas este, onde Den nos trouxe, está aqui há dez anos, sempre a trocar de mãos mas sempre intitulado “Chino Clandestino”, como se lê na página do Foursquare dedicada ao restaurante. No fundo isto é um apartamento, com tomadas por todo lado, um quarto de banho com banheira e uma cozinha sem extração. Den pede uma mesa em chinês e a rapariga que abre a porta diz que não fala nem chinês nem português. É do Nepal, “só inglês ou nepali se quiseres”.

Sentamo-nos no meio de uma sala onde estão três senhoras mais velhas, portuguesas, a beber vinho tinto com o seu agridoce de frango, quatro ingleses e três espanhóis que ficam a olhar para a nepalesa quando ela lhes traz um dos pratos principais (ainda faltam dois): uma travessa de massa com camarão do tamanho de um daqueles individuais que usamos quando não há toalhas de mesa. “Há gente que cá vem todos os dias”, diz a nepalesa.

Luna é a dona do restaurante. Chinesa, com 40 anos, seis em Portugal. Sabe dizer “obrigada”, “por favor”, “sim”, “não”, “hoje cheio”, “não há”, “fresco”, “natural” e mais uma data de palavras soltas que repete sem ordem no fim do jantar, quando se fala com ela. Den vai traduzindo as perguntas e Luna é simpática e prestável. Veio para Portugal de uma pequena cidade do norte da China, já lá trabalhava em restaurantes ,mas quando aterrou em Lisboa “teve a enorme sorte de encontrar um grande cozinheiro da sua cidade”, que a convidou para ir tomar conta deste espaço. “Há poucas pessoas do norte aqui, a maioria vem do sul então a comunidade mantém-se muito chegada. O português é de facto uma barreira enorme mas os portugueses são solidários, honestos e amigos. No início diziam-me que as pessoas eram um pouco menos simpáticas com os imigrantes mas agora somos muitos, é normal verem-nos na rua”, diz Luna.

Luna gosta muito de cá estar, mas o que a preocupa mais é a filha. Estuda na Escola Artística António Arroio e como não nasceu cá e só chegou há três anos, as dificuldades linguísticas têm-se refletido na sua progressão escolar. “Como não fala bem a língua encontrou uma outra forma de comunicar, quer ser artista”, diz Luna. “Mas dizem-me que não há emprego para artistas aqui.”

"Há poucas pessoas do norte aqui, a maioria vem do sul então a comunidade mantém-se muito chegada. O português é de facto uma barreira enorme, mas os portugueses são solidários, honestos e amigos. No início algumas pessoas diziam-me que as pessoas eram um pouco menos simpáticas com os imigrantes mas agora somos muitos, é normal verem-nos na rua"
Luna, gerente de um restaurante chinês

Sonha poder pagar os estudos da filha lá fora, mas para isso é preciso que se nacionalize portuguesa, para poder aceder aos programas Erasmus. O casamento até podia ser uma boa opção se a filha não considerasse os homens portugueses “um pouco preguiçosos”, o que, admite logo a seguir, “pode ser apenas porque na China as mulheres ainda ocupam um lugar inferior, e aqui é-lhes exigido, social e profissionalmente, que trabalhem tanto como um homem. Essa igualdade é uma coisa muito boa, libertadora, mas também pode demorar um pouco a nos habituarmos a isso”.

“Só quando cheguei cá é que me apercebi porque é que não era feliz lá”

É nas Olaias, no Portal Martim Moniz, que muitos dos recém-chegados vêm tentar aprender Português. Sara Costa é a diretora da escola, fala e ensina mandarim a portugueses, Português a estrangeiros, e a cultura chinesa tem sido o objeto de estudo de toda a sua carreira académica. Den diz que ela “já é mais chinesa que portuguesa” e “uma peça essencial de ligação entre as duas comunidades”.

As salas estão cheias de jovens rostos chineses, agarrados aos livros e aos computadores. São os rostos da nova comunidade. “As principais diferenças entre as primeiras vagas de imigração e a imigração contemporânea passam pelas tipologias de negócios que a comunidade chinesa desenvolvia tradicionalmente. Era à base de lojas de variedades e restaurantes. Hoje em dia, a segunda e terceira geração de chineses já possui qualificações semelhantes aos portugueses e tem mais curiosidade em compreender e integrar os costumes portugueses”, diz Sara Costa.

O rótulo de “tímidos” e “fechados” já não cola. “Saem à noite, têm amigos portugueses e querem encontrar trabalhos que ultrapassem o trabalho nas lojas e nos restaurantes. Através do regime de Autorização de Residência para Atividade de Investimento lançado em 2012 observou-se um maior investimento no setor imobiliário por parte de cidadãos chineses e, apesar de muitos investidores encararem o programa precisamente como um investimento, alguns vieram viver para Portugal, o que fez com que o estereótipo tradicional do migrante chinês fosse colocado em causa”, explica a diretora da escola.

