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AFP/Getty Images

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O manuscrito misterioso, o acesso aos mails de Jesus e Bruno de Carvalho e a prisão. Tudo sobre a acusação a Rui Pinto /premium

Autoridades encontraram documento escrito à mão pelo hacker com frases soltas que o Ministério Público considera uma confissão. Rui Pinto não poupou os mails dos ex-presidente e treinador do Sporting.

Entre vários discos rígidos, material informático e telemóveis, as autoridades encontraram um misterioso papel na casa que o português Rui Pinto ocupava em Budapeste, na Hungria, e de onde terá atacado os computadores do Sporting, da Procuradoria Geral da República, da Federação Portuguesa de Futebol e uma sociedade de advogados. Nesse papel, escrito à mão e que está reproduzido na acusação agora proferida pelo Ministério Público, Rui Pinto escreve algumas frases enigmáticas que parecem prever que iria ser apanhado um dia. Na acusação, os procuradores não perdem muito tempo a interpretar o manuscrito, mas usam-no como prova para os quase 150 crimes de que é acusado, desde uma tentativa de extorsão à Doyen Sports, a 75 crimes de acesso ilegítimo, um de sabotagem informática e 70 de violação de correspondência.

“Poder de veto relativamente a todas as histórias sobre mim e o projeto.
Permissão para partilhar os documentos através da plataforma EIC durante de tempo limitado, mais tarde posso aceitar extensões dependendo da forma como os parceiros funcionarem.
Rendas de casa, despesas durante muito tempo.
Não quero coisas temporárias, quero uma salvaguarda para o futuro
A minha decisão irá definir o resto da minha vida.
A minha namorada acompanhar-me-á e precisa de estabilidade e de um emprego. Não quero que pague pelos meus erro
A partir do momento em que o publico souber de mim, estarei disponível ara entrevistas na televisão, participações em conferências, etc.
Preciso de uma equipa de relações públicas e de alguém ue conheça bem as especificidade do mercado português. A principal guerra será travada e Portugal.
Um país corrompido com níveis elevados de corrupção, falta de justiça e um dos países mais repressivos em relação a delatores.
É necessário processar a Cofina.
São os ponta-de-lança da policia e o ministério público e manipulam as pessoas.
Contrato de cinco anos.
Não estou apenas envolvido em FL, também os Ficheiros Malta e outros tema que podem expor corrupção relacionado com branqueamento de capitais.”

As procuradoras Vera Camacho e Patrícia Barão descrevem este documento encontrado na casa do hacker como uma prova daquilo que fazia. Mas lido, linha por linha, essa prova parece estar apenas no último parágrafo, onde o pirata informático de Vila Nova de Gaia assume que está envolvido no “FL”, que deverá ser um diminutivo de futebol, mas também noutros temas de corrupção.

O documento faz perceber, também, que o hacker previa vir a ser apanhado, procurado por jornalistas e, quem sabe, para conferências e que, poderia, eventualmente, chegar a um acordo com as autoridades que lhe permitisse receber alguma coisa. Para tal precisaria de uma equipa de relações públicas e até um contrato de cinco anos. Uma decisão a ser ponderada, pois disso dependeria o seu futuro. A namorada seria sempre salvaguardada. Rui Pinto não parece pôr a hipótese do que lhe veio a acontecer: ficar preso preventivamente em Portugal.

Mas como é que Rui Pinto, um estudante de 30 anos de Vila Nova de Gaia, acabou apanhado na Hungria e acusado de uma centena e meia de crimes? Esta não é a primeira vez que a Justiça vai atrás dele. Há sete anos, Rui Pinto conseguiu entrar no sistema informático do Caledonian Bank Limited e apoderar-se de mais de 350 mil dólares. O pirata foi descoberto e com a ajuda do advogado Aníbal Pinto, agora também arguido neste processo por tentativa de extorsão, acabaria por chegar a um acordo e livrar-se de um julgamento.

