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Manuela Júdice: "Para escolher bem é preciso conhecer bem" /premium

Manuela Júdice lidera a comitiva portuguesa na Feira do Livro de Guadalajara. Em entrevista a Maria João Avillez, fala sobre a experiência, sobre os desafios e sobre como levou 40 autores ao México.

Convidada pelo Governo para comissariar uma comitiva cultural portuguesa para representar o país na segunda maior Feira do Livro do mundo, em Guadalajara (México), Manuela Júdice deu boa conta do recado: planeou, escolheu e organizou a “montra portuguesa” que a partir deste sábado poderá ser vista, ao vivo e em relevo, em Guadalajara, pondo o México a ouvir Portugal — na Feira, de resto, estarão presentes o primeiro-ministro, António Costa, e a ministra da Cultura, Graça Fonseca. Amparada numa pequena equipa, Manuela usou dos mesmíssimos ingredientes com que, ao longo dos anos, foi erguendo o seu próprio currículo profissional, ligado à cultura: responsabilidade, critério, decisão, trabalho. E fez tudo isso dentro do prazo e abaixo do orçamento. A natureza feminina no seu melhor. Valeu a pena tê-la como cicerone nesta conversa.

Foi convidada pelo ministro dos Negócios Estrangeiros e pelo então titular da Cultura, Castro Mendes, para comissariar uma embaixada cultural portuguesa à Feira do Livro de Guadalajara, onde Portugal é o país convidado de honra. Antes de falarmos disto peço-lhe uma brevíssima visita guiada pela própria Feira.
A Feira é muito peculiar. Tida como a segunda maior do mundo, a seguir a Frankfurt, e como a maior da América Latina, Guadalajara é, para além da sua vertente de negócio profissional — agentes, editores, tradutores, livreiros, gente ligada ao livro que quer vender e comprar — uma enorme feira de grande público. Quando falamos em 860 mil visitantes — números do ano passado — eu diria que 90% desse número é grande público. Leitores, pessoas curiosas, amantes dos livros, gente interessada nos autores, que vão sempre com uma imensa curiosidade pelo país convidado de honra. É um evento com muitas componentes: literária, académica, científica, com múltiplos programas, dirigidos a vários tipos de público. Há desde programas infanto-juvenis até musicais, passando por debates, conferências, sessões com escritores. Um imenso conjunto de atividades…

…que são a marca da Feira?
Sem dúvida. Com enorme enfoque e projecção nos programas literários e académicos, porque esta Feira nasceu a partir da Universidade. Hoje é “auto-suficiente”, mas mantém essa matriz. Ter nascido no quadro de uma instituição universitária está no seu ADN.

Como é que a Manuela Júdice partiu para esta empreitada? Como se mete mãos a uma aventura com esta envergadura? Sentou-se a uma secretária e quê?
Não comecei por me sentar a uma secretária, tentei antes informar-me. Gosto de citar um verso da Sophia: “Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar”. Ora, eu também não podia ignorar que o convite era um enorme desafio, e ouvi muita gente, li muito, vi muita coisa…

Antes da tal secretária?
Antes de me sentar à tal secretária. E, quando me sentei, levantava-me para ouvir. Muita gente se me dirigiu ao saber que ia ser comissária, fazendo-me propostas, sugestões… Não direi que ouvi tudo mas ouvi, e li, muitas das propostas que me chegaram e fui mesmo para além disso.

Mas a última escolha foi sua?
Absolutamente. Direi sem receio que a última escolha foi minha. Muitas vezes custou-me dizer que não a algumas sugestões recebidas, eram coisas muito boas, que…

…que não se enquadravam? Eram difíceis? Caras?
Ou que não se enquadravam, ou as quais já não tínhamos capacidade de integrar na programação, ou devido aos seus custos financeiros. Não estamos a falar de uma operação aqui ao lado…

Sim, a geografia encarece. Mas então, em resumo: o produto final que vai sair de Portugal e aterrar no México é o fruto de propostas que teve, vindas de outros, de escolhas exclusivamente suas, de ambas as coisas?
Ambas as coisas. Ainda antes de começar a trabalhar, sentada à tal secretária, no dia 15 de Setembro de 2017, recebera da Secretaria de Estado da Cultura uma listagem de espectáculos, exposições, iniciativas já levadas a cabo em Portugal, em várias áreas, com êxito comprovado, e que me foram postas à consideração: “Olha, isto está pronto, se quiseres, está disponível”. Retive imediatamente um espectáculo musical, a “Toada de Portalegre”, do José Régio, com Ricardo Ribeiro e Rabih Abou Khalil; o bailado “Lídia”, da Companhia Nacional de Bailado; e um espectáculo de teatro, o “By Heart” do Tiago Rodrigues, director do Teatro Nacional D. Maria II. Foram-me suscitados pela tutela, dentro de uma lista muito razoável.

