Truman Capote, Beatles, “Sozinho em Casa” e Donald Trump, o único que levou o The Plaza Hotel à falência /premium

25 Julho 2019

O mais famoso hotel nova-iorquino albergou estrelas de cinema e da música, testemunhou mortes trágicas e inspirou escritores. Conversámos com Julie Satow, autora de “The Plaza”.

Quando Kevin se perde dos pais, irmãos e primos na confusão do aeroporto acaba por apanhar o avião errado – e vai parar a Nova Iorque. Uma vez chegado à grande maçã o miúdo de dez anos não se preocupa demasiado porque tem o cartão de crédito do pai. Mas um dos momentos altos segue-se depois, quando Kevin se decide instalar no Plaza, um dos mais famosos e luxuosos hotéis da cidade. Para fazer a reserva telefona para a receção – utilizando o número verdadeiro do Plaza. “As pessoas pausavam o filme e tiravam o número. O hotel recebeu várias chamadas de brincadeira, em que as pessoas pediam para falar com o Kevin”, conta a norte-americana Julie Satow.

Mas houve outros mal-entendidos: como hóspedes que se vestiram a rigor, de robe branco e óculos, tal qual o protagonista, para ir dar um mergulho à piscina… que só existe mesmo no filme. É no Plaza que Kevin (interpretado por Macaulay Culkin) pede uma gigante taça de gelado de room service, desliza pelo chão de mármore ou dá bombas na piscina. “É que se queres mostrar que ele vive à grande, então tens de o por no Plaza. Sempre foi o ícone do glamour, exuberância e drama. Uma série de estrelas passaram por lá, de Elizabeth Taylor a Marylin Monroe”, explica Julie ao Observador. É ela a autora de uma detalhada biografia sobre o hotel: “The Plaza, The Secret Life of America’s Most Famous Hotel” (ou The Plaza, a vida secreta do hotel mais famoso da América), publicado no passado mês de junho.

O livro faz referência a Sozinho em Casa 2 – Perdido em Nova Iorque, de 1992, que ainda hoje é um clássico de televisão que não falha a época natalícia. Mas este foi apenas um dos momentos em que a história do Plaza se cruzou com a história da grande cidade ou, mesmo, com a do país: o edifício grandioso com mais de 100 anos de vida guarda recordações da Grande Depressão, dos Beatles ou ainda de Donald Trump, que já foi dono do hotel – e o único que o levou à falência. Mas a história é longa e pede um rebobinar até 1890.

1898: Passeia-se pela 5ª Avenida em frente ao Plaza, entre carruagens e chapéus altos © Museum of the City of New York/Getty Images

Foi no final do século XIX que abriu portas pela primeira vez sendo demolido apenas 15 anos depois. O verdadeiro nascimento acontece em 1907. É Alfred Gwynne Vanderbilt, milionário, que faz as honras da estreia e se dirige à receção, tornando-se no primeiro hóspede. “Quando pensas em Nova Iorque e em riqueza, os Vanderbilts são dos primeiros na lista. São os importantes barões que puseram a América no mapa.” Tudo foi combinado com a própria gerência, que levou a notícia aos jornais, para armar uma estreia grandiosa.

Rapidamente o hotel se tornou sinónimo de um novo estilo de vida que convidava a conviver fora de casa, a jantar ao lado de desconhecidos ou a dançar ao som de uma orquestra. Começava a dar-se os primeiros passos para uma nova era de “sofisticação refinada e modernidade.” Com a riqueza e a exuberância chegam também novas notas de excentricidade pontuadas pelos hóspedes mais peculiares. A autora desenha o perfil de alguns deles – ou, melhor, delas. No Plaza viveram 39 viúvas, conta-nos, muitas com características bem mais notáveis do que o seu estado civil.

