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© Fábio Pinto

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José Neves. O "faz-tudo" que deu "o que tinha e o que não tinha" para lançar a Farfetch /premium

Tem 44 anos, é dos portugueses mais ricos e o rosto da empresa que hoje se estreia na bolsa nova-iorquina. Discreto, José Neves construiu mais do que um sonho. As 12 frases que contam a sua história.

Ri-se facilmente, prefere sapatos a ténis e, apesar de viver em Londres há mais de dez anos, na hora do pequeno-almoço opta por mingau, as velhinhas papas de aveia. Aos 44 anos, José Neves diz que é um “verdadeiro faz-tudo”, o designer e tecnólogo que em 2008 deu “tudo o que tinha e o que não tinha” para lançar aquele que é o primeiro unicórnio — empresa avaliada em mais de mil milhões de dólares — de origem portuguesa, a Farfetch. O rosto por detrás da empresa de comércio de moda de luxo que esta sexta-feira se estreia na bolsa nova-iorquina, sorri quando fala, mas não fala muitas vezes.

Discreto, é um dos portugueses mais ricos segundo o ranking divulgado pela Forbes ainda antes do IPO (quando tinha uma fortuna avaliada em 689 milhões de euros), que sabe que os milhões são bons, mas que não chegam sem erros. Mais importante ainda, “o dinheiro não paga emoções”, dizia ao Observador em 2015. Pai de quatro crianças, José Neves diz que é deles que tem saudades e que é deles que não se esquece. Foram eles a melhor notícia que já recebeu e quando lhe perguntamos do que é que tem medo, a resposta espelha o homem que se tem movido num ambiente de elevado risco nos últimos anos: “Tenho medo de ter medo”.

© Fábio Pinto

“Sempre fui patrão de mim próprio, desde os 19 anos. Nunca tive um emprego, o que é bom e é mau”

(Observador, 2015)

Em 1993, José Neves criou a primeira empresa, uma “loja de software”, a Grey Matter, na qual criava software para empresas. Tinha 19 anos e estudava Economia na Universidade do Porto. As ligações familiares ao calçado, sobretudo da parte do avô, levaram-no a ter, logo naquela altura, as empresas do setor como principais clientes. “Sabia que conseguia aprender programação por mim próprio, mas que não conseguia ler balanços e demonstração de resultados e entender contabilistas. Para isso, precisava de formação”, disse ao Observador em 2015. Teve-a e lançou mais duas empresas depois desta. A última é a que faz ecoar o nome do português nos principais jornais económicos internacionais, a Farfetch, de onde nasceu a união perfeita entre as suas duas grandes paixões: a programação e a moda.

“Aos oito anos, ofereceram-me um computador no Natal. Não tinha jogos, só um programador manual. Comecei a programar e, aí, dei os primeiros passos naquela que se tornou na minha primeira paixão: criar software”

(Prospeto do IPO, 2018)

Quando tinha oito anos, os pais de José Neves ofereceram-lhe um computador ZX Spectrum, que vinha acompanhado de um manual de programação. Apesar do “brinquedo fantástico” que recebeu, o empreendedor não podia brincar com ele – os 48k de memória com que estava equipado, equivalentes à dimensão de um email hoje, não tinham um único jogo, nem monitor. Para poder usá-lo, José tinha de ligar o computador à televisão. Ainda miúdo, socorreu-se do manual que acompanhava o ZX Spectrum. Quando percebeu que podia “mandar” na televisão, os jogos transformaram-se em programação. “Achei aquilo fascinante. Fiquei apaixonado e a partir daí já nem quis saber de jogos”, contou ao Observador. Nunca mais deixou de programar, apesar de nunca ter tido formação específica.

“Fui designer de sapatos, dono de uma boutique, organizador de feiras, um verdadeiro faz-tudo no mundo da moda. E apaixonei-me por este mundo, fiquei fascinado pelas pessoas, pelos sítios, pelo caos criativo”

(Prospeto do IPO, 2018)

A vida de empresário de José Neves começou muito cedo, aos 19 anos. Dois anos depois, lançou o segundo negócio, uma loja de calçado, inspirado também no avô. “Numa daquelas decisões que se toma quando se tem 22 anos e se acha que se pode fazer tudo, decidi também criar uma marca de sapatos, a Swear. Costumo dizer: um pé na tecnologia, um pé na moda. E estava sempre à procura de formas de juntar as duas coisas”, contou ao Observador. Da Swear à Farfetch, o jovem natural do Porto foi muita coisa: “designer de sapatos, dono de uma boutique, organizador de feiras, um verdadeiro faz-tudo no mundo da moda”, escreveu na carta aos acionistas. “Por amor à moda, comecei a construir um sonho: a Farfetch”, referiu. Porque a moda “celebra a beleza de toda e qualquer forma”, acrescentou, e à medida que é usada, muda a forma como as pessoas se sentem e como se projetam.

