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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

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Entre João Semedo e António Feio: Catarina Martins no bairro da sua juventude /premium

A líder do BE, que "na televisão é mais forte", levou o Observador a visitar o bairro de Vitória, onde cresceu. Ensaiou passos de campanha e lembrou os tempos de atriz.

O Passeio das Virtudes, bem no centro histórico do Porto, consegue sair incólume da habitual correria das manhãs de trabalho na invicta. Talvez por isso tenha sido este o local que Catarina Martins escolheu para a sessão fotográfica do Observador. Na sua cidade, mas longe da confusão habitual dos dias de semana, com a dose certa do típico bairrismo portuense.

A líder do Bloco de Esquerda chega à hora marcada e dois minutos de conversa depois percebemos que o lugar foi escolhido a dedo. “Este sítio era onde antes morava parte da classe social baixa do Porto. É uma mistura de Cultura, Justiça e a componente social. Ainda acontece mas cada vez menos”, lamenta. “Mas também mistura Bloco de Esquerda”, acrescentamos. Não só porque este foi o local escolhido pelo partido para apresentar os candidatos pelo Porto às legislativas de 2015 como também — e sobretudo — porque é mesmo ali, ao lado do jardim que ladeia o Passeio das Virtudes, que funciona a Cooperativa Árvore, da qual João Semedo foi diretor. Foi, aliás, o local onde se realizou o velório do histórico bloquista.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

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A escolha do local foi muito ponderada. Nas hostes do Bloco de Esquerda descreve-se Catarina Martins como uma pessoa “muito preparada” e como alguém que “raramente age ou intervém sem pensar muito antes”. É tudo racionalizado e pouco espontâneo. Uma descrição que contrasta com aquela que se poderia fazer do bairro da Vitória. A roupa estendida à janela, o café de sempre — ou “o tasco” — com a esplanada de plástico onde às 11 da manhã já se sentam dois idosos agarrados a uma mini.

Tirando a pequena concentração de moradores à porta deste café, são poucas as pessoas que passam pelo Passeio das Virtudes. Turistas, na maioria dos casos. Ninguém se detém a olhar para o aparato montado para a sessão fotográfica em pleno coração do Porto. Demoram o olhar na pessoa que está sentada no banco, não a reconhecem, encolhem os ombros e retomam o passo normal.

(JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

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Antes de entrar para a política, conta ao Observador numa pausa entre fotografias, “passava aqui muito tempo”. Trabalhava no Teatro Nacional de São João e tentava dedicar parte do seu tempo a intervir junto das classes sociais mais baixas, que “por culpa da gentrificação e da pressão imobiliária têm vindo a ser expulsas das suas casas”. Quase todas as conversas acabam em retórica política. Mesmo quando fala da parte mais pessoal da sua vida ou quando recorda os tempos em que era atriz, a política acaba por entrar no discurso, quase sem aviso ou autorização.

Dada a indiferença de quem passava pelo estúdio de fotografia improvisado ao ar livre – a campanha ainda estava longe, por esta altura -, desafiamos Catarina Martins a dar uma volta por este bairro onde fez vida. Quanto mais nos adentramos no bairro maior é o número de pessoas que reconhecem a líder do Bloco de Esquerda. Seguimos por uma travessa estreita que nos levará à zona mais turística do bairro. Os moradores convivem na rua e surpreendem-se ao ver a deputada por ali. “Catarina! Dê-me cá um beijinho. Olhe, na televisão parece mais forte”, diz-lhe uma das primeiras senhoras que a cumprimenta. “Havia de vir aqui a Cristas”, grita uma senhora que se debruça sobre a janela do primeiro andar. Vai ouvindo queixas e elogios. A popularidade nas ruas em 2015 parece estar conservada. Mas a exigência “será cada vez maior”, porque “estes também não fizeram tudo o que prometeram”, diz ao Observador um senhor que observa de longe a cena. “Isto já é campanha?”, pergunta sem dar tempo responder. ”Claro que é”, conclui.

5 fotos

O barulho que gera a passagem da Catarina Martins por aquela travessa traz mais moradores à janela e outros à rua. Os assessores do Bloco de Esquerda que acompanham este curto passeio estão visivelmente satisfeitos com a reação que a líder suscita entre as pessoas. A coordenadora do BE disfarça, até quando lhe perguntamos pelas sondagens. “Respeitamos quem as faz mas não as valorizamos em demasia”, atira a resposta ensaiada. Ainda falta algum tempo para as eleições e mesmo as sondagens mais animadoras são esfriadas no seio do partido para não haver desilusões.

Por esta altura, vamos a meio da visita guiada. Quando passamos pelo Mosteiro de São Bento da Vitória, Catarina Martins recorda os tempos em que era atriz e em que ali ensaiava. E recorda uma história dessa altura. “Ensaiava aqui com o António Feio. Os miúdos gostavam muito dele porque o viam na televisão. Um deles, o Ricardo, tinha à volta de nove anos e ainda não sabia ler, além de ser daqueles miúdos irrequietos. Mas admirava muito o António Feio e queria estar sempre a assistir aos ensaios. Então o António fez uma coisa maravilhosa: disse-lhe que ele podia participar se fizesse de ponto. E foi assim que o Ricardo aprendeu a ler”, conta.

Continuamos a subir rumo aos Clérigos. A líder do Bloco de Esquerda vai lamentando os locais que antes eram seus e que agora foram vendidos. “Ali era onde almoçávamos”, aponta para um recuperado restaurante. “Não era assim, era um café”, relata.

(JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

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A parte final da tour faz-se pela zona mais turística, onde Catarina Martins volta a passar para o lado dos anónimos. Torre dos Clérigos, Centro Português de Fotografia, Tribunal da Relação do Porto, Cooperativa Árvores. Voltamos ao local de partida. “Justiça, cultura e a vertente social”, volta a assinalar Catarina Martins antes das últimas fotos.

No fim, percebemos que nenhuma das razões que levaram Catarina Martins a escolher o local tem propriamente a ver com a pacatez matinal desta zona no bairro da Vitória. “Até porque a tranquilidade da manhã nada tem a ver com o que se passa à tarde”, quando os grupos de jovens aproveitam a relva e a privilegiada vista sobre o Douro para passarem a tarde com garrafas de vinho e de cerveja em cima de mantas de piquenique. “Isso também dá vida ao bairro”, afirma antes de voltar a lamentar as consequências da pressão imobiliária.

O Observador convidou todos os líderes dos partidos com representação parlamentar para uma sessão fotográfica antes do arranque da campanha eleitoral, num local escolhido por eles.

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