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Miguel Díaz-Canel. Quem é o "Richard Gere cubano" que sucede aos Castros?

Discreto, afável e fã dos Beatles, o novo Presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel, troca a farda militar pelas calças de ganga. Mas a mudança histórica pode não passar de cosmética.

John McAuliff recorda-se bem de quando se cruzou com Miguel Díaz-Canel pela primeira vez. Corria o ano de 2012: Raúl Castro já tinha substituído o irmão Fidel à frente dos destinos da ilha, Díaz-Canel ocupava o posto de ministro do Ensino Superior e o norte-americano McAuliff estava no país em representação do Fundo para a Reconciliação e Desenvolvimento (uma organização norte-americana que tenta criar laços entre os EUA e países outrora “inimigos” como o Vietname ou Cuba), no Congreso Universidad, um evento internacional de educação que se realiza em Cuba a cada dois anos. “No segundo dia, um grande grupo apareceu ao pé da nossa barraca. Era Díaz-Canel, que visitava o evento acompanhado pela sua equipa, algumas câmaras de televisão e a sua mulher, Lis Cuesta Peraza”, conta o norte-americano ao Observador.

“Tive algum receio, até porque ele tinha sido citado um ano antes na imprensa a criticar as ‘subversivas’ universidades americanas que querem abrir programas em Cuba. Mas foi muito caloroso ao cumprimentar-me, agradeceu a minha presença e convidou-me para ir à receção que estava a organizar nessa noite.”

Dois anos depois, novo encontro no mesmo evento. Desta vez, Díaz-Canel já não era um simples ministro: no ano anterior tinha sido nomeado vice-presidente do país. Tal não o impediu, contudo, de trazer consigo a mesma imagem de simpatia, até com os estrangeiros: “Ele e a mulher caminharam por entre a multidão, ao som da música da [banda cubana] Los Van Van, com a mesma atitude que um político norte-americano ou português teriam”, garante McAuliff. Ao aproximar-se do casal, o vice-presidente cumprimentou-o efusivamente, como se fossem velhos conhecidos.

“Ele e a mulher caminharam por entre a multidão, ao som da música da [banda cubana] Los Van Van, com a mesma atitude que um político norte-americano ou português teriam.”
John McAuliff, presidente do Fundo para a Reconciliação e Desenvolvimento, nos EUA

A imagem do vice-presidente simpático e comunicativo até com norte-americanos contrasta com a de um vídeo que foi tornado público por um grupo de ativistas cubanos, onde se pode ver a intervenção de Díaz-Canel numa reunião do Partido Comunista Cubano em 2017. Nesse encontro, o vice-presidente não teve pejo em criticar os Estados Unidos e usar da retórica comunista mais agressiva: “O Governo dos EUA invadiu Cuba, instaurou o embargo, impôs medidas restritivas. Cuba não fez nada disto, por isso em troca de nada eles é que têm de resolver as assimetrias se querem a normalização das relações [entre os dois países]”, disse, num discurso onde também criticou “as atividades subversivas” de vários media independentes e das embaixadas de países como Noruega, Espanha, Alemanha e Reino Unido.

Este é o homem escolhido por Raúl Castro para ocupar o seu lugar, a partir desta quarta-feira. A escolha é simbólica: embora tecnicamente não seja o primeiro homem de fora da família Castro a ocupar o cargo de Presidente (Manuel Urrutia e Osvaldo Dorticos ocuparam o cargo imediatamente após a Revolução, antes de Fidel Castro), será o primeiro não-Castro a suceder aos irmãos. E também será o primeiro civil a suceder-lhes — Díaz-Canel, engenheiro eletrotécnico de formação, cumpriu apenas três anos de serviço militar numa unidade de mísseis anti-aéreos. À beira de completar 58 anos (celebra o aniversário esta sexta-feira), é também significamente mais novo do que a maioria da cúpula do partido.

A escolha é tão significativa que até Luis Enrique Ferrer, dissidente cubano e um dos líderes do partido oposicionista União Patriótica de Cuba (UNPACU), reconheceu ao Observador que Díaz-Canel representa um certo tipo de mudança: “Este homem nasceu em 1960 e não é como os outros dirigentes comunistas que nasceram antes da chamada Revolução que levou os irmãos Castro ao poder. Foi educado e doutrinado como o povo cubano em geral, por este Governo, que está no poder desde 1959”, afirma o político da oposição, a partir dos Estados Unidos. Tal não impede Ferrer, contudo, de estar cético relativamente às mudanças que o novo Presidente pode trazer: “Só quando já tiverem desaparecido todos os membros da velha guarda é que Díaz-Canel poderá ser um fator de mudança”, prevê.

