O que está em causa

O fraco crescimento económico em Portugal neste século está identificado há vários anos por economistas de todos os quadrantes políticos. E o período do resgate financeiro da Troika, marcado por três anos de recessão, só agravaram o problema.

Carlos Guimarães Pinto transmitiu, por isso, a ideia de que “Portugal não cresce”, o que, sem dados nem mais contexto, poderá levar os eleitores a pensar que Portugal não teve, de facto, qualquer subida do PIB no conjunto dos últimos 20 anos.

Quais são os factos?

O crescimento da economia portuguesa de 1999 a 2018 (últimos 20 anos) é de 20,3%. Ou seja, ao longo deste período, em média, Portugal cresceu 1% por ano (crescimento real, eliminado o efeito da inflação).

E mesmo admitindo que, em vez de duas décadas, se fizesse a conta desde o início do século (últimos 18 anos, desde 2001), estaríamos a falar de 11,5% nesse período.

Depois do resgate financeiro (2011-2014), marcado por três anos de recessão, foram feitos balanços semelhantes ao que faz agora Carlos Guimarães Pinto — porque, “em 2014, o valor da produção era igual ao valor da produção em 2001, ou seja, neste período, o crescimento foi zero”, como se pode ler no livro “Crise e Castigo”, de Fernando Alexandre, Luís Aguiar-Conraria e Pedro Bação, publicado em 2016.

Foi para isto, aliás, que o próprio Carlos Guimarães Pinto remeteu, contactado pelo Observador sobre a declaração que tinha feito. O líder da Iniciativa Liberal confirmou que estava a referir-se ao crescimento do PIB, que, diz, “tem sido miserável, à volta de 1% por ano, que é, basicamente, aquilo que se entende por estagnação”.

Só que, desde 2015, o PIB teve um acréscimo de 10,1% — depois de taxas de crescimento de 1,8% (2015), 2,0% (2016), 3,5% (2017) e 2,4% (2018).

Por outro lado, antes desta última revisão do INE, o Banco de Portugal notava no Boletim Económico de maio que, face aos países da zona Euro — e apesar do “movimento de convergência” —, o PIB per capita português, em 2018, “era inferior em 3,4 p.p. relativamente ao observado em 1998”. Os portugueses estavam mais pobres do que há duas décadas, por comparação com os parceiros da moeda única. Só que, ao dizer simplesmente que “Portugal está há 20 anos sem crescer”, Carlos Guimarães Pinto não faz, na verdade, nenhuma comparação.

Conclusão

A frase de Carlos Guimarães Pinto não é rigorosa. Qualquer economista dirá que o crescimento acumulado nos últimos 20 anos é fraco (ou “medíocre”, como disse o líder da Iniciativa Liberal), mas é, para todos os efeitos, algum crescimento — mais ainda quando, desde 2015, há crescimentos quase sempre superiores a 2% (e até acima de 3%, em 2017).

No período escolhido pelo político da Iniciativa Liberal, é errado dizer que não houve crescimento.