Football Leaks. Os negócios milionários, as cláusulas estranhas, Ronaldo e o delator português /premium

Livro revela os bastidores da maior fuga de informação no futebol, obra de um português. Quem é Rui Pinto, os negócios que quis denunciar, a fixação por Ronaldo e os milhões que tornam o jogo "sujo".

Foram precisos 16 emails para que o homem por detrás do Football Leaks respondesse a Rafael Buschmann e Michael Wulzinger, jornalistas da revista alemã Der Spiegel. Há alguns meses que a página publicava na internet documentos confidenciais relacionados com contratos e negócios do futebol, sem que ninguém soubesse quem estava, afinal, do outro lado do computador. Durante algum tempo foi apenas “FL”, depois passou a “John”, até a detenção de Rui Pinto, em janeiro, em Budapeste, ter dado nome e cara ao hacker — que recusa ser visto como um pirata informático e insiste que é apenas um delator dos podres do mundo do futebol.

A relação que acabaram por estabelecer permitiu à Der Spiegel ter acesso a milhares de documentos e dados — tantos que acabou por reunir, consigo, jornalistas de outros países, num consórcio para partilhar o trabalho.

No livro “Football Leaks: Revelando os negócios obscuros por trás do jogo”, da editora Planeta, os dois repórteres relatam os bastidores das reportagens e dos encontros com Rui Pinto, falam dos contratos suspeitos — com ligações também a Portugal — e dos esquemas de fuga ao fisco de clubes, empresas e jogadores, expõem os valores astronómicos que valem golos ou assistências e apontam o dedo aos alegados “inimigos do jogo”, como lhes chama o autor português.

Rui Pinto: o apaixonado do futebol, decidido a acabar com “os inimigos do jogo”

Quando pensamos em encontros secretos entre um jornalista e um delator pronto a entregar-lhe documentos confidenciais que prometem abalar um determinado sector da sociedade, é natural que recorramos à memória de filmes de espiões, com cenários sombrios e isolados e pouco contacto pessoal entre cada um dos lados.

Se é o seu caso, esqueça isso.

Os encontros entre Rui Pinto e Rafael Buschmann eram tudo menos ortodoxos. Aconteceram, ao longo dos anos, em várias cidades europeias e incluíram muitas vezes festas até de madrugada, pequenos almoços ao final da tarde, pausas para ver jogos de futebol na televisão e muito álcool à mistura.

E a descrição que o jornalista alemão faz do hacker português também não se aproxima do estereótipo de pirata informático, fechado numa sala cheia de computadores, com dificuldades de relacionamento social e uma vida sempre à margem da sociedade — pelo contrário. Rui Pinto é descrito como um jovem (muito jovem) “inteligente, imprudente, obcecado e impaciente”, como “um romântico do futebol e um adepto apaixonado”, que, ainda assim, estava disposto a expor o comportamento duvidoso dos seus maiores ídolos, alegadamente movido por raiva aos “inimigos do jogo”: aqueles que “lucraram com o dinheiro sujo que o futebol atrai e que sustenta o desporto”. Aqueles que, com a divulgação de milhares de documentos através do site que construiu — o “Football Leaks” — se transformaram nos seus próprio inimigos.

Talvez apenas num ponto Rui Pinto possa aproximar-se do retrato típico de um delator: nos enormes cuidados com a segurança, às vezes quase paranoicos. Ainda que, de tempos a tempos, parecesse esquecer tudo — viajando como se não estivesse a ser procurado pela polícia —, por regra era sempre muito cauteloso. Não saía para a rua sem olhar atentamente para os dois lados e para as janelas dos edifícios mais próximos, tinha os discos rígidos, com os documentos confidenciais de dezenas de clubes, agências e empresas, escondidos em vários sítios — e até debaixo de uma mesa num armazém cheio de antiguidades —, guardava cópias dos documentos espalhadas em pelo menos 12 locais do mundo e só comunicava através de aplicações que encriptavam as conversas. A dada altura, Rafael Buschmann falava com Rui Pinto “em seis salas de chat diferentes, todas elas codificadas” e em plataformas distintas. “Por vezes, também utilizávamos abreviaturas previamente acordadas e palavras em código”, conta o jornalista no livro.

