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Vitorino. “Estou mais calmo, mais velho, não respingo tanto” /premium

Escolheu o 1.º de Maio para lançar "Vem devagarinho para a minha beira". Em entrevista, fala do tempo, do que ganhou e do que vai perdendo, da língua portuguesa que lhe canta ao ouvido e da pandemia.

O verbo respingar tem que se lhe diga. Pode significar “deitar faíscas” ou pequenos salpicos. Uma atitude provocatória, sem maldade, mas que desperta reações, nem que seja a quem detém poder. Vitorino Salomé, cantor e compositor alentejano, deu e tem dado, durante mais de 40 anos de carreira, o corpo a este verbo. Um cantor de intervenção, que nunca se proibiu de dizer o que pensava, mas que agora aproveitou para “fazer umas homenagens que tinha na manga”.

Regressa aos discos com um projeto intimista, Vem Devagarinho para a Minha Beira, feito ao lado dos pianistas João Paulo Esteves da Silva e Filipe Raposo, a propósito de uma proposta do festival “Há Música na Trindade”, que decorreu em 2017. Apesar de “ser velho”, não se vê como idoso, nem gosta da palavra. Nem sequer admite que o tratem assim, temendo que a Covid-19 crie um fosso entre mais velhos e mais novos. Fez o seu próprio 25 de abril na zona onde vive, perto da Madragoa, a cantar bem alto, e agora espera poder regressar ao Redondo, onde estão, à sua espera, os seus cerca de 40 burros. Vai na volta, ainda os solta no Terreiro do Paço, porque agora não tem concertos para lhes pagar o feno, o veterinário ou o tratador.

Apesar de confinado, passeia, bebe o seu vinho, lê a sua banda desenhada, como o Batman ou o Corto Maltese, e encontra-se com “a rapaziada” com quem toca. Não se sente sozinho. Só mesmo na luta contra os promotores de grandes festivais, que deviam agora só dedicar-se ao que se faz por cá. Vive, portanto, neo-romantismo climático. “É do tempo”, diz.

A capa de “Vem devagarinho para a minha beira”, de Vitorino com João Paulo Esteves da Silva e Filipe Raposo

Vamos lá falar deste disco, este lado mais intimista, com dois pianos, vem numa altura bastante amarga para toda a gente, que está enfiada em casa.
Amargo é o tempo, porque a música salva-nos. Se não fosse a música o tempo seria pior. Agora ainda é mais necessária, mas está bastante abandonada. Este disco foi gravado há um ano e tal, e era eu que estava a verter a minha intervenção para um conceito mais próximo dos públicos. Trabalho muito ao ar livre, com uma intenção mais interventiva, muitas vezes política. E este é um disco de recuo em relação a esse conceito, de agitação e propaganda.

Vai em sentido contrário daquilo que fazia?
Exatamente. É um contraciclo. Estou mais calmo, mais velho, não respingo tanto. Fiz aqui umas homenagens que tinha na manga para fazer mais tarde. É como alguém que pensa que só vai ler livros quando tiver 80 anos. Despachei-me. Faço homenagens a Joni Mitchell, de uma música que nem é dela. Há uns anos gravou um disco lindíssimo de despedida, com orquestra, Both Sides Now, onde está “Answer me my love”, que está no meu disco. Outra era ao Carlos Gardel e ao tango, mas já tinha gravado um disco de tangos em Buenos Aires. Destaquei canções muito bonitas e evocativas dos anos 30. Tempos que não vivi e de que gosto muito.

É sempre bom cantarmos o que não vivemos…
Sim, especulamos, pomos a cabeça lá. E temos muitos meios para isso, como o cinema, programas de história, vemos realidades incríveis que nunca vivemos, que começam no princípio do século XX, quando começa o cinema.

