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Num debate que começou com homenagens ao Papa Francisco, “um homem bom e generoso”, “exemplo para uma boa ação na política”, segundo Pedro Nuno Santos, que tornou esta segunda-feira “um dia triste” para “os amantes da paz” e para quem defende “o combate pelas desigualdades”, de acordo com Paulo Raimundo, os secretários-gerais do PS e da CDU tiveram depois várias discordâncias: sobretudo sobre Saúde, Defesa e a forma como os socialistas votaram no último Orçamento do Estado.
Paulo Raimundo criticou Pedro Nuno Santos por não ter ido mais além na Saúde, como propôs o PCP, por o “PS ter viabilizado o OE e o IRC e — ainda não consegui engolir essa —, votar contra a Comissão de Inquérito ao crime económico da ANA”, enquanto elencava uma a uma as várias das medidas do governo AD. O secretário-geral do PS disse que Raimundo estava a cometer “um erro histórico em equiparar o PS à AD”, que não “deu estabilidade à AD, mas sim “estabilidade política e governabilidade ao país”, mas ouviu que aquela era uma “frase feita” e que se era para seguir pelo mesmo rumo “connosco não contam”, que só “há caminho se é para responder aos problemas das pessoas”. Pedro Nuno Santos contra-atacou, queixou-se que não era “justo” e acabou a voltar a insistir no voto útil: “Para o PS ganhar, não pode haver dispersão de votos”
No debate que se seguiu logo depois, e houve apenas cinco minutos de paragem entre o primeiro na RTP e o segunda na SIC Notícias, só houve um ponto em comum: os elogios ao Papa Francisco, um “exemplo de humildade, determinação e fé”, apesar de nem sempre terem concordado, segundo André Ventura. Uma “figura maior do séc. XXI, um sábio, pela marca que deixa para crentes e não crentes”, de acordo com Mariana Mortágua.
Depois começou um verdadeiro vendaval de troca de acusações entre a coordenadora do Bloco e o líder do Chega, que envolveu a presença do Estado na Economia, as tarifas de Trump, a participação de empresas estrangeiras em portuguesas, as rendas, os okupas, os vistos gold, os imigrantes (claro) e a segurança. Ao ponto de Mariana Mortágua levar legos para mostrar que as importações da Índia ou do Bangladesh são mínimas, de Ventura a acusar de estar a “brincar à política” e de ambos acabarem num troca de argumentos sobre o assalto a Joana Mortágua no Martim Moniz, que a bloquista disse não estar “confirmado que não tenha sido um deputado do Chega”. Isto quase sem perguntas pelo meio.
Esta terça-feira há apenas um debate, e à tarde. Será entre Rui Tavares, porta-voz do Livre, e Inês Sousa Real, a líder do PAN, na RTP3. Pode ver o calendário completo desta fase final dos debates aqui.
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Tal como no ano passado, o Observador está a dar notas num “Vencedor é” — à semelhança do programa e podcast da Rádio Observador — dos debates, em que avalia quem ganhou. Assim, ao longo destes dias, um painel de avaliadores do Observador dará notas de 1 a 20 a cada um dos candidatos por cada um dos frente a frente. E explicará porquê. A média vai surgindo a cada dia, no gráfico inicial.
Pedro Nuno Santos (PS)-Paulo Raimundo (CDU)
Alexandra Machado — Paulo Raimundo não conseguiu argumentos suficientes para explicar porque é que um indeciso de esquerda votará na CDU em vez de tentar dar um voto a quem pode chegar ao Governo. O líder do PCP usou os argumentos de sempre que tiveram réplica de Pedro Nuno Santos a apontar as respostas dos governos socialistas às questões que o PCP colocava em cima da mesa. Nomeadamente nas pensões, que é um ponto de honra do PCP, Paulo Raimundo ficou sem argumentos quando o líder do PS lembrou que mesmo em orçamentos não apoiados pelos comunistas o aumento extraordinário aconteceu. “Não seja injusto connosco” não é um contra-argumento válido. Não houve medidas. Houve frases feitas. Dizer que se defende o SNS, como fez Pedro Nuno Santos, não diz nada sobre o que quer para a saúde. Tal como Paulo Raimundo dizer que quer acabar com os benefícios fiscais – não sabendo como contra-argumentar quando confrontado quando se diz que muitas PME beneficiam disso, e parte desses benefícios é para reinvestimento de lucros. O debate não foi rico, mas Pedro Nuno Santos ganha no final ao trazer o PCP para a realidade: como é que faz para acabar com PPP rodoviárias? Rompe? Num estado de direito? E na saúde, faz medicamentos? Consegue? Ou seja, o que o PCP promete não tem aplicabilidade prática, atalhou Pedro Nuno Santos.