O que a movia na leitura dessa lista? Que procurava exactamente?
Literatura. E o modo como ela se poderia enquadrar naquilo que, na minha mente, era um programa que ia nascendo. Dizia a mim mesma que “não podia sair da literatura”, que tudo “teria de ter a ver com ela.”

Estava então a chegar aquilo que se chama um critério? Como é que ele se foi construindo? À base de insónias?
Tive muitas — ainda tenho – só desaparecerão quando isto acabar, mas as insónias não foram tanto por causa do critério, prenderam-se mais com calendários, com tempos demasiado curtos para concretizar coisas, questões administrativas, financeiras – encontrar orçamento para isto tudo. E prenderam-se muitas vezes com alguns egos que têm de ser geridos, mas dão trabalho geri-los!

Que tipo de ajudas teve na operacionalização desta “embaixada”?
Houve uma grande ajuda por parte da DGLAB — Direcção-Geral do Livro, Arquivos e Bibliotecas — que se responsabilizou por toda a gestão administrativa, o que me tranquilizou: afligiam-me algumas possíveis fragilidades minhas em questões de administração… Eu só tinha uma certeza: fazer tudo e agir sempre dentro das regras do Estado, da administração pública, que são severas. Mas se isso para mim foi muito claro desde o início — não ultrapassar, de forma alguma, nenhum limite — também sucedia que por vezes o calendário da administração pública não se conjugava — nem adaptava — ao calendário de uma task force que tem de pôr de pé uma operação desta envergadura.

"Quis manter-me sempre dentro da escrita, do texto e da literatura. Face a um país com um artesanato riquíssimo como o México, pensei: 'Como é que o nosso artesanato pode dialogar com o deles, sem sairmos do texto escrito?' Com os lenços de Vila Verde."

Voltemos ao critério. Quando descobriu que não queria “sair” da literatura, ela passou a funcionar como um denominador comum, dando forma às suas escolhas e procuras?
Sem dúvida. Comecei pelas propostas que me chegaram do Ministério da Cultura, escolhi as três de que já lhe falei e depois fui fazendo as minhas associações.

Por exemplo?
No capítulo das exposições, vi que, no final de 2017, a Gulbenkian expunha “Ana Hatherly e o Barroco”. Quando por essa altura fui a Guadalajara por razões de trabalho, já levava em mente procurar um espaço onde a exposição se pudesse enquadrar. Ou seja, falando de Ana Hatherly, não saíamos fora da literatura. Por outro lado, eu tinha um sonho há já muitos anos que era juntar o Almada aos muralistas da América Latina, especialmente aos muralistas mexicanos, trazendo-os a Portugal. Ora, nas minhas leituras, nas pesquisas efectuadas no meu trabalho de casa, descobri que Guadalajara era a terra natal do José Clemente Orozco! Ao chegar lá, ocorreu-me logo que, se “não trouxera os mexicanos a Lisboa, iria levar o Almada a Guadalajara…” Lá, deparei com um espaço fabuloso, um Instituto Cultural onde está o melhor mural do Orozco — dentro daquilo que conheço da sua obra, bem entendido. “Pronto, é para aqui mesmo que o Almada vem”, disse a mim mesma. E bati-me para levar as tapeçarias de Portalegre que reproduzem os murais das duas gares marítimas. E lá vão elas para uma exposição intitulada “Lo que cuentan las paredes: Almada Negreiros y la pintura mural”.

Inauguração da exposição "Lo que cuentan las paredes: Almada Negreiros y la pintura mural", com a curadoria de Mariana Pinto dos Santos. Fotografia: FIL Guadalajara/@Paula Islas

FIL/Paula Islas

A sua escolha da literatura chegou aos lenços portugueses: bordados com palavras.
Quis manter-me sempre dentro da escrita, do texto e da literatura. Face a um país com um artesanato riquíssimo como o México, pensei: “Como é que o nosso artesanato pode dialogar com o deles, sem sairmos do texto escrito?” Com os lenços de Vila Verde.

