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Octavio Passos/Observador

Octavio Passos/Observador

Teresa Lago, presidente da Porto 2001 – Capital Europeia da Cultura: “É pena que os autarcas que se seguiram não tenham mantido a ambição" /premium

A astrónoma liderou o projeto da Porto 2001 – Capital Europeia da Cultura. 20 anos depois, conta o que mudou, o que se perdeu, o que ficou por fazer e o que aprendeu. Entrevista a Teresa Lago.

Dois mil espetáculos, mais de um milhão de espectadores, 30 praças e ruas renovadas e 70 quilómetros de novas infraestruturas. Em 2001, o Porto foi a Capital Europeia da Cultura e, necessariamente, mudou. Duas décadas depois, Teresa Lago, presidente do projeto, recorda desafios, dificuldades e apostas ganhas.

A astrónoma, professora e investigadora, ainda resistiu ao cargo, mas acabou por aceitá-lo ao acreditar que estava perante “uma oportunidade única” de transformar a sua cidade para sempre. Isto numa altura em que o Porto sofria um grande complexo de inferioridade relativamente à capital, logo após a Expo’98. Orgulha-se de iniciativas como a Casa da Música, o Parque da Cidade, o Centro Português de Fotografia ou o Jardim da Cordoaria, defende a diversidade da programação proposta na época e rejeita qualquer falta de comunicação para com os locais. Foi muitas vezes criticada e incompreendida, mas não desistiu.

O tempo para a concretização das obras foi o seu principal inimigo durante o processo e ainda hoje lamenta que Rui Rio, antigo presidente da câmara municipal, não tenha dado continuidade ao projeto, fazendo com que parte do seu legado se tenha perdido. Do atual autarca, Rui Moreira, diz não ver muita obra feita, ainda assim, garante que sempre que regressa ao Porto é capaz de se sentir em casa.

Teresa Lago não tinha ambições políticas, apenas curiosidade, mas acabou por ir parar ao parlamento como deputada, passando mais tarde pela assembleia municipal e pela área metropolitana do Porto. Decidiu regressar à carreira académica, sendo atualmente, com 73 anos, é secretária geral da União da Astronómica Internacional.

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Casa da Música

Nasceu em Lisboa, cresceu em Angola, mas acaba por se firmar no Porto. Porquê?
Sim, nasci em Lisboa e fui para a Angola com um ano de idade. Cheguei ao Porto com 17 ou 18 anos para entrar na universidade, uma vez que em Angola a universidade ainda não tinha aberto. Fiz a minha licenciatura e depois entrei para a faculdade de ciências como assistente, mais tarde fui para Inglaterra, para a Universidade de Sussex, fazer um doutoramento e um mestrado em astronomia, pois em Portugal ainda não era possível estudar astronomia.

No entanto, não sonhava ser astrónoma, foi algo que descobriu no curso de Matemática. Como surgiu essa paixão?
Descobri a astronomia no meu bacharelato em Matemática, através de uma disciplina que me fez criar o vício de ir à biblioteca procurar outras informações. Percebi que a astronomia era de facto uma coisa extremamente interessante, uma espécie de puzzle constante para resolver. Como adoro puzzles e de tudo que tenha a ver com natureza e observação, naturalmente que me interessei por astronomia, queria muito estudar esta área e a única alternativa era fazê-lo fora do país. Estive em Inglaterra quatro anos e meio, cheguei lá com uma filha que não tinha nem um ano.

Como vai parar ao projeto da Porto 2001 – Capital Europeia da Cultura?
Fui convidada pelo Fernando Gomes, o então presidente da câmara, para integrar o conselho consultivo da Porto 2001 para a área de ciência em janeiro de 1999, ou seja mesmo no início. Tivemos duas ou três reuniões apenas, mas deu para perceber logo a importância do projeto.

Teresa Lago, com 73 anos, é atualmente secretária geral da União da Astronómica Internacional.

O que mais a fascinou?
O que me entusiasmou perceber que era um projeto de grande dimensão e principalmente entender a intenção do Fernando Gomes e do Manuel Maria Carrilho, ministro da cultura na época, em fazerem da Porto 2001 uma oportunidade para transformar a cidade e não fazer uma mera capital da cultura com um programa restrito à componente cultural. Para mim, que vivia no Porto, pareceu-me uma oportunidade interessante, um projeto muito ambicioso, e isso levou-me a fazer parte do conselho consultivo. Na altura, o Fernando Gomes deixou uma marca muito relevante na cidade, mudou-a, e, por isso, havia, naturalmente, a expectativa que esta seria mais uma grande intervenção no Porto, um novo salto.

