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Dezembro está a chegar ao fim e é altura de balanços, listas, resumos do ano. Desafiámos pessoas que escreveram sobre música para o Observador para nos dizerem de que álbuns gostaram mais neste 2019 que se aproxima do fim. Chegámos a 32 escolhas ecléticas, nacionais e internacionais, que vão do pop-rock ao jazz, da música eletrónica ao meth-metal, da folk e indie-rock ao hip-hop, trap, dancehall e reggaeton. Poucos discos foram consensuais, mas houve dois mais escolhidos do que os outros: Purple Mountains — o homónimo da nova banda do norte-americano David Berman, ex-Silver Jews, que morreu pouco depois da edição do álbum — e Titanic Rising, o quarto da discografia de Weyes Blood, nome artístico da norte-americana Natalie Mering. O melhor é ler e ouvir. Se quiser dizer-nos quais os seus preferidos na caixa de comentários, não se iniba.

André Santos

Angel Olsen — All Mirrors (Jagjaguwar)

Angel Olsen tinha um modelo vencedor até este All Mirrors: uma rapariga, a sua voz e a sua guitarra. Foi com esses três elementos que as suas canções entraram em estúdio. Saíram de lá diferentes, enfiadas no chamado “álbum de estúdio”, cheio de armas para vencer as inseguranças das relações falhadas e uma diversidade de imagens da artista para confundir quem vê de fora. Angel partiu a casca e agora ninguém a agarra.

The Caretaker — Everywhere At The End Of Time Stages 4-6 (History Always Favours The Winners)

Leyland Kirby criou The Caretaker no final do século passado com o propósito de explorar um exercício de nostalgia que começava a dar os primeiros passos no Reino Unido: hauntology. Nos vinte anos de carreira de The Caretaker – que termina com esta compilação -, ele fez música para um haunted ballroom – termo dele -, percebendo que a música de memória só tem lugar para salas com fantasmas. Os seis estágios de Everywhere At The End Of Time, lançados separadamente desde 2016, são um exercício único sobre o lugar da música na memória.

Gabriel Ferrandini — Volúpias (Clean Feed)

Baterista de jazz com uma atitude e uma resolução de vida que o torna multidisciplinar. Gabriel Ferrandini toca em diversos projectos e não tem medo de colocar o pé em novos desafios. Volúpias é o grande salto para a composição, que teve como ponto de partida uma residência na Galeria Zé dos Bois em 2016 e um bom tempo de maturação dos sons e das ideias que daí nasceram. Os títulos referem-se ao percurso da casa de Ferrandini até à ZDB; Volúpias é o início de um caminho muito maior.

Nick Cave & The Bad Seeds — Ghosteen (Ghosteen Ltd)

A capa de Ghosteen remete para um livro de fantasia com uma história de emancipação para uma outra vida. Ghosteen é quase isso. E o quase é porque não existe uma outra vida, existe esta, é um álbum que quer ser luminoso – e é – como forma de empurrar a vida para a frente, sem esquecer o que está para trás. A voz de Nick Cave e os instrumentos – ou, simplesmente, “o som” – estão sempre a levantar-se do chão e a carregar um peso enorme, sem esquecer que têm de ser belos para o ouvinte. Que catarse que é existir.

Weyes Blood — Titanic Rising (Sub Pop)

Natalie Mering tenta esconder parte do seu passado quando mudou o seu nome para Weyes Blood. Antes era Weyes Bluhd, que carrega um passado de que Mering quer, obviamente, desligar-se. Titanic Rising é surpreendente para quem a ouve desde esses tempos ou para só quem a descobriu com The Innocents em 2014: o pesadelo saiu das canções para se entregar por inteiro a belas construções psych-folk-pop, ideais para dias bem-dispostos.

Diogo Lopes

Kate Tempest — The Book of Traps and Lessons (American Recordings / Fiction)

Arrisco a dizer que de todos os álbuns de 2019, este foi o que mais me marcou. Kate Tempest foi passando meio despercebida por entre os meandros do mediatismo mas isso não tira qualquer valor a este seu The Book of Traps and Lessons, pelo contrário: é espelho de uma certa marginalidade que aparenta banhar todo este belíssimo naco de música. Ora vejamos: não é bem rap mas também não é só spoken word; fala de amor, desespero e desilusão, essas grandes materias-primas da pop (e não só), mas sempre com uma profundidade difícil de encontrar por outras bandas; é poesia mas também é canção.

Aquilo que é, na verdade, é um retrato espetacular de emoção pura e inteligente, de revolta, de uma sensação de urgência para apanhar algo, corrigir algo, mudar algo. Por cliché que possa soar, é a voz de toda uma geração cansada — do amor, das suas condições de vida, de quem os governa, do mundo, de quase tudo. Tudo sempre dito através de um sotaque viciante, uma dicção que aconchega e umas linhas melódicas tipo sal e pimenta. Só condimentam o ingrediente de topo. Oiçam-na, pesquisem-na e adorem-na. Vale muito a pena.