Quando diz que já não respinga tanto, é porque está menos do contra?
Estou mais sossegado, mas acho que estou mais do contra. Só que resguardo-me, para não ter ataques do coração, assim fico mais calmo. A velhice traz alguma tranquilidade e conciliação com amigos que estiveram noutro quadrante ideológico. Isso acontece cada vez mais. Mas as ideias ficam mais radicais. Há políticos que, à medida que envelhecem, radicalizam-se, pelo menos na cabeça. Sobretudo os ditadores, perdem a noção do que os envolve, ficam a olhar para o umbigo. Mas não sou ditador e não tenho poder. Só o da música.

"A história acontece sempre às ondas, repete-se de outra maneira. O que está a acontecer é o esgotar de alguma ligeireza na música mainstream, descartável, que começou a ser feita nos anos 80. Está a regressar alguma meditação a abordar temas que não eram abordados e estão a descobri-los."

Que também é bem forte.
É, é. Mas não é ditatorial. Há músicos que ficam quase ditadores, que ocupam o espaço todo, com algum populismo estético no mundo inteiro.

Que conceito é esse?
É o chamado mainstream, atira cantores como eu, mais cuidadosos no texto, para as bordas da cultura. A música anglo saxónica tem esse poder, com gente muito poderosa, mas não consegue esmagar quem é muito bom como os Rolling Stones. Fizeram uma canção lindíssima, absolutamente avassaladora, “A Cidade Fantasma”, para ficarmos em casa.

Ainda estão aí para as curvas.
Então não? São rapazes da minha geração.

Na verdade, fazem inveja nos mais novos.
São fantásticos, têm muita energia, consumiram tudo a que tinham direito e aí estão eles.

Falemos desse populismo estético. Estamos aqui numa semana muito emotiva para o país, entre o 25 de Abril e o 1º de Maio. O Vitorino faz também parte desse pedaço de história. O género da canção de intervenção ou do cante alentejano tem crescido no número de fãs e nos projetos que apostam nessa vertente musical. Até mesmo artistas mais novos. O que lhe parece?
A história acontece sempre às ondas, repete-se de outra maneira. O que está a acontecer é o esgotar de alguma ligeireza na música mainstream, descartável, que começou a ser feita nos anos 80. Está a regressar alguma meditação a abordar temas que não eram abordados e estão a descobri-los. Como a música do Zeca Afonso, ou os U2 ou a Joni Mitchell. Uma mulher que vem do movimento hippie, que nasce por reação à guerra do Vietname. Foi dos mais interessantes para a humanidade dos últimos séculos. “Make love, not war”, que é exatamente o que não está a acontecer. O “love” acho que sim, mas estão desbragados.

E como é que alguém como o Vitorino, que viveu parte destes acontecimentos, está agora em casa sem poder celebrar como antigamente?
Sabe que eu no 25 de Abril além de cantar da minha janela, que é num terceiro andar de um sítio muito difícil socialmente, entre a Madragoa e a Lapa, só vi duas pessoas que conheci lá muito ao fundo. Mas cantei o “Grândola Vila Morena” com toda a força que tinha. Depois andei a passear, cantando na rua, aos gritos, deram-me flores. Deviam achar que estava taralhoco.

Fez ali o seu 25 de abril.
E sozinho, não fui apedrejado. Foi a minha reação natural. Em relação ao confinamento, tenho medo que o Estado se habitue a controlar-nos como está a controlar. Os estados habituam-se muito às coisas que lhes convém. Estou na idade de risco, mas garanto-lhe que não tenho saúde de risco para isso. Sou muito saudável. Mas tenho a idade que me impuseram porque por ter mais de 70 anos não quer dizer que esteja trôpego. Conheço gente com 40 anos que é muito decadente fisicamente. Criar um gueto, como o de Varsóvia, para os mais velhos é muito perigoso, mas já o imaginaram…

João Paulo Esteves da Silva, Vitorino e Filipe Raposo

@AEMS65

O presidente da República diz que essa não é a intenção.
Isso é o que ele diz, mas depois é o que fazem. Se reparar nas reportagens televisivas à saída da ponte em Lisboa, os mais velhos são sempre recambiados para trás. Isso é rigorosamente ilegal e uma discriminação muito profunda para gente que precisa mais de conviver. Alguns diziam “vou ali à terra”, por terem uma hortinha, e mandavam-no para trás.