E nem Buschmann sabia da sua verdadeira identidade. No primeiro encontro, Rui Pinto apresentou-se como “John” e assim continuou. Revelou apenas que era de Portugal — um país que “levava-o à loucura”, onde “os políticos são uma catástrofe” e “os empresários e os bancos fazem o que querem”. Dizia que não tinha formação em informática, mas lidava com os computadores com uma destreza que fazia acreditar no contrário. Também não teria formação nas áreas financeiras e fiscais, mas parecia dominar toda a máquina, ao ponto de impressionar um especialista nos truques de evasão fiscal europeia que fazia parte da equipa de investigação da Der Spiegel.

Michael Wulzinger e Rafael Buschmann, os dois jornalistas que escreveram o livro “Football Leaks”

“John era muito cuidadoso relativamente ao seu anonimato. Os seus endereços de e-mail consistiam numa mistura selvagem de números, letras e símbolos. Devido às inúmeras plataformas que utilizávamos a nossa correspondência nunca era constante – por vezes, John mudava de fornecedores de serviço a meio de uma conversa. Enviava-me um sinal previamente acordado e, depois, eu apagava a conversa e também mudava de fornecedor de serviço. Por vezes utilizávamos programas informáticos que eliminavam as conversas automaticamente.”

A cautela tinha uma explicação: Rui Pinto acreditava que estava a ser perseguido não só pela polícia (sendo certo que o Ministério Público português já o investigava, na sequência de uma queixa da Doyen, por uma alegada tentativa de extorsão), mas sobretudo por detetives privados ou assassinos a soldo, contratados para eliminá-lo: “russos e antigos soldados de elite ingleses” e “bandidos” — “o tipo de gente que não utiliza advogados para resolver as suas disputas”, disse ao jornalista alemão.

Alguns dos detetives, dizia, teriam sido contratado por Jorge Mendes, o agente de grandes estrelas do futebol, como Cristiano Ronaldo.

A dada altura, frustrado com as tentativas de eliminação do site e com a fraca reação aos documentos que ia publicando, essa preocupação tornou-se ainda mais séria. O hacker português estava a sentir-se “cada vez mais perseguido” e estava “lenta, mas seguramente a perder o controlo sobre si próprio e sobre a sua vida”, ao ponto de pensar entregar, simplesmente, todos os documentos à polícia e desistir do Football Leaks. “Já não consigo dormir porque tenho medo que alguém entre de rompante no meu quarto e acabe comigo”, explicou.

Pelo caminho, recebeu também propostas de compra dos dados e documentos. Uma veio de “alguém que se apresentava como agente de um jogador” e que oferecia um “valor máximo de 650 mil euros”, outras vieram de tablóides que, segundo Rui Pinto, “só estão interessados em escândalos, não em histórias verdadeiras”. Por isso, recusava todas: “Se eu me vender, não sou melhor do que todos os outros que andam por aí”.

Em todos os contactos, manteve sempre o plural, falando como “nós” e nunca como “eu”. A questão intrigava os jornalistas da Der Spiegel, que acabaram por nunca conhecer outros, além dele, que fizessem parte do Football Leaks. E, admitindo que fosse mesmo apenas o hacker português — que não se assume como pirata informático —, mantém-se uma dúvida: o jornalista alemão assistiu a vários momentos em que Rui Pinto recebeu documentos no email enquanto estavam juntos, tornando claro que haveria mais alguém envolvido no mesmo trabalho. De quem viriam? De “fontes” que o português dizia que tinha. Quem eram elas? Rui Pinto nunca revelou.