ProfJam — #FFFFFF  (Think Music / Sony Music Portugal)

O conceito “banger” começou-se a usar bastante nos últimos tempos, muito graças à cultura do hip-hop, por exemplo, e serve para descrever aquilo que na gíria se poderia chamar de “grande malha”. Uma música do camandro, uma canção impossível de nos deixar indiferente. O segundo disco de ProfJam, jovem rapper português que promete estar a caminho de futuro sorridente, é o exemplo perfeito de um grande apanhado dos tais “bangers”.

Não é algo de imediatamente introspetivo — apesar de ter uns laivos — ou digno de tratados filosóficos mas chega-nos aos ouvidos de forma certeira e altamente viciante. É um bom exemplo do hip-hop de hoje, pleno em influências trap e auto-tune, pensado e limado para ser um produto pop perfeito. Dentro deste género de hip-hop mais contemporâneo (o old school felizmente continua a ter os seus muitos mestres ainda no ativo), é um dos melhores exemplos do que se faz por cá.

Julia Jacklin — Crushing (Polyvinyl Record Co., Transgressive Records e Liberation Records)

Faz lembrar Angel Olsen, Sharon Van Etten, Julia Holter ou Big Thief? Faz sim senhora. Encaixa que nem uma luva nesta nova vaga de divas do indie rock/folk? Sem dúvida. Isso é mau? Nem por sombras.

O segundo longa duração desta australiana é uma belíssima travessia por uma paisagem arenosa com sol de fim de tarde, um novelo aconchegante e alegre de indie-rock (ou “alt-country”, como alguns iluminados dizem) onde a voz doce de Jacklin é estrela. É daqueles discos que acaba e quase nem nos apercebemos disso, podia continuar por outros 39 minutos mais. Instrumentalmente não dá nenhuma mudança radical, talvez se note mais o espírito animado e alegre que normalmente costuma faltar a este género de artista. As letras, essas são afinadas e diretas, não têm rodeios nem pruridos para nos cantar o dia-a-dia, o mundano. Quero atravessar a Austrália a ouvir Julia Jacklin.

Purple Mountains – Purple Mountains (Drag City Records)

Que pontapé na cabeça de disco. Como um cometa, este projeto que nos devolveu David Berman depois do fim dos seus Silver Jews, apareceu e desapareceu logo a seguir com a trágica morte do mesmo homem que fez todo este belo disco nascer.  Foi como dar um rebuçado a uma criança para o tirar logo a seguir. Falamos de um grande disco de indie-rock que de forma quase retorcida faz a tristeza soar a felicidade, o desespero a esperança, sempre através da voz profunda de Berman que muitas vezes nos faz pensar que se Bob Dylan sofresse de depressão profunda e estivesse no auge nos dias de hoje, soaria assim. Há algo mais triste do que beber margaritas num centro comercial? Do que ver uma namorada ou namorado, neste caso ex-mulher, seguir em frente enquanto nós permanecemos entalados no mesmo sítio? Purple Mountains faz com que, mesmo assim, tudo isso valha a pena? Óbvio. Só não concorda quem não ouvir.

David Bruno – Miramar Confidencial (ed. autor)

Volta não volta surge-nos pela vida momentos em que é difícil perceber a fronteira entre a verdade e a ficção. Todos já devemos ter passado por isso. De há um ano para cá, felizmente, passou a haver forma de nomear essas situações — pelo menos para mim. Gosto de lhes chamar “momentos David Bruno” em honra do rapaz que assina este Miramar Confidencial. Seja neste projeto ou enquanto pedra basilar do Conjunto Corona, dB, como também e conhecido, chama casa a esta nesga e explora-a como ninguém. Nas letras, imagética e conceito brinca com os estereótipos mais caricatos da sociedade portuguesa de há um século para cá. Na música trabalha como gente séria, de tal forma que não vejo nenhum problema em chamar-lhe um dos melhores produtores do panorama nacional. Sempre com o hip-hop como pano de fundo (ora mais presente ora menos) conta histórias que saem da sua cabeças mas nascem daquilo que vê à sua volta. Sempre com o igualmente talentoso Marco Duarte ao seu lado, David vai-se divertindo de forma independente e criativa, fazendo-nos dançar e sorrir tudo ao mesmo tempo.

Gonçalo Correia

Purple Mountains – Purple Mountains (Drag City Records)

Primeiro veio o palavrão, depois a notícia enviada por SMS: “Morreu o David Berman”. Subitamente o jogo de futebol anterior parecia uma infantilidade, o trabalho do dia seguinte uma insuportável estopada. No Instagram, horas antes de ser encontrado morto, Berman geria a conta da sua editora (Drag City Records) e desejava boa noite ao mundo com uma fotografia antiga. Já não foi a tempo de fazer a digressão de apresentação ao vivo do álbum deste ano, que começava na semana seguinte. Talvez fosse demasiado insuportável.

O disco, homónimo e editado por uma nova banda (Purple Mountains) que gravitava em torno do ex-Silver Jews, era um tormento mal disfarçado. Mas uma obra-prima: arranjos folk-rock e country — trazidos pelos Woods — que quase tornavam animada a toada sobre a qual Berman cantava “this time I think I finally fucked myself”, “and the end of all wanting / is all I’ve been wanting”, “feels like something really wrong has happened / and I confess I’m barely hanging on” e “the light of my life is going out tonight”. Foi um regresso mas também uma dolorosa e comovente carta de despedida de um dos melhores escritores de canções e poemas da música americana, que era um perfeccionista que dizia que melhor do que escrever por encomenda ou obrigação é esperar, “ir avançando com esforço pelas águas da má escrita”, porque “por cada bom verso” há “uma centena de m****” que é preciso escrever e não revelar ao mundo.