Entretanto depois chega à presidência do projeto.
A partir de agosto de 1999, aquilo praticamente deixou de funcionar, era essa a visão externa através dos jornais. O projeto estava parado por toda aquela polémica entre o então presidente Artur Santos Silva e o ministro da Cultura. Em dezembro, o Fernando Gomes, que já não era presidente da câmara, mas estava telefonicamente presente em todas as conversas com o autarca Nuno Cardoso, insistiu que eu ocupasse a presidência, uma vez que me encontrava fora daquela polémica toda.

Aceitou sem pensar duas vezes?
Naturalmente resisti, tinha compromissos de investigação e na universidade, mas perante a insistência dele acabei por aceitar. Nunca estou num projeto apenas por estar, aceitei o desafio e sabia que ia ser difícil. Estava de acordo que o projeto continuasse e ou alguém completamente de fora lhe deitava a mão ou havia sérios riscos de ele não avançar.

"Tenho muito orgulho e muito gosto em passear na Cordoaria e ver aquele o espaço aberto, ocupado e tomado pelo público, como qualquer espaço de uma cidade deve ser. Vivi quase 40 anos no Porto e, apesar de já não viver, quando vou sinto-me completamente em casa."

Como era o Porto nessa altura? O que fazia falta? O que era prioritário?
Muita coisa fazia falta. Mal agarrei o projeto, compreendi a relevância de ter não apenas uma programa cultural, mas também um programa de intervenção no espaço público, que era uma necessidade urgente para o Porto, criando a oportunidade de construir e renovar equipamentos culturais. Tratei o projeto como trato qualquer projeto científico, isto é, sentei-me durante muitos dias a estudar o que estava feito, que era quase nada, o que havia tempo para fazer e conversei com muita gente, reforcei a equipa, que era claramente insuficiente, e deitámos as mãos ao trabalho. Uma das primeiras coisas que fiz foi um ponto da situação em várias áreas para tentar perceber onde estávamos e para onde iríamos.

A cidade era um terreno fértil?
Em 1999 o Porto era uma cidade complexada com a comparação constante com Lisboa, com a qual obviamente não se poderia comparar. Havia outro complexo grande: a Expo’98. O evento tinha deixado marcas importantes em Lisboa e essa era mais uma referência para complexo de comparação, que para mim é um erro, porque o Porto é o Porto e Lisboa e Lisboa, são naturalmente diferentes e ambas as cidades têm mais valias e ícones que têm de ser privilegiados e valorizados. Na altura, achei que havia de facto espaço para manobra, mas era preciso trabalhar muito e a correr.

Porque diz que a Porto 2001 não pode ser comparada à Expo’98? O que as distingue e aproxima?
São projetos completamente diferentes. A Porto 2001 poderia comparar-se a uma Lisboa capital europeia da cultura. A dimensão dos dois momentos foi completamente diferente, assim como a ambição, foi muito maior no Porto, porque para o Porto aquilo foi uma oportunidade única. A Expo’98 serviu para renovar e desenvolver uma zona específica da cidade que estava a precisar de uma intervenção, teve um objetivo e um tempo de concretização muito diferente, diria que conseguiu um resultado também excelente e um enorme impacto em Lisboa.

O centralismo de Lisboa era um entrave ou uma motivação? Sentia-se uma competição entre as duas cidades?
Devo confessar-lhe que não foi um entrave, a Porto 2001 teve um forte investimento nacional. Existam contactos diretos com os vários ministérios e também com o primeiro-ministro, António Guterres, com quem tive várias reuniões e recebe um enorme apoio e suporte. Muitas das intervenções planeadas cresceram imenso graças a isso. Em 1999, o Porto tinha um orçamento muito menor daquele que depois se tornou disponível para o projeto.

Ainda se recorda dos valores?
Fiz uma pesquisa nos meus cadernos – guardo sempre os meus cadernos – para esta entrevista. Em 1999, o orçamento era de 36 milhões de contos e em 2001 tivemos mais de 45 milhões de contos disponíveis, ou seja, o orçamento global foi superior a 220 milhões de euros.