Essa ideia de “ir para a terra” ficou um bocadinho em suspenso.
Toda a gente vai para a terra. Lisboa é um fenómeno interessante porque julgamos que ninguém é daqui, porque vai tudo para a terra. A sua geração também é de origem provinciana.

Sim, conheço muitos casos.
Tem sempre um tio ou um avô que lhe recorda a adolescência ou a infância. Por isso é que vamos muito para a terra. Mas estes mais velhos que não vão para a terra são profundamente discriminados. Fiquei muito contra o Estado de Emergência que afinal não era preciso, porque o Estado de Calamidade é o mesmo. Só que o primeiro dava muito poder às forças de segurança, ficavam com um cheque em branco.

Então não quer que o tratem como um velho.
Pode-me tratar por velho, porque sou. Idoso é que é uma palavra obscena. Não a uso e não gosto. Mas eu sou velho, tenho é a energia que tinha há 10 anos, quando ainda nem era considerado velho. É uma fronteira social muito difusa que impõem às pessoas que têm mais de 70 anos.

E quando diz que é velho mas não idoso, é porque não imagina um fim para a sua carreira.
Já tenho outro disco quase acabado, Não sei do que é que se trata, mas não concordo. Está quase pronto. Só paro de fazer discos quando não se venderem como este não vai vender. Porque ficam disponíveis sem alguém que pague a sua gravação, os direitos de autor, o estúdio. Faz com que os discos tenham tendência a desaparecer, mas podem ir para as redes sociais. Só que há aqui uns gigantes americanos, a Google, o Youtube, o Spotify ou o Facebook, que tornam isso muito perverso. Há uma capacidade de divulgar tudo o que fazemos com grande esforço, até económico, de o oferecer às pessoas, e que gera  milhões de euros com publicidade. Tem de haver uma lei universal que dê uma parte desses milhões a quem escreve, porque têm direitos de autor, mas não acredito nisso. Estamos num momento de transição e isto é altamente penoso para nós e para os técnicos, músicos que nos acompanham, para toda a estrutura.

Diz que não respinga, mas continua com o seu lado ativista. Um romântico que não se cala.
É um neo-romantismo climático. É do clima.

Esse disco que está a acabar tem haver com outro espectáculo que fez no São Luiz, com o mesmo nome.
Certo, está praticamente pronto. Vou lançar quando acabar a energia deste, se tiver sorte. Há sempre gerações que têm acesso aos media e outros ficam para trás, mas é a ordem natural das coisas. Como não tenho tanto acesso a isso, é provável que a energia deste disco esmoreça, o que faz com que tenha de atirar outro. Vou atirando.

"Nasci na política, os meus tios  Salomé eram militantes comunistas na clandestinidade, o meu avô Salomé era republicano de espingarda na mão. E tive essa formação. Muitas vezes até acontece o contrário, porque há gerações que são reativas. Mas eu gostava muito da minha família, fiquei com o coração à esquerda e sou do Sporting, como eram todos."

Este disco que lança dia 1 de maio traz uma história curiosa sobre a sua relação com o piano. Conte-me lá.
Aprendi piano porque o tinha em casa, uma sorte.