Garantia, contudo, apenas uma coisa: não tinha sido contratado ou estava ao serviço de alguém. Até porque a paixão futebolística por um clube ou um jogador, assegurava, não o travariam: “Claro que também publicamos documentos acerca dos nossos jogadores e clubes preferidos. Não poupamos ninguém”, disse num dos encontros. Mesmo que esse alguém fosse Cristiano Ronaldo, o seu maior ídolo, como ficou claro durante o festejo de um golo do internacional português, num jogo do Real Madrid a que assistiram: “É só o Ronaldo! – entusiasmou-se. – Um verdadeiro génio. Muito melhor, muito mais completo do que o Messi. Adoro vê-lo jogar. Os seus golos são obras de arte.” O mesmo homem que festejava assim os golos do melhor jogador do mundo, ajudaria a revelar os documentos relacionados com o caso de Kathryn Mayorga — a jovem que acusa Cristiano Ronaldo de violação.

Isso mesmo repetiria já este ano e já depois de ter sido detido em Budapeste, a pedido das autoridades portuguesas, estando em prisão domiciliária enquanto aguarda a resposta das autoridades húngaras ao pedido de extradição feito por Portugal. Em entrevista, de novo, à Der Spiegel e a outros órgão de comunicação social que fazem parte de um consórcio de jornalistas (EIC — European Investigative Collaborations) que foi investigando a documentação divulgada pelo site (Football Leaks), Pinto assumia ser “fã de Ronaldo e adepto do Futebol Clube do Porto”, mas garantia que não tem “uma agenda escondida”.

Cristiano Ronaldo. As empresas criadas pela mãe — e a mão de Jorge Mendes

“Por ora, bastará dizer que os documentos acerca de Ronaldo nos deram a conhecer o mundo secreto no mais absoluto topo do futebol, onde pagar honestamente os impostos é considerado o máximo da estupidez.”

Será um dos pontos mais desconcertantes da história de Rui Pinto e da “missão” do Football Leaks. O hacker português é declaradamente fã de Cristiano Ronaldo, mas os documentos que divulgou não lhe pintam um bom retrato. Pelo contrário, expõem o jogador português como um “turista fiscal”, que foge às regras sempre que pode: “O princípio orientador é que cada euro que Ronaldo ganha deve permanecer tão intacto quanto possível numa das suas inúmeras contas bancárias”, lê-se no livro — como se rendimentos bruto e líquido fossem exatamente os mesmos, o mais longe possível de impostos.

Em “Football Leaks: Revelando os negócios obscuros por trás do jogo”, os autores explicam que Ronaldo copiou os métodos de gigantes empresariais como a Apple ou a Amazon, fazendo o dinheiro circular por várias contas, até chegar ao destino final, quase intacto, através de subsidiárias em locais com impostos mais baixos — escapando, assim, ao que deveria ficar retido nos cofres dos países onde trabalhava. “Ele tem várias empresas e uma fundação a trabalharem para si no Panamá, Hong Kong, Suíça, Bermudas e nas Ilhas Virgens Britânicas. Isto compõe uma corrente virtual de paraísos fiscais e empresas fictícias. No final, o seu dinheiro é depositado, são e salvo, num pequeno banco privado na Suíça”, garantem.

Na base dessa estratégia estará outro nome português: Jorge Mendes. O super-agente, responsável pelas carreiras de grandes estrelas do futebol, é descrito como alguém que tem, “provavelmente, o maior sentido de imprudência no que toca a mecanismos financeiros complexos para evitar impostos. É um homem que enriquece os jogadores. Mas também os torna prisioneiros da sorte com empresas fictícias clandestinas nas Caraíbas”.

Cristiano Ronaldo, com Jorge Mendes, a mãe, Dolores Aveiro e o filho mais velho

GERARD JULIEN/AFP/Getty Images

Sempre muito próximo dos jogadores (Cristiano dizia que era “um substituto do pai”), seguindo a máxima do “nada é impossível”, fornecer-lhes-ia, segundo o livro, “modelos financeiros com os quais os mais ricos perdem o mínimo possível para os Estados”. E, sem surpresa, alguns dos seus agenciados começaram a ter problemas com a justiça: além do próprio Cristiano Ronaldo, também Ricardo Carvalho foi condenado a sete meses de prisão e a uma multa de 142 882 euros por evasão fiscal; e o treinador José Mourinho foi acusado de fugir ao fisco, no valor de 3,3 milhões de euros, em impostos dos seus direitos de imagem.