José Neves diz que erra muito. Mas a Farfetch vale mil milhões

“Quando tinha 13 anos, a minha mãe fez um doutoramento no King’s College London e eu ia para lá frequentemente com ela. Apanhei aquele gosto por viagens e por Londres, em particular”

(Observador, 2015)

As viagens sempre estiveram no imaginário de José Neves. “Sempre tive o sonho de viver no estrangeiro, de ter uma vida internacional, de viajar”, contou ao Observador. A escolha de lançar a Farfetch em Londres não nasceu por acaso – era uma cidade que já conhecia bem, por causa das viagens frequentes que tinha feito com a mãe na adolescência. A ideia que deu origem à Farfetch, no entanto, nasceu noutra poiso da Europa: em Paris. Mas é Londres que lhe arrebata o coração — as raízes nortenhas não falam mais alto do que o Big Ben. Para José Neves, entre Londres e Porto, a escolha recai na primeira. E nem as lembranças dos tempos de amargura que se viveram na altura da falência da Lehman Brothers o demoveram da convicção com sotaque british. Apesar do grosso dos colaboradores da Farfetch estar nos ecsritórios portugueses, a empresa continua a ter sede na capital inglesa.

“A Farfetch nasceu com a crise (…) A necessidade aguça o engenho, não é?”

(Observador, 2017)

Uma plataforma de comércio de moda de luxo em plena crise financeira? Sim. E nem a falência do banco de investimento Lehman Brothers meteu medo a José Neves. “Lançámos em inícios de outubro de 2008, duas semanas depois, e lembro-me muito bem porque em Londres aquilo foi vivido de uma forma muito dramática, a Lehman Brothers foi à falência. Nesse período, houve uma contração forte até no segmento de luxo, que normalmente é um segmento que resiste a estas situações. E portanto foi assim: foi um “timing” perfeito e havia aí um potencial de negócio que pensei logo na altura que podia ser fantástico. A necessidade aguça o engenho, não é?”, contou ao Observador. Nasceu de uma dificuldade e m dificuldade. A ideia da Farfetch surgiu porque a Swear — a marca de calçado que José Neves tinha lançado anos antes — estava com dificuldade em desenvolver um canal online, problema que o empreendedor percebeu não ser exclusivo seu, mas das boutiques de moda de luxo, no geral.

José Neves na apresentação do programa de aceleração de startups Dream Assembly

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

“Costumo dizer que criei a Farfetch com o meu dinheiro, ou seja, sem dinheiro. (…) Foi tudo o que tinha e o que não tinha”

(Observador, 2015 e 2017)

A crise financeira mundial afastou os investidores do risco que as novas empresas proporcionavam. Mas a ausência de financiamento externo não levou o português a baixar os braços. Não conseguia encontrar investidores para a empresa? Não faz mal, podia sempre avançar com capitais próprios, contou ao Observador. “Foi tudo o que tinha e o que não tinha”, conta. De 2007, altura em que começou a construir a plataforma, até 2010, a Farfetch foi financiada pelos outros negócios que estavam a dar: pelo da Swear e pela Grey Matter, que continuava a funcionar, e com fundos próprios. Costumo dizer que “it was done with my money, wich means no money” (foi feito com o meu dinheiro, ou seja, sem dinheiro, em português).

“Em 10 anos, fiz sete rondas de financiamento, não sei o que é que fiz mais”

(Observador,2015)

O “desafogo” da primeira ronda de investimento, de cerca de cinco milhões de dólares, só surgiu em 2010, numa altura em que a Farfetch já estava com alguma tração e o mercado com com alguma liquidez. “Fazíamos cerca de 15 milhões de dólares em faturação anual, tínhamos uma equipa dinâmica e várias lojas na plataforma. Já dava para perceber que era um negócio com pernas para andar”, contou José Neves ao Observador. A partir daí, nunca mais parou. Em dez anos, o empreendedor fez sete rondas de investimento. “Conheci investidores de todos os cantos do mundo”. Esta sexta-feira, estreia-se na bolsa nova-iorquina com um encaixe de 885 milhões de dólares (equivalente a 750 milhões de euros). Títulos começam a ser vendidos a 20 dólares cada.