A questão do centralismo é uma discussão que ainda hoje faz sentido?
Acho que sim. O país é composto por várias regiões com especificidades diferentes, todas elas com mais valias. Na minha opinião quando se foca ou utiliza apenas uma parte dos recursos, o país no seu todo sai prejudicado. A centralização não dá as mesmas oportunidades de emprego, de intervenção e oportunidade de ter oportunidades, as aberturas. Se isso é verdade no Porto em relação a Lisboa, então é muito mais evidente na Guarda ou em Castelo Branco, regiões que tem valências únicas, invejáveis, diferentes e complementares às de Lisboa.

Parque da Cidade

Câmara Municipal do Porto

A Porto 2001 – Capital Europeia da Cultura tinha dois eixos fundamentais: a programação de espetáculos e as obras de reabilitação urbana e renovação dos equipamentos culturais. A qual delas deu prioridade?
Elas foram desenvolvidas em simultâneo e com a mesma relevância. Do Coliseu, que renovámos, ao Mosteiro S. Bento da Vitória, passando pelo Museu Soares dos Reis, a Biblioteca Almeida Garrett, o Centro Português de Fotografia, a Casa da Animação ou Teatro Carlos Alberto, fizemos várias intervenções nos equipamentos culturais. No que toca ao espaço público, recordo, por exemplo, prolongamento do Parque da Cidade até à orla marítima, foi um projeto total novo e que inicialmente não estava contemplado. Houve uma intervenção muito diversificada e muito profunda nestas áreas.

O maior inimigo foi mesmo o tempo para a concretização?
Essa era, sem dúvida, a maior dificuldade e que nos levava a intervencionar simultaneamente várias ruas na baixa da cidade. A Porto 2001 acabava em junho de 2002, portanto ou se fazia ou não se fazia, não havia escolha. Queríamos aproveitar ao máximo esta oportunidade na cidade e, por isso, tivemos que fazer tudo o que nos era possível.

Muitas pessoas não compreendiam uma baixa cheia de cimento e escavadoras. Houve sempre uma comunicação suficiente para com a população?
A comunicação foi algo que fizemos com bastante cuidado. Nos painéis de todas as obras explicávamos o que estava a ser feito, com a visão e projeção do que iria ser aquele local após a obra, até para incentivar as pessoas a descobrirem-no. Ter obras em simultâneo em várias ruas de uma cidade que não parou, não é fácil, torna a vida das pessoas um pouco mais difícil. Sabíamos disso e tivemos um extremo cuidado com a comunicação, fazíamos sessões públicas nos locais, convidámos as pessoas a discutir as obras, explicávamos porque estávamos a intervir ali e que tínhamos dois anos para o fazer. Penso que ficou à vista de todo o resultado final, aliás, ele foi a base de toda esse desenvolvimento e essa ocupação da rua que o Porto passou a ter. As ruas não eram interessantes e passaram a ser muito apetecíveis.

Outra das críticas apontadas na época era a programação cultural ser considerada erudita, clássica e pensada elites.
Isso não é verdade. Uma das coisas que me recordo foi de ter assistido a ensaios de uma ópera que era levada a cabo por habitantes de um bairro social e essas pessoas nunca tinham assistido a uma ópera na vida. Lembro-me que essas pessoas trabalhavam durante o dia e os ensaios eram à noite no parque de estacionamento da Casa da Música, que ainda estava em construção. Existiam pessoas que trabalhavam em padarias e que no fim do ensaio, à meia noite, iam fabricar o pão para o dia seguinte. Dizer que a programação era elitista não corresponde à verdade, havia de tudo, era diversificada. Fizemos também espetáculos em que os atores eram reclusos da cadeia de Paços de Ferreira, algo completamente novo. Foi uma programação diversificada, incluiu a ciência e a literatura como cultura, mas obviamente que há sempre gente que protesta.

"Não era possível construir aquela área em menos de um ano, a menos que fosse abandalhada e não era isso que prentendíamos. A ideia da Casa da Musica era construir muito mais do que uma simples de espetáculos."

Sente que a Porto 2001 formou e educou públicos para as artes?
Sim, os espetáculos estavam sempre esgotados, a afluência era grande. A iniciativa terminou simbolicamente com um dia de 25 horas, com espetáculos consecutivos em vários pontos da cidade, de certa forma para marcar a continuidade desta ideia, já que o lema do evento eram as pontes para o futuro. Pelo que vi, a afluência e a vontade de participar sempre existiram, o que não existiu foi uma câmara municipal que entendesse a importância de continuar um projeto com aquela dimensão.