Quanto ao mais famoso dos seus clientes, os autores dão um exemplo da circulação do dinheiro: em 2003, quando Cristiano Ronaldo tinha 18 e estava prestes a sair do Sporting para o Manchester United, a mãe, Dolores Aveiro, terá dado ordem a um “administrador financeiro em Genebra” para criar a Brockton Foundation — uma fundação com sede no Panamá, “um dos centros financeiros mais secretos e seguros do mundo”, com direitos para comercializar a imagem de Ronaldo em todo o mundo, excepto no Reino Unido. Um ano mais tarde, uma nova ordem, vinda igualmente da mãe, fez com que todos esses direitos comerciais passassem para a Tollin Associates, sedeada nas Ilhas Virgens Britânicas. Dali, esses direitos acabariam por seguir para uma agência de publicidade acabada de criar, a MIM: “Do paraíso fiscal 1 para o paraíso fiscal 2 para o paraíso fiscal 3. Este tipo de estrutura ao estilo matriosca russa permite que valores na casa das centenas de milhões passem despercebidos”, escrevem os autores.

O problema aqui não estará na opção por empresas ou fundações em paraísos fiscais, como as Ilhas Virgens Britânicas, mas o facto de os rendimentos não serem declarados no países de origem, evitando o pagamento de impostos — o que, no caso, de Ronaldo, foi o centro do processo judicial que acabou por condená-lo, com acordo do próprio, a dois anos de prisão, com pena suspensa, e ao pagamento de 18,8 milhões de euros ao fisco espanhol. Em causa estavam 14,7 milhões de euros em impostos não liquidados.

Nas Ilhas Virgens Britânicas, até onde viajaram, os autores encontraram a sede do escritório de advogados Icaza, González-Ruiz & Alemán, “um edifício através do qual mais de 100 milhões de euros da riqueza de Cristiano Ronaldo tinham sido desviados”.

“Parámos em frente a um edifício amarelo esbatido. No piso térreo havia uma farmácia. Entrámos e vimos uma mulher a receber medicação para uma dor nas costas. No exterior, estavam umas galinhas a bicar o chão. Algumas delas desviaram-se para a estrada, enquanto outras subiram, saltitando, os degraus que levavam ao primeiro andar. Lá em cima, era onde encontrava um dos maiores segredos do mundo do futebol”, salientam sobre o local tratado como “uma espelunca”. A funcionária, que era conhecida dos autores por ser uma especialista em offshores que já tinha trabalhado no Panamá, reconheceu as fotografias de Cristiano Ronaldo e José Mourinho mas, depois disso, seguiu em frente e nada mais disse.

Em 2015, Cristiano Ronaldo tinha uma fortuna avaliada em 227 milhões de euros. No Real Madrid, ganhava 40 milhões por ano. E a Forbes estimava que, em 2016, recebesse 32 milhões de euros só em publicidade.

Quanto vale um golo de Ronaldo?

Na final da Liga dos Campeões de 2016, Real Madrid e Atlético chegaram aos 90 minutos, mais o prolongamento, empatados a um golo. A decisão ficou não só para as grandes penalidades, mas especificamente para o pé do camisola 7. O Atlético tinha acabado de falhar a penúltima grande penalidade e, se marcasse, Ronaldo garantiria a vitória do seu clube.

É sabido que o português não gosta de perder nem a feijões, mas naquele momento não estava em causa apenas um título — ou a Bola de Ouro —, mas também muitos milhões de euros. Com a vitória, o jogador receberia 3,68 milhões de euros de bónus.

Cristiano Ronaldo festeja com o treinador, Zinedine Zidane, a vitória da Liga dos Campeões em 2016, depois do penálti frente ao Atlético de Madrid

Getty Images

Já era soma bastante, mas não ganhava só ele. A mesma vitória valia também um bónus de 1,5 milhões de euros para o treinador, Zinedine Zidane, e uma alteração contratual garantida: com o título da Liga dos Campeões, o salário de Zidane duplicaria, nos dois anos seguintes, passando de 5,8 milhões de euros por ano para quase 11,6 milhões.

