Índice
Índice
Os alarmes soaram nos corredores de Bruxelas. Foi divulgado, pelo jornal Politico, um relatório interno, classificado como “sensível” e que é altamente crítico da atual estrutura diplomática da União Europeia (UE). Kaja Kallas, a nova Alta-Representante para a Política Externa e de Segurança, não tinha conhecimento do documento e foi confrontada no Parlamento Europeu. Os eurodeputados quiseram saber as razões pelas quais a Comissão Europeia, num contexto internacional complexo — devido à guerra na Ucrânia, o conflito no Médio Oriente e o regresso de Donald Trump à Casa Branca — quer cortar na rede diplomática.
No documento, a diplomacia europeia é caracterizada como dispendiosa, “reflexo de um contexto histórico passado” e com profissionais sem “perfil”. A isto, Kallas respondeu: “Não foi uma decisão tomada por mim. Vou, eu própria, questionar a Comissão Europeia” Kallas não sabia do plano e tem atrasado esclarecimentos. Contactados pelo Observador, os eurodeputados Sebastião Bugalho e Marta Temido têm reações diferentes: o primeiro, membro do grupo parlamentar Partido Popular Europeu (PPE), desdramatiza. Já Temido, integrada no grupo Socialistas e Democratas (S&D), promete tudo para tentar travar medida.
▲ Kaja Kallas foi apanhada de surpresa pela divulgação do documento
OLIVIER MATTHYS/EPA
Neste documento, o Serviço de Ação Externa mostra-se consciente de que a Europa tem de conter custos e pede que a atividade do serviço diplomático seja repensada. Garante que não vai fechar nenhuma das 145 estações que Bruxelas tem pelo pelo globo, mas assegura que “manter o statu quo não é uma opção”. É sugerido que a rede diplomática faça “mais com os recursos existentes”.
Fabrizio Tassinari, cientista político e diretor executivo da Escola de Governança Transnacional do EUI (European University Institute) não está confiante nesta nova política, que passa a exigir mais elasticidade ao serviço diplomático. Ao Observador, Tassinari diz estar preocupado com a intenção de emagrecer a representação externa da UE.
Para o especialista, a boa implementação da Europa no globo implica uma presença visível e isso parece não estar a ser considerado: “Os cortes são preocupantes, especialmente num momento em que a UE precisa de ser mais visível e mais presente no terreno”. Tassinari acha difícil aplicar a ideia de que é possível fazer mais com os mesmos recursos, até porque a rede diplomática só funciona na plenitude quando se foca tanto “no nível de qualidade (métodos de trabalho) com na quantidade (pessoal)”.
O relatório: reforço em países vizinhos e candidatos à adesão, mas também sugestão de cortes
Os reparos do documento não são apenas logísticos e financeiros. Vão ao cerne da diplomacia europeia, que é apontada como “reflexo de um contexto histórico que já não representa nem as prioridades da UE, nem o contexto internacional”. É, pela primeira vez, oficialmente sugerido que a UE defina uma hierarquia de prioridades no que toca às delegações e que deve construir “uma forte presença” em países vizinhos e candidatos à adesão à União Europeia, parceiros do G20 e “países onde a instabilidade ameaça os interesses europeus”.
Liliana Reis, professora de Ciência política e Relações Internacionais e deputada na Assembleia da República eleita pelo PSD, considera que, mais do que desatualizada, a mentalidade estratégica europeia não está preparada para responder aos desafios atualmente impostos pela cena global.
A deputada portuguesa acredita que só com um “reforço dos dois grandes pilares” — Política Externa e Defesa — a União Europeia ganha oportunidade para se robustecer estrategicamente e considera possível um cenário em que passe a haver “responsabilidades partilhadas” entre as duas áreas e “entre a Alta-Representante para a Política Externa e o Comissário para a Defesa e Espaço”. “A Comissão Europeia terá desafios enormes pela frente”, reconhece. “De uma forma mais contundente do que nunca, a União tem de estar completamente coesa — a Defesa em bloco é central.”
Reis considera, no entanto, que a mudança de chefe da diplomacia europeia poderá vir a ser positiva. Josep Borrell é espanhol, vinha de uma das zonas mais estáveis da Europa a nível de segurança, a Península Ibérica. Já Kaja Kallas vem da Estónia, país que faz fronteira com a Rússia. Liliana Reis acredita que Kallas terá, por essa razão, uma “consciencialização intrínseca” da ameaça, o que pode jogar a favor da União Europeia, especialmente quando falamos da Rússia.
No relatório, o Serviço de Ação Externa critica também a desorganização do sistema das embaixadas. O braço diplomático da UE acredita que isso leva a que não sejam atraídos “candidatos com melhor perfil para as posições na rede diplomática”, o que prejudica o sucesso das missões e bloqueia resultados mais alinhados aos interesses dos europeus.
A antiga eurodeputada socialista Ana Gomes concorda que esta é uma leitura correta e deixa fortes críticas (ainda que não direcionadas a nenhuma delegação em específico) a alguns dos diplomatas europeus e ao próprio Partido Popular Europeu: “Há muitos casos que não têm perfil adequado, porque houve muitos compadrios ao longo de anos.”
▲ Nos corredores de Bruxelas há quem tema que Von der Leyen quer fazer cortes na área da diplomacia
RONALD WITTEK/EPA
O que é certo é que este é um documento de apenas cinco páginas, pragmático de linguagem e conteúdo, mas bastou para agitar as águas em Bruxelas. Algumas das fontes ouvidas pelo Observador desconfiam que a presidente da Comissão Europeia, Ursula von Der Leyen, pode querer desinvestir na diplomacia europeia. A Comissão Europeia ainda não se pronunciou oficialmente sobre este assunto. O Observador contactou a Comissão Europeia, mas não obteve resposta às perguntas enviadas.
