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Duas notas apenas uniram Nuno Melo, pela AD, e Joana Mortágua, pelo Bloco de Esquerda no debate desta noite de quarta-feira na RTP: o pesar pela morte de João Cravinho e a recusa em responder ao processo de averiguação preventiva do Ministério Público a Pedro Nuno Santos. De resto, estiveram ambos ao ataque na defesa dos pontos de vista antagónicos nos quatro temas em jogo: Habitação, Saúde, Imigração e Defesa, com farpas dos dois lados. Nuno Melo acusou o BE de atirar “coisas para a mesa na esperança de que ninguém vá ver” (tecto nas rendas e o sucesso em Amesterdão) colando a ideia a Salazar e Joana Mortágua provocou o líder do CDS ao citar Paulo Portas (imigração) e lembrar que no hino da AD o nome de Melo não aparece: “Esqueceram-se de si, não há nenhum ‘deixem o Nuninho’ trabalhar”.
Se o primeiro debate foi taco-a-taco, o segundo foi de uma grande intensidade. “Há um mundo de diferenças entre nós “, disseram à vez, mas quase em uníssono, André Ventura e Paulo Raimundo. E assim é. A resposta europeia e portuguesa às tarifas impostas pela administração Trump, o salário mínimo e o IRC dominaram os trinta minutos do frente a frente do presidente do Chega e do líder do PCP, na CNN, sem que em algum momento os pontos de vista fossem coincidentes no que quer que fosse. Com uma novidade: André Ventura não falou na imigração.
Ventura e Raimundo lutam pelo voto dos menos favorecidos — e até os bairros onde vivem foi tema
Amanhã, quinta-feira, é a última noite de debates desta semana (devido à Páscoa sexta-feira está livre de confrontos políticos televisivos) e arranca com o segundo de Pedro Nuno Santos (PS) à esquerda que, depois de Mariana Mortágua terá pela frente Rui Tavares do Livre: será às 21h00, na SIC. Às 22h00, André Ventura (Chega) e Rui Rocha (IL) têm encontro marcado na RTP3.
Pode ver o calendário completo dos debates aqui.
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Tal como no ano passado, o Observador está a dar notas num “Vencedor é” — à semelhança do programa e podcast da Rádio Observador — dos debates, em que avalia quem ganhou. Assim, ao longo destes dias, um painel de avaliadores do Observador dará notas de 1 a 20 a cada um dos candidatos por cada um dos frente a frente. E explicará porquê. A média vai surgindo a cada dia, no gráfico inicial.
Nuno Melo (AD)-Joana Mortágua (Bloco)
Cátia Bruno — Não era um debate para converter ninguém do campo oposto, mas antes para, como dizem os norte-americanos, “pregar ao próprio coro”. Daí que não seja de admirar que, na questão com que o debate arrancou — a habitação — cada um tenha defendido a sua dama com competência: tecto às rendas por um lado, mais construção por outro e ninguém mudou de ideias nem converteu nenhum eleitor indeciso. Na imigração, idem: o Bloco manteve a crítica ao fim da manifestação de interesse, enquanto Nuno Melo defendeu a recém-criada “Via Verde”. As únicas áreas onde estes suplentes marcaram golo foram na Saúde (Joana Mortágua) e na Defesa (Nuno Melo). Na primeira, o candidato da AD não conseguiu disfarçar a falta de preparação, tal era a colagem que tinha aos papéis com números que trazia; Mortágua nem precisou de puxar de armas pesadas e limitou-se a dizer que “precisamente porque a saúde foi uma das áreas onde a maioria absoluta do PS mais falhou, bastava à AD fazer um bocadinho melhor”. Na segunda, Nuno Melo usou a preparação do cargo (ou não fosse ministro da Defesa) para rebater a posição anti-NATO e crítica de maior armamento do Bloco. Para responder à afirmação prévia de Mariana Mortágua — que ridicularizou a ideia de Vladimir Putin vir montado num tanque para atravessar a fronteira espanhola —, o representante da AD relembrou a ameaça aos países bálticos e puxou de um soundbite naif, mas eficaz: “A nossa fronteira não é a fronteira espanhola, é a da democracia”. No fim, e com cada missa bem debitada ao respetivo coro, o duelo dos não-titulares resultou num empate.