Com o secretário de Estado de Barack Obama, John Kerry (ADALBERTO ROQUE/AFP/Getty Images)

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Mas quem é este homem, capaz de sorrir e fazer conversa de circunstância com um norte-americano à frente das câmaras, mas também de acusar países ocidentais de “atividades subversivas”? Quem é Díaz-Canel, o escolhido pelo próprio Raúl Castro para lhe suceder, que representa esta mudança da guarda?

Do adolescente que ia a festas com música americana ao político comunista “terra-a-terra”

Nasceu a 20 de abril de 1960 em Placetas, cidade do município de Villa Clara conhecida como “Vila dos Louros” pela quantidade de loureiros que ali existem. Filho de uma professora, Aida Bermúdez, e de um operário (de quem também herdou o primeiro nome), tem origens espanholas, já que é bisneto de um homem vindo das Astúrias, segundo conta o El País.

Na juventude, poucos imaginavam que pudesse um dia tornar-se Presidente. “Não era a pessoa que hoje em dia parece ser”, reconheceu um antigo conhecido, o advogado Santiago Alpizar, à NBC. No liceu, recorda Alpizar, Miguel “era simpático, alto, com o cabelo loiro comprido” e frequentava festas onde se ouvia música americana. De política, não falava.

“Este homem nasceu em 1960 e não é como os outros dirigentes comunistas que nasceram antes da chamada Revolução que levou os irmãos Castro ao poder. Foi educado e doutrinado como o povo cubano no geral, por este Governo, que está no poder desde 1959.”
Luis Enrique Ferrer, político da oposição

A sua simpatia e simplicidade são recordadas com apreço em Villa Clara, onde se licenciou em engenharia em 1982. Seguiu-se o serviço militar e, depois, o primeiro contacto real com a política, ao ingressar na União de Jovens Comunistas, ao mesmo tempo que trabalhava como professor. No final dos anos 80, conta o El Nuevo Herald, fez várias missões voluntárias na Nicarágua, à altura sandinista.

Em 1994, surgiu o primeiro grande desafio político, ao ser nomeado primeiro-secretário do Partido Comunista (um cargo local com poder efetivo superior ao de presidente da câmara) na sua província natal de Villa Clara. A impressão que causou nos habitantes não podia ser melhor: o filho da terra deslocava-se para o trabalho de bicicleta, e não no Lada oficial; ia aos serviços para ver de perto como eram atendidos os utentes; e apoiou projetos inovadores como o El Mejunje, um centro cultural onde se davam concertos rock e se realizavam shows de transformismo.

Díaz-Canel a cumprimentar eleitores (YAMIL LAGE/AFP/Getty Images)

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“Toda a gente estava a passar mal e o povo via o primeiro-secretário a andar de bicicleta. Ele não o fazia pela popularidade”, garantiu à Reuters José Antonio Fulgueiras, presidente do sindicato de jornalistas de Villa Clara e amigo de Díaz-Canel. “Ele fazia-o porque é mesmo assim, é muito terra-a-terra.”

Em Villa Clara, sucedem-se os relatos de pessoas impressionadas com a ação política do filho da terra. “Em 1996, recém-nomeado, veio a este espaço que é um programa de opinião onde se discutem os temas mais quentes. Duas horas ao vivo, com o microfone aberto, a responder às chamadas da população”, recordou a jornalista Xiomara Rodríguez, responsável pelo programa “Alta Tensão” da rádio local CMHW.

Em 2013, o fundador do Mejunje contou a Fernando Ravsberg, correspondente da BBC em Cuba à altura, o papel essencial de Díaz-Canel para a abertura do centro cultural considerado por muitos um “santuário” para a comunidade LGBT da ilha: “Quando lhe oferecemos o nosso livro, escrevemos-lhe uma dedicatória que dizia ‘Obrigado pela tua cumplicidade”, revelou.

