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Se as palavras tivessem mais peso do que as ações, o conflito no Médio Oriente já tinha terminado há várias semanas. Desde o início da guerra com o Irão, que começou no final de fevereiro, que o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, tem alterado sucessivamente o seu discurso sobre quanto tempo vai durar o conflito, sobre quais os objetivos militares da operação e até sobre o papel norte-americano no Médio Oriente. E, na maioria dos vezes, os anúncios são feitos através das redes sociais — e não em declarações oficiais feitas na Casa Branca.

Em poucos meses, o líder norte-americano prometeu que a guerra terminaria “em três dias”, depois falou em “duas a três semanas” e mais tarde em “quatro a seis semanas”. Noutras ocasiões, garantiu simplesmente que os Estados Unidos já tinham “vencido” o conflito. As mudanças no discurso de Trump têm criado confusão entre aliados, mercados e até dentro da própria administração. Os secretários de Estado e da Defesa, porta-vozes da Casa Branca e conselheiros de segurança nacional surgem muitas vezes desalinhados com o Presidente e são obrigados a explicar ou a reinterpretar as declarações feitas horas antes por Trump nas redes sociais ou em conferências de imprensa improvisadas.

Os prazos para terminar com a guerra

O padrão de contradições tornou-se logo evidente nas primeiras semanas de guerra. Quando anunciou o ataque ao Irão, no dia 28 de fevereiro, Donald Trump afirmou que os bombardeamentos iriam continuar “o tempo necessário para atingir os objetivos”, que seriam, na sua visão, “impedir que a ditadura [iraniana] muito perversa e radical ameace a América e os interesses fundamentais de segurança nacional”, “destruir os mísseis” e “criar as condições” necessárias para provocar uma mudança de regime. Poucos dias depois, a 1o de março, começou a sugerir que o conflito estava “perto do fim” e que a guerra estava “praticamente concluída”.

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Já no início de abril, o Presidente dos Estados Unidos disse aos jornalistas que a guerra terminaria “dentro de três dias”. Horas mais tarde, num discurso televisivo em horário nobre, prometeu atacar o Irão “de forma extremamente dura” durante “duas a três semanas”, embora esses ataques nunca tivessem acontecido.

Noutras ocasiões, nomeadamente em telefonemas com jornalistas de vários jornais, Trump afirmou que os Estados Unidos já tinham alcançado praticamente todos os objetivos militares. “Algumas pessoas poderiam dizer que a missão está praticamente concluída“, afirmou numa conferência de imprensa na Flórida. Dias depois, voltou atrás e anunciou uma nova previsão: “Nas próximas duas a três semanas vamos levá-los de volta à Idade da Pedra”.

As divergências dentro da administração tornaram-se evidentes. O secretário da Defesa, Pete Hegseth, insistia que a guerra estava “apenas no início”. Menos de 24 horas depois, Trump dizia que os Estados Unidos já tinham feito “grandes progressos”. Já o secretário de Estado, Marco Rubio, procurou um tom intermédio: “Conseguimos ver a meta. Não é hoje, nem amanhã, mas está a chegar”.

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Na última terça-feira, Rubio anunciou que a operação militar Fúria Épica estava terminada e que os Estados Unidos tinham entrado numa nova fase “defensiva”, chamada “Projeto Liberdade”, destinada a apoiar os navios bloqueados no Estreito de Ormuz. Três horas depois, Trump suspendeu parcialmente esta missão e, na manhã seguinte, ameaçou retomar os ataques com intensidade superior caso Teerão não aceitasse um acordo.

Já esta quinta-feira, o líder norte-americano classificou os ataques ao Irão como “pancadinhas de amor”, apesar do aparente cessar-fogo existente. A noite foi marcada por ataques mútuos no Estreito de Ormuz e Trump garantiu que, se a trégua tivesse sido quebrada, isso seria evidente, com um “grande clarão a sair” do país do Médio Oriente. “Não será preciso saber se não há cessar-fogo”, disse posteriormente, citado pela CNN, avisando Teerão que, sem o acordo de paz assinado “rapidamente”, a resposta será devastadora.

Com “cessar-fogo em vigor”, Trump afirma que ataques recentes ao Irão foram apenas “pancadinhas de amor”

Os objetivos. Substituição do regime iraniano ou desarmamento nuclear?

