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Os filmes e as polémicas: quem é Asia Argento? /premium

Aos 42 anos, a atriz, realizadora e cantora italiana é o rosto do movimento #MeToo, mas também de polémicas. Cresceu com o cinema e acumula mais de 50 filmes no currículo. Afinal, quem é Asia Argento?

Asia ou Aria? Bem, a história remonta ao dia do nascimento, 20 de setembro de 1975. Apesar da vontade dos pais, o primeiro nome foi recusado, acabando por prevalecer o segundo, uma alternativa sugerida pelo próprio registo. Mas Aria Maria Vittoria Rossa Argento foi sempre Asia, dentro e fora do meio artístico. Não caiu de paraquedas no mundo do cinema. É filha de Dario Argento, realizador que marcou o cinema de terror italiano nos anos 70 e 80, e de Daria Nicolodi, atriz e argumentista. À noite, quando era pequena, em vez de histórias de encantar, ouvia narrativas bem mais arrepiantes.

“O meu pai fazia filmes de terror e a minha mãe estava sempre a ser morta neles — mas a minha infância não foi tão intensa como podem pensar. De certa forma, distanciei-me disso, mas sempre com muito orgulho. Achava tudo aquilo mesmo fixe”, referiu a atriz numa entrevista à revista Swindle. Durante a adolescência, foi “a feia”, “a esquisita”, “a estranha”, segundo admitiu na mesma entrevista. Exibiu orgulhosamente o seu cabelo rapado e as roupas masculinas e, entre os 14 e os 17 anos, fez a maioria das tatuagens que tem hoje. Isolada e introvertida, teve em Dostoyevsky e Baudelaire os seus grandes ídolos. Aos livros, sempre juntou cinema, sobretudo os filmes de Roman Polanski.

Com o ator Jared Harris, co-protagonista do filme "B. Money" © Getty Images

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Aos oito anos, Asia já tinha publicado um livro de poemas. Um ano depois, estreou-se na representação, na série televisiva Sogni e Bisogni. Ainda assim, teve de esperar até 1993 para trabalhar com o pai pela primeira vez. No filme Trauma, interpretou uma rapariga anorética em busca dos assassinos dos pais. Com 21 anos, Argento já tinha aparecido em 14 filmes e ganhado dois prémios David di Donatello na categoria de Melhor Atriz. A partir daí, começou a explorar o seu lado mais sensual. B. Monkey, do realizador Michael Radford, marcou uma nova fase para a atriz, altura em que focou a carreira no registo soft porn. Nos anos 90, filmes como Viola Bacia Tutti e New Rose Hotel trouxeram-lhe a imagem de menina mal comportada, pelo menos, aos olhos de uma sociedade italiana católica e tradicionalista.

“Era muito nova quando comecei a ter de estar nua à frente de outras pessoas — tinha 21 ou assim. Ser aquela pessoa que só queria saber de estudar e de ler todos aqueles livros e, de repente, tornar-me na cabra galdéria do inferno foi divertido. Foi engraçado ser a rainha do sexo. Hoje, vejo isso como uma manifestação da minha fragilidade e da minha insegurança. Mas na altura pensei: ‘Isto é o verdadeiro poder — olhem para a minha vagina”, admitiu na mesma entrevista.

Em 2006, interpretou o papel de Madame du Barry, no filme "Marie Antoinette", de Sofia Coppola

Em 2000, apresentou ao mundo a sua grande obra-prima. Scarlet Diva foi o primeiro filme escrito e realizado por Asia Argento, que acabou também por ser a protagonista. Sexo, violência e drogas são os elementos no centro da história de uma jovem atriz italiana. “Era ótimo se me fizesses uma massagem. Aí poderia ler a tua história” — numa das cenas, um americano desafia a protagonista, enquanto se senta na cama. O filme é conhecido pelas suas inspirações autobiográficas, esta terá sido uma delas, já que os abusos alegadamente cometidos por Harvey Weinstein terão acontecido nos anos 90.

Em 2001, nasce Anna Lou, filha da atriz com o músico italiano Marco Castoldi. Um ano depois, Argento chega a Hollywood ao lado de Vin Diesel, em XXX – Missão Radical. Land of the Dead estreia em 2005 e, no ano seguinte, vimo-la em Marie Antoinette, de Sofia Coppola. Em 2008, casou com o realizador italiano Michele Civetta, com quem teve um filho, nesse mesmo ano. “Sempre vi a representação como um trabalho simples. Não sou nenhuma princesa; sou uma trabalhadora. Não quero que me lambam o rabo. Talvez seja por isso que faço um milhão de outras coisas. Representar não é difícil — é uma mentira que muitos atores contam. Eles têm vergonha de serem tão admirados por uma coisa que não é assim tão difícil”, confessou à Swindle.