Slow J – You Are Forgiven (Sente Isto)

É bonito ver putos fazerem-se homens e mostrarem este talento. You Are Forgiven é um disco de geek de laboratório, de procura de sons por inventar, de álbum como objeto com diversidade na sua unidade. Slow J entrou em reclusão e virou-se para dentro para falar para fora. Ouvimos o sonho em batida dançante q.b. de “Também Sonhar”, festa afro-rap em “FAM”, rap-digital emotivo em “Onde é que estás?” e “Teu Eternamente”, rimas prodigiosas em “Mea Culpa” e sobretudo “Muros” e um monumento auto-motivacional chamado “Só Queria Sorrir”. Já não há gorduras. Dá vontade de perguntar de onde vêm todas estas batidas que não conhecíamos e para onde vai esta escrita cada vez mais adulta. O futuro chegou e é bonito, não é fútil nem repetitivo. No campo da chamada da música urbana, ainda tivemos outras maravilhas como When I Get Home de Solange, GREY Area de Little Simz e LEGACY! LEGACY! de Jamila Woods, além de interessantes novas aventuras de Tyler the Creator, Earl Sweatshirt, Rapsody, Sampa the Great, Black Alien, Polo G e Kindness.

Elza Soares – Planeta Fome (Deck)

Alguém que edita um disco novo com mais de 80 anos não escolhe as palavras que canta ao acaso e as primeiras que se ouvem em Planeta Fome, na voz de Elza Soares, não poderiam ser mais apropriadas (e ao mesmo tempo ótimas de ouvir): “Eu não vou sucumbir”. Elza não sucumbiu e de uma vida de perdas, dores, fome, violência e angústias, fez manifestos musicais de grande calibre. Aqui já sem a ajuda de Guilherme Kastrup, que ajudou a conceber o magnífico A Mulher do Fim do Mundo, Elza Soares e Rafael Ramos pegam no samba como base, vão-lhe adicionando pós de frevo, rock e rap ao longo de pouco mais de 40 minutos e fazem um disco em que não há canções ou palavras dispensáveis. Nem a festa-guerra de “Libertação” logo a abrir (com a rapaziada BaianaSystem a colaborar), nem as palavras de consolo ao “Menino” sem casa nem pão, nem a lupa sobre a desigualdade dos “Brasis” de “sunga e gravata”, de “cobre e lata”, nem uma “Blá Blá Blá” tingida por rimas rap, nem o sarcasmo quase orquestral de “Comportamento Geral”. Fica na memória o regozijo: “A carne mais barata do mercado não ‘tá mais de graça / o que não valia nada agora vale uma tonelada”. A seriedade e a crítica também se podem dançar. Que nos perdoem Tim Bernardes e a sua banda O Terno — autora também ela de um dos melhores discos editados este ano, <atrás/além> —, mas Elza Soares é Elza Soares.

Big Thief – Two Hands (4AD)

Sou culpado do pecado original da atenção tardia aos Big Thief. Melhor dizendo: da conversão tardia aos Big Thief. Sim senhor, tudo certo com as letras íntimas mas desconcertantes, enigmáticas q.b., de Adrianne Lenker, tudo certo com os arranjos de fim de outono da banda. Foi preciso vê-los ao vivo e ouvir o segundo dos dois álbuns que editaram este ano, Two Hands, para tudo mudar. Foi-se o aborrecimento, apareceu o maravilhamento: com a voz e os agudos de Lenker (parecendo sempre à beira de um precipício de que corajosamente não desvia o olhar), com as linhas de guitarra, com os riffs que se espreguiçam sem urgência, com a coordenação e química de uma banda que em palco parece um conjunto de hippies deslocados do tempo, gente nómada só quer fazer a música que gosta e tocá-la tanto quanto possível. É um disco para ouvir do início ao fim, sem barulhos à volta (desliguem a máquina de lavar se for daquelas que tem uma musiquinha engraçada), idealmente sozinho. E é um disco com uma naturalidade mágica, com canções feitas de instinto, o que raramente se encontra.

Camané e Mário Laginha — Aqui Está-se Sossegado (Warner Music Portugal)

Poderia falar aqui de outros discos portugueses, prova de que a música nacional continua com uma vitalidade impressionante: do hip-hop de Classe Crua (sobretudo) mas também Plutonio e Zé Menos, à pop exemplar de Lena de Água, passando pelo novo jazz de Gabriel Ferrandini e de André Rosinha. E ainda há o rock dos Mão Morta, Zarco e Black Bombaim (estes acompanhados pelo baterista João Pais Filipe), o fado de Aldina Duarte, as canções de Luís Severo, Manel Cruz, First Breath After Coma e Capitão Fausto, a música instrumental do duo Miramar e da harpista Angélica Salvi e a eletrónica de Branko, Sensible Soccers e DJ Nigga Fox. A destacar mais um, no entanto, a escolha vai para Aqui Está-se Sossegado, que prova três coisas simples: que Mário Laginha é um prodigioso pianista, que Camané é um grande fadista e que o fado dá-se bem com a solenidade, os silêncios e as notas suspensas do piano. É um disco espantoso, que faz lembrar a maravilhosa colaboração de Carlos do Carmo com Bernardo Sassetti, e que fez de 2019 um ano que soa muito bem. Com que voz… e com que piano!