Judite França — Perante um cavalo branco, não concordariam que ele é branco. E assim foi todo o debate. Nos antípodas ideológicos, Joana Mortágua e Nuno Melo só estiveram de acordo no início quando nenhum dos dois quis comentar o caso de averiguação preventiva a dois imóveis comprados por Pedro Nuno Santos. Daí para a frente, cada tema, cada visão do mundo totalmente oposta. Mortágua esteve sempre ao ataque, mas Nuno Melo também não se ficou. Logo na habitação, colou a ideia do congelamento das rendas do Bloco de Esquerda à política do Estado Novo. E tentou desmontar o exemplo que o BE repete, o do tecto nas rendas em Amesterdão. Na réplica, Mortágua lembrou 17 países da OCDE que têm algum tipo de medidas de controlo de rendas. Quando criticava as medidas do PSD, e Nuno Melo recordou que o Governo é da AD, Mortágua aproveitou a deixa para um remoque certeiro. “Esqueceram-se de si”, lembrando que o novo hino só se refere ao primeiro-ministro: “Deixem o Luís trabalhar”. Outro dos temas que provocou troca de acusações foi a Via Verde para a imigração, com o líder do CDS a dizer que o Bloco acredita que toda a gente pode vir para Portugal, apesar de não se garantir o “humanismo” no acolhimento das pessoas. Se na Saúde o líder do CDS teve mais dificuldade em acompanhar Mortágua, apesar de ter recorrido por diversas vezes a cábulas e mostrado gráficos para as câmaras, na Defesa Nuno Melo, que é ministro da pasta, esteve à vontade. Foi recuperar declarações de Mariana Mortágua, que tinha ironizado sobre tanques a entrarem pela fronteira espanhola, para dizer que a fronteira da AD é a da “democracia”. E que a posição do Bloco de Esquerda é “irresponsável” olhando para as ambições de Putin. Num debate em que o cavalo branco nunca seria branco, e cada um falou para o seu eleitorado, que não se tocam, serviu para os indecisos verem a prestação de candidatos de espectros políticos opostos e talvez terem tirado algumas dúvidas sobre o que fazer no dia 18 de maio.
Miguel Santos Carrapatoso — Um bom debate, com dois protagonistas bem preparados, sem medo de ir a jogo e com soundbites de belo efeito. Tendo sido um frente a frente profundamente ideológico, com divergências em todos os temas que foram discutidos (Habitação, Saúde, Imigração, Defesa), caberá a cada um decidir quem apresentou os argumentos mais convincentes consoante visão que tenham de país e de sociedade. Não tendo nunca participado formalmente num governo, Joana Mortágua levava o conforto de poder defender soluções que nunca foram verdadeiramente testadas — não como o Bloco as preconiza, pelo menos — e de dizer que a AD não está a conseguir inverter as crises na Saúde ou na Habitação. Em gestão de danos, Melo agarrou-se demasiado à circunstância de a AD só estar no poder há 11 meses, mas conseguiu, ainda assim, colar a bloquista à herança de António Costa, que não é particularmente brilhante nestas duas matérias. As cábulas que levou para o debate também ajudaram — ainda que não seja particularmente brilhante do ponto de vista da comunicação. A partir daí, as coisas começaram a pender mais para Nuno Melo. Para variar um bocadinho, Mortágua tentou colar a AD ao Chega à questão da imigração, mas ficou por explicar o que faria exatamente o Bloco de Esquerda se fosse governo. E era importante que aproveitasse este debate para o fazer. Na Defesa, Joana foi obrigada a responder pelo soundbite de Mariana sobre a ideia de que os tanques de Putin não vão atravessar a fronteira espanhola, porquanto Portugal não precisa de gastar nem mais um cêntimo em armas. Melo, de forma assertiva, explicou um princípio básico da diplomacia portuguesa: o dever de solidariedade entre democracias europeias.