Pelo meio, voltou à cadeira de realizadora com TheHeart is DeceitfulAboveAllThing, que estreou em 2004. Voltou a protagonizar o seu próprio filme, ao lado de Jimmy Bennett, na altura com apenas sete anos. O mesmo rapaz veio, na última semana, acusá-la de abuso sexual.

Mas Asia Argento não ficou apenas pelo cinema, tão pouco se limitou ao vaivém entre Itália e Estados Unidos. Em 2003, realizou e apareceu no videoclip do tema “(s)AINT”, de Marilyn Manson, fortemente marcado pelo teor sexual e de violência. Em Portugal, Argento trabalhou duas vezes com Paulo Furtado, conhecido como The Legendary Tigerman. “Life Ain’t Enough for You” e “My Stomach Is the Most Violent of All of Italy” são os dois temas do músico português que contam com a colaboração da atriz. Em 2013, divorciou-se de Civetta. No ano passado, tornou-se pública a relação com o Anthony Bourdain. O chef morreu em junho deste ano. A atriz tem estado no centro das atenções depois de ter sido uma das primeiras mulheres a acusar Harvey Weinstein de abuso sexual. Agora é ela própria a protagonista de um alegado abuso.

De vítima a acusada: as acusações de Bennet

Asia Argento acusou o produtor de Hollywood Harvey Weinstein de a ter violado e de a ter obrigado a praticar sexo oral, corriam os anos 90. As revelações foram feitas duas décadas depois: em outubro de 2017. Argento foi uma das primeiras a contar a sua história com o “monstro” Weinstein. A partir daí ficou conhecida como um dos rostos do movimento #MeToo — o movimento que denunciou milhares de casos de assédio sexual e violação pelo mundo. Agora, está nas luzes da ribalta por ter feito precisamente o mesmo. Asia Argento passou de vítima a acusada de abuso sexual e o ator Jimmy Bennet diz que a atriz lhe pagou 380 mil dólares para manter o silêncio.

O caso remonta à altura em que Bennet tinha apenas 17 anos e em que participou num filme com Argento, então com 37 anos, no qual interpretava o papel de seu filho. O ator e músico afirma que a atriz arranjou forma de ficar a sós com ele num quarto de hotel, na Califórnia, depois serviu-lhe álcool e forçou-o a ter relações sexuais. O New York Times teve acesso aos documentos que provam o pagamento feito a Bennet e também a uma selfie de maio de 2013 que mostra os dois deitados numa cama. As fotografias foram divulgada pelo site de celebridades TMZ.

Asia Argento manteve o silêncio sobre as acusações de que tem sido alvo nos últimos dias, mas não por muito tempo. Na terça-feira, negou, em comunicado, ter tido qualquer relação com o jovem: “Nunca tive uma relação sexual com Bennet”. A atriz explicou que depois da exposição que ganhou no caso Weinstein, Bennet “que estava a atravessar uma fase de graves problemas económicos, e que tinha interposto ações legais contra a própria família, pedindo indemnizações de milhões” lhe fez um pedido “exorbitante de dinheiro” a ela.

Argento não negou o facto de o pagamento ter sido feito, mas disse que a ideia foi de Anthony Bourdain, o seu então companheiro, que tinha receio da “publicidade negativa” que Bennet podia trazer para a sua reputação. “O Anthony assumiu pessoalmente a tarefa de ajudar Bennet financeiramente, na condição de não voltarmos a sofrer intrusões na nossa vida“, disse a atriz em comunicado.

O site TMZ mostra ainda várias imagens de uma alegada troca de mensagens entre a atriz e uma amiga na altura em que as acusações foram tornadas públicas. “Fiz sexo com ele e foi estranho, não sabia que ele era menor até receber a carta a pedir dinheiro”, terá escrito Argento.

Entretanto, com toda a polémica, o advogado de Harvey Weinstein condenou o comportamento de Asia Argento, dizendo que revela “um nível impressionante de hipocrisia” porque foi uma das vozes que mais procurou “destruir” o produtor norte-americano. “Ao mesmo tempo, Asia Argento estava a fazer um acordo secreto por ter abusado sexualmente um menor e a posicionar-se na linha da frente dos que condenam Weinstein, apesar de o seu relacionamento sexual ter sido entre dois adultos e ter durado mais de quatro anos”, afirmou Benjamin Brafman.