A confusão não se limita aos prazos da guerra. Também os objetivos do conflito têm variado. Nos primeiros discursos após os ataques israelo-americanos ao Irão, Trump sugeriu que eliminar as ameaças do regime de Teerão fazia parte da estratégia. A ideia de mudança do regime parecia algo implícito aos ataques quando o Presidente norte-americano falava na ausência de líderes iranianos credíveis para suceder a Ali Khamenei (Líder Supremo do Irão morto nos primeiros ataques ao país) e dizia que que o sistema político de Teerão poderia colapsar rapidamente.

Mais tarde, porém, recuou. Um mês depois dos primeiros ataques, Trump garantiu que a mudança de regime “nunca foi um objetivo”. A prioridade, disse então, era impedir o Irão de obter armas nucleares e neutralizar a sua capacidade militar. “Depois vamos embora”, afirmou.

A contradição levanta dúvidas sobre aquilo que Washington realmente pretende alcançar. Leon Panetta, antigo secretário da Defesa e ex-diretor da CIA, descreveu a comunicação da administração Trump como “única“. “Historicamente e politicamente, não me lembro de ver alguém numa posição de liderança mudar constantemente a justificação para as ações que está a tomar”, afirmou ao Washington Post.

Para Suzanne Maloney, especialista em política externa no Médio Oriente, parte desta instabilidade resulta de um erro de cálculo inicial da administração norte-americana. A investigadora da Brookings Institution disse ao mesmo jornal norte-americano que Washington “acreditava que o regime iraniano entraria rapidamente em colapso e que a guerra teria custos económicos limitados”. Essa previsão falhou e o Irão revelou capacidade para pressionar a economia global, sobretudo através do Estreito de Ormuz.

As contradições sobre a navegação no Estreito de Ormuz

É precisamente neste ponto que Trump tem mudado (também) a sua posição. Em meados de março, ameaçou o Irão e exigiu a reabertura do Estreito de Ormuz, uma das rotas marítimas mais importantes do mundo para o transporte de petróleo. Dez dias depois, minimizou a relevância estratégica da zona para os Estados Unidos, dizendo que os países dependentes daquele petróleo teriam de “desenrascar-se sozinhos”.

Trump acumula ultimatos ao Irão e ameaça “arrasar o país inteiro” na próxima terça-feira caso Estreito de Ormuz não seja reaberto

Pouco depois, voltou às ameaças. Os Estados Unidos impuseram um bloqueio a embarcações iranianas que atravessavam o Estreito e lançaram operações para retirar navios civis encurralados na região. Em resposta, as forças militares iranianas avisaram que qualquer força armada estrangeira que se aproximasse seria “alvo de ataque”. Desde aí, Trump tem lançado uma série de ultimatos com prazos que têm vindo a ser constantemente adiados.

A importância do Estreito de Ormuz acabou por se tornar central para toda a guerra. O bloqueio informal imposto pelo Irão teve consequências económicas superiores às previstas pela Casa Branca, aumentando a pressão sobre os mercados energéticos internacionais. Para vários analistas ouvidos pela imprensa norte-americana, dificilmente haverá solução militar capaz de resolver o impasse sem restabelecer a liberdade de navegação naquela rota.

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Ainda assim, Trump continua a alternar entre a ameaça e a desvalorização do problema. Nuns dias fala na necessidade de garantir a navegação global e noutros sugere que os Estados Unidos podem simplesmente abandonar a região sem acordo. A comunicação da Casa Branca tem também efeitos diplomáticos. Panetta considera que Teerão já concluiu que “a palavra do Presidente [dos EUA] vale muito pouco”. “Não há muita confiança à mesa das negociações“, afirmou.

Parte desta volatilidade resulta da própria forma como Trump comunica. Ao contrário dos mecanismos tradicionais da política externa norte-americana, o Presidente dos EUA recorre frequentemente às redes sociais para anunciar mudanças estratégicas quase em tempo real. Isso significa que os aliados, diplomatas e até membros do Governo descobrem novas posições ao mesmo tempo que o público.

A Casa Branca rejeita qualquer crítica e insiste que os objetivos da administração são claros. A porta-voz, Karoline Leavitt, afirma que Trump mantém deliberadamente “todas as opções em aberto” para garantir que o Irão abandona definitivamente as ambições nucleares.

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