O desafio político seguinte, contudo, não correria tão bem. Em 2003, no mesmo ano em que se tornou o mais jovem membro de sempre do Politburo cubano (aos 43 anos), foi também nomeado primeiro-secretário da província de Holguín, terra natal dos irmãos Castro. Aqui, ao contrário do que aconteceu em Villa Clara, enfrentou alguma resistência por não ser um local, a que se somou uma seca profunda que teve impacto na agricultura local. Para a estrutura do partido, contudo, Díaz-Canel fez um bom trabalho. Em 2009, seria nomeado ministro do Ensino Superior; quatro anos depois, era escolhido para o cargo de vice-presidente, revelador da confiança profunda que Raúl Castro deposita em si.

Um homem com “baixo perfil mediático”, mas também “de mente aberta”

Os relatos na imprensa internacional enfatizam a mudança de estilo que Díaz-Canel trará consigo para a presidência. Em vez das fardas militares, o novo Presidente prefere as calças de ganga, por exemplo. Para além de ser um fã confesso dos Beatles, Díaz-Canel utiliza frequentemente um iPad, faz-se acompanhar da mulher em público e é por vezes apelidado de “Richard Gere cubano”, pelos cabelos grisalhos — um estilo que contrasta em tudo com o tom austero de Raúl Castro e do antecessor Fidel. “A sua proximidade e acessibilidade sugerem que trará um estilo pessoal diferente da geração anterior de líderes cubanos”, resume John McAuliff.

Essa acessibilidade, contudo, não significa necessariamente maior transparência. Em 2013, o correspondente da BBC já destacava que Díaz-Canel “não é muito amigo de fazer declarações à imprensa”. “Tem um estilo de baixo perfil mediático que lhe permite mover-se mais livremente”, resumia Fernando Ravsberg. No ano seguinte, com a subida à vice-presidência, cortou todos os seus contactos com os media estrangeiros.

“Quando desempenhava um cargo de dirigente médio era um certo homem. Agora é outro. Tornou-se totalmente discreto e hermético”, confidenciou à Associated Press um diplomata europeu na ilha. Em Cuba, há quem especule que é essa discrição que tem garantido a sua sobrevivência política, como é o caso do cronista Juan Orland Pérez: “Díaz-Canel observou desde a bucólica monotonia de Villas como [Carlos] Lage se converteu por sorte em primeiro-ministro e administrador-geral da miséria de Cuba, e [Roberto] Robaina em ministro dos Negócios Estrangeiros. Quando Robaina caiu, Díaz-Canel viu outro adversário, Felipe Pérez Roque, ser elevado a ministro das Relações Exteriores”, resume o escritor.

Pérez Roque e Lage foram entretanto afastados em 2009, acusados por Fidel de terem sido seduzidos pelo “mel do poder”. Díaz-Canel, o simples dirigente local cujas opiniões mal se conhecem, irá agora, pelo contrário, conduzir os destinos do país.

“Toda a gente estava a passar mal e o povo via o primeiro-secretário a andar de bicicleta. Ele não o fazia pela popularidade. Ele fazia-o porque é mesmo assim, é muito terra-a-terra.”
José Antonio Fulgueiras, amigo de Díaz-Canel

E que ideias trará consigo? Não se sabe ao certo. “Miguel Díaz-Canel tem uma reputação de ser um homem de mente aberta, pragmático e um bom gestor”, resume ao Observador William LeoGrande, académico e autor do livro “Back Channel to Cuba: The Hidden History of Negotiations Between Washington e Havana” (sem edição em português). Para além desta fama, pouco mais se sabe, a não ser que, a par do uso do iPad, foi um dos primeiros funcionários do partido a aparecer em reuniões com um computador e que tem defendido a abertura às novas tecnologias.”Hoje em dia, com o desenvolvimento das redes sociais e da internet, interdir qualquer coisa é quase uma quimera, não faz sentido”, disse em 2013. Em Cuba, apenas cerca de 5% da população tem acesso à internet, e os que conseguem aceder-lhe encontram uma rede lenta e limitada.

Essa atitude de abertura é elogiada por vozes até dentro da ilha. É o caso de Harold Cárdenas, professor de marxismo e autor do blog de esquerda “La Joven Cuba” que, no entanto, se viu debaixo de fogo por fazer críticas a alguns dirigentes do partido. “Díaz-Canel sentou-se connosco a uma mesa e perguntou ‘o que é que precisam para continuar a fazer o ‘La Jovens Cuba?’”, recordou à AP Cárdenas. “Ele é muito mais comunicativo do que aparenta. Existe uma imagem cinzenta do Díaz-Canel que é uma construção governamental de tirar as cores aos dirigentes para mostrar uma solenidade desnecessária”, disse o académico, citado pelo El Nuevo Herald.

