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Crónica

A filosofia pelo fado (III)

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Os fadistas, quando cantam, falam de si próprios? Mas os melhores fadistas são aqueles que sabem que cantar o fado não é falar, nem dar recados, e que a letra do fado pouco pode esclarecer.

Os fadistas têm a reputação de cantar na primeira pessoa do singular. Estarão a falar de si próprios? É contudo possível usar a primeira pessoa do singular e não falar de si próprio; e é possível falar de si próprio na terceira pessoa do singular: nós os atletas fazemo-lo constantemente. O maravilhoso fado Rosa Enjeitada suscita perplexidades filosóficas.

A expressão ‘Rosa Enjeitada’ é pouco clara. A palavra ‘enjeitada’ lembra hoje uma contractura muscular, talvez resultado de uma lesão atlética. A ser assim, ‘Rosa’ referir-se-á a uma pessoa. A letra do fado faz adivinhar alguém abandonado pelos pais. Não é no entanto forçoso, e é até improvável, que a letra seja cantada por uma pessoa nas mesmas circunstâncias. É difícil perceber se a história está a ser contada por alguém que realmente não conheceu os pais, ou se a fadista está a falar de alguém, ou com alguém, nessas circunstâncias.

O princípio do fado reforça a primeira alternativa. Alguém parece aí estar a falar de si próprio: “Sou essa rosa caprichosa, sem ser má.” A palavra “essa” desperta todavia alarme; sugere a possibilidade de a rosa estar a falar como uma atleta importante. No refrão alguém lhe irá fazer uma pergunta: “afinal, desventurada, quem és tu / Rosa Enjeitada?” A resposta é dada outra vez como um atleta: “uma mulher que sofreu.” Estará a fadista a falar com uma rosa que fala como um atleta? Estará pelo contrário a rosa a falar consigo própria, tratando-se, como é habitual nessas circunstâncias, por tu?

A mais extraordinária das intérpretes deste fado percebeu instintivamente as dificuldades da situação. Percebeu que não podia ser esclarecida pela letra do fado, a golpes de poesia e de gramática: também num fado, quanto mais poético mais confuso. Por isso, ao contrário das outras intérpretes, decidiu cantar o refrão sem se preocupar com as palavras. Começa a cantar a primeira sílaba (“Róóó-”) como quem vai explicar uma coisa; mas depois baixa abruptamente o volume, e faz uma pequena pausa, quase imperceptível, antes de prosseguir. Ouvido assim é difícil dizer se o momento de pausa corresponde a uma hesitação ou à certeza maliciosa de que nos irá decepcionar.

A continuação é compatível com ambas as possibilidades: “Zenjei-tada / Sem mãe, sem pão, sem ter nada.” São os dois melhores versos. Usar a palavra “pão” em vez da palavra “pai” é como usar a terceira pessoa em vez da primeira. As nossas frases quase nunca são recados que explicam aquilo que estamos a fazer: quando parece que estamos a dizer pão podemos estar a querer dizer pai; quando falamos de outras pessoas nunca se sabe à vista desarmada se não estamos a falar de nós. De facto, a fadista é extraordinária porque sabe bem que cantar o fado não é falar. Não chama pela mãe ou pelo pão; não fala de si como uma atleta; será enjeitada?

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