Mirando os Mirós antes de toda a gente

29 Setembro 20162.423

O Observador caminhou entre quadros de milhões de euros pousados no chão da Casa de Serralves e viu como em dois dias se fazem milagres. São assim os bastidores da exposição mais badalada do momento.

A novela está quase a chegar ao fim. Depois de leilões marcados em Londres, providências cautelares do Ministério Público e debates acesos, as 85 obras do pintor catalão ficam em Portugal, mais especificamente no Porto, garantiu esta semana o Primeiro-Ministro. “Joan Miró: Materialidade e Metamorfose”, a exposição mais falada do momento, inaugura-se em Serralves, na sexta-feira, com direito às presenças de António Costa, do presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa, do ministro da Cultura Filipe Castro Mendes, do presidente da Câmara do Porto Rui Moreira e até do presidente do Governo espanhol, Mariano Rajoy. Ninguém que perder a primeira apresentação pública da polémica coleção. E tudo tem de estar perfeito.

A dois dias do grande momento, a Casa de Serralves está nos antípodas da perfeição: está um caos. No piso térreo, nem um quadro para fazer o gosto aos olhos. Questionamos se estará tudo pronto a tempo, respondem-nos, com bastante certeza e uma tranquilidade contagiante, que sim, que nada falhará no momento da verdade. Dado o historial do importante museu de arte contemporânea, não há motivos para duvidar.

A banda sonora é dada por berbequins. O cheiro a tinta entranha-se nas narinas. Há pó no ar, parafusos e cartões no chão. Subimos ao primeiro andar e é também no chão, apoiadas em esferovite, que encontramos as obras que, em 2015, a leiloeira Christie’s avaliou em 35,9 milhões de euros. Uma delas, “Aparições”, de 1935, repousa, com a sua moldura dourada, a um canto. Mais de meio milhão de euros ali, ao lado de um simples radiador branco.

Na quarta-feira de manhã, o primeiro piso já tinha as obras na disposição certa, ainda que no chão. O piso inferior ainda estava completamente vazio e os últimos trabalhos a serem ultimados. © Ricardo

O design expositivo, concebido por Siza Vieira (que também não faltará à inauguração) vai dar a 78 desenhos, pinturas, tapeçarias e uma escultura, a dignidade que elas merecem. Sete obras da coleção ficam de fora, explica ao Observador Robert Lubar Messeri, especialista mundial na obra de Miró (1893−1983) e o curador da exposição. “Não porque são menores ou porque eu não goste delas”, esclarece. Mas porque quis manter uma narrativa em torno da trajetória, da metamorfose, da sensibilidade de Miró para com os materiais que usa. As sete excluídas são, sobretudo, peças em papel e não se enquadravam nessa narrativa — que não está organizada cronologicamente.

É o professor de História de Arte no Instituto de Belas Artes da Universidade de Nova Iorque, e diretor do polo de Madrid daquela instituição, quem decide tudo. O avião aterrou no Porto na terça-feira à noite e é por isso que as paredes ainda estão brancas. Não lhe bastou estipular, por exemplo, qual a disposição de cada obra nas oito salas, ou núcleos, escolhidos. Não. Antes de cada uma delas ser pendurada, é preciso que Robert as veja no chão, pela ordem com que ascenderão depois à parede.

A azáfama concentra-se nas primeiras salas do piso superior, pelo que atravessamos o centro em direção à ala oposta. Numa pequena sala repousa Toile brûlée 3, uma de cinco telas a que Joan Miró, “num ato de destruição que era também um ato de criação e transformação, ateou fogo (…) numa operação orquestrada de caos controlado”, explica o curador no catálogo da exposição. Poucos objetos esburacados valerão os cerca de dois milhões de euros que a Christie’s estimava arrecadar com esta obra.

Deambular sozinho por estes compartimentos, onde os trabalhos de montagem ainda não chegaram, é um privilégio reservado a quem trabalha em Serralves — e aos jornalistas que ali se encontram no momento. Caminhamos entre os quadros pousados no chão e encostados à parede e vemos alguma das melhores criações do surrealista catalão que marcou a arte do século XX.

"Femme II", cera sobre papel, o segundo quadro a contar da esquerda, é um dos vários em fila para a montagem final. © Ricardo Castelo / Observador

A exposição acontece na Casa de Serralves porque – confirma ao Observador Suzanne Cotter — a programação de 2016 para o Museu já estava toda planeada quando o ex-ministro da Cultura João Soares disse, em dezembro passado, que gostaria de mostrar, pela primeira vez, os Mirós numa exposição em Serralves. Mas também porque a Casa é contemporânea das obras do catalão e permite o melhor “contexto arquitetónico e espacial”, acrescenta a diretora do museu.

Se dois dias parecem pouco para montar as obras no espaço expositivo, imagine-se três meses para planear e acertar tudo. “Só em abril tivemos a confirmação de que a exposição ia acontecer”, recorda Suzanne. “Tenho muita confiança na minha equipa. Porque é duro. Estou muito grata ao arquiteto Siza por ter aceitado colaborar, faz toda a diferença.”