Isilda Sanches

Chris Korda — Akoko Ajeji (Perlon)

Chris Korda não tem comparação. Mulher transgénero, fundadora da Church Of Euthanasia, anti-natalista, génio do software e programação e iconoclasta suprema, Korda regressa em 2019 com um disco que desafia a matemática rítmica da pista de dança para aplicar uma espécie de voodoo polirrítmico, ou polimétrico, inspirado na cultura youruba e influenciado por jazz e techno. Música para pista de dança feita fora do quadrado habitual, com ritmos de todas as cores em todas as direcções

DJ Nigga Fox — Cartas na Manga (Principe Discos)

Rogério Brandão, Nigga Fox, já tinha mostrado jogo de nível internacional como um dos nomes mais fortes e imaginativos na Príncipe Discos. Cartas na Manga, o segundo álbum, não só reforça o estatuto como revela de facto trunfos desconhecidos. Nigga Fox acrescentou novas cores ao explosivo jogo rítmico habitual, tem piano, influências de jazz, dinâmicas incríveis e imprevisíveis que se transformam e nos surpreendem continuamente. Música verdadeiramente experimental e desafiante, feita em Portugal.

Kim Gordon — No Home Record (Matador)

Kim Gordon a soar a Sonic Youth, como se esperava, mas a ir também muito para lá disso e, por isso mesmo, a mostrar que continua tão relevante como sempre foi, ou talvez mais ainda, porque agora é tudo dela. Aos 66 anos, Kim Gordon faz um primeiro álbum em nome próprio em que se inspira no presente, no foot work ou trap, mas também no passado de sempre, onde continuam os Stooges ou as memórias da No Wave. Um disco de canções e música inteligente e ousada.

Young Marco — Bahasa (Islands Of The Gods)

Música exótica e contemplativa para viajar sem sair do lugar. O holandês Young Marco, influente Dj, produtor e digger, regressou às suas raízes na Indonésia, a convite da editora Islands of The Gods, e devolveu a experiência num disco quase mágico, ou meditativo, que combina elementos e músicos locais com electrónica ocidental, numa osmose perfeita. Young Marco sempre se movimentou perto da pista de dança, mas neste Bahasa prefere explorar as atmosferas da tenda chill out, tanto como as dos locais de recolhimento.

João Bonifácio

Julia Jacklin — Crushing (Polyvinyl Record Co., Transgressive Records e Liberation Records)

Julia Jacklin podia ter só uma extraordinária voz, podia ter só talento para compor sequências bonitas de acordes ou dedilhados rendilhados, podia ter apenas jeito para criar melodias melancólicas ou para inventar boas histórias – mas possui todas estas qualidades em simultâneo e em Crushing exibe-as bem apuradas. Oscilando entre a folk mais clássica e o indie-rock imaculado, Crushing propõe-se fazer uma reflexão sobre o que é ser mulher, jovem e tentar viver e amar em 2019, abordando temas tão díspares como as nudes e as relações entre mães de namorados – mas pela sua maturidade acaba por ser um típico disco de balanço de final de juventude e de dores de crescimento. Uma mulher em estado de graça.

Purple Mountains — Purple Mountains (Drag City Records)

Agora que David Berman morreu, a tentação é ouvir a estreia dos Purple Mountains, a sua última banda, como uma premeditada despedida. Mas a luta entre vida e morte é demasiado complexa para reduzirmos toda uma profundíssima obra, nomeadamente a que David compôs com os Silver Jews, a sua banda anterior, a uma longa carta de suicídio. Nunca David foi tão explicitamente negro na sua visão do mundo e nunca foi musicalmente tão doce como com Purple Mountains, um disco de country quase onírica quase soul quase pop quase psicadélica que, pela qualidade de escrita e pela quantidade de grandes canções (“Snow is falling in Manhattan”, “Margaritas at the mall,” “All my happiness is gone”), é um clássico absoluto. E em “Darkness and cold” ele conseguiu o que sempre sonhou: escrever uma canção country maior que a vida, daquelas que entra diretamente para o cânone, dignas do rei que ele nunca soube que era. Como não ter saudades deste homem?

Angel Olsen — All Mirrors (Jagjaguwar)

Desde My Woman, o disco de 2016 com que Angel Olsen se libertou definitivamente da pop, que poucos artistas carregaram tanta expectativa acerca da sua próxima jogada – e que jogada: em All Mirrors, Olsen surge com tanta grandiloquência que por vezes somos levados a crer que ela não está numa purga amorosa mas sim prestes a invadir a Polónia. Sintetizadores, cordas esvoaçantes e um voz e uma composição que não conhecem limites fazem de All Mirrors um objeto fascinante, que começa bombástico (com “Lark” e “All Mirrors”, canções sem freios, de outro mundo) e acaba todo delicadeza comovente e sensual, com a sequência “Endgame” e “Chance”. É o disco mais etéreo e arriscado de Angel Olsen, que já está muito longe da folk, muito longe do rock, num mundo só dela onde é absoluta rainha dos nossos corações e ouvidos.