Porcos e jacarés na suite

Para quem pensa que a figura da socialite é um fenómeno exclusivo deste século que leia as seguintes linhas. São sobre Clara Belle Walsh, uma das primeiras hóspedes de longa duração, “considerada lendária pelas suas capacidades de entretenimento e conhecida como o mais forte motor do Plaza”, escreve a autora.  Praticante de hipismo e uma “consumidora ávida do uísque do Kentucky”, Clara ficou para a história como a mãe do cocktail (a festa, não a bebida alcoólica). Vestia-se impecavelmente, tinha amigos famosos que a visitavam e estava sempre acompanhada por Skippy, um pequeno Terrier que teria no currículo quatro propostas para papéis de cinema. Clara conquistou um estatuto notável, tanto que em 1957 o hotel deu uma festa em sua honra para comemorar o meio século a viver no Plaza.

A princesa húngara Vilma Lwoff-Parlaghy já se tinha divorciado duas vezes quando chegou ao Plaza, em 1909. Ficou para a história como sendo uma das hóspedes mais excêntricas. A sua estadia em Nova Iorque acabaria por contribuir para aumentar a família improvável: adotou uma cria de leão que viveu consigo na suite até estar demasiado grande para caber na banheira.

Clara gostava de se apresentar como viúva – apesar de não ter vivido os últimos anos com o marido, de quem se tinha divorciado. Quanto à princesa húngara Vilma Lwoff-Parlaghy já se tinha divorciado duas vezes quando chegou ao Plaza, em 1909. Ficou para a história como sendo uma das hóspedes mais excêntricas. Tudo começou com a sua chegada, que foi em grande. Mudou-se de malas e bagagens (eram 43) e, ainda, com um chef de cozinha, três criadas francesas, um moço de recados e um mordomo, mas não foi este séquito que mais impressionou. A princesa, que tinha um gosto especial por animais, levou consigo um autêntico jardim zoológico: um pequeno cão peludo, um par de porcos da Guiné, um par de pequenos lobos, uma íbis (ave de pescoço longo), um falcão, várias corujas e uma família de jacarés. “Ela era muito excêntrica e inacreditavelmente rica. Costumava queixar-se que não sabia como gastar o dinheiro”, conta Satow.

A sua estadia em Nova Iorque acabaria por contribuir para aumentar a família improvável: adotou uma cria de leão que viveu consigo na suite até estar demasiado grande para caber na banheira. Parlaghy era dona de uma riqueza que ninguém parecia conseguir explicar. Mas tudo mudou com o espoletar da primeira guerra mundial: a princesa, que era uma pintora notável, foi obrigada a mudar de vida. Passou a cobrar pelos célebres retratos que fazia – e eventualmente fugiu do Plaza, ao qual tinha contraído uma enorme dívida. Mas a memória da sua persona ficou: Parlaghy era uma verdadeira prima dona que nem sequer admitia viajar acompanhada no elevador.

Passear hoje pelo Plaza é recordar essas memórias antigas – algumas perduram mais do que outras. Julie Satow lembra-nos que continuamos a encontrar, num dos corredores, uma pintura de Eloise, personagem da literatura infantil que se tornou um fenómeno nos Estados Unidos. Ainda hoje há quem se desloque de propósito só para fotografar o quadro ou comprar merchandising dos livros das aventuras da menina que vivia no Plaza. Eloise nasceu no hotel, pela mão de uma hóspede.

Em 1925, jóias no valor de um milhão de dólares foram roubadas do quarto no Plaza de Jessie Donahue, filha de Frank W. Woolworth (na foto com o marido), dono de um cadeia de lojas © Getty Images

Kay Thompson, uma esguia e vistosa artista – atriz e coreógrafa – atingiu o pico da fama quando se tornou autora. Thompson, que tinha por hábito encarnar uma personagem infantil, entre amigos, acabou por levar a brincadeira mais longe e nunca poderia imaginar o êxito alcançado. À publicação das aventuras de Eloise seguiu-se uma perseguição à personagem: crianças faziam filas para visitar o hotel, comprar merchandising ou entupiam as linhas a ligar porque queriam falar com a sua heroína. A visibilidade e o retorno dado ao hotel era tão grande que durante anos Thompson viveu numa luxuosa suite – sem pagar um único cêntimo. Até ao dia em que o hotel, numa fase de contenção de custos, faz uma despedida amarga, lembra Julie Satow: “Viveu durante décadas de graça até ao dia em que despejaram. Deram-lhe 24 horas para se ir embora.”

