Entrevista. “Há um perigo real de o Reino Unido cair no precipício a 29 de março” /premium

13 Março 2019224

Especialista em euroceticismo britânico, Simon Usherwood acredita que os deputados votaram contra o "no deal", mas não excluíram totalmente essa hipótese. Votação de quinta-feira, diz, será decisiva.

Simon Usherwood é professor de Ciência Política na Universidade de Surrey e estuda o euroceticismo britânico há cerca de 20 anos. Se tal não bastasse para fazer dele alguém suficientemente habilitado para falar sobre o Brexit, junta-se um terceiro elemento: é vice-presidente do grupo UK in a Changing Europe, o departamento da King’s College destinado a analisar o impacto da saída do Reino Unido da União Europeia (UE). Nos últimos dois anos, não tem feito outra coisa senão ouvir com atenção tudo o que é dito sobre o tema na Câmara dos Comuns, analisando o significado político dessas afirmações e votações. Pelo meio, fala regularmente com os media para partilhar os seus pontos de vista e tweeta freneticamente sobre o assunto.

Esta quarta-feira, falou com o Observador para tentar ajudar a trazer clareza ao nevoeiro de confusão que se abateu sobre o Brexit. Depois de, na terça-feira, os deputados terem rejeitado (pela segunda vez) a proposta de acordo da primeira-ministra Theresa May, esta quarta-feira voltaram a aprovar uma rejeição: recusaram uma saída sem acordo (no deal), muito embora essa só possa, de facto, evitar-se com passos mais concretos — como a aprovação de um outro acordo, de um adiamento ou de um cancelamento do Brexit.

Simon Usherwood é professor na Universidade de Surrey, vice-diretor do think tank sobre o Brexit “UK in a Changing Europe” e estuda o euroceticismo britânico há mais de 20 anos (D.R.)

Usherwood não poupa nas críticas aos deputados e governantes britânicos: estão “todos parados a olhar uns para os outros e a ver quem dá o primeiro passo”, o que significa que não saem “do mesmo sítio”. Isso está a ter impactos na credibilidade dos políticos britânicos de tal forma que, diz, “o mal já está feito”. Temem ser culpabilizados por algo que corra mal — mas esse receio e inação pode levar, precisamente, ao cenário que o académico e a maioria dos analistas considera que seria o mais desastroso, o de um no deal. O que sair da votação desta quinta-feira, onde os Comuns discutirão um pedido de adiamento (extensão do Artigo 50), pode ajudar a definir o que se passará nos últimos dias. Irá May sair por cima e conseguir impor o seu acordo? Irá a UE ser benevolente e estender a mão aos britânicos? Ou tudo terminará em choro e ranger de dentes — a não ser para os eurocéticos mais destacados — em caso de no deal? 

Estamos a 16 dias do Brexit e ainda não há nem acordo, nem união em torno de uma saída sem acordo. Como descreveria o momento político que se vive neste momento no Reino Unido?
Neste momento, não sei dizer. Acho que essa é a única resposta honesta que se pode dar. Os deputados rejeitaram o acordo de saída duas vezes, por larga maioria, por isso sabem o que não querem. Também rejeitaram sair sem acordo. Portanto o que falta é perceber o que é que eles querem. E o problema é que a única forma de evitar um no deal é escolhendo outra coisa. Nenhuma das opções neste momento parece muito atrativa, portanto acho que eles precisam de tratar da votação desta quinta-feira e fazer algumas escolhas — caso contrário, outros podem fazer as escolhas por eles.
Mesmo que acabem por decidir pedir uma extensão [do Artigo 50], o verdadeiro desafio continua a existir, porque a União Europeia (UE) precisa de uma espécie de justificação real para uma extensão. Caso contrário, é apenas mais caos e confusão.

Considera que a votação desta quarta-feira fez sentido? Michael Gove [ministro do Ambiente e antigo candidato à liderança do partido] admitiu no Parlamento que, independentemente do que os deputados votassem, “a única forma [de impedir um no deal] é aprovando um acordo ou retirando o Artigo 50”… Se o Governo sabe isto, para quê votar contra ou a favor de um no deal?
A resposta dele deixa claro que ele tem outros interesses. Para Gove, não é simplesmente uma questão de defender uma destas opções, ele tem interesse em garantir que o Reino Unido sai. E esta é uma forma de fazer avançar esse debate.
Creio que toda a gente compreende o problema, mas os deputados têm formas muito diferentes de lidar com ele e, neste momento, não têm uma forma clara de avançar. Acho que ainda pensam todos que conseguem ganhar este jogo de definir as políticas e, portanto, cada um recusa abdicar da sua solução preferida para ajudar outros. Atualmente, estão todos parados a olhar uns para os outros e a ver quem dá o primeiro passo. E, com isto, ninguém o faz e acabamos por não sair do mesmo sítio.

"Temos uma situação em que muita gente está consciente de que estamos numa grande embrulhada e de que haverá consequências, mas não querem ser considerados culpados por isso. Há muitas tentativas de tentar partilhar as culpas com outros e de arranjar desculpas."

É uma situação de “cada um por si”?
Não. Acho é que temos uma situação em que muita gente está consciente de que estamos numa grande embrulhada e de que haverá consequências, mas não querem ser considerados culpados por isso. Há muitas tentativas de tentar partilhar as culpas com outros e de arranjar desculpas,  em vez de haver tentativas para resolver os problemas. Estão todos ocupados a tentar afastarem-se, em vez de assumirem as rédeas da situação. Foi interessante ouvir esta tarde [o ministro das Finanças] Phillip Hammond, porque tentou usar uma linguagem de cedência e consenso — algo muito raro neste Governo.