Weyes Blood — Titanic Rising (Sub Pop)

Foi para discos como “Titanic Rising” que se criou a expressão «Já não se fazem discos assim»: cheio de cor e arranjos épicos, é um dos mais extraordinários escritos de pop clássica dos últimos muitos anos. Tem o travo de melancolia acessível de uma canção dos Carpenters, o desvario da melhor fase de Elton John e um pendor grandiloquente na instrumentação (cordas, sopros, metais, guitarras slide, tudo) que lembra bandas sonoras de musicais de Hollywood. A peça central do disco é a imensa, espantosa, inqualificável “Movies”, mas não se resiste à pop avariada de “Everyday” nem ao sobe e desce glamouroso de “A lot’s gonna change”, entre outras. Laura Mering passou anos a fazer folk gongórica e escura, mas ficam-lhe bem melhor as cores garridas deste ambicioso arco-íris pop.

Danny Brown — U Know What I’m Sayin? (Warp)

Há frases que têm de estar na primeira faixa de um álbum, para deixar bem claro qual o processo de intenções em curso: “Never look back, I will never change up”, rapa Danny Brown logo no início de “Change up”, o primeiro tema de uknowhatimsayin¿, e por não mudar deve entender-se: manter-se sempre à procura do que é novo. E o novo está logo ali em “Dirty Laundry”, o terceiro tema: quem faz canções assim, de que mente distorcida sai uma loucura destas, com teclazinhas saídas de jogos de computador e coros como que gospel? Bom, de duas: de Q-Tip, que produz, e Brown, que rappa. O casamento entre os dois é perfeito, um misto de irrequietude e classicismo, a mesma receita por trás da maravilhosa “Shine”, assente num som jazzy avariado. Há muito boa gente a fazer muito bom hip-hop mas poucos têm esta apetência pelo que é simultaneamente clássico e esquisito, pelo que não encaixa e por isso sobressai.

Big Thief — Two Hands (4AD)

Manda a sinceridade confessar que qualquer um dos dois discos editados pelos Big Thief este ano poderia estar aqui – mas Two Hands leva a palma a U.F.O.F. pela pura beleza simples de canções como a espantosa “Not” ou “Shoulders”, isto apesar de em U.F.O.F. encontrarmos temas extraordinários como “Terminal paradise” ou “Jenni”. E os dois álbuns devem ser vistos juntos porque marcam uma partida face ao antigo som dos Big Thief: nos primeiros discos a indie folk do quarteto estava mais próximo da canção, agora ninguém sabe o que pode acontecer, se haverá sequer refrão. A mudança está presente logo nas capas: enquanto nos dois primeiros surgiam fotos da família de Adrianne Lenker, a vocalista e líder dos Big Thief, e as narrativas abordavam quase sempre os temas das tragédias familiares e amorosas, agora surge a própria banda e Adrianne canta o que raio anda a sentir por estes dias. Os Big Thief não têm mais limites – e são a mais espantosa banda de guitarras ao cimo deste planeta.

Helado Negro — This is How You Smile (RVNG Intl.)

Que relação pode haver entre a folk equatoriana e a música psicadélica americana? Para Roberto Lange, ambos os géneros são como uma segunda pele – até porque ele tem dificuldade em perceber qual é a sua primeira: nascido nos EUA mas filho de emigrantes equatorianos, Lange cresceu com as típicas dificuldades de um emigrado de segunda geração, não se revia na cultura que herdou dos pais e não se integrava na comunidade em que vivia. A sua adolescência foi um processo de descoberto do passado – da música que os seus pais e avós viviam, da música que os seus pais e avós ouviriam se fossem americanos. Em This Is How You Smile cria o seu próprio mundo ao atingir a perfeita síntese entre os que herdou, e cria um lindíssimo disco de canções de folk electrónica onírica, em que marimbas e guitarras acústicas convivem com o digital e melodias de encantar. Um feito, señor mister Lage.

José Carlos Fernandes

Better Oblivion Community Center — Better Oblivion Community Center (Dead Oceans)

Phoebe Bridgers nasceu em 1994 e no curriculum tem apenas um álbum em nome próprio – um dos melhores de 2017, por sinal – e outro sob o nome de BoyGenius, uma invulgar confluência de talento que a une a Julien Baker e Lucy Dacus. Connor Oberst nasceu em 1980, começou a gravar ainda adolescente e tem, em nome próprio ou como Bright Eyes, Commander Venus e outras designações, mais álbuns do que ele mesmo deve ser capaz de lembrar-se. Embora não faltem momentos meritórios na sua copiosa discografia, nenhum atinge a excelência deste duo com a recém-chegada Bridgers. Resta esperar que a parceria não se fique por este encontro.

Men I Trust — Oncle jazz (Return to Analog/Factor)

O trio tem base em Montreal e edita por conta própria, o que ajuda a explicar que tenha passado despercebido até agora, ainda que Oncle jazz seja já o seu quarto álbum. Que a menção a “jazz” no título não induza em erro: estamos na área da dream pop com suave e embalador groove funk. Oncle jazz espraia-se por 23 faixas mas ninguém reclamará da sua extensão, até porque recupera canções antes disponíveis apenas como download ou como edições ultra-limitadas – é o caso da magnífica “Tailwhip”.