Feitas as contas, aquele único golo valeria 13 milhões de euros para o treinador, que tinha chegado a Madrid apenas seis jogos antes daquela final, em substituição de Rafael Benítez. E mesmo este também lucraria — na rescisão do contrato, deixou acertado que, caso a equipa vencesse o troféu, ele próprio receberiam uns adicionais 600 mil euros, mesmo já tendo deixado o clube.

Ronaldo fez o de sempre: frente à baliza, pernas afastadas, descontraiu os ombros e rematou para o fundo da baliza. E, logo ali, estavam pagos, no total, 30 milhões de euros em bónus, “com um único golo de ouro”.

As referências nacionais (que chegam ao V. Setúbal) e o negócio Friesenbichler

Ao longo do livro, existem várias referências a clubes nacionais, de forma direta ou indireta. E as mesmas vão dos “três” grandes, Benfica, FC Porto e Sporting, ao V. Setúbal. Tudo a começar por um jogador que chegou a Portugal, mais concretamente a Alvalade, para ser solução mas que ainda hoje é um problema para os responsáveis do clube verde e branco.

Quando ainda estava no Twente, Luc Castaignos serve de exemplo para o negócio ruinoso feito por um clube em risco de total colapso financeiro com a Doyen, onde a empresa conseguia lucrar mesmo quando não havia nenhuma venda de jogador em causa: no caso do avançado, a formação holandesa tinha de pagar à Doyen 1,5 milhões de euros no primeiro ano de vínculo, valor que subia 10% em cada época. E com mais dois pormenores, com tanto de relevantes como de “anormais”: se fosse emprestado, a empresa recebia; se houvesse alguma oferta ou abordagem, a mesma tinha de ser desde logo comunicada.

Em paralelo com as referências aos contratos de Marcos Rojo (vendido pelo Sporting ao Manchester United em 2014) e de Hulk (que saiu do FC Porto para o Zenit em 2012, seguindo depois da Rússia para a China em 2016), o caso de Eliaquim Mangala, um dos primeiros a ser levantado pelo Football Leaks, é também recuperado: houve uma verba oficial de 32 milhões de libras [36,5 milhões de euros, ao câmbio atual], mas vários documentos comprovaram que a mesma foi feita na verdade por mais dez milhões de libras [48 milhões de euros] porque os ingleses tiveram de pagar a duas empresas que tinham 40% do passe do central – ou seja, por causa do modelo TPO, o francês acabou por tornar-se então o defesa mais caro da Premier League.

Mais à frente, é recuperada a Quality Football, empresa aconselhada por Jorge Mendes e o antigo CEO do Chelsea, Peter Kenyon, para que os jogadores fizessem investimentos. Em agosto de 2011, a empresa já tinha investido um total de 84 milhões de euros em 36 jogadores; em junho de 2015, na antecâmara da proibição da propriedade de passes por terceiros, subira para 88 milhões entre 40 jogadores. Entre os investidores estavam um dos atores conhecidos pelos filmes do Harry Potter, uma mulher de um treinador da Premier League, uma empresa com ligações próximas à MLS, um bilionário que comprou ações de um clube do primeiro escalão inglês ou um dirigente do Fenerbahçe. Muitos desses jogadores, que eram detidos em parte pela Quality Football, pertenciam a clubes portugueses como Sporting, FC Porto, Sp. Braga ou Rio Ave.

Em relação ao Benfica podemos encontrar dois casos. Um, já conhecido publicamente, relacionado com a compra de Ola John ao Twente. A Doyen comprou metade dos direitos de transferência por 4,75 milhões de euros mas com a garantia que teria um retorno de pelo menos seis milhões. Ou seja, se os encarnados vendessem o holandês contratado ao Twente por 12 milhões, a empresa recebia seis; se fosse recusasse uma proposta de 20 milhões, teria de pagar dez milhões à Doyen. Qualquer que fosse o cenário, três anos depois a empresa receberia sempre um lucro de 25% sobre o investimento. O ala acabou por andar de cedência em cedência, chegando a esse limite com um valor de mercado de cinco milhões, o Benfica ainda terá sido obrigado a pagar. O outro tem a ver com a contratação de Kevin Friesenbichler, avançado da equipa B do Bayern por quem os encarnados pagaram à agência Rogon um milhão de euros líquidos, mais 50% de um futura transferência, e que nunca se estreou na Luz.