Uma história pessoal

É o lugar imaginário dos livros de Eloise, que acompanharam uma infância. Ou é o sítio onde se vai tomar chá com as avós. É o cenário de fundo de fotos de família. Existe uma ligação emocional dos nova-iorquinos com o hotel, explica Julie Satow – e a sua história não é exceção, foi lá que se casou. Mas essa não é a razão pela qual quis escrever o livro, diz: “Comecei a pensar que, realmente, ainda ninguém tinha escrito sobre a história do hotel desde os anos 60 – e tanto tinha acontecido desde então. E mais: ao longo dos anos o Plaza tem sido uma lente que reflete o que se passa no país. É um espelho perfeito da história social da cidade.”

Julie fala-nos dos tempos difíceis da Lei Seca, em que o hotel se debateu com uma crise financeira. Também os conflitos tiveram um impacto no negócio. Durante a Segunda Guerra Mundial foram instituídas uma série de restrições: menos sabonetes em cada quarto, nada de papel higiénico extra e até os guardanapos eram mais pequenos para poupar linho – e se não fossem usados pelos clientes, então eram reutilizados antes de serem lavados.

Daí que a viagem que o “The Plaza” proporciona também seja uma viagem histórica: Julie fala-nos dos tempos difíceis da Lei Seca, em que o hotel se debateu com uma crise financeira –  afinal, quem é que quer visitar um bar ou um restaurante onde não se pode beber álcool? E também os conflitos tiveram um impacto no negócio. Durante a Segunda Guerra Mundial foram instituídas uma série de restrições: menos sabonetes em cada quarto, nada de papel higiénico extra e até os guardanapos eram mais pequenos para poupar linho – e se não fossem usados pelos clientes, então eram reutilizados antes de serem lavados.

O imponente hotel teve de se adaptar aos novos tempos e até se vergou ao movimento da emancipação feminina. “O Oak Room [um dos salões do hotel] era dos poucos sítios que ainda proibia a entrada de mulheres”, lembra Julie. Isto até um grupo de feministas se rebelar em 1969. Não só se manifestaram publicamente como fizeram uma reserva no restaurante – sem especificarem o seu género. “Achei tão cinematográfico. Elas chegaram, sentaram-se e os empregados ficaram tão chocados que simplesmente foram lá e tiraram-lhes a mesa. Elas ficaram ali sentadas, sem mesa sem nada.” Poucos dias passados e o Oak Room já admitia ambos os sexos.

E Deus criou Brigitte Bardot, aqui durante uma concorrida conferência de imprensa no Plaza, nos anos 60, para promover "Viva Maria" © Getty Images

Os jornais e revistas da época e, ainda, livros de memórias e biografias foram a grande base de pesquisa da autora que mergulhou na história do hotel durante cerca de quatro anos. É o livro de estreia da jornalista que colabora regularmente com o The New York Times e aborda temas tão diversos quanto o parto natural ou o imobiliário, o seu tema de eleição: “É interessante porque em Nova Iorque é a confluência de política, negócios e poder – é realmente uma história do poder.”

Localizado no coração de Manhattan, com vista privilegiada para o Central Park, o hotel tornou-se um monumento de visita obrigatória, garante Julie Satow – em relevância comparável à ponte de Brooklyn ou ao Empire State Building. E, como nos anteriores, é preciso observar a infraestrutura de perto para depois, sim, se poder apreciar a perspetiva mais ampla, à distância.

Do rock’n’roll à literatura

Houve um tempo em que Paul McCartney, John Lennon, Ringo Starr e George Harrison passaram despercebidos – pelo menos para o gerente do hotel mais famoso de Nova Iorque. Para Alphonse Salomone, no momento da reserva, aqueles eram homens de negócios, iguais a tantos outros. Uma ideia errada que só durou até perceber que os nomes eram histericamente gritados por multidões. As estrelas de rock não eram hóspedes adequados para um hotel sério, concluiu quando decidiu cancelar a reserva dos Fab Four. Foi aí que a filha, num prato, entrou em ação: fez um drama tão grande que o pai acabou por arriscar e receber os rapazes de Liverpool que estavam de visita aos EUA para tocarem no popular programa de televisão de Ed Sullivan. Naqueles dias, instalou-se o caos nas ruas adjacentes ao Plaza, conta Julie Satow: “Houve raparigas que se esconderam em caixas que seriam depois entregues aos Beatles na sua suite”, lembra, entre risos. “É muito engraçado porque todos os fãs estavam loucos, mas os próprios Beatles eram inocentes: eles só bebiam chá e não faziam barulho, eram muito bem-comportados. Acho que eles realmente não sabiam o que fazer, era tudo novo para eles.”