Ni — Pantophobie (Dur et Doux)

Bourg-en-Bresse, um município com pouco mais de 40.000 habitantes, perdido na França profunda, no sopé das montanhas do Jura e 70 Km a norte de Lyon, não poderia estar mais afastada dos grandes centros musicais – mas que significado tem o conceito de “centro” no mundo de hoje? Os Ni praticam um math-metal de precisão implacável, atmosfera tenebrosa e imaginação desvairada, que reelabora o legado dos King Crimson e desafia as leis da geometria. Não soariam deslocados ao lado das bandas nova-iorquinas que John Zorn edita na série Spotlight da Tzadik, mas também estão em casa no catálogo intransingentemente inconformista da obscura Dur et Doux.

Russian Circles — Blood year (Sargent House)

Guidance, o sexto álbum destes post-rockers de Chicago, sugeria que a banda que se tornara numa referência capital do género atravessava um impasse criativo. Porém, três anos depois, Mike Sullivan, Brian Cook e Dave Turncrantz deram um golpe de rins e não só regressaram à boa forma como assinaram o seu disco mais compacto, vibrante, cru e musculado.

Spotlights — Love & decay (Ipecac)

O shoegaze tende a ter uma aura sonhadora e melancólica, que faz com que as fronteiras com a dream pop sejam difíceis de perceber. Não é o caso dos Spotlights, cujas atmosferas remetem mais para o reino dos pesadelos do que dos sonhos – a ter de rotulá-los poderia requistar-se a etiqueta blackgaze ou inventar uma nova: doomgaze.

Tal como o título cola uma palavra que sugere perenidade e pureza a outra que fala de ruína e putrefacção, também a música se equilibra entre a brutalidade do metal e uma requintada sensibilidade pop. Os álbuns anteriores do casal Mario e Sarah Quintero já eram muito recomendáveis, mas a entrada do baterista Chris Enriquez como membro permanente veio dar vitalidade acrescida à banda.

Luís Freitas Branco

Tyler, the Creator — Igor (A Boy is Gun/ Columbia)

Um dos grandes prazeres deste ano foi assistir a Funk Flex — DJ linha dura, das ruas — a entrevistar Tyler The Creator – jocoso, cada vez mais terno. Ninguém desarma a persona, Tyler provoca constantemente o ícone da rádio nova-iorquina, como se ainda tivesse 17 anos, com se ainda fosse o delinquente aburguesado dos Odd Future, até confessar que este momento – ali sentado a contemplar a maior idade — é particularmente feliz. É irresistível, assim como Funk Flex acaba por ceder aos encantos do rapper, seguiu-se o resto do planeta, neste álbum de homens apaixonados a suplicar por perdão, a correr atrás do tempo, e ainda, contemplativos, sem pressa. Não é tarde nem cedo, 2019 é mesmo o ano de Tyler The Creator.

Solange — When I Get Home (Columbia)

Não foi apenas o concerto do ano para quem vos escreve, foi ainda o compêndio de detalhes mais surpreendentes que vi em palco. A surpresa não foi propriamente a sincronia do R&B escorreito com a coreografia, ou sequer aquele transe sem fim de harmonias e funkeados, foram os pequenos detalhes de sangue a escorrer nas veias, as alterações milimétricas ao programa, quando Solange sobe repentinamente um tom, a bateria atrasa uma batida, o rebolar de calções recortados, uma série de provas necessárias que a suavidade austera da irmã de Beyoncé está contaminada de humanidade.

O Terno — <atrás/além> (Risco)

De BaianaSystem a Ana Frango Elétrico, de Boogarins a Djonga, foi mais um ano extraordinário para esta geração imensa de músicos brasileiros. Porém, <atrás/além> é um fenómeno único na música popular brasileira em 2019. Há 40 anos, ricos anos 70, é certo, este álbum seria um entre tantos, parte do singular desnovelo da tradição em volta da canção anglo-saxónica. Que astros alinhados, iemanjás desvairados, permitiram que este génio de outrora perfura-se a fumaça de São Paulo, entra-se no corpo de Tim Bernardes, um “hipster”, “moderno de plantão”, de óculos e bigode malandrinho? Não sei responder amigos, mas este álbum já ninguém nos tira.

Jasmim — Culto da Brisa (Independente)

A gente é, convenhamos, francamente soturna, e na melhor das hipóteses, somos 10 milhões de melancólicos lastimosos. Dito isto, não vejo melhor canção portuguesa em 2019 que “Lágrimas” de Slow J e “Amor, a Nossa Vida” de Capitão Fausto. Porém, justiça seja feita, merecemos um melhor estado de espírito. É aqui que entra Jasmim, não satisfeito com este cenário lastimável, criou um universo que “mora cá dentro”, de cítaras e adufes, e também, é certo, de sonhos e ilusões, numa busca existencial singular que descreve como o seu perpétuo destino. Infelizmente, lá fora, Culto da Brisa não fez ondas, enquanto aqui dentro é um maremoto incontestável. Não é motivo de alarme, o sucesso há de chegar ao Jasmim, navegar é preciso — “Esta chama não se há de apagar”

Angel Olsen, — All Mirrors (Jagjaguwar)

Se “Marriage Story” — o dramalhão de Noah Baumbach — é um estudo de todas as relações ruinosas, All Mirrors é exame final, a sentença melodramática. Na travessia do deserto, este protagonista prossegue desalmado ao sol infernal, braceja para os céus e grita para alguém, em frente ao espelho. A maior desgraça não é estar sozinho, sequer ter de recorrer aos arranjos colossais, aos tons berrantes, o flagelo é depois disto tudo, de varrer os problemas para debaixo do tapete, não conseguir esquecer esta relação ruinosa. Felizmente nós também temos um espelho, nós também não esquecemos.