"As principais diferenças entre as primeiras vagas de imigração e a imigração contemporânea passam pelas tipologias de negócios que a comunidade chinesa desenvolvia tradicionalmente. Era à base de lojas de variedades e restaurantes. Hoje em dia, a segunda e terceira geração de chineses já possui qualificações semelhantes aos portugueses e tem mais curiosidade em compreender e integrar os costumes portugueses"
Sara Costa, diretora do Portal Martim Moniz

May Li, que tem 29 anos e é jornalista de formação, sente-se “muito mais feliz em Portugal do que na China”, mas admite que é “das poucas pessoas que se sente mais feliz fora”. Na verdade, May sempre soube “que alguma coisa a incomodava”, mas foi só quando mudou de país que entendeu o que lhe faltava: “Liberdade”. E não no sentido apenas político do termo. “Aqui fazes o que queres, a tua família quer que tenhas sucesso, mas não há aquela pressão para casares cedo, para teres um emprego de topo, para dares graxa ao teu patrão. Fazes o teu trabalho e fora disso a vida é tua, podes ser lésbica, gay. Aqui, a tua família também quer que sejas bom, claro, mas não são tão obviamente contra qualquer escolha que saia da norma”, diz.

A pequena cidade no nordeste da China onde nasceu e estudou até à universidade era “um tédio de entorpecer os músculos”. Esteve em Pequim quatro anos a estudar e depois disso “lá veio o aborrecimento outra vez”. May apercebeu-se de que queria sair da China, ponto. A relação com a empresa que a colocou em Portugal, a Delsk, que trata tanto dos papéis para os vistos Gold como dos investimentos imobiliários de cidadãos chineses, começou ainda na China quando a firma andava à procura de tradutores que aceitassem ser recolocados no estrangeiro: “A primeira vez disseram-me: ‘olha vamos mandar-te para a Grécia’ e eu ok. Depois disseram: ‘Não, vamos mandar-te para o Chipre’. Ok. ‘Afinal vamos pôr-te em Portugal’. Ok. Em qualquer lugar menos aqui, quero ir ver o mundo”. Está em Portugal há dois anos.

"Aqui fazes os que queres, não há aquela pressão para casares cedo, para teres um emprego de topo, para dares graxa ao teu patrão. Fazes o teu trabalho e fora disso a vida é tua, podes ser lésbica, gay. Aqui, a tua família também querem que sejas bom, claro, mas não ao ponto de irem contra contra qualquer escolha tua que saia da norma".
Mai Li, gestora de clientes na Delsk

Estagiou na maior agência de notícias da China, a Xinhua, e no People’s Daily, o maior diário. Não pensa para já exercer jornalismo mas também não pensa desistir de todo. Não quer continuar a fazer o que faz para sempre, mas é feliz em Portugal, e isso é mais importante que tudo o resto. Também não faz ideia do que gostaria de fazer. “Ver a América, viajar, viajar”, diz May, que tem um filosofia de vida quase hippie, o que a torna uma espécie de ave rara num país onde a competição por um lugar numa boa escola “é coisa para te dar um esgotamento” porque o número de pessoas em competição para os melhores empregos é muito grande.

“Há quatro perguntas que faço para analisar se ainda estou bem onde estou: ‘Gosto das pessoas que estão à minha volta?, ‘Gosto do local onde vivo?’, ‘Ainda aprendo no emprego’?, ‘Consigo ganhar o suficiente para não pensar muito nisso?’. Neste momento, May tem “três necessidades satisfeitas”. Gostava apenas de “continuar a aprender” porque o que faz já faz “de olhos fechados”.

Sara Costa também falou dessas características: “Os chineses são mais contidos na expressão das suas emoções, por exemplo, ao nível das relações laborais, ao nível do comportamento de respeito pelas hierarquias e também devido ao tradicional ‘não dizer não’, ou seja, têm uma cultura de dizer as coisas de uma forma indireta que aí é realmente muito diferente da personalidade coletiva dos portugueses”.

May admite que é um pouco diferente do resto dos amigos, aqui e na China, e admite também que sente dificuldade em relacionar-se com a geração anterior de imigrantes chineses, apesar de partilharem a língua. A cultura, hoje, já não. “Posso ir comer ao Martim Moniz, mas não me sinto ligada àquela comunidade, porque eu sei que não sou parte dela, ou não muito mais do que sou parte de uma comunidade bengali ou francesa. Eles também já estão muito unidos entre eles. Mas isto não é porque não gostam dos portugueses, eles estão gratos e gostam muito da vida cá, pelo que me dizem, e querem ficar, mas simplesmente já têm a sua comunidade. Toda a gente precisa de amigos, mas a primeira geração não precisa de os fazer fora da comunidade. As suas necessidades sociais estão satisfeitas lá dentro”, diz May.