Os Fab Four fizeram parar o trânsito e instalaram o histerismo à porta do Plaza nesses idos anos 60. Ei-los no hotel © Getty Images

Dois anos depois, em 1966, o Plaza voltaria a estar sob as luzes da ribalta, com uma das festas mais memoráveis, mais tarde popularizada como a “festa do século”. Organizada pelo escritor Truman Capote, que na época vivia um momento de ascensão com o sucesso do romance “A Sangue Frio”, este baile inaugurou uma nova era, garante a autora: “Foi quase o início de algo, da cultura das celebridades, da perseguição dos paparazzi. O Truman conseguiu juntar um grupo muito eclético: havia estrelas de cinema, escritores, políticos e jornalistas. O glamour foi over the top. E o facto de todos terem de usar máscaras e vestir-se só a preto e branco… realmente não se tinha feito nada do género até ali. Criou um autêntico frenesim.” Do economista John Kenneth Galbraith ao ícone da cultura pop, Andy Warhol a Frank Sinatra: estas eram algumas das figuras entre os 540 convidados. Toda a gente queria lá estar: quem não recebeu convite tentou subornar Capote – houve quem oferecesse 11 mil dólares – ou, até, ameaçou matar-se.

Anos antes – mais especificamente na década de 20 – também outro escritor tinha deixado a sua marca na história do hotel com a publicação de “O Grande Gatsby”, aquele que se viria a tornar um dos grandes clássicos da literatura norte-americana. Scott Fitzgerald era um habitué do hotel e inspirou-se na sua dinâmica e naquilo que representava para escrever a história: “Mostra realmente como o Plaza foi um marco cultural. Era sinónimo de riqueza, de exclusividade e o Fitzgerald, que adorava o hotel, usou-o como um símbolo no seu livro, para representar os dias que vivia.” A autora fala-nos dos factos e não só. Reza a lenda que numa noite de loucura Fitzgerald terá saltado para a fonte Pulitzer com a futura mulher, Zelda, completamente vestido: “É um mito de Nova Iorque.”

Mas os dias do Plaza não foram só glória e beleza – e Julie Satow faz questão de mostrar isso mesmo ao conduzir o leitor pelo lado negro do hotel. Desde o seu início – o da primeira construção, ainda no final do século XIX – que a história foi também pintada a sangue. Julie convida-nos a assistir a parte do julgamento a que se levaram os operários siderúrgicos que construíram o hotel, acusados de agredirem violentamente três colegas – matando um deles. O confronto entre trabalhadores sindicalizados e não sindicalizados atingiu um pico que acabaria nos tribunais – a ilibar os culpados.

Harry Black, que comprou o hotel no início do século XX torná-lo-ia numa referência da cidade, mas o magnata não teve um final feliz depois de perder a fortuna. No verão de 1930 pôs termo à vida com um tiro na cabeça. “Ele era um Donald Trump, antes de Trump existir”, remata Julie Satow. E, afinal o que tem Harry Black em comum com o atual Presidente dos Estados Unidos? Ambos foram proprietários de um dos hotéis mais vistosos de Nova Iorque – mas só um conseguiu levá-lo à falência. Precisamos de falar sobre Trump.