Mas gostava ou foi obrigado?
Adorava estar a tocar! Há um convento no meu largo em Redondo, que ainda lá está, mas não tem freiras. Havia uma freira que dava aulas de piano e fui aprender, com ela. Só que o convento era muito gelado, mas a freira gostava de mim. Lembro-me muito de mim, sabe, tinha 13 anos. A freira era muito bonita, acho eu. A minha memória pode já estar distorcida e que me diz que ela era muito bonita, porque acho que uma freira deve ser sempre muito bonita, doce e perversa. Andei por lá a aprender mas gostava mesmo era de brincar no largo e disse ao meu pai que não me apetecia aprender mais. Mas continuei a tocar e ainda gosto. Componho ao piano,  mas toco mal. Mas o João Paulo Esteves da Silva e o Filipe Raposo tocam maravilhosamente e são muito meus amigos. Esta proposta veio do António Miguel Guimarães, que, por sermos tão amigos, e por eu ter uma voz tão potente, acreditava que esta junção podia resultar num concerto romântico, decadente e bonito. E lá fomos. Sabe, só trabalho com amigos e poetas com quem tenha cumplicidade.

Por falar em cumplicidade e sentimentos, parece que vivemos numa sociedade meio dormente, com tanta informação repetida ao longo dos dias. Ainda se comove por tudo e por nada?
Este “tsunami” que estamos a viver fez um corte brutal na civilização. Estamos a viver já era muito delirante, com muito egoísmo e individualismo, que começa nos anos 80, por reacção ao movimento hippie, que era cultural e ideológico, como disse. Eram os “yuppies”, individualistas, cada um para si. E ainda não paramos de estar assim, estamos a ir ao limite da rutura. Houve agora com esta pandemia, que provoca grande solidariedade nos corações das pessoas. E isso pode ser bom. Mas por outro lado temos os grupos financeiros que já estão a afiar as unhas e o poder que têm para nos tramar completamente. A mim e a si.

Mas a si o que o comove?
Isso tudo, por tudo e por nada. Comove-me as diferenças que vão ser profundas quando isto acalmar, e já as que estão a criar, entre mais velhos e mais novos.

Falemos de coisas mais divertidas. Uma vez resolveu meter-se com Cavaco Silva, através de uma música, a “Louvor a Cavaco”. Li também que deu o nome de “Marcelo” a um dos seus burros. O presidente da República atual está à beira de terminar o seu mandato. Ainda tem boa opinião de Marcelo Rebelo de Sousa?
Veja lá a sorte do presidente Marcelo. O burro era muito bonito, um dos mais inteligentes que tive. A mãe dele estava sempre a cuidar porque era muito inquieto. Por isso é que lhe chamei Marcelo. E o Presidente tem humor, é um homem muito inteligente, tenho muito boa ideia dele.

Há uns anos via com bons olhos a geringonça. Agora temos um país governado pelo Partido Socialista, sem maioria, suportado pela esquerda, mas mais em desacordo.
É sempre mais perigoso porque o PS queria uma maioria absoluta e não a teve. E agora faz jogo de xadrez em dois tabuleiros. Num tem à frente o bispo e os peões do PCP, do Bloco e vagamente do PAN. No outro tem o Rui Rio que, muito inteligentemente, aproxima-se dele e depois escava, arranha o eleitorado socialista. É um jogo muito perigoso de equilíbrio. Mas o António Costa é exímio, muito equilibrista. Sou admirador.

O Vitorino ainda tem muito interesse pela política. Parece quase um comentador. Isso não lhe sai.
Nasci na política, os meus tios  Salomé eram militantes comunistas na clandestinidade, o meu avô Salomé era republicano de espingarda na mão. E tive essa formação. Muitas vezes até acontece o contrário, porque há gerações que são reativas. Mas eu gostava muito da minha família, fiquei com o coração à esquerda e sou do Sporting, como eram todos.

"Fiz aqui umas homenagens que tinha na manga para fazer mais tarde. É como alguém que pensa que só vai ler livros quando tiver 80 anos", diz Vitorino sobre o novo disco

Agora há uma folga de ser do Sporting, com a paragem do campeonato.
Que bom, sinto muito alívio. Mas esta semana vi a comitiva dos presidentes a reunir com o primeiro-ministro. Pareciam italianos de Turim ou da Sicília. E ali vão e estão a exercer o poder que têm.