Pedro Jorge Castro — Em vez de vermos Montenegro e Mortágua, vimos outro duelo M&M, entre Melo e a Mana Mortágua. Nenhum deles devia ter estado neste debate. Montenegro tinha a obrigação política de enfrentar os líderes todos. Mariana Mortágua não devia ter desperdiçado a oportunidade, porque comunica melhor do que a irmã. No confronto de suplentes, independentemente de quem tem razão, Joana Mortágua foi menos ineficaz na Habitação e na Saúde. Nuno Melo safou-se menos mal na Imigração e na Defesa e na brevidade da resposta sobre o caso Pedro Nuno. Nuno Melo esteve com o tom certo, mas não ia bem preparado para defender o governo de forma assertiva e isso notou-se, apesar de ter atacado o fim das PPP, de ter rebatido a proposta do tecto das rendas e de ter feito um apelo para desviar eleitorado do Chega a favor do voto útil. Mas a irmã da coordenadora do Bloco foi mais eficaz em soundbites agressivos e terá deixado a sua claque mais satisfeita, sobretudo com a boca de que a AD se esqueceu do líder do CDS no hino, porque só pede para deixarem o Luís trabalhar.
André Ventura (Chega)- Paulo Raimundo (PCP)
Dulce Neto — Foi um verdadeiro duelo, um bom momento de televisão, mas um debate pouco esclarecedor (houve partes, aliás, em que não se percebeu mesmo nada com os dois interlocutores a atropelarem-se com palavras). André Ventura esteve igual a si mesmo, um sistemático caterpillar que procura arrasar em permanência o adversário mas encontrou pela frente um Paulo Raimundo muito diferente do que aquele que atacou no ano passado. O secretário-geral do PCP ganhou claramente este frente a frente, levando o líder do Chega para os temas que lhe interessavam, contra-atacando a cada golpe desferido por Ventura que disparou “toda a cartilha”: as simpatias do PCP pelos regimes da Rússia, Venezuela, China e a ocupação de terras de particulares ou a saída do euro, por exemplo. O comunista conseguiu que Ventura nunca dissesse a palavra imigração e tocou-lhe onde lhe dói muito: encostou-o ao grupo dos poderosos, dos ricos, quando os dois partidos disputam o eleitorado dos trabalhadores. Mas Raimundo claudicou quando explicou (mal) porque é que não votou propostas do Chega que defendem os trabalhadores, como a subida do salário mínimo. Respostas como “para não alimentar demagogias e hipocrisias” ou por questão de princípio são difíceis de entender para um partido que se diz ao lado dos mais desfavorecidos.
Judite França — Nenhum ignora que há um eleitorado que pode flutuar do PCP para o Chega — como já aconteceu em eleições anteriores — e, por isso, o debate não era a feijões. Isso tornou-o combativo e inflamado do início ao fim. Mas Paulo Raimundo mostrou ser mais vulnerável quando está encostado às cordas. No ringue, André Ventura não pára nem desaproveita as oportunidades. A primeira foi logo o caso da averiguação à compra de imóveis de Pedro Nuno Santos. Serviu para que Ventura atirasse a Raimundo que o líder do PCP é mais brando com o socialista do que com Luís Montenegro, fazendo uma comparação entre este caso conhecido esta quarta-feira e a polémica em torno da Spinumviva.
Mas essa não foi a única vez que Raimundo deu o flanco. Assim que Ventura mostrou que defende o protecionismo da Europa na guerra das tarifas com os Estados Unidos, o secretário-geral do PCP tornou a questão nacional e defendeu o protecionismo do país. Ato contínuo, Ventura acusou o representante da CDU de defender uma política isolacionista. O debate foi aquecendo e por diversas vezes Raimundo demonstrou estar zangado com o adversário. Sobretudo quando Ventura acusou o PCP de ter “um passado de ditadura e antidemocracia”. Ainda se ouviu o clássico exemplo da “Venezuela” e a esse discurso, Raimundo respondeu como sempre: acusando o oponente de ter uma “cartilha”.
