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A camisa está aberta. Na mão, uma picareta. Tem um ar transtornado, quase de desespero. Está sentado numa pedra, mas a respiração é ofegante — como se quisesse abrir mais a camisa já aberta. Olhe em que direção olhar, o cenário é idêntico e de uma só cor: preto. Está tudo queimado e cada árvore resume-se, agora, a um tronco negro caído para um dos lados. O homem é, porventura, o único ponto de cor naquela imensidão de hectares completamente negra. “O senhor dá-me boleia?”, pediu. Esse “senhor” a quem fazia o pedido era António, engenheiro florestal. Andava por ali, no mato. O cenário criado pelo fogo não era, para ele, novidade. O único elemento novo era aquele homem. Foi o seu ar desorientado que fez o engenheiro parar o jipe 4×4 que conduzia e perguntar-lhe se estava tudo bem, se precisava de ajuda. Assegurou-lhe a boleia: “Dou. Então não dou?”.

Entrou no jipe. Estava manchado de preto — a cor do rasto deixado pelas chamas. “Então, veio ver esta desgraça? Tem para aqui algum bocadinho, também?”, perguntou Arnaut. “Olhe, ilusões”, disparou o homem. Não chegou a saber-lhe o nome, mas ficou a conhecer-lhe a história. O homem a quem dava boleia tinha emigrado para França. Ganhou dinheiro e comprou 50 hectares de terra. A propriedade ardeu toda e o investimento que fez estava, ali, reduzido a cinzas.

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