Discurso arrebatador no Festival de Cannes

Os olhares do público viraram-se para Asia Argento o ano passado, mas foi na edição do Festival de Cannes de 2018 que atriz marcou a plateia com um discurso emocionado, no qual recordou o que tinha sofrido à custa de Harvey Weinstein. “Em 1997, fui violada por Harvey Weinstein aqui, em Cannes”: foram estas as primeiras palavras ditas por Argento e que adivinhavam um discurso poderoso.

Quando rebentou o escândalo em Hollywood, com as acusações de dezenas de mulheres a Harvey Weinstein, Asia Argento estava “na linha da frente” a contar a sua história e disse à New Yorker que tinha permanecido em silêncio — o caso de que fala remonta a 1997, quando tinha apenas 21 anos — até então por medo de retaliações, acrescentando que tremia só de pensar no assunto.

Mas na noite de entrega dos prémios, em Cannes, Asia Argento mostrou uma mulher forte, sem medos, capaz de enfrentar quem quer que fosse. “Eu quero fazer uma previsão: Harvey Weinstein nunca mais vai ser recebido aqui. Ele viverá em desgraça, evitado por uma comunidade cinematográfica que o abraçou e encobriu os seus crimes”, prosseguiu a atriz.

O discurso — forte e arrebatador — durou cerca de um minuto. As palavras de Argento deixaram o público em completo silêncio e no fim os aplausos foram mais que muitos. Aproveitando o momento em palco, foi mais longe e fez mesmo referência àqueles que têm os mesmos comportamentos mas que ainda não foram responsabilizados por eles.

“E mesmo esta noite, sentados entre vocês, há aqueles que precisam de ser responsabilizados pela sua conduta contra as mulheres por comportamentos que não pertencem a esta indústria, não pertencem a nenhum setor ou local de trabalho”, continuou. Para rematar, Argento acrescentou: “Vocês sabem quem são. Mas mais importante, nós sabemos quem vocês são, e nós não vamos permitir que se livrem disto por muito mais tempo”.

Na reportagem publicada pela New Yorker pode ler-se que um dos produtores de Weinstein convidou, em 1997, Asia Argento para uma festa num hotel, porém, quando lá chegou, ao invés do prometido tinha apenas uma pessoa à sua espera no quarto de hotel: Harvey Weinstein. O produtor norte-americano elogiou o seu trabalho, antes mesmo de a coagir a fazer-lhe uma massagem, durante a qual “ele puxou a saia para cima forçou-a a abrir as pernas e fez-lhe sexo oral com ela a dizer-lhe repetidamente que parasse.”

Nunca foi uma figura querida dos italianos

Certo é que a atriz se tornou um dos rostos do movimento #MeToo e que a sua relação com o chef Anthony Bourdain, que cometeu suicídio em junho, fez com que se tornasse mais popular perante os meios de comunicação social, pelo menos a nível internacional. Em Itália, porém, o caso muda de figura. Apesar de ter ganhado prémios pelas suas interpretações enquanto atriz antes mesmo de ter completado 22 anos, em geral, os italianos estão muito mais interessados na sua vida boémia, nas tatuagens e nos amores — “desde o músico italiano chamado Morgan a Bourdain, e todos os outros entre eles”, lê-se no New York Times.

Argento nunca foi retratada de forma simpática ou heroica, mas sim como “mal-intencionada” e associada a “sexo, poder e ambição”. Quando contou a sua história à New Yorker, Argento teve até de sair do país, mudando-se para a Alemanha, devido às reações que recebeu por parte da imprensa. “Ele aterrorizou-me, e ele era tão grande”, contou à revista americana em outubro, acrescentando: “Aquilo não parava. Era um pesadelo”. Argento acabou por admitir que deixou que Weinstein continuasse com aquele comportamento porque não era capaz de se defender.

A imprensa italiana caiu-lhe imediatamente em cima e condenou o comportamento da atriz. O jornalista Mario Adinolfi escreveu no Twitter que as alegações de Argento estavam a “tentar justificar a prostituição da alta sociedade”.