Da tragédia do século XIX saltamos para outro infortúnio, já no século XX. Harry Black é o atual proprietário do hotel, ele que ergueu muitos outros edifícios icónicos na cidade, como o Flatiron, um estreito mas imponente edifício que foi um dos primeiros arranha-céus de Nova Iorque. Julie descreve-o como uma “personagem maior do que a vida” – foi um homem de negócios ambicioso que viu o seu percurso pontuado também pelo escândalo conjugal (divorciou-se da mulher por suspeitas de traição). Black, que comprou o hotel no início do século XX torná-lo-ia numa referência da cidade, mas o magnata não teve um final feliz. Depois da Grande Depressão se ter abatido sobre o país no final da década de 20, Black foi perdendo, aos poucos, a sua fortuna. Primeiro foi encontrado praticamente afogado na banheira, em 1929, mas seria no verão de 1930 que poria termo à vida com um tiro na cabeça.

“Ele era um Donald Trump, antes de Trump existir”, remata Julie Satow. E, afinal o que tem Harry Black em comum com o atual Presidente dos Estados Unidos? Ambos foram proprietários de um dos hotéis mais vistosos de Nova Iorque – mas só um conseguiu levá-lo à falência. Precisamos de falar sobre Trump.

A Mona Lisa

Primeiro, mostra-nos o cenário. Conta-nos que Donald Trump construiu a sua Trump Tower a cerca de dois quarteirões do Plaza. “Os seus escritórios no vigésimo sexto andar tinham uma ampla vista para a cidade, com o Plaza centrado na moldura. Trump giraria sobre a sua cadeira, à secretária, apreciando o hotel enquanto contemplava o seu próximo grande passo.” Satow recorda as inúmeras vezes que o magnata do imobiliário admitiu o seu amor pelo edifício, assumindo também que tinha sido um ruinoso negócio – acabou por pagar bem mais do que devia, uns gordos 390 milhões de dólares, usando exclusivamente fundos de empréstimo. “Basicamente estava destinado à falência”, conclui a autora.

Mas Donald Trump não admitiu a derrota. Estava vaidoso com a aquisição como se constata pelas palavras, na época, à New York Magazine: “Não comprei um edifício. Comprei uma obra-prima – a Mona Lisa.” Como seria de esperar, o reinado de Trump foi marcado por diversos momentos tão peculiares quanto polémicos. A autora lembra como o novo proprietário pôs a mulher, Ivana Trump, como presidente do hotel. Mas não foi a eleição para o cargo, mas sim as palavras que usou para o comunicar, numa conferência de imprensa, que deixaram toda a gente boquiaberta: “A minha mulher, a Ivana, é uma gestora brilhante. Pagar-lhe-ei um dólar por ano e todos os vestidos que ela conseguir comprar!” A frase foi comentada e criticada pelos media, mas Ivana não se mostrou afetada. Acabou, até, por emoldurar um cheque de um dólar, assinado por Trump, no seu escritório do Plaza, adianta Julie.

Em 1992, Kevin volta a fazer das suas e a perder-se em grande estilo em Nova Iorque. Trump, então dono do Plaza, surge no filme a dar indicações © DR

Ivana trocava, assim, Atlantic City (New Jersey), onde geria um dos casinos do marido, por Nova Iorque. E apesar de ridicularizada, era uma mulher dedicada, esclarece Julie Satow: “A Ivana não era uma mulher troféu. Era inteligente, focada, muito forte – uma verdadeira mulher de negócios. Ela tem um papel muito importante à frente do Plaza.” A autora apresenta-nos uma gerente meticulosa que fez de tudo para devolver o antigo prestígio ao hotel: “Ela estava ali todos os dias e dava no duro. Até se ajoelhava no seu conjunto chique para mostrar ao staff das limpezas como queria que fizessem as camas, era muito exigente.” Também instituiu um novo dress code. Não eram só os empregados que se deviam vestir impecavelmente, os visitantes e hóspedes também estavam proibidos de usar calções, ganga, ou outro tipo de roupa informal nas zonas comuns.

E a exigência mostrou resultados. “‘Toda a gente queria vir ao Plaza, da Kim Basinger ao Carlos, Príncipe de Gales a Mike Tyson’ disse-me Didier Le Calvez, o gerente do hotel na altura”, escreve Julie Satow. Foi nesta altura que o “Sozinho em Casa 2” foi filmado, dando uma oportunidade de cameo a Donald Trump, que é quem indica o caminho para a receção a Kevin.