Ana Sanlez — Pedro Nuno Santos parecia ter chegado com pouca vontade de debater com o antigo parceiro (ou então é apenas a nova versão de Pedro Nuno e ainda não nos habituámos a isso) e acabou por ser Paulo Raimundo a convocar o líder do PS para o duelo. Mais aguerrido e mais agressivo, o líder do PCP apostou numa tática que consistiu em encostar o PS à AD e a medidas como a descida do IRC, e nem hesitou em atirar parte das culpas do atual estado do SNS para o PS, lembrando o “embate muito forte” que os dois partidos tiveram na discussão do OE de 2021. Terá sido dos debates menos conseguidos de Pedro Nuno Santos, que não quis hostilizar (demasiado) um partido que será sempre um possível parceiro. E talvez um dos melhores de Paulo Raimundo, que, apesar de evidentes melhorias, continua a pecar pelo facto de deixar demasiadas ideias no ar que depois não concretiza, com frases enigmáticas como “nós sabemos como é que chegámos até aqui”. Um debate que começou com os candidatos a evocar o legado do Papa Francisco e que terminou com Pedro Nuno Santos a controlar-se para não dizer que quer um Governo para “todos, todos, todos”.
Cátia Bruno — O frente a frente foi morno e, se dependesse de Pedro Nuno Santos, mais morno ainda seria. Foi Paulo Raimundo quem o quis puxar sempre para jogo, como se viu logo na discussão sobre Saúde, quando o líder do Partido Socialista parecia querer apenas estar focado na crítica a Luís Montenegro. Mas Paulo Raimundo rapidamente levou o debate para o fim da geringonça: “Não teríamos tudo resolvido, mas estaríamos muito melhor do que estamos hoje”, declarou, se o PS tivesse tido coragem de manter o rumo anterior. Raimundo continuou a puxar o adversário para o ringue, culpabilizando-o repetidamente por ter aprovado o Orçamento do Estado da AD. Mas aquilo que parecia a sua maior força revelou-se a sua maior fraqueza. É que permitiu a Pedro Nuno Santos vestir confortavelmente o fato que tem tentado vestir ao longo destes debates: o de candidato a primeiro-ministro. “Sentido de Estado, responsabilidade, estar à altura do país”, elencou sempre calmo o socialista, para justificar a posição do PS — um argumento que pode colher junto de uma maioria de portugueses que não tinha vontade de ir a eleições agora e muito menos em outubro do ano passado. No fim, Pedro Nuno voltou — como no debate contra Mariana Mortágua e Rui Tavares — a apelar ao voto útil no PS. Paulo Raimundo manteve-se no rumo expectável de um candidato comunista, ao falar sobre a necessidade de “responder aos problemas das pessoas” e rejeitando a estratégia atual dos socialistas Mas não fechou totalmente a porta a uma aliança futura com o PS. E Pedro Nuno Santos sorriu.
Miguel Pinheiro — Esta noite, Pedro Nuno Santos fez o papel de saco de boxe. E Paulo Raimundo fez o papel de Rocky Balboa. O líder do PS tentou, mais uma vez, usar a estratégia que tem utilizado com os partidos à sua esquerda: o paternalismo. Jura que gosta muito deles, garante que pretende oferecer-lhes rebuçados, repreende-os pela sua falta de realismo — e, no final, pede o voto dos seus eleitores. Mas Paulo Raimundo, no estilo levemente irritado que o tem caraterizado nos debates, não permitiu que o truque resultasse: elencou as políticas “de direita” que o PS implementou quando estava no governo; e enumerou as políticas “de direita” que o PS permitiu que a AD implementasse agora que esteve na oposição, através da viabilização do Orçamento do Estado. Recorrendo ao “você sabe que eu sei que você sabe que eu sei”, comentou o aumento extraordinário das pensões do tempo da geringonça de que Pedro Nuno Santos se estava a gabar com um sorriso cínico: “Nós sabemos bem a história das pensões…” Pedro Nuno Santos foi para este debate com a missão de seduzir os eleitores que estão entre o PCP e o PS — mas, graças a Paulo Raimundo, esses eleitores acabaram o debate ainda mais desconfiados do que o socialista faria com os votos deles se os tivesse.