Miguel Branco

Burna Boy – African Giant (Atlantic)

Quem rejeita Burna Boy é um ovo podre. Perdoem-me a ditadura do gosto, mas não há como fugir a esta delícia conhecida como African Giant que assaltou todas as colunas do mundo, para nos devolver o bom dancehall, sobretudo quando, como aqui, fundido com um afrobeat 2.0, mais uma pitada de dub, reggae e rap. Tal como um dos seus mestres, o senhor Fela Kuti, Burna Boy voltou a empunhar a bandeira nigeriana bem alto, num país assolado pela corrupção e pela falta de condições de vida básicas. E ainda fez mais: restituiu-nos a vontade de dançar. Agradecidos.

Nick Cave & The Bad Seeds – Ghosteen (Ghosteen Ltd)

Dizer o quê? Rei é rei. E mesmo para alguém profundamente anti-monárquico – como este que vos escreve –, com dificuldades em aceitar a dinâmicas dos príncipes e das casas reais, há leis superiores que se erguem. Poderíamos até dizer: a Nick Cave o que é de Nick Cave, mas a verdade é que a sua dor, à boleia deste disco parece invadir-nos as estantes e o sono. É o seu primeiro disco desde que o seu filho morreu, em 2015, e é um pós-funeral meditativo maravilhoso, algures entre uma cerimónia hipnótica e o desejo de morrer. Aliás, se for para morrer, que seja ao som de Ghosteen. Um objeto eterno para a história da humanidade.

DJ Nigga Fox – Cartas na Manga (Príncipe Discos)

Em 2017, com o selo da Warp, Nigga Fox furou-nos o Crânio. Depois desse EP de seis temas profundamente surreais, a carregar a herança da batida, os subúrbios justapostos e dessincronizados, pensávamos que Rogério Brandão não faria melhor. Fomos espertinhos e lixámo-nos bem lixados. Cartas na Manga é uma distopia de contradições sonoras, onde o tempo parece não nos pertencer. É como que uma tareia urbana e genial, que nos deixa exaustos e à qual nunca chegaremos a horas. E é a reafirmação de que DJ Nigga Fox é um dos artistas mais urgentes deste mundo.

Ms Nina – Perreando por Fuera, Llorando por Dentro (Mad Decent)

Agora que já estamos todos na mesma página, naquela onde o novo reggaeton conquistou o mundo e os preconceitos – nem todos, claro – caíram, eis que temos um talento nato do estilo: Ms Nina. A argentina (a viver em Madrid desde os 14 anos) Jorgelina Torres começou como toda esta nova vaga, a lançar sons soltos no YouTube. Este ano atirou-nos para a fronha – desculpem a linguagem, mas é só para estarmos ao seu nível – Perreando por Fuera, Llorando por Dentro, um disco prossegue a reivindicação do corpo feminino livre, cheio de sensualidade, ousadia, sempre de dedo do meio esticado, para ouvir de copo na mão, dentro da piscina. O Verão é agora, é sempre que Ms Nina quiser.

Gang Starr – One of the Best Yet (TTT / Gang Starr Entreprises)

Para os mais distraídos, Gang Starr são um dos mais importantes duos de rap de sempre. Compostos pelo lendário DJ Premier e por Guru deram-nos alguns dos maiores manuais da história do estilo (pensemos em No More Mr. Nice Guy, de 1989, ou em Daily Operation, 1992). E o melhor desta história é que este disco não estava previsto. Guru morreu em 2010 com um mieloma, mas já em 2006 ambos tinham seguido estradas diferentes. Guru começou a trabalhar com outro produtor, Solar, que recentemente vendeu 30 gravações inéditas do rapper a Premier. O resultado é um dos melhores discos de rap dos últimos anos, antigo e novo, de quem nunca se devia ter separado. Saudades.