O Benfica pagou um milhão de euros líquidos por Kevin Friesenbichler, avançado da equipa B do Bayern, que nunca se estreou na Luz

AFP/Getty Images

Por fim, uma referência para o V. Setúbal, a propósito de dois jogadores, Júnior Ponce e Luís Advíncula, que passaram pelo Bonfim na temporada de 2014/15. A dupla de peruanos é referida como um exemplo paradigmático de como atletas com menor reconhecimento se podem transformar quase em “mercadoria” que anda de um lado para o outro entre clubes por vontade da agência que detém os seus direitos, neste caso com a ligação a um clube que serve de casa mãe e vai emprestando (Hoffenheim).

O Novo Banco de Lisboa e o FC Porto são ainda referidos em relação à Paros Consulting, que se foi especializando em jogadores sul-americanos mas com testas-de-ferro oriundos na sua maioria da Holanda. Uma delas é a Orel, que mediou a venda do médio Fabián Rinaudo do Sporting para o Catania, em 2014 (depois de já ter jogado nos italianos durante meio ano). Entre Rinaudo, Ricardo Álvarez e Ezequiel Ponce, todos tranferidos para Itália, dois milhões foram para a Paros através da Orel.

Os contratos com as grandes marcas — e os pagamentos em dinheiro da Adidas

De onde vem todo o dinheiro movimentado pela indústria do futebol? E de que forma é pago? É certo que grande parte dos contratos esmiuçados pelo “Football Leaks” está relacionada com compra e venda de jogadores, mas o livro dedica também um capítulo às duas maiores marcas de desporto, a Nike e a Adidas, por causa dos valores astronómicos que pagam aos clubes e a alguns jogadores pela utilização de equipamentos e emblemas — que contribuem decisivamente para o fosso entre os clubes grandes e os mais pequenos.

Serão “valores absurdos” que vão sendo aumentados, segundo os autores, para “garantir que os ricos ficam ainda mais ricos”, e sempre de forma totalmente confidencial.

O capítulo começa logo com uma informação impressionante: “A Adidas paga um mínimo de mil milhões de euros pela sua relação próxima e exclusiva com o Real Madrid. Mil milhões”.

Um dos documentos tornados públicos pelo Football Leaks dizia respeito a um esboço de um contrato celebrado em 2015 e até 2024, que previa um pagamento fixo de 70 milhões de euros por ano ao clube de Madrid. Além disso, a Adidas iria ainda entregar ao Real 22,5% dos lucros das vendas de material do clube em todo o mundo — o que garantiria, pelo menos, mais 30 milhões anuais. Isto para além dos 8 milhões de euros em “roupas, camisas, calçado e bolas de futebol” que o clube receberia todos os anos, e de um bónus que o livro classifica como “estranho”: se fosse campeão de Espanha, o Real Madrid receberia mais 2,5 milhões de euros da marca alemã (um valor que chegaria aos 3,5 milhões de euros em 2020); por cada título da Liga dos Campeões receberia outros 5 milhões de euros (aumentados até aos 7 milhões em 2020).

Além dos 70 milhões de euros anuais fixos, definidos na versão preliminar do contrato de 2015, o Real Madrid recebe ainda da Adidas cerca de 8 milhões de euros em equipamentos, chuteiras e bolas

adidas via Getty Images

Foram, assim, só naquela temporada de 2015/2016, 95 milhões de euros — um valor astronómico, por si só, mas que ganha ainda mais relevo se comparado, por exemplo, com o que recebeu o Borussia de Dortmund, segundo maior clube alemão, naquele mesmo ano, da Puma, o seu patrocinador: mais de 10 vezes menos, ou seja, 8 milhões de euros.