André Ventura (Chega)-Mariana Mortágua (Bloco)
Alexandra Machado — Foi o debate que mais tempo, até agora, teve (pelo menos pareceu na contagem feita pela televisão). O que significa que quem ganhou, neste frente a frente, foram as redes sociais. André Ventura e Mariana Mortágua levaram preparados os seus vídeos curtos para aparecerem no TikTok ou Instagram. Aliás, Mariana Mortágua atirou isso mesmo a André Ventura, embora o Bloco também tenha trabalhado para as redes sociais, nomeadamente no número do Lego (já antes usado até pelo Bloco de Esquerda no Parlamento). Mariana Mortágua e André Ventura não escondem a irritabilidade quando estão frente a frente. E prepararam os ataques óbvios, desde os deputados e elementos do Chega a braços com casos criminais até ao caso Robles e às trabalhadoras despedidas pelo Bloco; E, claro, já se esperava que até o assalto a Joana Mortágua (no Martim Moniz) André Ventura ia trazer. Mariana Mortágua tinha a obrigação de estar mais bem preparada para encurralar André Ventura. Mas com André Ventura nunca se sabe para onde o debate vai. E uma coisa é certa, apesar de ter sido André Ventura a vitimizar-se a dizer que Mariana Mortágua estava a conduzir o debate foi no entanto precisamente isso que Ventura fez. Mariana Mortágua insistiu (em demasia) no tema Trump e tarifas, mas Ventura não respondeu (como é habitual) sobre o agravamento dos preços dos combustíveis com tarifas agravadas (o preço dos combustíveis é um tema caro a Ventura). Se Mortágua insistiu em Trump, Ventura não largava o tema das nacionalizações – que aliás não é novidade no programa do Bloco – mas acabou a levar dois temas novos no confronto com Mortágua: a ocupação de casas e o direito de voto aos imigrantes. Um debate que demorou a acabar – mas é dos que Ventura gosta (e o estúdio deve ser maior que a sua casa de 30 metros quadrados!)
Ana Sanlez — Para os que encaram estes debates como um espetáculo televisivo, não saíram defraudados do confronto entre Mariana Mortágua e André Ventura, duas pessoas incapazes de concordar mesmo se o tema for a fórmula da água. Espetáculo à parte, não se pode dizer que tenha sido um debate com elevação, conteúdo e substância. Houve legos no horário nobre da televisão portuguesa (em sinal fechado, mas ainda assim). Houve referências ao Tik Tok e ao Batman. E houve Mariana Mortágua a escorregar na casca de banana de Ventura, quando no final diz que “não está provado” que o assaltante do carro da irmã tenha sido um deputado do Chega. É desnecessário e é o tipo de argumento “toma toma” que estamos habituados a ouvir do adversário. Mariana Mortágua sabe que o ponto fraco de Ventura nestes debates tem sido a questão das tarifas, e tentou explorá-lo ao máximo, de forma eficaz com a brincadeira dos legos. Ventura não soube reagir rapidamente e continuou sem explicar o que significa, na prática, “proteger as empresas portuguesas” das ameaças da China e da Índia. Ventura picou Mortágua com as privatizações e com os “ocupas” (onde Mortágua foi pouco veemente na resposta), tendo sido certamente eficaz para o seu público, como Mariana Mortágua terá sido para o seu. No fundo, era o que estava aqui em causa e não propriamente a disputa de votos. A palavra “bandalheira” só surgiu aos 22 minutos, o que poderá ser um recorde para André Ventura.
Cátia Bruno — Num debate onde cada um fala para o seu eleitorado, não seria de esperar um frente a frente decisivo que fizesse alguém mudar de ideias. À primeira vista e tendo em conta a dureza do embate, parece ter sido um confronto mais de forma do que de conteúdo, com soundbites, interrupções, pouca voz da moderadora e impor-se e “truques” a serem usados de parte a parte, o que não pode valer notas muito altas. Mas, perante isto, temos duas opções: ou avaliamos quem teve a melhor performance do ponto de vista do espetáculo, ou olhamos para a discussão das ideias. E, apesar do ruído, a verdade é que Mariana Mortágua foi a vencedora em ambos os critérios. É sofrível ver André Ventura a tentar falar de economia. O líder do Chega não apresentou uma única ideia própria para a questão da habitação, não conseguiu defender a privatização da EDP e até nos seus tão caros temas de imigração e segurança limitou-se a colar-se ao dramático caso de “Manu”, sem falar de propostas concretas para além das quotas. Mas, já sabemos, a forma com Ventura conta e muito. As frases feitas, o choradinho sobre a diferença de tratamento da moderadora e as fake news podem vir a valer votos, mas não podem valer notas positivas. A diferença entre Ventura e Mortágua é que ela também trouxe um truque de ilusionista, mas que é visualmente muito eficaz: o dos legos a mostrarem o peso das importações chinesas, paquistanesas e do Bangladesh, para responder a quem tanto tem invocado a questão das tarifas. Ventura tenta ser David Copperfield, mas neste debate os seus truques resumiram-se a frases como “É como vocês com o Robles”, “A minha casa tem 30m2, não é um palacete como os do Bloco” e “Isso é o lego que a Mariana usa em casa pra brincar?”. Roubando uma expressão a Paulo Raimundo, no canal ao lado: é poucochinho.