Na era Qatar

A popularidade dentro e fora do grande ecrã permitiu encher quartos, aumentar preços e promover várias festas e banquetes, mas não foi suficiente para salvar o hotel. “Não importava o dinheiro que o Plaza conseguia fazer, não importava quantos casamentos ou quantos bailes de debutante ou bar mitzvahs promovia, nunca seria suficiente para compensar a dívida”, explica Julie. E é assim que, em 1992, apenas quatro anos sob o reinado Trump, declara falência pela primeira vez na sua longa vida.

Bandeiras e luzes marcavam a célebre decoração de Natal em 1991. Michael Douglas e Catherine Zeta-Jones casaram-se no Plaza em novembro de 2000. © Getty Images

Mas a emoção não ficaria por aqui. Mais reviravoltas estavam destinadas ao Plaza nos anos que se seguiram. Primeiro foi comprado por um príncipe saudita e um bilionário de Singapura para mais tarde ser apontado como o próximo grande condomínio e shopping de luxo, um projeto que gerou revolta e um movimento público para evitar transformações irreversíveis na arquitetura. Já em 2012 surge Subrata Roy, um magnata indiano que seria um dos últimos proprietários e aquele que deixaria a marca mais rocambolesca.

Naquela altura, conta Satow, “era um dos magnatas mais conhecidos na Índia, com mais de um milhão de funcionários e um império que incluía estações de televisão, propriedades de luxo e franchises de desporto.” A única coisa que lhe faltava era o reconhecimento internacional – que poderia ser alcançado pela compra de um hotel icónico. É assim que Subrata chega a Nova Iorque. Bastaram-lhe algumas voltas pelas salas mais charmosas – do exótico ambiente do Palm Court com as suas palmeiras e coloridos vitrais ao charme discreto do Oak Room todo trabalhado em carvalho escuro – para ficar convencido. Nunca chegou sequer a dormir uma noite lá. “Só esteve lá uns minutos, não conhecia realmente a propriedade. Achei uma das coisas mais interessantes porque ilustra o que aconteceu com o dinheiro e a riqueza atualmente. Os proprietários mal sabem o que estão a comprar.”

Nos dias de hoje, o hotel mantém-se fiel à sua fama de refúgio da elegância e exuberância. Para quem o visita, é possível encontrar um serviço exclusivo de assistência aos animais de estimação dos hóspedes, um paraíso de luxo para os cães de todos os tamanhos e feitios.

Apenas um ano depois, a trama adensava-se. Uma agência especializada em investigação financeira acusava Roy de diversos crimes, lavagem de dinheiro incluída e o magnata acabou por ser detido em Deli em 2014. Os anos seguintes parecem ser de queda livre para o hotel – Julie conta como a certa altura usam loiças de diferentes serviços, porque não há dinheiro para fazer a substituição – e é só em 2018 que chega uma solução. A Qatar Investment Authority adquire o hotel e há uma nova esperança de que regresse aos seus tempos de glória. “Teve tantos donos desde Trump: de Singapura a um príncipe saudita, israelitas, indianos e, agora, o governo do Qatar”, recorda a jornalista. “É um pedaço da história da América que realmente não pertence aos americanos desde o final dos anos 80.”

Mas, aparentemente, para quem está de visita, muito se mantém: os candelabros de cristal, as paredes em mármore maciço ou o retrato da pequena Eloise. Nos dias de hoje, o hotel mantém-se fiel à sua fama de refúgio da elegância e exuberância. Para quem o visita, é possível encontrar um serviço exclusivo de assistência aos animais de estimação dos hóspedes, um paraíso de luxo para os cães de todos os tamanhos e feitios. É uma funcionária francesa que os recebe: têm direito a cestos acolchoados para descansar e a taças de água fresca e biscoitos. O luxo levado ao extremo, como manda a tradição secular.

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Um vício anacrónico

Rui Martins

Num padrão de vida urbano, com uma saída de fim-de-semana por mês e trabalhando e vivendo em Lisboa, ter carro e não o substituir pelo transporte público ou mobilidade partilhada é um vício anacrónico.

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