Rui Pinto foi viver para Budapeste em 2013 no âmbito do programa Erasmus, para estudar na Elte Faculty of Humanities. Mas em vez de regressar, arrendou uma casa naquela cidade e por lá ficou. Foi nessa casa que as autoridades entraram no início deste ano para procurar as provas do que andou a fazer nos últimos tempos.

Segundo o despacho de acusação do Ministério Público, a que o Observador teve acesso, foi logo nesse ano de 2013 que Rui Pinto começou a entrar ilegalmente nos sistemas informáticos de terceiros. Para tal, instalou vários equipamentos informáticos e ferramentas digitais que lhe permitiam “de forma dissimulada e anonimizada” aceder a esses sistemas. Alguns desses programas permitiam-lhe descobrir palavras chave em sistemas wi-fi, outros descobriam vulnerabilidades nos sistema informático, e outros, ainda, permitiram aceder remotamente a outros computadores, sempre de forma anónima. O arguido conseguia, assim, ceder aos IPs de outros computadores, com privilégios dentro de determinados sistema informáticos que pretendia aceder e, depois, pesquisar o material que queria apropriar-se. Mas só em 2015 intensificou esta atividade.

O advogado Aníbal Pinto, que defende arguido do caso da invasão da academia de Alcochete, também é arguido

MIGUEL A. LOPES/LUSA

Os mails à Doyen Sports para receber um milhão. E os honorários de 300 mil

Rui Pinto começou a ser investigado depois de uma queixa à Polícia Judiciária feita pela Doyen Sports Investments Limited, uma sociedade com sede em Malta, que celebra contratos de financiamento com clubes de futebol, e SAD’s de todo o mundo.

As autoridades não sabem quando, mas referem que foi antes de 20 de setembro de 2015 que o pirata informático acedeu ao sistema informático da Doyen, cuja infraestrutura técnica estava, à data, localizada em Londres. Primeiro, pelas 13h22, tentou aceder remotamente ao computador do funcionário Amro Sinjab, depois ao computador utilizado por Adam Gomes, diretor da área das tecnologias de informação. Foi neste computador que Rui Pinto terá conseguido entrar, pelas 14h12, no ambiente do trabalho de perfil do convidado de Adam Gomes. A partir daqui o pirata conseguiu instalar um programa que lhe abriu as portas a vários ficheiros, mesmo a outros que funcionavam em rede com aquele. E conseguiu reencaminhar os e- mails da empresa para um outro e-mail que criou para esse efeito.

A 1 e 2 de outubro, lê-se no despacho de acusação, o arguido divulgou no site Football Leaks “inúmero documentos”, a maioria contratos celebrados entre a Doyen e os seus clientes, “de natureza reservada e sigilosa, referentes à atividade comercial desta sociedade”. Um deles foi o contrato de cedência de direitos económicos de Ola John, um contrato celebrado entre a Doyen e o Benfica em agosto de 2012. Outro, uma carta do Olímpico de Marselha a exigir ao Porto, em setembro de 2015, 9 500 mil euros que se encontrava atrasados por causa do contrato de transferência de Imbula Wanga. Houve ainda contratos divulgados com o clube desportivo brasileiro “Santos”.

Depois de ter acesso a vários documentos da Doyen, Rui Pinto foi mais longe. Em setembro de 2015 criou um e-mail, com um nome falso: Artem Lobuzov. E contactou com Nélio Lucas, o representante legal da Doyen.

Nesse contacto, Rui Pinto, sob o nome Artem, avisava: “A fuga é bem maior do que imagina…”. Dizia que tinha na sua posse todos os empréstimo de Lai Malij (o cidadão turco nascido no Cazaquistão), os negócio no Brasil, na Turquia, na Ásia Central, os atrasos a pagamentos a alguns clubes. Ameaçando que tinha, até, jornais franceses, italianos  espanhóis a pedirem “uma parceria” para divulgar a informação.