“Se quiser falar com Mark Zuckerberg através deste investidor, consigo. Não estou a dizer que é fácil, que basta pegar no telefone e ligar. Mas sei que tenho as portas abertas”

(Observador, 2015)

Quando a Farfetch estava a negociar a ronda de investimento que a avaliaria em mil milhões de dólares, José Neves tinha três opções em cima da mesa. A vencedora foi a que contou com a capital de risco DST Global. Porquê? Porque “tinha os ingredientes necessários”. E que ingredientes são esses? O fundador e presidente do Facebook. “Se quiser falar com Mark Zuckerberg através deste investidor, consigo. Não estou a dizer que é fácil e que basta pegar no telefone e ligar. Mas sei que tenho as portas abertas”. O fundador da capital de risco DST Global, o russo Yuri Milner, foi quem impediu a venda do Facebook à Yahoo!. “Ele disse ‘não, isto é uma loucura’, não faz sentido vender esta empresa’. Hoje, o Facebook vale 227 mil milhões de dólares e Yuri Milner multiplicou 22 vezes o dinheiro dele”, contou ao Observador José Neves.

“Não me consigo relacionar muito com os problemas dos meus colaboradores, porque certas dificuldades que eles têm, apreensões sobre mudança, foi uma coisa que nunca senti”

(Observador, 2015)

Já em 2015, José Neves dizia ao Observador que quem fazia a Farfetch eram as pessoas. “As pessoas são o mais importante, a ideia é secundária”, dizia. Mas reconhecia que tinha de ser guiado pelos Recursos humanos em diversas ocasiões. Fruto de nunca ter trabalhado por conta de outrém, o empreendedor explica que nem sempre se conseguia relacionar muito com os problemas dos colaboradores. “Porque certas apreensões, certas dificuldades que eles têm, apreensões sobre mudança, foi uma coisa que nunca senti. No interior da Farfetch, a cultura assenta em cinco pilares: Be human (sê humano), Be global (sê global), Be brilliant (sê brilhante), Be revolucionary (sê revolucionário) e, por último, em português, ”todos juntos”. No prospeto para o IPO, a missão continua a mesma. “Prometemos aos nossos Farfetchers que esta empresa continuará a sua missão – guiando-se o nosso negócio por valores que criam felicidade no trabalho”.

José Neves foi um dos oradores da Web Summit em 2017

TIAGO PETINGA/EPA

“Esta questão de se punir pelo erro e de pensar em quais são as lições que tenho de tirar e de no futuro evitar, acho que é uma perda de energia”

(Observador, 2018)

Para José Neves, o que dantes era “um grande amigo, o reconhecimento de padrões e erros do passado”, hoje pode ser um começa a ser o nosso inimigo. “As lições de há cinco anos são irrelevantes para hoje. E temos de fazer um pouco tábua rasa: aceitar que falhámos, que o erro existe e isso não nos deve impedir de se calhar tentar a mesma coisa uma segunda vez”. adepto de uma cultura empresarial que abraça o falhanço, José Neves diz várias vezes que a equipa tem de falhar para ter sucesso. “Cometemos erros todos os dias na empresa e até temos uma cultura de incentivar tomadas de risco. Cometemos erros e aprendemos com eles. E isso é muito característico das empresas tecnológicas, o testar e aprender”, afirmou.

“Se conseguirmos atingir o sucesso sem nunca falhar? Isso é completamente impossível”

(Observador, 2018)

Em 2015, José Neves contava ao Observador que o mais importante era “termos paixão pelo que estamos a fazer, ter uma ideia clara da nossa missão. É daí que vem a força de vontade que faz com que nada nos pare”, diz. Porque entre os unicórnios, os milhões, estavam também muitas dores de cabeça, muitas noites mal dormidas, muitos erros cometidos, para os quais era preciso uma determinação “inabalável”, que faz com que quem falhe nunca falhe. “Porque falhar teria sido não tentar”, diz o português. Errar faz parte do processo e esta sexta-feira, o processo chega à bolsa norte-americana. Não falhar teria sido como “querer aprender a andar sem nunca cair.”

“Pensar que existe uma fórmula mágica em que família, vida pessoal e trabalho encaixam todas e aquilo vai funcionar tudo lindamente é uma ilusão”

(Observador, 2018)

Dez anos de incerteza, de expansão, de novos mercados, de negociações, de tomadas de decisão. A história da Farfetch tem sido escrita com a adrenalina que uma startup que ambiciona ser líder no segmento em que atua precisa para crescer. Os danos colaterais que isso provoca? São vários, contou José Neves. “A questão do equilíbrio entre a vida privada e a profissional é que primeiro não há fórmulas e depois não há forma de fugir à tensão. Existe uma tensão e essa tensão tem de ser aceite e tem é de ser gerida. Pensar que existe uma fórmula mágica em que família, vida pessoal e trabalho encaixam todas e aquilo vai funcionar tudo lindamente é uma ilusão. Na Farfetch, temos muito a consciência de que quando as pessoas se apresentam aqui para trabalhar não se apresentam só com cérebro, apresentam-se com cérebro, com coração, com estômago. E se isso tudo não estiver bem, o resultado das decisões, das decisões dessas pessoas e o resultado do nosso trabalho também não vai ser o melhor.”

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