Quase deputado, fadista e guerrilheiro. A vida do assessor dos assessores /premium

29 Março 2019908

A boleia de Sá Carneiro, a guerra da Guiné e as aventuras com Marcelo do assessor de 17 presidentes do PSD. Morreu aos 70 anos, com quase 45 de política na sombra.

O táxi ignorou o sinal de Zeca Mendonça e não parou, mas o carro que vinha atrás abeirou-se do passeio: “Faça o favor de entrar”, disse a voz que saia lá de dentro. Zeca começou por rejeitar educamente, mas acabou por aceitar a boleia. O carro era de Francisco Sá Carneiro, fundador do PSD, e iam os dois — como o próprio assessor contou ao Diário de Notícias em 2007 — para o mesmo sítio naquele início de tarde de 1 de julho de 1978: o IV Congresso do PSD. Sá Carneiro tinha todos à sua espera e, logo atrás, na sombra, como faria o resto da vida — vinha Zeca Mendonça, o assessor que o foi de 17 presidentes do PSD até sair do partido, em 2017, para assessorar em Belém um daqueles com quem foi mais cúmplice: Marcelo Rebelo de Sousa.

Zeca tornou-se logo uma pequena estrela naquele momento em que chegava ao Hotel Roma, em Lisboa, por vir muito bem acompanhado. Todos acharam que tinha ido almoçar com Sá Carneiro quando, na verdade, tinha ido almoçar a casa dos pais, na Alameda. Sá Carneiro ganhou o Congresso e saiu dele líder do partido, embora o grupo parlamentar continuasse maioritariamente dominado pelo grupo das “Opções Inadiáveis”. Sobre política interna do partido, Zeca também tinha as suas preferências, mas nunca as revelava.

A ligação ao PSD tinha começado quando regressou da guerra colonial, em 1974. Começou por ser segurança no partido e fez vigilância à sede nacional, que então se localizava na Duque de Loulé. Chegou ali depois de um convite de um amigo, João Inácio Simões de Almeida. Também pela mão desse amigo, chegou a ajudar a recolher as primeiras cinco mil assinaturas que estiveram na base da criação do partido. Foi uma viagem que durou 43 anos.

O Gonçalvismo não foi um período fácil para o PSD e Zeca Mendonça contou ao Público uma história dessa altura, quando a sede do partido era alvo de várias ameaças de bomba, em pleno PREC: “Alguém chamou as minas e armadilhas que felizmente não chegaram a entrar no edifício porque o sétimo andar estava cheio de cocktails molotov”.

O período pós-revolucionário tornou-se mais calmo depois do 25 de novembro de 1975 e o partido deixou de ter seguranças nos seus quadros em 1977. Zeca optou então por integrar o gabinete de relações públicas, rejeitando outras propostas que tinha em cima da mesa, como o grupo de Estudo ou o jornal oficial do partido, o Povo Livre.

O deputado de Santana e a subida ao palco no Coliseu

José Luís Mendonça Nunes, para o registo; Zeca, para todos os outros. A sua vocação era ser assessor, embora nunca perdesse a dureza que veio com ele da guerra e sabia impor autoridade na hora de controlar um espaço. De 1977 a 2017 foi assessor. Mas Santana Lopes via nele algo mais. A certa altura, chegou a defender que Zeca Mendonça deveria integrar as listas de deputados, numa história contada vezes sem conta nos bastidores do partido como mais uma das excentricidades de Santana. Na noite da sua morte, a 28 de março de 2019, o agora líder do Aliança confessa que ele e muitos outros presidentes pediam conselhos a Zeca e desabafavam com o assessor. E contou a história que muitos diziam até aqui ser uma mera brincadeira. “Eu sempre lhe disse, umas vezes em tom de brincadeira, e outras a sério, que ele devia ser deputado. E ele serviu o parlamento e serviu a democracia. Era um homem muito, muito bom”, contou o ex-líder do PSD, Pedro Santana Lopes ao Observador.

Apesar de se ter mantido como assessor, teve muitas vezes um papel fundamental no partido, sendo mais importante que muitos deputados ou dirigentes. Naquele que é chamado o Congresso dos Congressos, o do Coliseu em 1995, também teve o seu momento.