Nélio Lucas respondeu-lhe a 4 de outubro, pelas 11h52, e perguntava o que queria ele dizer com isso. Na madrugada do dia seguinte Rui Pinto, sempre sob o nome de Artem Lobuziv, clarificou. Pretendia uma “doação generosa” para que a informação que detinha fosse destruída. Caso contrário, divulgaria todos os negócios da Doyen. Num outro contacto o alegado pirata informático acabaria por formalizar um valor da “doação”: entre os 500 mil euros e o milhão de euros.

“Desde que começamos a conversar deixei de publicar assuntos que estivessem relacionados com a Doyen. A única exceção foi a carta enviada pelo Sporting sobre o Caso Rojo, só para ir mantendo o circo mediático. Neste momento até lhe fiz um favor, o presidente do Sporting foi completamente desmascarado e perdeu toda a credibilidade nacional e internacional. Se o processo no TAS estava muito bem encaminhado para a Doyen, depois destas notícias, que certamente chegaram à Suíça, está no papo para si”, respondeu-lhe Rui Pinto.

Temendo as ameaças, o representante da Doyen acabaria por contactar um advogado. Rui Pinto também. Recorreu ao mesmo que o livrara de ser julgado, sete anos antes, quando se terá apropriado do dinheiro do Caledonian Bank Limited, através de uma instrusão ao seu sistema informático: o advogado Aníbal Pinto que agora defende alguns arguidos do caso da invasão à Academia do Sporting.

Segundo a descrição das procuradoras do Ministério Público, Rui Pinto não deu muito tempo à Doyen. E, a 13 de outubro, o advogado daquela empresa, Pedro Henriques acabaria por contactar Aníbal Pinto numa conversa que não convenceu o hacker. “… Pelo que parece o seu advogado está a tentar ganhar tempo, não sei bem para quê”, escreveu a Nélio. Mas no fundo ele sabia. As autoridades é que não sabem como: tinha descoberto que, naqueles dias, enquanto esperava por uma resposta, a Doyen tinha-se queixado à PJ, que por seu turno tinha pedido à Yandex — uma empresa russa que alojou os documentos obtidos pelo arguido – para conseguir a identificação da pessoa que estava a tentar extorquir-lhe dinheiro.

“Espero que o seu advogado não fala perder o meu tempo e o seu tempo em coisas infrutíferas”, avisava.

Segundo a troca de mensagens que o Ministério Publico dá a conhecer na acusação, Rui Pinto começou a ficar nervoso. “Domingo é a data limite, a partir desse momento o meu advogado saltará fora disto, eu farei mesmo para retomar as negociações com alguns jornais, e aí será o salve-se quem puder”, ameaçou num outro e-mail enviado ao representante legal da Doyen.

“Domingo é a data limite, a partir desse momento o meu advogado saltará fora disto, que farei mesmo para retomar as negociações com alguns jornais, e aí será o salve-se quem puder”
Rui Pinto

Temendo a publicação e documentos sujeitos a segredo comercial, Nélio Lucas combinou, então, um encontro entre os dois advogados para o dia 21 de outubro. Mas, um dia antes, Aníbal Pinto contactou Pedro Henriques e deixou-lhe o aviso: o seu cliente não lhe pagaria honorários por aquela negociação, por isso teria que ser a Doyen a fazê-lo. Nesse mesmo dia, o advogado mandou, no entanto, um e-mail ao advogado da empresa a dizer que, apesar de não estar dentro do assunto, avaliando as trocas de e-mails do seu cliente, podia estar eventualmente perante um crime de extorsão, por isso pedia esclarecimentos do que a outra parte pretendia. Assim, no sentido de evitar um crime, punha só seus “ofícios” à disposição.