Os “lenços dos namorados”?
Sim. E como os mexicanos têm um movimento que se chama “Bordando por la paz”, procurei-os assim que pude. De início houve alguma hesitação: ficaram sensibilizados com a nossa abordagem, mas, como o seu movimento tem um forte carácter reivindicativo, recearam que ao ser exibido numa exposição perdesse de algum modo esse carácter. Então, de acordo com o curador da exposição, António Ponte, director regional de Cultura do Norte, escolhemos três textos portugueses que nos falam da paz. E depois bordaram-se os lenços em Vila Verde, não já os lenços dos “Namorados” mas com versos de Pedro Támen, Herberto Hélder e José Luís Peixoto. A exposição chama-se “Variaciones sobre una tradición: de los pañuelos de amor a los bordados con poesia”.

"É preciso conhecer. Ouvir muita coisa, ler muita coisa, relacionar muita coisa. Volto ao exemplo da Ana Hatherly: é sabido que a arte barroca tem uma enorme importância no México. Ora, não só a exposição da Ana permitia mostrar o barroco português lado a lado com o mexicano, como nos permitia também homenagear uma mulher portuguesa extraordinária e com uma relação também ela extraordinária com o próprio barroco. Vai chamar-se 'Ana Hatherly y el Barroco: en un jardín hecho de tinta.'"

E tudo sempre com total independência das tutelas?
Total independência. Devo dizer que, logo de início, fui muito clara na minha primeira entrevista com o então ministro da Cultura: “Que esperam de mim? O que gostariam que fosse esta Feira? Que restrições há?”.

Necessitava de uma espécie de guião para se mover?
Não havia tempo para conflitos, hesitações, voltar atrás. Tinha de ser muito prática e agir depressa. Há tempos li uma entrevista do Miguel Lobo Antunes em que ele dizia que “programar era fazer escolhas”. É verdade, mas elas não devem incluir questões de gosto — pessoal, estétetico, etc. — do programador. É necessária uma imensa informação antes do acto de escolher para o poder fundamentar bem.

O que é preciso para escolher bem?
É preciso conhecer. Ouvir muita coisa, ler muita coisa, relacionar muita coisa. Volto ao exemplo da Ana Hatherly: é sabido que a arte barroca tem uma enorme importância no México. Ora, não só a exposição da Ana permitia mostrar o barroco português lado a lado com o mexicano, como nos permitia também homenagear uma mulher portuguesa extraordinária e com uma relação também ela extraordinária com o próprio barroco. Vai chamar-se “Ana Hatherly y el Barroco: en un jardín hecho de tinta”.

As três grandes traves mestras da Feira de Guadalajara são a cultura, o pensamento e a ciência. A literatura foi o seu fio condutor mas houve que atender a essas traves mestres, selecionando em função disto.
Foi através desses três pilares que me fui movendo. Sucede, porém, que eu já passara pelo México como comissária de uma exposição, feita em 1999, quando o Presidente Jorge Sampaio lá efectuou uma visita de Estado. Nessa altura, levara o Fernando Pessoa num diálogo com o Octávio Paz, dado que ele foi um grande divulgador do Pessoa no México. A esta primeira experiência juntara-se o meu trabalho, durante alguns anos, na Casa da América Latina. E, aí, o facto de existir um prémio científico — em parceria com o Banco Santander — para as áreas da Economia e das Ciências Sociais e Humanas levou-me naturalmente a interessar-me pelo trabalho que está a ser feito na América Latina e, claro, a conhecê-lo melhor. As dezenas de candidaturas a este prémio, vindas de universidades de toda a América Latina, permitiram-me ir adquirindo uma sólida ideia do trabalho efectuado e dentro dele, daquele que pudesse ter uma relação com Portugal. Ou seja, todo este universo de experiência e conhecimento esteve presente na altura das escolhas para Guadalajara. Digamos que quer na literatura, nas ciências sociais e humanas, na ciência, eu estava mais ou menos, (ri) “formatada”.

Nunca se sentindo insegura no comando desta empreitada?
Insegura? Nunca.