A colaborar com Robert Lubar Messeri na montagem da exposição está Marta Moreira de Almeida, curadora do museu. É ela que vai guiando os trabalhos enquanto o norte-americano dá algumas das muitas entrevistas solicitadas. Sempre que uma termina, dirige-se junto de Marta e dos homens que executam as tarefas para verificar tudo. A curadora confirma com ele medidas e disposições de quadros; os trabalhadores tentam abstrair-se dos muitos olhares curiosos que lhes seguem as mãos, agarram na fita métrica e fazem marcas com um lápis, pegam no berbequim, furam os painéis e colocam o parafuso virado para cima; outros, com luvas, pegam nas obras e penduram-nas com todo o cuidado.

Terminadas mais algumas entrevistas, Robert regressa à sala onde tinha estado a confirmar a organização dos quadros e admira-se: “Oh! Já terminaram? Maravilhoso.”

Esta foi a primeira sala a ser montada. © Ricardo Castelo / Observador

“Isto é uma coleção. Das muito boas”

Robert Lubar Messeri não consegue eleger uma só obra como favorita. A ter de escolher, destaca “Femmes et Oiseaux”, em português “Mulheres e Pássaros”, o grande quadro que dá as boas-vindas a quem sobe ao primeiro piso e olha para a esquerda. “Também adoro seis quadros de 1936, de uma série de 27, que foram feitos em masonite. Não são quadros que seduzem, mas são muito importantes e extraordinariamente poéticos.” Para além destes seis, que vão ficar juntos numa sala do piso inferior, Robert Lubar Messeri destaca ainda “O Canto dos Pássaros no Outono”, de 1937, usado nos cartazes que promovem a exposição. Por este quadro, a Christie’s esperava arrecadar entre 1,75 e 2,9 milhões de euros. Possivelmente, também seria um dos favoritos da leiloeira.

Quando o Governo de Passos Coelho quis vender a totalidade das obras, uma das discussões mais recorrentes — para além da necessidade de encaixar pelo menos 35 milhões de euros para atenuar o ‘buraco’ deixado pela falência e posterior nacionalização do ex-BPN — era acerca da relevância das peças e se estas constituíam uma coleção, ou se eram apenas uma amálgama sem coerência. “Depende de como se define o que é uma coleção”, responde o especialista norte-americano ao Observador. As 85 peças de arte foram adquiridas por um colecionador japonês, que depois as vendeu ao ex-BPN. “Não foi uma coleção com curadoria, ou seja, não foi construída de acordo com uma ideia clara”, assume Robert Lubar Messeri. Mas o facto de “cobrir seis décadas de arte europeia” confere-lhe importância. “É excecional e faz sentido, porque as obras têm muita qualidade.”

Suzanne Cotter concorda que estão ali obras “fortíssimas”. Mas, na verdade, tem predileção por um conjunto de exemplares mais frágeis, uns desenhos dos anos 1930, que traduzem melhor a noção de metamorfose de um artista a quem não hesita a chamar de génio. Perguntamos-lhe se Serralves não quis ficar com a coleção de forma permanente: “O que nos propuseram foi a exposição”, esclarece, ainda que o ministro da Cultura tenha dito, em julho, ao Público, que “não é objetivo de Serralves ficar com os Mirós”.

miro robert lubar messeri

Robert Lubar Messeri defende a qualidade das obras e a sua manutenção em Portugal. © Ricardo Castelo / Observador

Que morada para os Mirós?

Nenhuma novela termina sem que as dúvidas se dissipem. No caso dos Mirós, falta saber, sobretudo, que espaço a autarquia e os técnicos do Ministério da Cultura acordaram ser o melhor lugar para acolher a coleção. Em julho, Rui Moreira não quis precisar que espaços municipais estavam livres. Um dos maiores projetos da cidade é o Matadouro Industrial, em Campanhã, para o qual ainda não existem coleções anunciadas. A abertura está prevista para meados do próximo mandato, que se inicia em 2017. Ali bem perto, na Quinta da Lameira, ficará um futuro centro de exposições arte contemporânea, com uma coleção já destinada, mas que Rui Moreira disse, no passado, querer articulada com o Matadouro. Mais central é o Palacete dos Viscondes de Balsemão, situado na Praça Carlos Alberto. Ocupado pela Direção Municipal de Cultura, o edifício mandado construir no século XVII parece adequar-se menos à irreverência e a contemporaneidade dos trabalhos do artista catalão.

Ao Observador, o gabinete do ministério da Cultura diz desconhecer a decisão da Câmara do Porto. Por sua vez, a autarquia remete qualquer esclarecimento para o momento da inauguração, marcado para sexta-feira ao final da tarde. Para além da localização, é necessário saber-se qual o modelo de gestão acordado para a manutenção das obras no Porto — em que regime, se será criado um museu municipal ou nacional, quem suportará os custos de manutenção, etc.. Resta saber, também, se o Estado quer ficar com todas as obras”ou apenas com algumas”, disse o ministro da Cultura na mesma entrevista ao Público.

Enquanto as respostas não chegam, uma equipa de profissionais trabalha para ter tudo pronto e para que o valor da exposição não fique atrás do valor da informação ainda por obter. Certo é que, até 28 de janeiro de 2017, 78 obras de Joan Miró moram na Casa de Serralves.

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Crónica

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Laurinda Alves

Ler o que escreve Halík dá que pensar e ajuda a pôr muita coisa em perspetiva. Amanhã estará em Lisboa e vai, também ele, encher auditórios e anfiteatros. Vem para colocar o dedo em muitas feridas.  

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