“Sinto que o seu cliente não quer contratar o meu cliente nem os meus serviços. Assim, e como lhe transmiti desde o início que não me sinto confortável com esta situação, que pode configurar um crime (…) abandono este assunto".
Aníbal Pinto

O encontro entre os dois advogados e o responsável pela Doyen acabaria por acontecer um dia depois deste contacto numa estação de serviço na A5, em Oeiras, Aníbal Pinto chegou de carro com motorista, do aeroporto. Avião e carro foram pagos pela Doyen. Nessa reunião, segundo as declarações dos funcionários da Doyen às autoridades, as palavras trocadas não se refletem bem nos e-mails que se seguiram de seguida. Aníbal Pinto, segundo a acusação, admitiu que o seu cliente tinha criado o Football Leaks e que estaria  disposto a devolver um disco externo com todas as informações que tinha obtido ilegalmente da Doyen. O pagamento poderia ser-lhe feito em prestações anuais durante três a cinco anos (o mesmo número de anos que aparece no misterioso manuscrito). O advogado mostrou saber da queixa à PJ.

Nélio Lucas, que também estava nesse encontro, terá dito que não sabia como é que iriam conseguir transformar um “crime de extorsão num contrato juridicamente válido”. Nesse encontro, nunca Aníbal Pinto disse que o seu cliente era Rui Pinto.

Dias depois, a 26 de outubro, Aníbal Pinto mandaria um novo e-mail ao advogado da Doyen, dando conta dos seus honorários nesta negociação: 300 mil euros. Nesse contacto, o advogado do Porto explica que fariam o contrato com um técnico para detetar os ataques informáticos, (que seria Rui Pinto), que colaboraria pelo período de cinco anos, em pesquisas, busca e prestação de informações conforme o interesse do seu cliente. O técnico seria remunerado com 25 mil euros anuais pelo período de cinco anos, com início de 30 dias depois da assinatura do contrato e em igual data nos anos posteriores. Se o técnico divulgasse qualquer informação da empresa, pagaria uma indemnização de 100 mil euros.

Passou-se mais de uma semana e a Doyen não respondeu. Na perspetiva das procuradoras que assinam a acusação, Aníbal Pinto terá começado a sentir-se aflito. Com o que tinha falado e com os e-mails trocados poderia incorrer num crime, como aliás é agora acusado. O advogado telefonou, então, ao advogado Pedro Henriques, que o alertou para o facto de continuarem a ser publicados na internet documentos confidenciais da empresa. No dia seguinte, o advogado do hacker “apercebendo-se de que não havia já intenção de Nélio Lucas em efetuar qualquer tipo de pagamento ao seu cliente, Rui Pinto, e por recear ser criminalmente ou disciplinarmente responsabilizado pela sua atuação” mandou um novo e-mail ao colega.

“Sinto que o seu cliente não quer contratar o meu cliente nem os meus serviços. Assim, e como lhe transmiti desde o início que não me sinto confortável com esta situação, que pode configurar um crime (…) abandono este assunto”, escreveu.

Aníbal Pinto ainda recebeu uma resposta de Pedro Henriques, dizendo-lhe que estava, de facto, perante uma situação de “clamorosa situação de extorsão”, que era impossível que ele não o soubesse. Ao que Pinto respondeu que quando entrou nas negociações não sabia do que se tratava.

A 9 de novembro daquele ano de 2015, foi mesmo isso que Aníbal Pinto disse por e-mail ao seu cliente, sempre sob o nome de Artem. “Como entenderás não compactuo com nada que seja ilegal” . Pedia-lhe também que não voltasse a escrever-lhe sobre este assunto.

O e-mail que Rui Pinto enviaria a Nélio Lucas pouco depois mudaria imediatamente de tom. O hacker parecia querer travar a paz com a Doyen, desfazendo os e-mails ameaçadores que lhes tinha mandado. Recusava ser o criador do Football Leaks e afastava qualquer responsabilidade sobre o que ali era publicado. Dizia mesmo que tinha sugerido “valores exagerados” pelo serviço. E que, até, ficara surpreendido por não terem rebatido o valor.

“Como é óbvio, não estou interessado em cometer ilegalidades, e por desconhecimento a lei induzi em erro o dr. Aníbal Pinto, que na sua boa fé e por amizade tentou resolver esse assunto duma maneira low-profile e que agradasse a todas as partes”, escreveu.