Gosta de bola?
Sou adepto, mas acho que o futebol é muito perturbador das coisas normais, está muito presente. O showbizz já está do lado deles. Nós perdemos para eles. Qualquer estrela de futebol é muito mais importante do que uma estrela da música. O futebol já não é desporto, é showbizz exagerado. E negócio. E política. Profundamente político.

Olhemos para Redondo, a sua terra. Como estão os burros?
Muito livres e felizes. Já devem ter nascido mais dois ou três. Têm espaço, dou-lhes comida, têm namoradas. O resto que tratem eles disso. Mas são muito livres porque não têm de trabalhar.

Consegue lá ir?
Há dois meses quase que não vou, mas tenho de ir. A ver se me deixam passar, porque tenho de ver o correio que tenho e comprar os fenos para lhes dar até dezembro.

Davam conta se não fosse lá?
De certeza, sentem a minha falta. Quando me veem começam a zurrar. São animais muito inteligentes e calorosos.

Apesar do nome.
Um burro é teimoso, mas não é parvo.

E quantos é que tem?
Quarenta e tal, não sei o que hei de fazer à minha vida agora que não tenho concertos. Dois ou três concertos eram para pagar a água, o ferrador, veterinário e tratador. Se não tenho concertos, se calhar solto-os no Terreiro do Paço [ri-se].

Dava uma imagem, no mínimo, engraçada. Falando dos concertos, a indústria musical está a atravessar um momento difícil e tem de se reinventar. Já pensou o que vai fazer ou não consegue?
Penso sempre. O que me preocupa é o meu baterista, pianista, guitarrista, a banda que me acompanha há quase 30 anos. Mas também quem está atrás do palco ou os roadies. Um concerto dá de comer a umas dez ou doze famílias e isso preocupa-me muito. Eu já estou velho, com uma reforma muito baixa, talvez vá viver com os meus burros. Tenho uma horta e uma adega onde faço vinho muito bom. Estou é preocupado com esses elementos da minha equipa, de verdade. Os patrões dos grandes festivais já foram bater o pé ao governo. Mas nesses grandes festivais não vão quase artistas portugueses, ou quando vão o lettering é muito mais pequeno, que é uma coisa que me irrita. São concertos em inglês e eu sou português, não tenho de estar sempre a levar com concertos em língua inglesa. Todos fazem pressão, mas eu estou sozinho. Só levando os meus burros ali para os jardins de São Bento, comem a ervinha toda e assim faço pressão. Mas acho que se podiam fazer festivais só dedicados à música portuguesa nesta altura, porque temos cada vez artistas melhores. Aprendem música que não consegui aprender, porque andei a tocar piano do ouvido. A música portuguesa tem muita imaginação. O hip-hop, por exemplo, é fabuloso, todo dito em português.

É o que destaca assim nos últimos tempos?
Sim. Fazem um culto da língua maravilhoso, retomaram a importância do português no estar. Estávamos a compor muito em inglês que é sempre perverso para quem o faz. O nosso imaginário resulta do falar. Se falo em português e canto em inglês, tenho muita dificuldade.

Mas diga-me lá assim um artista de hip-hop de que goste.
O Valete, o Boss-AC, o Sam the Kid ou o Chullage, que é radical. A vida dele é mesmo radical, um autêntico eremita, muito austero e licenciado em psicologia, que é algo que pouca gente deve saber. Esse grupo é fantástico. E têm atenção à sociedade, um discurso social muito importante.

Há quem defenda que a canção de intervenção passou para esse estilo musical.
É, acertou em cheio. A intervenção estava nos anos 60 e 70 nas universidades, no movimento estudantil. É aí que nasce, no centro da cidade que é a universidade. Agora está na periferia da cidade. As academias não são muito interventivas, servem como escola de dirigentes políticos das associações. Vamos ver muitos desses a encher as fileiras de São Bento. Eram contrapoder, agora já não.