Foi por isso que disse numa entrevista que o plano consistia num salto incremental que falhou por razões mesquinhas?
Essencialmente pretendíamos ter um grande evento na cidade com várias componentes, não apenas espetáculos, mas também intervenções no espaço público. A intenção era que depois tudo isso fosse continuado, que esse salto incremental tivesse futuro através da câmara municipal, que é naturalmente a autoridade local com competência para o fazer. O autarca que se seguiu, Rui Rio, não entendia a relevância da cultura e não entendia a importância da vivência do espaço público. Tentou desmantelar, desprezar e deixar ao abandono físico a manutenção de alguns equipamentos. Depois de uma obra, existem sempre a necessidade de manutenção, há sempre pequenos defeitos que têm de ser corrigidos e isso de facto não foi feito. Era obrigação da câmara municipal fazê-lo, mas não o fez intencionalmente, explicitando publicamente essa intenção. Essa atitude foi extremamente negativa e prejudicial para o Porto.

Colocou, de certa forma, em causa o que foi construído?
Bem, o que estava construído continuou, naturalmente a Casa da Música não era possível ser construída num ano, levou o tempo necessário, mas foi feita com a qualidade e a ambição adequadas. É indiscutivelmente um ícone do Porto.

Foi a obra mais emblemática de todo o projeto?
Em termos de dimensão sim, mas considero igualmente importante, a renovação e à abertura da Cordoaria, transformando-a num espaço que hoje é completamente utilizado pelo público ou até mesmo aquelas ruas junto aos Clérigos, que foram renovadas e que são hoje o centro da movida da cidade.

A Casa da Música acabou por ser inaugurada em 2005. Esse atraso incomodou-a?
Não foi um atraso, em dezembro de 1999 nem anteprojeto havia, só foi feito em 2000. Não era possível construir aquela área em menos de um ano, a menos que fosse abandalhada e não era isso que prentendíamos. A ideia da Casa da Música era construir muito mais do que uma simples de espetáculos. Existia um programa muito completo e ambicioso de educação, de orquestra e de conceito, talvez o mais bem  sucedido de todo o evento. Era expetável que fosse continuado. Já não vou ao Porto há três anos, não conheço a programação atual, mas estava entregue a muito boas mãos. Estou convencida de que a programação que estava implementada há dois anos, apesar de todas as dificuldades, terá continuado no mesmo nível e com a mesma ambição.

O que foi mais difícil e desafiante durante o processo?
O maior desafio para toda a equipa era a luta contra o tempo, o saber que naquele período existiam condições únicas para fazer coisas e que depois daqueles dois anos era muito mais difícil. Aquilo foi uma espécie de ocasião única, que era preciso explorar o melhor possível.

Largo Amor de Perdição, Cordoaria

Rui Oliveira/Observador

Do que mais se orgulha?
Quase tudo me deixa orgulhosa. Fico feliz quando passeio pelo Parque da Cidade e consigo chegar ao mar, antes da nossa intervenção aquela zona era uma lixeira e hoje é uma pérola da cidade. Fico satisfeita quando nas muitas viagens que faço, encontro tanta gente que vai ao Porto de propósito visitar a Casa da Música ou o Centro Português de Fotografia ou o Museu Soares dos Reis. Tenho muito orgulho e muito gosto em passear na Cordoaria e ver aquele o espaço aberto, ocupado e tomado pelo público, como qualquer espaço de uma cidade deve ser. Vivi quase 40 anos no Porto e, apesar de já não viver, quando vou sinto-me completamente em casa.

Sentiu que a Porto 2001 deixou de ser apenas um marco cultural e passou a ser também um projeto político?
Sim, desde o início. Quando passei a presidente, uma semana depois estava na Assembleia da República numa daquela audições com questões quando de facto não conhecia bem o projeto porque não tive tempo de o estudar. Era algo altamente político.

Mas deveria ter sido tão político quanto foi?
Bem, tenho uma opinião bastante dividida sobre isso. Era expectável que não fosse tão politizado, porque essencialmente era uma capital europeia da cultura, mas em qualquer país em que o projeto decorre isto acontece. Tive contacto com outros países com capitais europeias da cultura e a componente política era sempre muito forte. Por outro lado, se não houvesse um interesse político no projeto a dimensão não teria sido aquela. A dimensão foi grande porque o Governo quis aproveitar e apostar na oportunidade para o Porto dar um salto.