No comunicado de imprensa que li emitido pelos responsáveis desta Feira do Livro anuncia-se que Portugal escolheu “o melhor das suas letras”, através de 40 autores. Mas… o “melhor” é uma coisa sempre subjectiva, não é? Quem é que decide e o que é que define ou explica “o melhor”? As vendas? Os prémios? A media? Os editores? As tiragens? Ou foi a comissária Manuela Júdice que, após o seu trabalho de casa, escolheu esse “melhor”?
Essa apreciação, referindo que o país enviará “o melhor das suas letras”, é dos mexicanos. Da exclusiva responsabilidade deles. Não é minha e só os implica a eles. Disse-lhe há pouco, e repito, que as escolhas não podem traduzir o gosto do programador envolvido. O que tive, sim, foi critérios.

Uma vez mais: quais?
Começou pelo pedido da própria Feira para levar 50 escritores – inclusivamente forneceram-me uma lista com… 50 nomes portugueses. Chamaram-lhe “sugestão”, mas eu sabia que por detrás da “sugestão” havia uma vontade muito forte de que aqueles nomes estivessem presentes. Além disso, eu sabia que a Feira, em cada edição, tem temas prioritários: este ano é o “Romance Policial” e a “Crónica” como géneros literários. Também sabia que pretenderiam mais prosa do que poesia. E, finalmente, sabia que tinha de ter um equilíbrio entre “meninos” e “meninas” e entre gerações. E ainda tinha de pensar que levar pessoas para o outro lado do mundo, numa viagem dura, não é para todas as idades nem para todos os estados de saúde. E finalmente: levar quem não se desembaraça bem com a língua espanhola não seria boa ideia porque… não havia capacidade financeira para ter tradução simultânea em todas as sessões. Enfim, viajarão daqui para o México cerca de 40 escritores.

Não deve ter sido fácil, com tanta coisa a ter em conta…
Com esta série de critérios muito objectivos em mente, fui fazendo envelopes: o do romance policial, o da poesia, o da ficção, e fui construindo o meu puzzle. Mas havia outros dados, também eles muito objectivos, que teria de ter em conta. Como por exemplo que António Lobo Antunes fora o único português que já recebera um prémio literário vindo da América Latina, o Prémio Juan Rulfo, atribuído pelo Chile. Também não podia ignorar que nós temos o Prémio Camões e que há, felizmente, uma série de escritores vivos que o receberam. Ora, se do lado da língua espanhola há o Prémio Cervantes, que tanto os envaidece, então que levássemos os nossos “Camões”.

Então fiquemos aqui com alguns nomes da escrita…
Lídia Jorge, Dulce Maria Cardoso, Gonçalo M. Tavares, Teolinda Gersão, Maria Rosário Pedreira, João Tordo, Ana Luísa Amaral, Hélia Correia, Ana Margarida Carvalho…

E para além de Germano de Almeida, recente Prémio Camões, também há escritores lusófonos no lote de Guadalajara?
Teria que haver. E porquê? Porque fora lançado um programa em Guadalajara de apoio à tradução e à edição: para o México em particular e para a América Latina, de uma forma geral. Ora, tendo esse programa sido igualmente aberto aos autores, houve um compromisso de que haveria um esforço “particular” para lá ter os autores dos livros editados especialmente para esta ocasião. Nesse outro lote está o Ondjaki, o Germano de Almeida, o Agualusa, o Mia Couto. Estarão connosco no México.

"O pensamento não se mete num avião porque é livre como o vento, como dizia o poeta… O pensamento pairará durante todas as actividades sejam elas literárias, profissionais, académicas... O pensamento português vai estar por cima de todas elas."

Foi o fazer do tal puzzle, peça a peça… Em quanto tempo ?
É uma história muito engraçada: no dia 15 de Junho deste ano, uma sexta-feira, fechei o programa para o apresentar à imprensa, na segunda-feira seguinte, 18 de Junho. E, nisto, dei comigo a registar a coincidência: 15 de Junho de 2018 foi uma sexta-feira e eu sentei-me à secretária do meu gabinete da Torre do Tombo no dia 15 de Setembro de 2017, que também era uma sexta-feira, e comecei a trabalhar efectivamente e a “sério” no dia 18 de Setembro, uma segunda-feira. Foram rigorosamente nove meses. Achei isto muito engraçado. (risos)