Este foi o ultimo contacto entre Pinto e Doyen. Depois disto foram divulgados documentos da Doyen no Twitter e, ainda, no Football Leaks.

Bruno de Carvalho será chamado como testemunha

MÁRIO CRUZ/LUSA

Hacker atacou e-mails do Sporting, mas só entrou uma vez no de Bruno de Carvalho e no de Jesus

Pouco antes de tentar extorquir a Doyen, Rui Pinto, entre 20 de julho e 30 de setembro de 2015, conseguiu entrar no sistema informático do Sporting. Segundo a acusação, o arguido obteve senhas de acesso de membros do Conselho de Administração e do Departamento de Futebol (profissional e de formação) do Sporting. Entre eles o então administrador Bruno de Carvalho e a Jorge Jesus, treinador — que quando os seus mails foram atacados se encontravam em África do Sul para um torneio. Rui Pinto entrou nos e-mails deles apenas uma vez, para depois entrar dezenas de vezes nos endereços dos responsáveis pelos contratos dos jogadores.

O Ministério Público registou um total de mais de 150 acessos, alguns falhados, aos e-mails de vários membros do Sporting, recolhendo assim material confidencial que publicou no site Football Leaks.

Entre os documentos publicados estão contratos do jogador Konstantinos Mitroglou, que foi emprestado ao Fulham Football Club, o contrato de transferência do Danilo Pereira, o contrato do treinador Jorge Jesus, contratos com a Doyen Sports Investments e o caso Marco Silva: da revogação de contrato e do processo disciplinar.

Rui Pinto publicou durante meios ano vários documentos confidenciais. Quando a polícia fez uma busca à casa onde vivia em Budapeste ainda encontrou num disco rígido mais documentos.“Tal atuação do arguido Rui Pinto, tendo geral a quebra do serviço,paralisou o referido servidor de correio eletrónico durante três dias”, período em que ninguém conseguiu aceder as mais.

"Como é obvio, não estou interessado em cometer ilegalidades, e por desconhecimento a lei induzi em erro o dr. Anibal Pinto, que na sua boa fé e por amizade tentou resolver esse assunto duma maneira low-profile e que agradasse a todas as partes”.
Rui Pinto

O ataque aos advogados que defendem o Benfica e o acesso à Operação Marquês

O tempo foi passando e a identidade do hacker que andava a divulgar informação confidencial continuava por comprovar. Até que a 25 de setembro de 2018 é tornado público que alguns advogados da PLMJ, contratada pelo Benfica, tinham subestabelecido poderes forenses aos colegas advogados Rui Patrício e Paulo Saragoça da Matta de outras duas sociedades para o processo e-Toupeira. Perante isto, acusa o Ministério Público, o arguido criou um sistema informático para invadir os computadores da PLMJ. Criou um site em tudo semelhante a uma plataforma da Sapo Transfer, que após ser ativada encaminhava o utilizador para uma nova janela onde teria que introduzir os seus dados.

Assim, Rui Pinto criou um e-mail como sendo da direção de Finanças de Lisboa, que enviou a uma das advogadas daquela sociedade. A advogada em causa estranhou quando lhe pediram as credenciais e avisou o helpdesk, ao serviço de uma empresa externa. Problema: o técnico introduziu as suas credencias na página e abriu a porta do sistema ao hacker. Rui Pinto conseguiu aceder remotamente a 119 dos computadores daquela sociedade de advogados, tendo retirado vários material e mesmo e-mails trocados entre os advogados que delineavam uma estratégia de defesa no caso e-toupeira do Benfica, que estava à data na fase de instrução. Tanto o processo, como esses e-mails foram divulgados no mercado do Benficapolvo, um blogue entretanto criado por Rui Pinto onde foi colocada toda esta informação.

Entre 26 de outubro de 23 de dezembro de 2018 Rui Pinto foi publicando o que ia tirando da PLMJ: todos os documentos do e-toupeira, 11 volumes, assim como os audios de inquirições e mesmo a preparação inquirição de testemunhas, que estava armazenada nos computadores atingidos.