O tal contrato de 2015 com o Real, pelo menos na sua versão preliminar, tinha ainda um detalhe estranho: determinava que a Adidas pagaria 40 milhões de euros “em dinheiro” ao clube de Madrid. Um pagamento no mesmo valor já tinha estado previsto no contrato anterior, como “pagamento antecipado” e, segundo o livro, também já tinha acontecido em 1998, também em dinheiro. A questão dos autores é a mais óbvia: “Poderia dar-se o caso de que, por duas ocasiões diferentes, a subsidiária espanhola da Adidas tenha visitado a sede do Real Madrid com malas cheias de notas?”

O Real Madrid e a Adidas recusaram responder às perguntas da Der Spiegel.

Além dos contratos multimilionários, o livro questiona ainda a forma como os pagamentos eram feitos a alguns jogadores — e que acabaram por valer-lhes processos por fraude fiscal, como no caso de Lionel Messi. Os valores eram transferidos não para os atletas, de forma direta, mas para empresas que detinham os seus direitos de imagem, para reduzir o valor dos impostos.

Terá sido assim com Kaká, antigo internacional brasileiro, que, quando jogava pelo Real Madrid e, depois, pelo AC Milan, recebeu 1,5 milhões de euros por ano da Adidas através da empresa Tamid Sport Marketing, em Milão. Também o guarda-redes espanhol David De Gea recebeu 500 mil euros anuais através da Bedamarse Limited em Bowden, no Reino Unido.

A estes somavam-se os que, usando o mesmo artifício, optavam por empresas sedeadas em paraísos fiscais: entre 2007 e 2009, Messi recebeu da Adidas International Marketing BV quase 4 milhões de euros, transferidos diretamente para duas empresas, a Sports Consultants, com sede no Belize, e a Jenbril, no Uruguai — “dois países pouco conhecidos pela sua regulação fiscal estrita”. Ambas as empresas eram lideradas pelo pai da estrela argentina — os dois acabaram condenados a pagar vários milhões de euros “por terem ocultado os pagamentos da Adidas, entre outras fontes de rendimento, das autoridades fiscais espanholas”.

Nada, porém, aconteceu à Adidas. “Será que os gigantes do equipamento desportivo não têm uma responsabilidade para se recusarem a assinar contratos com empresas que detêm os direitos de imagem de jogadores profissionais na Europa, mas que se encontram sediadas em paraísos fiscais fora do continente?”, questionam os autores.

A estratégia seria consciente e aceite por ambas as partes. Aliás, quando, no final de 2008, a própria Adidas pensou transferir todos os contratos de publicidade com jogadores e clubes da subsidiária holandesa (onde os impostos são mais baixos) para a casa mãe, na Alemanha, quase provocou um motim: o jogador argentino Higuaín, por exemplo, respondeu de imediato que não assinaria essa alteração — que implicava que as autoridades fiscais alemãs retivessem 15,83% dos pagamentos — porque isso “não representava os seus interesses”. Também o Real Madrid protestou contra a mudança e a Adidas acabou por ceder — e com um pedido de desculpas: “Em nome da Adidas… gostaríamos de pedir as mais sinceras desculpas por qualquer inconveniente que tenhamos causado”.

Higuaín acabaria mesmo por abandonar a marca alemã, assinando contrato com a Nike. A forma de pagamento manteve-se: o patrocínio era pago à empresa Supat, localizada na cidade holandesa de Delft, que tinha contratos com outra empresa holandesa, a ITB International. Esta última, por seu turno, funcionaria como testa de ferro de uma terceira, a Paros Consulting Limited no paraíso fiscal da Ilhas Virgens Britânicas.

O livro “Football Leaks” diz que “os documentos da Paros continham duas contas estranhas ligadas ao negócio da Nike com Higuaín. No total, a Paros cobrou à ITB International 199 500 euros a 4 de Novembro de 2013”, através de uma conta no Liechtenstein, dizendo que eram “pagamentos semianuais” pelo contrato da Nike com Higuaín. “Por que razão a ITB International, a qual, oficialmente, nada tinha a ver com o contrato entre a Nike e Higuaín, desviava quase 200 000 euros para um paraíso fiscal nas Caraíbas com esse propósito?”, questionam os autores.