Por que acha que Theresa May decidiu dar liberdade de voto esta quarta-feira?
Acho que se encurralou a si própria numa posição difícil. May ainda acha que o acordo dela é o que tem mais hipóteses [de ser bem sucedido] e é capaz de ter razão, porque é o único que teve o aval da UE entre todas as opções que foram discutidas. Mas ela fez escolhas no início do processo que agora a obrigam a tomar decisões menos boas nesta fase.

Há a ideia de que a primeira-ministra pode tentar levar a votação o seu acordo uma terceira vez. Mark François dizia esta quarta-feira no Parlamento: “Aposto 50 libras em como vamos estar a votá-lo de novo a 26 de março”. É um cenário provável?
Penso que sim, porque ninguém tem uma proposta melhor em cima da mesa. Uma coisa é saber que há algo de que não se gosta, outra muito diferente é dizer “está aqui um plano alternativo com o qual estou confortável”. Da perspetiva da UE, eles têm sido muito consistentes. O que quer que as duas partes queiram numa relação futura só poderá ser discutido depois de se resolver a relação passada primeiro. Para isso, o acordo de saída é aquilo que o Reino Unido e a UE já aceitaram que pode ser feito. Teremos sempre de regressar a este texto antes de decidir o que queremos a seguir. Mas acho que, em Westminster, ainda não absorveram que o que estamos a discutir é simplesmente o final da relação velha e não a discutir a nova relação.

Como acha que a credibilidade internacional da Câmara dos Comuns seria afetada se o mesmo acordo que foi rejeitado duas vezes fosse aprovado à terceira?
O mal já está feito [risos]. Lá fora compreendem que o Reino Unido está numa posição difícil, mas a confusão e a surpresa surgem quando se percebe que ninguém tem um plano melhor. Não há nenhum e, sem resultados, acaba-se numa situação em que se tomam decisões erradas. O Reino Unido irá sofrer com isto a nível mundial e, mesmo que se encontre uma solução agora, as pessoas irão lembrar-se durante muito tempo de que o Reino Unido teve um problema. E o mais provável é que nem sequer se encontre essa solução neste momento. Vamos acabar, provavelmente, com uma tentativa bizarra para o resolver.

O Parlamento vai a votos esta quinta-feira sobre um pedido de extensão do Artigo 50. Acha que há hipóteses de ser aceite? Ou, se for pedida à Europa uma extensão curta sem qualquer outra alteração, irá ser rejeitada?
A UE vai precisar de ter algum tipo de justificação para conceder uma extensão. Até às eleições europeias, pedir uma extensão não provoca grandes dificuldades práticas, mas eles vão querer algum propósito para isto. Vão querer perceber em que ponto estamos e isso é algo que só o Reino Unido pode decidir. Quinta à noite penso que vai surgir algum tipo de emenda que ajude a traçar um plano para o Parlamento e o Governo avançarem sobre o que querem e como querem fazê-lo. Depois acho que será fácil obter uma extensão curta. Mas, sem isso — e não é de todo impossível que nenhuma das emendas de quinta-feira, como um segundo referendo ou um plano específico, seja aprovada —, a UE vai ficar numa posição difícil. Acho que tem medo de dar uma extensão curta, porque não quer ser responsável por um no deal, mas se der uma extensão que vá para lá das eleições [europeias], o Reino Unido passa a ter de participar nelas. Os benefícios de agora podem tornar-se um problema mais à frente.

"O Reino Unido tem de tomar uma decisão sobre o que quer. A UE não pode nem vai ajudar nisso. Está a chegar a um ponto em que a UE pode dizer "não podemos continuar a fazer isto, porque não vai ajudar."

Acha que os líderes europeus estão tão cansados desta situação que podem arriscar um no deal acidental ao rejeitar uma extensão?
Não neste momento, mas acho que não vai demorar muito até chegarmos a essa situação. A mensagem de terça à noite por parte da UE e dos Estados-membros foi muito clara e coordenada: o Reino Unido tem de tomar uma decisão sobre o que quer. A UE não pode nem vai ajudar nisso. Está a chegar a um ponto em que a UE pode dizer “não podemos continuar a fazer isto, porque não vai ajudar”.

Dizia há pouco que May se encurralou a si própria. No entanto, tendo em conta o percurso dela, parece improvável que considere demitir-se. Portanto o que pensa que vai acontecer: eleições antecipadas de outra forma, um segundo referendo ou a primeira-ministra vai conseguir ir avante com o seu acordo e sair vencedora?
Penso que o plano dela é deixar o Parlamento apresentar o seu próprio plano e tem esperança de que não consigam. Dessa forma, e tendo em conta que o Parlamento não quer um no deal e não há maioria em torno de mais nada, ela espera poder dizer “reparem, vocês tiveram uma oportunidade e não conseguiram nada, eu sou a única com um acordo e vamos ter de tentar outra vez, senão saímos sem acordo”. Acho que esse é o plano dela e não há nada mais criativo para além disso.

Mas se o fizer vai ser mesmo em cima do dia 29 de março…
Sim. Há o Conselho Europeu na próxima semana [20 e 21 de março] e era muito melhor para ela se conseguisse ter o acordo aprovado antes desse Conselho, para poder ir lá pedir uma curta extensão só para finalizar a ratificação. Mas, neste momento, não vejo como é possível ela conseguir fazê-lo. Pode realizar a votação no início da próxima semana ou na quarta-feira dessa semana [18, 19 e 20 de março], mas isso será bastante apertado e está dependente do que acontece esta quinta-feira. No entanto, acho que é a opção preferível para ela, porque, se só for aprovado na outra semana [de 25 a 29], é um prazo tão apertado que há um perigo real de algo não ser acabado a tempo — e de nós cairmos do precipício abaixo a 29 de março.

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