"Um concerto dá de comer a umas dez ou doze famílias e isso preocupa-me muito. Eu já estou velho, com uma reforma muito baixa, talvez vá viver com os meus burros. Tenho uma horta e uma adega onde faço vinho muito bom. Estou é preocupado com esses elementos da minha equipa, de verdade."

Mudou alguma coisa na sua rotina diária?
Reparei que tenho muito lixo em casa, coisas que não prestam e que guardo. Quanto mais velho ficamos, mais guardamos. Mas ainda não deitei tudo.

Mas são cartas, documentos, livros?
Sobretudo documentos ou objetos que compro num supermercado que tem objetos completamente estranhos. Compro-os porque me deixam encantado, mas não servem para nada. E depois dou-os. Hei de terminar essa limpeza e toco mais piano.

Para ocupar a cabeça.
Faço também canções, vou fazendo e logo se vê.

E o isolamento social?
Eu saio, não estou isolado. E quando meto a máscara não sabem que idade tenho, pareço o Zorro. Todo vestido de preto com uma máscara preta [ri-se]. Contacto com a rapaziada da banda, encontramo-nos num sítio, levo vinho do meu, damos assim umas goladas, passeamos um bocadinho. Não estou muito confinado.

O consumo de vinho tem crescido, pelo que vou lendo.
Bebe-se mais. É preciso. Ficamos delirantes e sonhamos muito mais. Com as bebedeiras sonha-se. E acha-se que se está feliz.

É algo que também é preciso nesta pandemia. Essa é até a segunda camada desta crise: a solidão, a depressão, o inimigo que ninguém vê.
Sim, um stress traumático igual ao do pós-guerra.

Então e a banda-desenhada? Ainda continua um grande fã?
Sim, sim. Tenho aqui uma edição que foi o único livro em que entrei, porque o desenhei, com um texto do António Lobo Antunes: A História do Hidroavião. Sou um grande admirador de banda desenhada, devo ter o Corto Maltese todo. O Hugo Prata é maravilhoso, um dos grandes mestres. E era muito consumidor antes também.

E agora há muita gente também a fazer em Portugal.
É verdade. Antes havia uma banda desenhada muito incipiente, havia uma muito interessante no “Cavaleiro Andante”, no “Mosquito” e no “Pim Pam Pum”. Tenho até alguns exemplares disso. E gosto muito do Batman. Agora apanhamos uma onda fantástica, há grandes desenhistas portugueses. Sou um grande admirador. Somos uma terra fantástica, os dirigentes é que não nos merecem. Olhe, tenho aqui A História da Banda Desenhada, publicada em Portugal. Sabe quem editou?

Não faço ideia.
Já ouviu falar no Trio Odemira?

Já, já.
Foi um deles que fez essa publicação. Um músico de uma banda que fazia música considerada pimba, mas que era muito interessante. Tinha essa capacidade.

Os músicos também têm jeito para o desenho, é como os médicos para escrever.
É verdade. Estudei para Paris e julgava que me ia meter na banda desenhada. Até porque era grande admirador do “Charlie Hebdo”, por exemplo. Continuo muito apaixonado por esse género. É uma classe de contrapoder. E reparei que os portugueses evoluíram muito, que bom. Mas também se não for contrapoder esvai-se. Até o Snoopy o é. Tem de experimentar ler os brasileiros, por exemplo, o “Chiclete com Banana”, são muito bons. Se for a uma livraria ali da Escola Politécnica, mandam-lhe vir tudo.

Vou explorar isso. Só é pena é não fazermos a entrevista na Cervejaria Trindade, como ouvi dizer que o Vitorino gosta. Desta vez fica cada um em sua casa.
Pois é. Ou numas tascas que conheço. Também estou aqui enfiado, mas daqui a nada piro-me. Vou passear porque está sol. Ou “à farmácia” [ri-se].

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