Falou há pouco do lado “profissional” da Feira e de “negócio”. Pergunto: além dos escritores, artistas e músicos que leva, haverá em Guadalajara a presença – vasta, depreendo – de um núcleo português de editores, gráficos, tradutores, designers, ilustradores, gente relacionada com o livro. Que expectativas tem?
Todas essas áreas, essas profissões que citou, integram-se no que se chama justamente a “FIL profissional”. De entre os nove dias que dura o evento há três — de 26 a 28 de Novembro — que são inteiramente dedicados a esses profissionais, num período de tempo até às quatro da tarde — a Feira só abre ao grande público a partir dessa hora. Durante esses três dias a feira encher-se-á então de agentes, bibliotecários, editores, em suma, de gente que está ali focada no negócio do livro: desde a produção à venda, passando pela distribuição. Fomos, aliás, chamados a também participar neste programa levando uma delegação de três editores: um sénior, o Zeferino Coelho; uma editora independente, a Bárbara Bulhosa; e, para também contemplar a poesia, levaremos o director de uma colecção de poesia, Pedro Mexia. Por outro lado, é dada muita atenção à promoção do livro, à promoção da leitura.

Como se faz nascer o gosto pela leitura? É algo muito “pensado” em feiras como esta?
Claro. Estaremos obviamente presentes nessa área com a Teresa Calçada, comissária do Plano Nacional de Leitura, e também levaremos dois ilustradores connosco. Pude constatar, aliás, que há um grande apreço pelos ilustradores portugueses em Guadalajara, tanto que há vários anos os têm vindo a convidar para participar na FIL profissional. Sabendo isso, este ano a minha preocupação foi levar alguém que justamente ainda não tivesse lá estado nessa qualidade.

Ocorreram-me, então, duas pessoas que, para além de serem ilustradores, mantêm uma actividade literária, o António Jorge Gonçalves e o Afonso Cruz. Como tal, além de participarem no certame como profissionais da ilustração, tomarão parte noutros programas. E, entretanto, levaremos bibliotecários: de bibliotecas públicas, onde o país tem um trabalho notável; de uma instituição universitária, porque não podemos nem queremos esquecer o programa académico e a a sua vital importância. Nesta área do livro e dos profissionais do livro, temos ainda agendado um debate entre o nosso director da Imprensa Nacional – Casa da Moeda e o director do Fundo de Cultura Económica, que é a grande estrutura editorial do Estado mexicano. Não custa adivinhar que só poderá ser um momento interessante.

Mencionou-me que os três pilares eram a literatura, a ciência e o pensamento, Mas como é que se mete o “pensamento” num avião e se exporta para um longínquo local entre o Atlântico e o Pacífico chamado México?
O pensamento não se mete num avião porque é livre como o vento, como dizia o poeta… O pensamento pairará durante todas as actividades, sejam elas literárias, profissionais, académicas… O pensamento português vai estar por cima de todas elas.

Quando lhe fiz a pergunta – talvez formulada de forma infeliz – queria saber se delegação portuguesa leva algum pensador, filósofo, ensaísta…?
Sim, embora integrado no programa académico. A organização da Feira de Guadalajara começou por nos pedir trinta académicos! Disse-lhes que não era possível: “30 académicos, 50 escritores, grupos musicais….? Esqueçam!” Comprometemo-nos a levar dez académicos para o Programa Académico. Tratou-se de uma escolha da Secretaria de Estado da Ciência e Tecnologia e Ensino Superior, feita de acordo com os reitores das universidades portuguesas e dos institutos universitários.

Há várias e muito interessantes propostas no âmbito do Programa Académico, desde “conservação”, “restauro”, até laboratórios e “cancioneiros”…
Lá está, de acordo com aquilo que eu sabia sobre o México quis privilegiar uma área que propus logo de início, a da conservação e restauro, onde Portugal e México trabalham fabulosamente e pareceu-me interessante pô-los a debater em conjunto. É o que irá ocorrer. Temos um trabalho combinado entre as Ciências duras — química, física, matemática — com a História para qual me lembrei imediatamente do Laboratório Hércules da Universidade de Évora, com reputação internacional. E porque não levá-lo a Guadalajara já que isso se relaciona com a nossa cultura e a nossa literatura?

Incluí ainda no Programa Académico uma sugestão de imediato assumida pelos mexicanos, o Cancioneiro do Gaspar Fernandes, ideia que me foi soprada pelo Rui Vieira Nery, naquele período em que eu ouvia e estudava propostas. Esta era, aliás, mais do que evidente: um português que vai para a Guatemala, depois vai para o México, morre no México, escreve em português, sendo a sua obra considerada património cultural mexicano? Tínhamos que o “levar”. E assim o Rui Nery irá falar do Cancioneiro do Gaspar Fernandes com professores mexicanos.