Filomena Martins — Foi o debate dos extremos — e não foi, ou foi? — bonito de ver. André Ventura e Mariana Mortágua já se conhecem bem e já sabem que não vão convencer ninguém do lado oposto. Por isso, entraram como gladiadores sem expectativa de sobrevivência política no centro. Quem veio para ver ideias saiu com a sensação de ter assistido a uma batalha de TikTok em horário nobre. Começou com o Papa. Uma trégua breve: ele, com a pose de “não concordei com tudo, mas respeito o homem”; ela, com a reverência habitual — “um sábio que deixa um legado a crentes e não crentes”. A paz durou dois minutos. Depois, foi o regresso à lama. Na economia, Mortágua sacou do seu Lego ideológico para desmontar o nacionalismo económico de Ventura. Literalmente — levou um brinquedo para a SIC. Ventura quer protecionismo puro e duro, estilo Trump, com sotaque de Loures. Fala em tarifas de 20% sobre importações, acusa os “amigos da Índia, Bangladesh, Paquistão e da China” de invadirem o mercado. Mariana ripostou com números: 75% das importações vêm da União Europeia, não da feira de Cantão. Ventura insistiu: “Brinca aos Legos, mas eu protejo os produtos portugueses.” Depois vieram os velhos fantasmas: nacionalizações e privatizações. Mariana quer recomprar empresas estratégicas como a Galp, EDP, REN, CTT, ANA — Ventura chama-lhe “um disparate de 10 mil milhões”. Mas ele também quer nacionalismo, só que da agricultura e dos têxteis. A coerência anda ali às voltas. Na habitação, Mortágua falou em tectos às rendas com o habitual tom técnico. Ventura respondeu com a cassete do costume: “O muro de Berlim caiu, habitue-se.” E sacou a história da irmã de Mortágua defender ocupações em Almada. TikTok vibes, mesmo — com referências à URSS e a casas de 30 m2 onde vive. Mariana, sem responder ao tema, tentou recentrar: “Quero casas legais para toda a gente.” Ventura gritou “invasão” e a coisa escalou. Depois vieram os Vistos Gold, os Okupas, o direito de voto dos imigrantes. Mortágua falou de integração, de impostos, de direitos. Ventura falou de “bandalheira”. A certa altura, ele berra: “Por mim, não passarão!” E ficámos todos a tentar perceber se estávamos num debate sobre imigração ou num comício em Salamanca em 1936. E como se não bastasse, tivemos criminalidade: Ventura atirou com o caso de Braga, com o gangue brasileiro, com a extinção do SEF. Mariana ripostou: “A taxa de criminalidade da bancada do Chega é superior.” Ventura respondeu com o roubo do carro da irmã de Mortágua no Martim Moniz. Ela não se ficou e disse não estar “confirmado que não tenha sido um deputado do Chega”. O que isto tem a ver com políticas públicas? Nada. Mas foi servido com entusiasmo. Ainda houve tempo para a habitual troca de acusações: racismo vs. humanismo. Ventura: “Vocês são uma fraude política.” Mortágua: “A sua política é o racismo, a minha é o humanismo.” No meio, ninguém discutiu violência doméstica. Mas discutiram Legos. E TikTok. Foi um debate para deixar tudo claro. Claramente inútil, claramente agressivo, claramente feito para os clipes e para os algoritmos. Ninguém ganhou. Mas Ventura saiu satisfeito: gritou mais. E Mortágua sobreviveu com o que pôde. O resto foi espuma. E plasticina ideológica. Com pouca moderação… da moderadora.
Recorde aqui as notas dos debates:
Luís Montenegro-Paulo Raimundo e André Ventura-Inês Sousa Real
Pedro Nuno Santos-Mariana Mortágua e André Ventura-Rui Tavares
Pedro Nuno Santos-Rui Rocha e Mariana Mortágua-Inês Sousa Real
Nuno Melo-Isabel Mendes Lopes e Rui Rocha-Paulo Raimundo
Pedro Nuno Santos-Inês Sousa Real e Mariana Mortágua-Paulo Raimundo
Nuno Melo-Inês Sousa Real e Rui Rocha-Rui Tavares
Luís Montenegro-Rui Rocha e Mariana Mortágua-Rui Tavares
Pedro Nuno Santos-André Ventura e Rui Rocha-Inês Sousa Real