A 16 de dezembro, teve lugar a primeira reunião do conselho dos Negócios Estrangeiros presidida por Kaja Kallas. Eram esperadas respostas sobre este assunto, mas não chegaram.
Kallas está sob pressão, mas pode contar com os socialistas no Parlamento Europeu para evitar cortes
A garantia foi dada ao Observador pela eurodeputada Marta Temido, que explica que os socialistas não defendem cortes nesta área. Se se confirmar que Kaja Kallas se opõe à ideia de cortar na rede diplomática, o S&D vai “unir forças” e ajudar Kallas a “explicar que este pode ser um mau plano”, assegura Temido. “Se assim for, poderá contar com toda a nossa solidariedade em termos parlamentares para impedir que seja desmantelada” a rede diplomática da União Europeia.
A eurodeputada está apreensiva com a “altamente preocupante” tendência que parece ser defendida no documento divulgado: “Num momento em que todos falamos na necessidade de a União Europeia ser mais forte na sua política externa, o que é que poderá justificar que se pense em reduzir a nossa presença?”, questiona. “A segurança e a Defesa não se fazem só com armas.”
O socialistas europeus já tinham enviado uma carta à Comissão Europeia com várias perguntas sobre o plano de “reestruturação” da rede diplomática da UE, logo após a divulgação do documento.
Já o eurodeputado Sebastião Bugalho (AD) desdramatiza a situação e diz não querer “contribuir para querelas entre instituições da União Europeia”. Deixa, no entanto, um recado a quem no relatório vê uma intenção de enfraquecer a diplomacia europeia: “A arquitetura orçamental da UE vai sofrer cortes” – reconhece o eurodeputada do PPE, referindo-se às consequências do período de abrandamento da economia europeia. “Mas pensar que cortes na diplomacia influenciarão a presença da UE no mundo não é verdade”, afirma.
[Já saiu o primeiro episódio de “A Caça ao Estripador de Lisboa”, o novo podcast Plus do Observador que conta a conturbada investigação ao assassino em série que há 30 anos aterrorizou o país e desafiou a PJ. Uma história de pistas falsas, escutas surpreendentes e armadilhas perigosas. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube.]
“Saúdo o espírito introspetivo da união”, esclarece, referindo-se a relatórios autocríticos como este, mas conhece “bem” a Presidente da Comissão e, por isso, garante: “Isso simplesmente não vai acontecer”. “É uma impossibilidade contemplarmos a segunda comissão Leyen como uma comissão que vai reduzir ou prejudicar a presença geopolítica da União Europeia no mundo.”
Bugalho encara este plano para a diplomacia como transformador. Considera que não passa de uma discussão interna e normal sobre a possibilidade de “novas formas de financiamento da segurança e representação da União” e reforça: “É importante perceber que não estamos a discutir cortes”. “Otimização de recursos é, obviamente, uma realidade. Mas é uma realidade na política externa e em qualquer outra área do orçamento comunitário. Nós temos cada vez mais desafios, mas não temos mais dinheiro“, defende Sebastião Bugalho.
Quem divulgou o relatório? Ana Gomes considera que “há cavalos de Tróia” dentro da UE próximos da Rússia
A antiga eurodeputada Ana Gomes não acredita que a divulgação deste relatório se trate de uma fuga de informação “inocente” e esclarece que este tipo de textos são meros documentos internos de trabalho que “deveriam ter sido dados diretamente à própria” antes de ir ao Parlamento Europeu. “A partir do momento em que [a UE] tolera e admite ter cavalos de Tróia de Putin dentro da própria união, é evidente que isto pode acontecer”, admite ao Observador. A situação é, para Ana Gomes, “uma tentativa de interferir com as competências de Kaja Kallas, certamente da autoria de alguém de dentro da estrutura, e dirigido a Von der Leyen”.
▲ "Houve muitos compadrios ao longo dos anos" no acesso à carreira diplomática na UE, afirma Ana Gomes
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Em concreto, Ana Gomes levanta a possibilidade de este golpe ser autoria de forças mais próximas de Moscovo, como a Hungria e a República Checa. Uma teoria baseada na assertividade de Kallas contra a Rússia, especialmente devido à sua história:”Kaja Kallas, sendo estónia, tem a experiência do que é viver sob ocupação soviética”, mas tem uma experiência ainda mais pessoal, já que “a mãe e a avó foram deportadas para a Sibéria por Estaline”. Ter alguém como Kallas em Bruxelas é, segundo Ana Gomes, um desafio a Moscovo, que tudo fará para a desestabilizar.
Steven Blockmans, especialista em políticas da União Europeia e investigador de política externa no CEPS (Centre for European Policy Studies) não partilha a mesma ideia e não é tão pessimista quanto ao impacto desta fuga no gabinete da Alta-Representante para a Política Externa.
Blockmans acredita que este episódio é o que Kaja Kallas dele fizer, a forma como a nova líder da diplomacia europeia lidar com ele ditará se estamos realmente perante uma líder com presença. Pode o relatório prejudicar a Alta-Representante? “Antes pelo contrário”, diz o especialista, considerando que o momento serve para Kallas mostrar a sua “determinação e garra política”. O que não significa que este relatório, trazido a público em circunstâncias pouco claras, é uma pedra no sapato com a qual tem de saber lidar logo no início do seu mandato: “Está claro que Kallas tem uma visão diferente da expressa no documento. O que é compreensível, porque [é um relatório que] não prioriza a sua própria pasta.”