Tanta gente, tantos programas, tanto trabalho…
…e, para além dos diversos nomes por nós indicados para o Programa Académico, haverá outros participantes portugueses, não forçosamente académicos que irão a convite da Universidade de Guadalajara. Como o Miguel Real, por exemplo, convidado para falar sobre Portugal, ou a provedora de Justiça, Maria Lúcia Amaral, juntando-se a mais oito ou nove presenças portuguesas convidadas directamente pelo México.

No mesmo âmbito dos convites que nos chegaram do México – e este foi da Faculdade de Arquitectura de Guadalajara — haverá uma homenagem à arquitectura portuguesa na pessoa do João Luís Carrilho da Graça onde estarão cinco arquitectos portugueses. Claro que eu tinha pena de ir para a terra do Luis Barragán sem levar a arquitectura, mas não podia levar tudo… E como a nossa arquitectura já estivera em relevo na programação da Feira de Bogotá há dois anos, preferi não repetir. Escolhi, sim, inovar e surpreender, optando pelo azulejo com texto. Ah, as histórias que os azulejos nos podem contar…

"Tive receio de que houvesse expectativas defraudadas. Não o escondo, apontava-se para dois milhões e meio de euros e no dia em que foi assinado o convénio esse montante foi referido oralmente por alguém, e eu própria o referi numa entrevista que dei. E, embora sabendo que nunca ninguém tinha estado em Guadalajara que não tivesse gasto mais de 4 milhões de dólares, antevi que nós nunca iríamos atingir os dois milhões e meio de euros e arredei completamente a ideia da minha cabeça."

Falou em arquitectura. Há um pavilhão português? Desenhado por quem?
Claro que há, e muito visível. É uma obra do arquitecto João Santa Rita (com Pedro Lebre), do Atelier Santa Rita e Associados. O Pavilhão de Portugal está muitíssimo bem situado, à entrada da Feira. Qualquer pessoa tem de nos ver.

E os dinheiros? Teve obviamente um orçamento. Chegou?
Quando me convidaram, deram-me um determinado “número”, mas como não vivo nas nuvens e a idade traz uma certa sabedoria percebi logo que não poderia trabalhar com aquela cifra….

…que seria sempre menos?
Tive receio de que houvesse expectativas defraudadas. Não o escondo, apontava-se para dois milhões e meio de euros e, no dia em que foi assinado o convénio, esse montante foi referido oralmente por alguém, e eu própria o referi numa entrevista que dei. E, embora sabendo que nunca ninguém tinha estado em Guadalajara que não tivesse gasto mais de 4 milhões de dólares, antevi que nós nunca iríamos atingir os dois milhões e meio de euros e arredei completamente a ideia da minha cabeça. Cheguei ao início do ano e tinha um milhão e setenta mil euros no orçamento para a operação Guadalajara, cuja gestão tem aliás sido feita pela Direcção-Geral do Livro, Arquivos e Bibliotecas.

Que fez?
Pus os pés ao caminho e fui à procura do resto.

E encontrou?
Sim. Por um lado, porque entretanto se juntaram a estes valores outros que vieram do Orçamento Geral do Estado, através do Instituto Camões e do AICEP. Por outro, porque fui bater a portas de mecenas. Sim, consegui alguns: uns patrocinaram com verbas mais importantes, outros com montantes mais curtos, mas não fecharam a porta. Em Janeiro deste ano pude estabelecer a meta de um milhão e oitocentos mil euros e foi com ela que trabalhei, embora hoje saiba que devo ficar aquém desta importância. Ainda não posso dizer com exactidão, mas ficarei aquém.

"Como ao longo dos últimos vinte anos eu já tinha estado como observadora noutras participações de Portugal como convidado de honra, em diversas feiras do livro, já vira trabalhar equipas. Quando me foi feito o convite, achei naturalmente que iria ter uma equipa, mas… ela demorou muito tempo a ser criada! Tive de ir buscar pessoas fora, foi aquela coisa, nhãnhã , aqueles constrangimentos habituais, aquela burocracia que de início me obrigou a ser mulher dos sete ofícios: procurar os mecenas, negociar valores, fazer escolhas, ir ver espectáculos, ouvir música."