Cavaco Silva estava de saída e a luta pela sua sucessão estava ao rubro. A cobertura mediática era inédita com uma SIC e uma TVI acabadas de criar. O frenesim noticioso foi tanto que a SIC, no jornal da noite de domingo do Congresso, se esqueceu de passar a peça de um Benfica-União de Leiria. Havia três candidatos à sucessão com hipóteses e motivações diferentes: Fernando Nogueira, Durão Barroso e Santana Lopes, que não chegou a ir a votos. Ficou célebre o discurso em que Luís Filipe Menezes diz que, caso ganhasse Durão Barroso, era a vitória dos “sulistas, elitistas e liberais”. Acabou por não conseguir terminar o discurso, devido aos apupos e saiu a chorar.

Houve vários momentos em que o Congresso saiu dos eixos, em que se perdeu a ordem na sala e que vários congressistas quase chegaram a confrontos físicos. Num dos momentos mais críticos, Zeca percebe que tudo pode descambar numa cena de pancadaria e vê que Cavaco Silva está a entrar na sala. Então, dá um pulo para o palco, chega-se ao microfone e diz: “Caros companheiros, vamos ter calma, está a entrar o presidente do partido”. E só assim se conseguiu acalmar a sala.

“Coboiana, coboiana, coboiana”

Dotado de um grande sentido de humor, Zeca Mendonça era um grande contador de histórias. Muitas delas de períodos difíceis, como a Guerra Colonial, que fez na Guiné. Começou o serviço militar no Regimento de Artilharia Ligeira (RAL1), em Lisboa, onde entre 1970 e 1972 deu instrução militar de obuses (artilharia). Já como militar foi na cantiga de uns amigos de Direito opositores ao regime e participou numa manifestação, mas acabou identificado. Isso valeu-lhe ser “condenado” a duas comissões no Ultramar. Acabou por só fazer uma, sendo salvo pelo 25 de abril.

Antes de ir para o Ultramar, como contaria ao Público anos mais tarde, ainda decidiu de moeda ao ar se iria mesmo para a guerra ou se iria fugir do país. Saiu coroa a primeira opção. Os tempos na Guiné não foram fáceis. Zeca Mendonça foi destacado para uma das zonas mais perigosas da Guiné para os soldados portugueses, uma vez que eram já praticamente controladas pelo PAIGC. Nessa zona, o PAIGC criou uma espécie de Estado paralelo onde até já tinha escolas e hospitais. Da guerra, junto dos amigos, optava por recordar os momentos menos maus que ali passou. Zeca gostava de cantar e, muitas vezes, cantava na caserna para entreter os camaradas. Ou o fado ou músicas que as tropas cantavam relacionadas com o local, com uma letra repetitiva mas musicada: “Coboiana, coboiana, coboiana, coboiana”.

O fadista de cabelo comprido

Zeca nasceu na zona de Santos a 23 de março de 1949 (fez 70 anos há poucos dias) e era filho de um pequeno fabricante de mobília, com uma fábrica em Lordelo, mas residente em Lisboa, como contou o Diário de Notícias em 2007. Antes da tropa,  chegou a aventurar-se numa ida ao Algarve com Jorge Palma. Quem lhe conhece a pose elegante de aristocrata que apresentava como assessor, dificilmente adivinharia que voltou dessa ida ao Algarve, em 1968, com o cabelo comprido.

Estudou no Camões e chegou a militar na Juventude Operária Católica. Por essa altura, chegou a fazer teatro e a representar no Hospital de Arroios, interpretando peças baseadas n’As Lições do Tonecas, de José Oliveira Cosme. Não seguiu para a universidade, mas conviveu de perto com uma elite intelectual que se começava a impor. Era amigo de Paulo de Carvalho e Carlos Mendes e assistiu aos primeiros ensaios dos Sheiks.

É nesse contexto que decide então ir para sul à procura da aventura. Chega a passar meio ano entre Portimão e Albufeira — por onde também andavam Fernando Tordo e Paco Bandeira — a acompanhar Palma em vários espetáculos. Por essa altura chegou a cantar várias vezes o fado. Não raras vezes, ao longo da vida, foi brindando os amigos com fados como a Canoa do Tejo.