O verdadeiro negócio da China que assusta a Europa

Na primavera de 2015, a China começou a entrar forte no futebol europeu, fazendo disparar por completo os valores praticados a nível de transferências, salários e demais cláusulas; depois do Football Leaks, o El Dorado transformou-se em algo mais esbatido, discreto – algo colocado em prática com a limitação de três estrangeiros em campo por equipa. No entanto, não parecem existir muitas dúvidas que ali entronca uma força que, quando quer, consegue colocar qualquer oligarca russo ou milionário árabe a um canto. E tudo porque as ordens para avançar ou recuar partem de cima. De cima, cima. Ou seja, Xi Jinping, secretário-geral do Partido Comunista e presidente da China. E é isso que coloca a Liga do país como centro de todas as atenções, até pelas ondas que consegue provocar cada vez que existe um grande negócio.

Ezequiel Lavezzi é o exemplo paradigmático dos negócios que chegaram a ser feitos para a “revitalização do futebol chinês”: aos 30 anos, quando já tinha deixado de ser opção principal do PSG, o argentino chegou ao Hebei China Fortune. Estávamos no início de 2016. Assinou por apenas dois anos, quase indiciando de que estaria a testar a capacidade de adaptação a uma nova realidade social e desportiva. Os valores em causa mostram, no entanto, que era bem mais do que isso. Vejamos: nos dois primeiros anos na China (acabaria por ficar até hoje, na mesma equipa), receberia 56,7 milhões de dólares [50,4 milhões de euros ao câmbio atual] mais regalias, como duas casas sem renda para pagar, duas limusinas, um motorista, um chefe de cozinha e um intérprete. Mas havia mais cláusulas “protetoras” para o jogador: em caso de lesão, recebia por completo; caso a ausência fosse por mais de dois meses, ficava com 70% do salário; se marcasse 40 golos e fizesse 20 assistências, jogando 90% dos minutos em jogos oficiais, nos dois anos de vínculo, renovava de forma automática por mais uma temporada.

Aos 30 anos, quando já tinha deixado de ser opção principal do PSG, Ezequiel Lavezzi chegou ao Hebei China Fortune

Getty Images

Lavezzi foi o caso extremo de “loucura salarial”, mas as outras estrelas que rumaram à China também não eram propriamente mal pagas, longe disso: Tévez assinou por duas temporadas pelo Shanghai Shenua, em dezembro de 2016, recebendo 22 milhões de dólares líquidos [19,5 milhões de euros], que podiam chegar aos 27 milhões com as cláusulas por objetivos entre jogos realizados, golos e títulos; Hulk foi para o agora campeão Shanghai SIPG por 15 milhões de euros líquidos por ano – sendo o ordenado mensal depositado numa conta na Suíça; Óscar juntou-se ao antigo avançado do FC Porto por 18 milhões de euros líquidos por época, sendo que sete são depositados em janeiro e o restante diluído por cada mês; Graziano Pellé recebe de salário base do Shandong Luneng dez milhões de euros por temporada, o mesmo do que Jackson Martínez, hoje no Portimonense, quando se mudou para o ex-campeão Guangzhou Evergrande. Antes, em 2012, Didier Drogba, que ganhou a Champions pelo Chelsea, esteve um ano no Shanghai Shenhua por um valor, à taxa de câmbio atual, de 30 milhões de euros.

Em paralelo, houve um outro fenómeno que se generalizou entre os principais apoios dos maiores clubes chineses, na sua maioria bilionários: entrar na Europa e passar a deter posições maioritárias nas participações de algumas equipas. Em Itália, a Suning comprou 69% do Inter por 270 milhões de euros e a Haixia Capital fez parte do consórcio que ficou com a parte do AC Milan, que pertencia ao antigo primeiro-ministro Silvio Berlusconi; em Inglaterra, a Fosun controla o Wolverhampton, que tem hoje a maior comunidade portuguesa na Premier League; em Espanha, o líder do Wanda Group garantiu parte do capital do Atl. Madrid e entrou ainda na Infront, empresa suíça que tem os direitos de transmissão e publicidade dos Mundiais.

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