"Os chineses são mais contidos na expressão das suas emoções, por exemplo, ao nível das relações laborais, ao nível do comportamento de respeito pelas hierarquias e também devido ao tradicional 'não dizer não', ou seja, têm uma cultura de dizer as coisas de uma forma indireta que aí é realmente muito diferente da personalidade coletiva dos portugueses".
Sara Costa, directora do Portal Martim Moniz

Lai Ieng Ng também faz parte desta nova vaga. Está a fazer um estágio profissional no escritório de advogados Caiado Guerreiro, tirou o curso de Direito na Universidade Católica e é lá que tira um mestrado em Direito e Gestão. É de Macau, portanto a calçada portuguesa já não a “surpreendeu”. A Universidade de Macau tem uma bolsa destinada a pessoas que queiram estudar em Portugal porque “é-lhes vantajoso terem advogados que voltem para lá com conhecimento do sistema português, que ainda vigora em Macau”. Ela, contudo, não será uma grande ajuda nos próximos anos. “Todos os meus colegas voltaram, pressão familiar talvez, mas eu não estou a pensar nisso”, diz Lai. Se hoje está a fazer o que gosta junto de pessoas que admira, quando chegou sentia-se “perdida” e com “medo de não conseguir”.

É que até ir ao supermercado era complicado: “Perguntavam-me ‘quer um saco?’ e eu ‘oh boa e agora o que é um saco?'”, exemplifica Lai. Daí até entrar num dos cursos mais prestigiados do país foi “um ano intermédio a aprender História, Português e as noções básicas de Direito”. Mas isso não amorteceu a queda livre das primeiras aulas, num Português rapidíssimo e super técnico. “Gravava as aulas todas, muito alto, agora estou meio surda, a sério”, ri-se. “Ouvia aquilo 30 vezes para tentar entender e mesmo assim nem sempre entendia”, conta Lai. Reconhece igualmente o surgimento de uma nova comunidade, até pelos seus amigos: “São advogados, contabilistas, economistas, trabalham em grandes firmas internacionais, podem ficar em Portugal ou andar pelo mundo, mas quase todos gostam bastante de viver cá”.

E a tendência é que o nível de qualificações, e o número de chineses que chegam prontos a ocupar o topo dos organogramas, continue a subir. “A imigração chinesa em Portugal no futuro passa certamente por pessoas mais qualificadas, com cursos superiores, mais fluentes em português do que em chinês — no caso dos migrantes tradicionais. Quanto aos investidores Golden Visa, esses pertencem a uma classe social alta, que naturalmente também os distingue em termos comportamentais, são mais cidadãos do mundo e querem estar em Portugal, mas querem estar sobretudo no espaço Schengen e desenvolver as suas linhas de negócio de acordo com o mercado livre”, analisa Sara Costa.

Letícia, professora na escola do Portal Martim Moniz, nas celebrações do Ano Novo Chinês @Portal Martim Moniz

A julgar por Letícia Kong, que já ensina Português a chineses na escola de Sara e tem apenas 22 anos, o caminho será mesmo esse. Chegou para um intercâmbio e quando voltou “não conseguiu aguentar as saudades de Lisboa”. Os seus pais estão “muito tristes” porque é filha única, pedem-lhe que volte mas, como ela não quer voltar… “Pela primeira vez os meus pais vão entrar num avião e atravessar o mundo para virem a Lisboa”, diz ela com pressa de voltar para a preparação das suas aulas.

“Em Portugal tens o nome que quiseres”

A caminho da Baixa, em frente a uma loja chinesa fechada, na Avenida Almirante Reis está um rapaz chinês, talvez com 10 anos, e um senhor muito idoso, cheio de roupa, de pé, a fumar, ao lado dele.

— Quem é esse senhor ao pé de ti? — a pergunta foi feita em português.

— É o senhor Piu-Piu.

— O senhor Piu-Piu?

— Sim, sim. Chamam-lhe senhor Piu-Piu porque ele tem a casa cheia de pássaros — responde num português impecável também.

O homem mais velho não fala nem responde a perguntas. Por isso a conversa continua com o rapaz que traz um hoodie cinzento, calças de ganga, cabelo curto e preto, espetado, olhos alerta.

— Já lá foste? A casa dele ver os pássaros?

— Não, mas os meus amigos já.

— E tu como é que te chamas?

— Diogo Cão.

— Esse nome não é teu…

— É pois, em Portugal podes ter o nome que quiseres.

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