A última aventura foi com Marcelo

No final de 2017, com a saída de Passos Coelho, e o PSD a preparar-se para disputar mais umas eleições diretas, Zeca Mendonça aceitou um convite que há muito lhe havia sido feito: voltar a ser assessor de Marcelo Rebelo de Sousa, desta vez no Palácio de Belém. Chegou a vaticinar muito antes das eleições a algumas pessoas que lhe eram próximas: “Isto vai cair para o Rio”. Acertou, claro. Poucos sabiam tanto de PSD como Zeca Mendonça.

Marcelo tem hoje um domínio dos mediacomo poucos, mas nem sempre foi assim. Quando chegou a líder do PSD, em 1996, não sabia comunicar com as televisões. Aí, Zeca tentou dar uma ajuda. Vítor Matos conta na biografia do agora Presidente que “Marcelo nunca sabia para quem olhar, se para o jornalista se para a câmara. Às tantas, o assessor de imprensa do partido, Zeca Mendonça, punha-se atrás da câmara para o líder olhar para ele enquanto respondia aos jornalistas, mas a solução também não era boa, porque ficava a olhar vagamente para o infinito.” O então líder do PSD estava a anos-luz do que viria a ser o professor Marcelo, comentador nas televisões” e Zeca ajudava no que podia.

Nas autárquicas de 1997, há outra história curiosa de Marcelo que Zeca Mendonça presencia. No último dia de campanha, Marcelo termina a volta nacional com um comício em Fafe, o quarto comício do dia. Passa da meia noite e Marcelo está cheio de fome. Só há uma tasca aberta e é lá que Marcelo vai fazer um jantar tardio acompanhado por Zeca Mendonça. Um homem meio bêbado chega-se junto à mesa e pede a Marcelo que o acompanhe até casa, já que a mulher está zangada e não o vai deixar entrar. Mas como a mulher era fanática do PSD, o bêbado contava safar-se com a presença do professor. Marcelo, embora cansado, assentiu ao pedido. Foi a casa do homem e lá ficou horas à conversa. Zeca assistiu a tudo.

No ano seguinte, outro episódio que envolve os dois. Marcelo estava numa reunião do PPE em Faro quando sabe que houve um terramoto nos Açores, que teria afetado algumas das ilhas. O líder do PSD segue de imediato para lá e ainda nessa noite visita as vítimas. Vai depois jantar com Zeca Mendonça e com o então líder regional do PSD/Açores, Vítor Cruz. Enquanto jantam há uma réplica. Ficam todos assustados. Marcelo ainda consegue ir dormir umas horas ao hotel, mas Zeca Mendonça sempre prudente, decide passar a noite no carro.

É com muitas histórias como esta na bagagem que Zeca chega a Belém. Depois de ganhar estatuto de histórico na São Caetano à Lapa, entre os dirigentes do partido e entre as várias gerações de jornalistas que com ele conviveram, em 2017, foi trabalhar como assessor de Marcelo Rebelo de Sousa com o mesmo entusiasmo que sempre colocou na profissão. Pouco depois de chegar a Belém, adoeceu. Lutou contra um cancro do pulmão nos últimos meses não conseguiu resolver o maior dos problemas. Logo ele que tão bem os sabia resolver.

Era acarinhado por quem com ele trabalhava, fossem políticos ou jornalistas, e no Congresso de 2016 recebeu um dos maiores aplausos alguma vez registados em congressos do PSD. Gentil, educado, eficaz, conhecedor do partido, e da política e do funcionamento da comunicação social. Fiel aos 17 líderes do partido, nunca deixou que dúvidas sobre para que lado da barricada trabalhava. Mas fazia-o de uma forma que mereceu o respeito, e nalguns casos a amizade, dos jornalistas. Com ele corria quase sempre tudo bem. Quase. Em 2014, num momento irrefletido, ficou famoso um pontapé que deu a um fotojornalista — que não respeitara as regras impostas pelo partido — durante um Conselho Nacional do PSD. O próprio pontapeado aceitou as desculpas de Zeca e o triste episódio é, numa vida pública (na sombra) de 44 anos, uma nota de rodapé, uma frase final de um artigo cheio de boas histórias de vida.

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