Díaz-Canel: um novo Xiaoping ou antes um Gorbachev?

Díaz-Canel pode trazer mais colorido à presidência cubana, mas há dúvidas de que traga consigo mudanças de fundo.

“Podemos esperar uma mudança para o país com a nomeação de Díaz-Canel? Sim, mas não necessariamente as que são precisas para nos convertermos numa sociedade democrática”, afirma ao Observador a advogada Laritza Diversent, responsável pelo projeto Cubalex, que denuncia violações de direitos humanos na ilha. “Digamos que há uma mudança de imagem, um funcionário público mais jovem com mais dotes de ‘oratória’ e coerência para responder à imprensa internacional, mas que não se afastará nem um milímetro da política trazida desde os anos 60 pelos irmãos Castro.”

"Há uma mudança de imagem, um funcionário público mais jovem com mais dotes de ‘oratória’ e coerência para responder à imprensa internacional, mas que não se afastará nem um milímetro da política trazida desde os anos 60 pelos irmãos Castro.”
Laritza Diversent, ativista cubana

“Enquanto a velha guarda for viva e a família Castro mantiver o poder, Díaz-Canel não passará de um fantoche”, lamenta-se o político oposicionista Luís Enrique Ferrer. “Castro não será Presidente oficialmente, mas tudo indica que se manterá à frente do partido comunista de Cuba, que é quem dirige a nação. E tudo indica que um filho dele, militar, Alejandro Castro Espín, pode ser o homem que detém de facto o poder na ilha e que Díaz-Canel seja apenas um instrumento da família Castro para lavar a cara perante a opinião pública internacional.”

Carlos Alberto Montaner, autor cubano no exílio em Espanha e ex-preso político, opta por classificar Díaz-Canel como um “apparatchik dócil”. “Foi eleito para uma tarefa impossível: continuar a política dos Castro e conseguir tirar Cuba da miséria em que se encontra”, diz ao Observador, aludindo à situação económica complicada em que o país se encontra. Para além dos efeitos do Furacão Irma, que ainda se fazem sentir, a ilha continua a sentir os constrangimentos do embargo norte-americano (que, com Donald Trump na Casa Branca, não deverá ser levantado) e ressente-se da redução no apoio económico da Venezuela.

A economia cubana é atualmente, por exemplo, um terço do que era em 1985, de acordo com o estudo do economista cubana Pavel Vidal. E Díaz-Canel é o rosto escolhido para enfrentar estes desafios, dando uma nova cara ao aparelho comunista. “Se resultar, ele será uma espécie de Deng Xiaoping. Se falhar, será um Mikhail Gorbachev”, resumiu à revista brasileira Época um diplomata caribenho.

Díaz-Canel com Raúl Castro (ADALBERTO ROQUE/AFP/Getty Images)

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Certo é que terá na sombra Raúl Castro. Díaz-Canel não é um intruso nem um impulsivo”, declarou o Presidente cubano em 2013, no discurso em que apontou o vice-presidente como seu provável sucessor, emprestando-lhe capital político. No entanto, Raúl não sai de cena, até porque se manterá como primeiro-secretário do partido até 2021. E o seu filho Castro Espín mantém-se, por enquanto, como especialista em contra-informação das Forças Armadas, a instituição que muitos observadores internacionais crêem ser o verdadeiro centro do poder em Cuba, levando a especulações sobre o futuro do Castro mais jovem.

Díaz-Canel “representa uma nova geração de líderes, nascidos depois de 1959, que irão sem dúvida ver o mundo de forma diferente dos seus antecessores”, resume LeoGrande ao Observador. Mas, vaticina o académico, “não devemos esperar mudanças políticas de fundo.” “Se ele não partilhasse a agenda de Raúl Castro, não estaria em linha para a presidência”, resume. Se dúvidas houvesse, bastaria recordar as palavras do próprio, há menos de meio ano, quando já era quase certo que o cargo de Presidente seria seu: “Não concebo ruturas no nosso país. Creio que, antes de tudo, é preciso haver continuidade.”

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