Vasco Mendonça

Little Simz — GREY Area (Age 101)

Há poucas sensações melhores na minha relação com a música do que perceber ao fim de trinta segundos de audição que dificilmente não vou adorar um disco. Esta arte foi aperfeiçoada após anos de olhares desconfortáveis de um dos gajos que trabalhavam na Carbono. Para os menos afortunados, é uma loja de discos que em tempos ficava numa cave na Almirante Reis. Se eu vos disser que fui mais feliz ali do que na maioria dos locais durante a minha adolescência, talvez soe mal, mas é a maior das verdades. E foi assim que, ao fim de trinta segundos de Grey Area, terceiro disco da rapper britânica Little Simz, dei por mim embeiçado. A culpa foi de “Offence”, o tema que abre as festividades anunciando o regresso da escritora e cuspidora de versos hiper-talentosa que já tinha ameaçado levar tudo à frente, mas só aqui ao terceiro disco me arrebatou. E há tanta coisa boa aqui: “Offence”, “101 FM”, “Venom”, “Therapy”, “Boss”, uma mostra portentosa de grime, r&b, e rap durinho quanto baste. O flow de Little Simz é intocável, expande e comprime graciosamente, mas onde antes a sua sonoridade parecia procurar uma identidade, há agora uma refrescante escassez de rodrigiuinhos. E há um talento invejável para contar histórias em barras que colocam Simbi Ajikawo no topo da liga, e sim, estou a incluir homens nesse ranking. Quem escreve “I’m Jay-Z on a bad day, Shakespeare on my worst days” merece ser ouvida com atenção.

Vampire Weekend — Father Of The Bride (Spring Snow / Columbia)

Perguntariam os cépticos há uns meses: poderá uma manta de retalhos como a que era pressagiada pelos singles, ainda por cima sem Rostam, ser um dos melhores discos do ano? Então não. Father Of The Bride é música de uma banda bem resolvida no pós-Rostam, mais apostada em ampliar a sua sonoridade do que na natureza redondinha das canções e dos discos anteriores. É o bando de betos com quem sempre simpatizámos, desta vez centrado exclusivamente em Ezra Koenig. O disco dispara em muitas direcções, chegando mesmo a escorregar em azeite (a começar pela capa), mas acerta quase sempre, mandando uma certa ideia de coesão estética às malvas e conseguindo com isso um alinhamento invulgar de canções que se colam aos ouvidos pela escrita inteligente sobre o amor e demais dramas caucasianos, pelos arranjos que provam haver vida para além de Rostam, por ser talvez o disco mais americano de todos os que a banda já lançou e pelos duetos magníficos com Dannielle Haim, enfim, uma parte substancial do tremendo concerto que deram no Coliseu de Lisboa há poucas semanas. Abençoado regresso.

Weyes Blood – Titanic Rising (Sub Pop)

Que eu saiba Natalie Merring lançou dois discos em 2019: um é este Titanic Rising. O outro, mais conceptual, acontece quando dou por mim a ouvir repetidamente “Everyday”, terceira canção de um disco lindíssimo, feito de uma voz angelical devedora de um passado – “Enya meets Bob Seger”, diz ela – mas que me arrombou como da primeira vez que ouvi uma Vashti Bunyan e pensei onde teria andado aquele tesouro todos estes anos,  uma escrita que se apaixona e se deixa angustiar por nós, orquestrações épicas e tremendamente visuais, panorâmicas sonoras da estrada, do céu e das estrelas que fazem do coração plasticina. Juro-vos. E é muito mais do que “Everyday”, ainda que me apetece viver nesta canção e apeteça dizer asneiras de tão boa que é. Titanic Rising é isto tudo. É amor. Deixem-no crescer nos ouvidos. Uma obra-prima desta década.

Post Malone – Hollywood’s Bleeding (Republic)

Há muito que Post Malone e a sua música se esquivaram à catalogação e Hollywood’s Bleeding é a melhor concretização desse desígnio em 2019. Enquanto discos anteriores nos deixavam a duvidar sobre a proveniência estética do artista, Hollywood’s Bleeding é um hino à fluidez de género e capta sem quaisquer complexos a última década de flirts, casamentos e custódias partilhadas da pop. Mas é mais do que isso: se é verdade que Post Malone canta para todos e criou os refrões mais orelhudos do ano, como aliás é demonstrado pelo número de audições no Spotify e no YouTube, a sua escrita é dirigida a uma geração estranha e acerta no alvo. Uma geração que bateu recordes de distúrbios mentais, uma geração fenomenal a braços com a natureza laboratorial de um crescimento entre ecrãs e redes sociais. Passem duas horas a observar as consequências da sua música nas redes sociais e serão os primeiros a confirmar: ainda que alguma snobeira persista em ignorar Post Malone, a verdade é que canções como “I’m Gonna Be”, “Goodbyes” e “Myself” salvaram mais vidas em 2019 do que nós.

Billie Eilish – When We All Fall Asleep, Where Do We Go? (Darkroom / Interscope)

Apesar do finíssimo bom gosto e elegância que reinam ao longo de todo o disco, há uma fúria conceptual em “When We All Fall Asleep, Where Do We Go?” que fez da sua autora a menina dos olhos de miúdos e muito graúdos em 2019. É um disco equilibrado e sumarento nascido num mundo de singles. É esteticamente elástico, como se Billie Eilish nos dissesse que a vida é dela e ela vai para onde quiser, mas nunca se espalha. É jovem nos dramas partilhados e às vezes na composição em si, mas globalmente exibe uma maturidade que parece impossível numa pita de 17 anos que passa os dias fechada no quarto. É pop, mas também um bicho estranho. É irresistível. É o heterossexual vencido George Costanza no momento em que regressa de uma massagem feita por um homem e diz “i think it moved”. Enfim. Resta levantar a cabeça e aprender a viver com isso. Espera, isto soou mal.