Ventura não poupou nos remoques ao adversário ao dizer que “não percebe patavina”, “não sabe nada de economia” e de acusar o líder do PCP de querer “engordar o Estado” em vez de defender os pequenos empresários. A dada altura, o líder do PCP usou a expressão “nheca, nheca” para classificar o discurso de Ventura. Nem quando Raimundo usou as suas origens humildes foi eficaz. Pensou que ia medir quão “periférico” era o bairro onde vivia, mas Ventura disse que também não nasceu em Lisboa, mas em Mem Martins e que também vem de um bairro. Depois de medirem origens humildes, “onde há muita bandidagem”, demoraram-se nas diferentes visões para o sistema fiscal das empresas. Contas feitas, Ventura levou ligeira vantagem, mas para um debate que não era a feijões era preciso mais do que “nheca nheca”.
Pedro Jorge Castro — “Nheca, nheca”. Foram os dois únicos grandes argumentos políticos de Paulo Raimundo para se defender dos golpes de André Ventura. Em tudo o resto, fez impressão ver a incapacidade do líder comunista para responder a todos os ataques previsíveis que lhe foram desferidos: afinidades do PCP com os regimes russo e chinês, defesa da saída do euro, defesa das nacionalizações, enorme património imobiliário do PCP, ocupações de propriedade privada, falta de democracia interna no PCP e ainda o voto do PCP contra o aumento do salário mínimo por ter sido proposto pelo Chega.
Paulo Raimundo não foi nada eficaz a defender-se. Não basta dizer vacuidades como “começa mal”, “já cá faltava essa”, “a minha alma está parva com esta intervenção”, “quis descarregar a cartilha toda” ou ainda “não vou responder a isto, quer que responda a isto como?” — para depois afinal responder sem dizer nada de jeito.
Não ficou bem a Ventura tanta violência — que nem parou durante o apagão no cenário (que passou a negro). Pareceu um matulão bully no recreio a esbofetear repetidamente um desgraçado, com toda a gente à volta a filmar, sem ninguém ter a decência de ir lá salvá-lo. Pode ter sido eficaz para tentar reter o eleitorado que deu 50 deputados ao Chega, mas os indecisos moderados não apreciam esta falta de misericórdia, nem quem continua a bater em quem não se consegue levantar do chão.
Sara Antunes Oliveira — Antes de entrar para estúdio, numa espécie de pré-flash-interview, André Ventura defendeu que o PCP (que acha que já não tem lugar no parlamento) é passado e o Chega é que é futuro. Mas, terminado mais um debate, parece confirmar-se que é Ventura quem não tem mais soluções do que as do passado. O modelo com que os adversários de debate tiveram, no tal passado, dificuldade em lidar — o da interrupção permanente, do tom jocoso, do insulto, da ridicularização, das meias verdades (e pós-verdades) ou até das mentiras descaradas como argumento — está cansado, gasto e, surpresa!, os tais dos passado já encontraram forma de o neutralizar. Paulo Raimundo escolheu a chave de estar permanentemente a dizer a Ventura — com palavras ou expressões — que o Chega não é para levar a sério, para terminar com o tal “nheca nheca” que depois não dá em nada. Ligeiramente desconcertado — e incapaz de empurrar o debate para os temas que queria — Ventura só conseguiu criar algum desconforto no secretário-geral do PCP na herança da geringonça, e Raimundo só deu o flanco ao dizer que o PCP não aprova propostas do Chega por princípio — boas ou más. Foi um bom debate? Não. Mas, a dada altura, é difícil pedir mais.
Recorde aqui as notas dos debates:
Luís Montenegro-Paulo Raimundo e André Ventura-Inês Sousa Real
Pedro Nuno Santos-Mariana Mortágua e André Ventura-Rui Tavares
Pedro Nuno Santos-Rui Rocha e Mariana Mortágua-Inês Sousa Real
Nuno Melo-Isabel Mendes Lopes e Rui Rocha-Paulo Raimundo
Pedro Nuno Santos-Inês Sousa Real e Mariana Mortágua-Paulo Raimundo
Nuno Melo-Inês Sousa Real e Rui Rocha-Rui Tavares