Tinha ambições políticas quando ocupou o cargo?
Não, sempre fui investigadora e professora universitária em uma dedicação exclusiva, o meu mundo era o mundo académico até à Porto 2001. Nessa altura, pedi uma dispensa de serviço, deixei de estar a tempo inteiro na universidade, mas pedi ao reitor que me autorização a dar aulas três horas por semana porque precisava de normalizar a minha cabeça e de manter os pés no meu ambiente. Claro que nesses anos deixei de fazer investigação, mas depois regressei. A política foi uma curiosidade, fui eleita como deputada independente pela lista do Partido Socialista para a Assembleia da República em 2002, mas depois pedi para suspender o mandato até ao final da Porto 2001, que aconteceu em junho de 2002, porque tinha o compromisso com o projeto e, para mim, os compromissos são para cumprir até ao fim. Depois fiz uma análise cuidadosa do que iria escolher, se continuava na carreira académica e científica ou enveredava para o parlamento. Escolhi manter-me na carreira científica, porque de facto era aquilo que eu era.

Está arrependida?
Não. Depois fiz também parte da Assembleia Municipal do Porto e da Assembleia Metropolitana porque achei que poderia dar uma contribuição. Penso que os deputados municipais não podem ser só políticos, têm que ser também pessoas da cidade, mas a vida académica obrigava-me a fazer muitas deslocações e a certa altura achei que era incompatível ser as duas coisas.

"O autarca que se seguiu, Rui Rio, não entendia a relevância da cultura e não entendia a importância da vivência do espaço público. Tentou desmantelar, desprezar e deixar ao abandono físico a manutenção de alguns equipamentos."

20 anos depois desta iniciativa, como vê hoje o Porto? Que desafios encontra?
Quando vou ao Porto estou dois dias no máximo, vou para ver amigos e percorrer a cidade a pé. Considero que a cidade tem condições fantásticas e mudou imenso nestes últimos 20, 30 anos. Para mim, o início da mudança foi quando o Fernando Gomes foi autarca e começaram a ser construídos os parques e os jardins, no fundo, a tornar a cidade mais civilizada. Aquilo que tenho pena é que os autarcas que se seguiram não tenham mantido a mesma ambição e o mesmo ritmo na atividade e no desenvolvimento no espaço publico. Se assim fosse, o Porto estaria hoje num nível fantástico e que ainda não está.

Ficou alguma por fazer?
Interviemos em 30 ou 40 ruas, mas a cidade tem dezenas. Fizemos um estudo sobre a renovação do edificado na baixa, que obviamente sabíamos que não teríamos tempo para o concluir, e entregámos à câmara para ser prosseguido, mas isso não foi feito. O Porto precisa de facto de uma câmara com dinâmica, que tenha viajado, que conheça outros países e outras cidades.

Que opinião tem do atual autarca, Rui Moreira?
Não o conheço bem, recordo-me dele à frente da Associação Comercial do Porto, mas não tenho grande contacto nem grande conhecimento dele como autarca. O que posso ver é o resultado da obra e, sinceramente, não vejo grande coisa.

O que aprendeu em 2001?
Muita coisa. Como académica, conhecia a cultura como utilizadora e espetadora, não conhecia os seus protagonistas e os seus problemas. Com a Porto 2001 passeia a percebê-los e a ter uma enorme consideração e admiração pelas pessoas que dinamizavam a vida cultural na cidade. Estou a lembrar-me, por exemplo do Ricardo Pais à frente do Teatro Nacional de S. João. A descoberta desse mundo e dessa componente, mas também do espaço público e do comércio local, foi interessante. Posso dizer-lhe que aqui no meu escritório tenho à minha frente uma pedra de granito da calçada, com uma placa com um agradecimento dos comerciantes da zona dos Clérigos. Fiquei sensibilizadíssima por me terem oferecido isto, eram pessoas que eu não conhecia, não sabia os problemas que tinham, e tive que lidar com eles e tentar resolvê-los.

Voltaria a aceitar um cargo destes?
Bem, nunca seria o mesmo, mas gosto muito de desafios. Estou habituada na minha investigação em astrofísica a ter desafios que são perturbadores e entusiasmantes. Se fosse um projeto entusiasmante, claro que sim. Aliás, estou metida noutro desafio neste momento, que termina em agosto, sou secretaria geral da União Astronómica Internacional e é uma carga de trabalho ter que coordenar uma união que inclui 87 países membros e cerca de 13 mil astrónomos profissionais em todo o mundo. Aceitei por curiosidade.

É a curiosidade que costuma comandar as suas decisões?
Claramente, mas também a tentativa de resolver problemas, de resolver puzzles, voltando ao início da nossa conversa.

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