A 5 de janeiro deste anos de 2019 o blogue acabou encerrado pela WordPress. Nesse mesmo dia, Rui Pinto abriu um outro blogue, com um servidor no Irão, e voltou a publicar documentos relacionados com o toupeira do Benfica. Quase como resposta acabou por publicar, também, outros processos que foi encontrando e que têm como intervenientes advogados daquela sociedade: EDP, Operação Marquês, Vistos Gold, BPN.

O novo blogue foi sendo atualizado até a dia 12 de janeiro de 2019. Quatro dias depois, Rui Pinto era detido pela polícia húngara em cumprimento de um mandando de detenção europeu. Ainda assim, dois dias depois, foram publicados documentos que ele tinha programado para saírem.

Rui Pinto conseguiu aceder remotamente a 119 dos computadores daquela sociedade de advogados, tendo retirado vários material e mesmo e-mails trocados entre os advogados que delineavam uma estratégia de defesa no e-toupeira.

Os e-mails de Amadeu Guerra e da Procuradoria Geral da República

Antes, em novembro de 2018, Rui Pinto entrara também, ilegalmente, no sistema informático da Procuradoria Geral da Republica através de um programa que lhe permitiu obter as credencias de aceso aquele sistema.

O arguido fez vários acessos entre 6 de novembro de 2018, pelas 2h44 e 7 de janeiro de 2019, pelas 03h48, ou seja, durante dois meses. “O arguido Rui Pinto procedeu a exaustiva pesquisas e consultas de diretórios e ficheiros”, entre eles bancos, currículos de procuradores, processos disciplinares e uma série de legislação que a PGR conduta com frequência.

Acedeu, também, à caixa de Amadeu Guerra, então diretor do Departamento Central de Investigação e Ação Penal e visualizou os seus conteúdos. Fez download da lista de processos ligados ao futebol, à listagem de processos investigados e a outros casos, como o de Tancos.

O ex-diretor do Departamento Central de Investigação e Ação Penal, Amadeu Guerra

Manuel Almeida/LUSA

Ataque a Federação Portuguesa de Futebol

Antes de arrancar para uma invasão ao sistema de justiça, Rui Pinto também terá invadido o sistema informático da Federação Portuguesa de Futebol, a 1 de maio de 2018. O Ministério Público conta que fez 48 acessos e sacou documentos vários, como acórdãos do tribunal arbitral do Desporto, listas de contactos de árbitros e processos disciplinares. Em agosto acedeu a e-mails de funcionários e obteve correspondência trocada desde dezembro e 2011. Na busca feita à sua casa também estava um disco rígido cheio de informação

Na acusação agora conhecida pelo Ministério Público, que acusa também o advogado Aníbal Pinto de um crime de extorsão na forma tentada, o Ministério Público diz preto no branco que foi Rui Pinto quem criou o Football Leaks, ainda em setembro de 2015.

“Este projeto visa divulgar a parte oculta do futebol. Infelizmente o desporto que tanto amamos está podre e é altura de dizer basta”. Era esta a frase que se lia quando se abri o site da Football Leaks, que chegou a ser suspenso e reaberto noutro servidor com informações confidenciais que continham a acordos entre entidades desportivas, cláusulas de contratos desportivos e agenciamento de jogadores.

O pirata prometia divulgar informações sobre fundos, comissões e “negociatas”, “muita polémica e muitas curiosidades”. Dizia ainda aceitar “doações” uma vez que o material lhe tinha levado “imenso tempo” a adquirir. As autoridades ainda estão a analisar muito do material apreendido nos discos rígidos, que poderá dar origem a outros processos. Até lá, conta que este caso chegue a julgamento com muito mais do que o limite de 20 testemunhas previstas. Entre elas estão magistrados, advogados, dirigentes do Sporting e ex-reponsáveis dos leoninos, como é o caso de Bruno de Carvalho e do ex-treinador Jorge Jesus.

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