Vittorio Feltri, editor-chefe da publicação Libero, disse, numa entrevista de rádio, que a atriz devia estar a mentir e que o sexo que teve com Weinstein foi consensual. Também Renato Farina escreveu na sua coluna de opinião que Argento “primeiro [deu], depois [lamentou] e [fingiu] arrependimento”. A atriz chegou mesmo a dizer que ia processar o jornal Libero por “prejudicar a sua reputação e insultar a sua dignidade enquanto mulher”.

https://twitter.com/AsiaArgento/status/918867536103559168?ref_src=twsrc%5Etfw%7Ctwcamp%5Etweetembed%7Ctwterm%5E918867536103559168&ref_url=https%3A%2F%2Fwww.news.com.au%2Fentertainment%2Fcelebrity-life%2Fitalian-actress-asia-argento-feels-doubly-crucified-by-local-reaction-to-harvey-weinstein-claims%2Fnews-story%2F90f7b451a08126a22c0b9c993b50bd21

A dança com o amigo dias antes de Bourdain morrer

Dias antes de o chef e companheiro de Asia Argento, Anthony Bourdain — que também se tinha juntado ao movimento #MeToo –, ter sido encontrado morto no seu apartamento, a atriz italiana terá sido vista a dançar com o repórter francês Hugo Clément, num restaurante. O paparazzi Rino Barillari captou o momento e vendeu depois as imagens à revista italiana Chi.

A atriz Asia Argento acompanhada pelo chef Anthony Bourdain.

O chef cometeu suicídio cinco dias depois de as fotos terem aparecido online e Barilari disse que “se soubesse” — que algo assim podia vir a acontecer — não as teria vendido. O repórter francês que foi visto com Argento tem 28 anos e acompanhou a atriz, de 42, ao Festival de Cannes, em maio deste ano. Enquanto os dois dançavam no restaurante Campooneschi, depois de terem jantado juntos, “toda a gente estava a olhar para eles”, contou Barillari à La Verita. “Ela parecia uma boneca possuída… uma cena louca de sensualidade”, descreveu.

Quando Asia Argento se apercebeu de que tinha sido fotografada com o repórter francês pediu ao paparazzi que apagasse as fotografias, mas sem sucesso. Na altura, Rose McGowan, uma das vozes do movimento #MeToo, defendeu Argento, dizendo que ela e Bourdain estavam numa “relação aberta” e que “amavam sem as fronteiras das relações tradicionais”. Mas estas não são as únicas fotos da atriz com Clément. O fotógrafo Agostino Fabio, por exemplo, tem fotografias de ambos a darem as mãos nas ruas de Roma.

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JT LeRoy: uma farsa escondida por Argento

JT LeRoy é uma personagem literária criada (agora sabe-se) pela escritora americana Laura Albert. JT LeRoy foi apresentado como sendo autor de três livros de ficção, supostamente semi-autobiográficos, onde falava sobre os abusos sexuais de que sofreu quando era criança, da prostituição ou do facto de ter VIH. A verdade é que durante muito tempo se pensou que JT LeRoy era um homem, mas descobriu-se depois que afinal esta pessoa não existe e que foi uma “personagem” — que chegou a fazer aparições públicas, nas quais aparecia de óculos escuros e uma peruca loira — interpretada pela cunhada de Laura Albert, Savannah Knoop, de 25 anos.

E é aqui que entra Asia Argento. De acordo com o documentário “Author: The JT LeRoy Story”, antes de toda a história vir a público apenas três pessoas sabiam de toda a verdade. Um era o músico Billy Corgan e o outro era o produtor de televisão David Milch. A terceira pessoa era precisamente a atriz italiana. Segundo o documentário, ela não só sabia toda a verdade sobre a inexistência de JT LeRoy, como mantinha um caso com Savannah Koop. Apesar de Asia Argento negar tudo, Laura Albert afirma que Koop chegava a casa “com batom em todo o rosto e a cheirar ao perfume da Asia”, depois de se encontrar com ela. Há até esta fotografia que mostra Asia a beijar JT LeRoy (isto é Savannah Koop)

A atriz terá então mantido toda a farsa para ter proveito próprio, nomeadamente com o filme “Maldito Coração”, que realizou em 2004 e no qual foi também personagem principal. Asia Argento desempenhava o papel de Sarah, a mãe de Jeremiah (Jimmy Bennet), que era vestido de menina pela mãe e abusado sexualmente pelos seus clientes e namorados. De acordo com o mesmo documentário, Argento estava tão “desesperada” para associar os direitos do filme a um dos romances de JT LeRoy que utilizou sexo para o conseguir. A atriz não só permitiu que se continuasse a perpetuar uma mentira como também a promoveu. O filme foi foi lançado no Festival de Cannes, em 2004, e os seus direitos foram mesmo atribuídos ao livro de LeRoy.

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