Quando foi convidada para liderar esta aventura, aceitou-a. Porque achou que era capaz? Por ter um currículo ligado à área da cultura? Ou simplesmente porque queria muito fazer isto?
Não, não queria muito fazer isto. (Risos.) A minha intenção no ano passado era reformar-me. Desenvolvi um projecto de que gostava muito, na Câmara de Lisboa, mas ele tinha feito o seu caminho, era o “Festival Todos-Caminhada de Culturas”. Foi uma criação minha quando fui vereadora das Relações Internacionais da Câmara por curtíssimo período, naquele mandato intercalar muito curto, entre 2007-2009, de António Costa. Quando ele me atribuiu as Relações Internacionais, disse-lhe que “sim senhor”, embora adiantando logo que “na minha perspectiva as relações internacionais não era só Lisboa relacionar-se com outros países, era Lisboa a relacionar-se com os cidadãos de outros países que a habitam, e com as respectivas culturas com que a habitam”.

Foi a semente do “Festival Todos”?
Foi, o festival nasceu assim, no Ano Europeu da Interculturalidade. Desenvolvi-o com a Academia de Produtores Culturais, do Miguel Abreu, exactamente, com programação feita pela Madalena Vitorino e pelo Giacomo Scalisi, que me deu muito, muito, muito gosto fazer. Eu sabia que aquilo tinha pés para andar, estava enraizado, não precisava mais de mim, podia sair.

Mas para onde queria ir? É uma mulher tão enérgica, com tanta capacidade de trabalho…
Para casa. Fazer coisas que me apetecesse, passar tempos no Algarve, onde gosto tanto de estar…Queria-me reformar. E apareceu-me este convite que tinha, desde logo, um carácter que me era muito simpático, que era o facto de eu poder relacionar culturas. E depois tinha ainda um horizonte temporal muito curto, o que era bom. Pensei: “É só mais um ano e meio”.

Hoje, passado esse ano e meio, sente-se tranquila com o que se fez? Gratificada?
Estou contente. Sinto-me gratificada. Gostava apenas de ter tido um bocadinho menos de trabalho… Como ao longo dos últimos vinte anos eu já tinha estado como observadora noutras participações de Portugal como convidado de honra, em diversas feiras do livro, já vira trabalhar equipas. Quando me foi feito o convite, achei naturalmente que iria ter uma equipa, mas… ela demorou muito tempo a ser criada! Tive de ir buscar pessoas fora, foi aquela coisa, nhãnhã, aqueles constrangimentos habituais, aquela burocracia que de início me obrigou a ser mulher dos sete ofícios: procurar os mecenas, negociar valores, fazer escolhas, ir ver espectáculos, ouvir música. Os primeiros seis meses foram duros. Quando arranquei para a parte final, com o programa já construído, arranquei um pouco cansada.

Mas nada lhe toldou a expectativa positiva com que vai partir para o México?
Parto com uma imensa expectativa. Parto cansada, como disse, mas muito confiante.

Última pergunta que é uma curiosidade apesar de tudo não despicienda: a Cultura mudou de titular, saiu um, Luís Felipe Castro Mendes, entrou outra, Graça Fonseca. A troca atrapalhou alguma coisa?
O programa está pronto, as viagens compradas, as equipas formadas, os catálogos impressos. Mas, quanto à mudança na pasta da Cultura, ontem, quando iam a entrar em máquina as folhas de sala lá em Guadalajara, pude felizmente beneficiar da diferença horária para lhes dizer “parem aí, esperem um bocadinho, para actualizar as fichas técnicas”, mas foi a única coisa que consegui. Mas quero deixar claro que este projecto tem um grande envolvimento e empenho do anterior ministro, Luís Filipe Castro Mendes, tendo sido aprovado por ele e pelo ministro Santos Silva.

Conhece bem a nova ministra?
Tive a ocasião de trabalhar com a Graça Fonseca na Câmara de Lisboa. É uma pessoa que não me é desconhecida, uma mulher muito inteligente, com um sentido prático fora do comum. Tenho a certeza de que está a abraçar “isto” com toda a galhardia. Já reuni com ela, já a pus a par de tudo, estou muito descansada.

Que vai dizer a si própria quando aterrar em Lisboa no termo desta enorme aventura? Que agora já pode ir para casa?
Vou dizer sobretudo: “Está feito”. Pronto.

E posso acrescentar “e bem feito”?
Lá no México é que têm de dizer. Nunca pensei nisto em termos pessoais. Sei que me envolvi, sim e muito. Mas, Maria João, muito francamente, envolvi-me em nome do país, da cultura portuguesa, em nome daquilo que eu, na minha modéstia, considero que são os portugueses.

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